Homossexualidade na Perspectiva Teológica: As raízes do movimento

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Em cada época, a igreja se depara com desafios culturais e éticos que provam tanto a convicção como o amor do corpo de Cristo. Desde a Segunda Guerra Mundial, os cristãos americanos têm lutado contra assuntos como racismo, guerras, aborto e sexualidade, em ondas sucessivas de confrontação moral. Em última análise, os assuntos da homossexualidade e do aborto talvez sejam os dois assuntos mais divisivos que os americanos já enfrentaram desde a Guerra Civil.

O assunto da homossexualidade é atualmente a frente de combate mais intenso na chamada guerra cultural. Grupos de ativistas homossexuais estão pressionando por reconhecimento para os homossexuais e as lésbicas como uma classe à qual se deve oferecer proteções especiais pela legislação dos direitos civis; e a literatura direcionada a homossexuais é agora algo comum nas bibliotecas públicas – e mesmo em algumas escolas públicas. A erudição secular tem capitulado amplamente ao movimento homossexual, e programas de estudos homossexuais são agora um nicho crescente na cultura acadêmica. Além disso, os principais meios de comunicação retratam a homossexualidade em uma luz positiva. Personagens notoriamente homossexuais, no horário nobre da televisão, são unidos por imagens homoeróticas em propagandas diversificadas. Ainda mais triste é o fato de que muitas das denominações históricas protestantes estão debatendo a homossexualidade com o foco no assunto da ordenação de homossexuais praticantes ao ministério.

Como isso chegou a acontecer? As origens do movimento homossexual como uma grande força cultural pode ser traçada aos tumultos ocorridos em Stonewall, em Manhattan, em 1969. Conhecido na comunidade homossexual como a Rebelião de Stonewall, o tumulto aconteceu quando a polícia de Nova Iorque invadiu um bar homossexual. Os donos fugiram pelos fundos, e o tumulto se tornou conhecido como o símbolo inaugural da liberação do movimento gay. Como noticiou o Village Voice, em 3 de julho de 1969: “O poder gay ergueu sua cabeça audaciosa e cuspiu uma história que a região jamais viu igual… Vejam só. A libertação está a caminho”.

O resultado tem sido um esforço deliberado e estratégico para ganhar a legitimação da homossexualidade, promover temas homossexuais nos meios de comunicação e garantir aos homossexuais direitos especiais como uma classe protegida legalmente. Além disso, o movimento tem exercido pressão por alvos específicos, como a remoção de leis anti-sodomia, o reconhecimento do parceiro homossexual em nível de igualdade com o casamento heterossexual, a promulgação de leis antidiscriminatórias e a remoção de todas as barreiras aos homossexuais no serviço militar, na erudição, nos negócios e nas igrejas.

A fim de atingir esses alvos, o movimento homossexual se organizou como um movimento de libertação, baseado numa ideologia de libertação que tem suas raízes em filosofias marxistas. Assim, a intenção tem sido a de se identificar com outros movimentos de libertação, incluindo o movimento dos direitos civis e a agenda feminista. Mas o alvo não é apenas a legitimação da atividade homossexual ou mesmo o reconhecimento de relacionamentos homossexuais. Antes, o alvo é a criação de uma cultura homossexual pública como parte das correntes de pensamento prevalecentes entre os americanos.

Esse movimento é um desafio ousado a todos os setores da sociedade americana. Tornou-se o propulsor de uma revolução social que influenciará ou transformará cada instituição da vida americana, desde a família e instituições intermediárias até o Estado. Além disso, uma perspectiva evangélica tem de reconhecer que essa revolução é um ataque aos fundamentos de gênero, família, sexualidade e moralidade – os quais são, todos, assuntos centrais na cosmovisão cristã fundamentada na Palavra de Deus, revelada nas Escrituras. Portanto, esse é um desafio que os evangélicos não podem deixar de enfrentar com graça e honestidade.

O movimento homossexual não surgiu de um vácuo. De fato, o desafio emergiu no contexto da grande mudança cultural que transformou as sociedades ocidentais durante o século XX. O conceito de uma mudança cultural atrai a atenção ao padrão de mudanças fundamentais que têm moldado cada nível da vida social e cultural. Uma mudança cultural é nada mais que uma reordenação fundamental da sociedade em termos de cultura, ideologias, cosmovisões, moralidade e padrões de conhecimento.

A mudança cultural da modernidade para a pós-modernidade afetou todas as “comunidades de significado”, usando uma categoria favorecida pelos sociólogos. Do ponto de vista cristão, a categoria mais importante é a verdade, e a mudança cultural reordenou radicalmente a maneira como as pessoas veem o assunto da verdade. A segunda metade do século XX provou que a ala esquerda do iluminismo obteve a vitória. Embora muitos dos pré-iluministas entendessem que a verdade era uma realidade objetiva à qual deviam se submeter quando ela é conhecida, os americanos modernos veem a verdade como um bem particular que deve ser moldado, aceitado ou rejeitado de acordo com as preferências e gostos pessoais. De fato, a maioria dos americanos adultos rejeita a própria noção de verdade absoluta.

Todas as questões de fé e moralidade são consideradas pela maioria dos americanos como questões de mera preferência pessoal. Toda a verdade é interior e particular. Essa adoção do individualismo puro ressalta a presente confusão cultural. A mudança sucessiva e progressiva concernente ao lugar da verdade e da autoridade, a mudança de uma cosmovisão cristã a respeito do Estado para o indivíduo isolado, deixa os americanos desarmados para um discurso moral autêntico. E tudo que resta é subjetividade absoluta e os inevitáveis conflitos de poder que ocorrem quando ideologias e programas políticos se chocam em praça pública.

Evidentemente, muitos dos que se consideram cristãos têm sucumbido à sedução das cosmovisões relativistas. Mas os cristãos verdadeiros têm de encarar com firmeza a verdade de que a fé uma vez por todas entregue aos santos é fundamentalmente incompatível com a rejeição da verdade absoluta. O próprio evangelho é uma afirmação direta de uma verdade absoluta e universal, e a Bíblia (que é incompreensível à parte de sua reivindicação de ser a verdade absoluta revelada por Deus mesmo) faz uma alegação da verdade que se aplica a todas as pessoas, em todos os lugares, em todos os tempos. Se não há uma verdade absoluta, não há fé cristã nem salvação por meio de Jesus Cristo, que fez uma afirmação absoluta e universal quando disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6).

Por isso, vemos a guerra cultural que agora caracteriza a república americana. As questões ligadas a sexualidade e aborto – e toda a controvérsia quanto ao politicamente correto – são apenas frentes e linhas de batalha na guerra cultural. Os cristãos precisam estar armados para esse conflito, e isso será possível somente por meio de uma redescoberta da fé bíblica e de coragem resoluta.

Uma das mudanças mais formativas na consciência pública da nação é a redução da argumentação moral quanto àquilo que a professora Mary Ann Glendon, da faculdade de Direito de Harvard, chama de “discurso sobre direitos”. Todos os debates morais a respeito de divórcio, sexo, aborto ou tabagismo são agora reduzidos a debates sobre os direitos do indivíduo, escondidos sob uma linguagem do “direito de escolher”, “direito de preferência sexual” ou “direito à integridade ou à personalidade”. Nossa imaginação moral coletiva mudou das questões de certo e errado para conflitos sobre meus direitos, seus direitos, direitos deles.

Isso nos mostra os efeitos corrosivos dos ácidos da modernidade. Um dos aspectos mais importantes dessa corrosão é o processo de secularização, que tem removido da arena pública todas as afirmações da verdade cristã, incluindo, em especial, aquelas que estão relacionadas à moralidade. Além do impacto na arena pública, temos de admitir também o impacto na secularização da igreja. A secularização não é algo que apenas “aconteceu” à igreja. De maneira concreta, a igreja auxiliou e favoreceu esse processo ao negar a verdade cristã e suas afirmações quanto a todas as dimensões da vida.

O surgimento e o sucesso estratégico do homossexualismo se tornaram possível somente por causa do declínio radical da cosmovisão cristã na cultura ocidental. O evangelho cristão faz afirmações abrangentes que dizem respeito a todas as áreas de nossa vida e pensamento. A verdade bíblica deve ser aplicada a todas as áreas da vida e a todas as questões de importância pessoal e comunitária. No entanto, o relativismo moral e o discurso sobre direito tem preenchido o vácuo deixado pelo recuo da cosmovisão cristã.

 

 

Autor: Albert Mohler Jr.

Trecho extraído do livro Desejo e Engano, pág 47-52. Editora: Fiel

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.