A disseminação do mau gosto

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Foi sempre a educação do gosto (do bom gosto) uma das grandes preocupações cultas da humanidade, já que o bom gosto implica, necessariamente, a capacidade de observar os valores, de apreciá-los debaixo de critérios justos e seguros de julgar. Ora, para alcançar tal capacidade é exigível cultura, conhecimento, distinção de aspectos, aptidão em separar o que é realmente valioso do que não é. Todos sabem o que significa alguém que tem gostos vulgares, e o que o distingue do que tem gostos delicados e cultos. Mas a tendência para lutar contra o bom gosto toma as formas mais capciosas que se conhecem. Assim a etiqueta exagerada do cortesão é apresentada como o exemplo do que se chama bom gosto. Realmente nela há um bom gosto parcial, ao lado de excessos ridículos. Mas salientam-se apenas os excessos ridículos, caricaturizando-os.

Não queremos falar dessas caricaturizações comuns na história, como as dos bárbaros imitando gregos ou romanos, as de povos em guerra, imitando com palhaçadas os outros, porque tudo isso é ainda resquício do bárbaro em nós, mas que tem uma ação limitada no tempo e de efeito relativamente pequeno. Não vamos deixar de compreender que poucos respeitam os adversários, reconhecem neles o valor que possuem, e sabem avaliar o seu genuíno valor, porque isso exige humildade, e esta, que é das mais nobres virtudes cristãs, é, contudo, a menos difundida. O que queremos salientar é a propaganda do mau gosto, que se verifica, por exemplo, nas modas. A compostura ática dos atenienses ou a beleza sóbria dos romanos das grandes épocas, ou a severidade culta da Idade Média européia, teriam naturalmente de desaparecer nos períodos de invasão, como foi o Renascimento e o Barroco. O estilo é substituído apenas pelo gosto dominante, e este nem sempre é de boa qualidade.

No teatro exploram-se os temas mais mórbidos. Os estudos realizados pela psicologia em profundidade forneceram um copioso material para sub-inteligências criarem um teatro em que os heróis são desajustados, neuróticos, loucos morais, angustiados de todos os graus, temperamentos em frangalhos, personalidades em decomposição, pessoas de caráter equivocado e mal formado, situações das mais insólitas, intrigas que só a mente de um louco poderia criar, pois esse teatro está mais próximo dos hospícios que do bom senso, e tudo isso é apresentado como arte, como sublime arte. Essas peças equivocadas em que personagens dizem asneiras em alto tom e que uma platéia ignorante considera sentenças de “alta filosofia”, em que o diálogo é um amontoado de lugares comuns, que mais deveriam fazer rir do que pensar, tudo isso recebe o louvor de uma crítica de mente estropeada, e é exaltado ao máximo. E então, quando alguém de bom gosto, depois de sofrer a exibição desses mostrengos, assiste a uma peça de Shakespeare, tem, naturalmente, de sentir um alívio tremendo, porque uma coisa é tratar um neurótico como Hamlet por um Shakespeare, e outra de um doido moral por algum John ou Walter qualquer de prestígio equivocado e de sucesso passageiro, os mesmos sucessos dos competidores de Shakespeare, tão afagados por críticos de nomeada, como se fossem o ápice da arte dramática e da tragédia. Tudo isso se assiste, e até quando Shakespeare é representado daquele modo que conhecemos de causar verdadeiramente náuseas, ainda se vê a mão do gigante, e a grandeza da obra é de tal vulto, que apesar da interpretação, ela estarrece aos que ainda têm laivos de bom gosto intelectual.

Tudo isso contribui para disseminar o mau gosto, o gosto mais vulgar. Uma literatura para atender esse gosto se multiplica. Livros que apenas falam a esses sentimentos inferiores são apresentados como documentos humanos de alta valia. Explora-se a vida de um ladrão, que descreve em suas memórias como ascendeu na escala do crime. O que deveria ser entregue a estudiosos, sobretudo psiquiatras, psicólogos, juristas, moralistas e etólogos para estudos, é entregue ao público com as fanfarras da mais estrepitosa publicidade.

Tudo serve para traumatizar as multidões de clientes, cujo gosto embotado exige esses traumatismos para serem despertas.

Sem dúvida que há os que se opõem a essas coisas, e não cooperam com elas. Afastam-se silenciosos. Mas seu número embora grande, por ser silencioso, não abafa o vozerio e as exclamações dos outros, que lançam mão de todos os recursos publicitários.

Uma empresa que pretende lançar um produto qualquer, expõe uma mulher despida para expor o produto oferecido. É a mulher que atrai, não o produto, e graças a essa atração, venderá mais. Todos sabem que tudo isso é assim, e que as empresas se vêm obrigadas a lançar mão desses recursos para venderem seus produtos. Mas é o mau gosto degenerado que domina, que exige essas “fórmulas eficazes”.

Para ilustrar o que dizemos com um exemplo, vamos relatar um fato bastante expressivo.

Há pouco tempo, sucedeu um numeroso caso, que preocupou seriamente os campos políticos de São Paulo. Um secretário de Estado sofrera graves acusações, que atingiram a sua honorabilidade. Apaixonando o público, como é natural, tal caso, um canal de televisão resolveu apresentar ao vivo um debate entre a acusadora, aliás uma deputada, e um líder político do partido que apoiava o acusado. Esse debate (na hora chamada de mesa redonda, não sabemos por quê), foi dirigida por um conhecido radialista. Apresentando ao público as condições do debate, disse, entre outras coisas, o que se segue: seguindo o costume do júri, deve caber, em primeiro lugar, a palavra à acusação, seguindo-se, então, a palavra à defesa. Ora, tal radialista é formado em Direito. O seu lapso de atribuir a palavra em primeiro lugar à acusação por ser um costume é de certo modo imperdoável. Não se trata de costume, mas de ordem lógica. Não é possível defender algo que não tenha sido previamente objeto da postulação de uma acusação. Pode-se defender previamente de acusações possíveis, não de acusações atuais.

Mas por que assinalamos esse fato? Para acusar o radialista apenas de um erro, quando todos nós erramos? Não. Tal atitude não teria nenhum mérito. Trata-se apenas de advertir para um sinal bem característico de nossa época, em que há um retrocesso merecedor de atenção. Observe bem: a diferença fundamental entre o bárbaro e o civilizado, como sentiam os gregos, entre o bárbaro e o heleno, não era referente à raça ou ao estatuto político. Era, sobretudo, referente à maneira de comportar-se em relação aos fatos. O bárbaro é o que sabe sem saber o porquê do que sabe; o civilizado, o que sabe, sabendo o porquê do que sabe. Só há ciência quando se sabe os porquês próximos e remotos de uma coisa, de suas causas, de suas razões. Saber se que naquele campo há árvores colocadas de tal modo, é apenas um saber bárbaro, mas saber porque elas foram plantadas, obedecendo a tal ordem, é um saber culto. Há muitas coisas, julgadas por muitos, como apenas costumes, pois já não sabem porque tais costumes foram instaurados entre os homens. O perigo da pedagogia moderna, em seus aspectos negativos, consiste em julgar que basta apenas informar bem o educando para atingir ao conhecimento, quando a verdadeira pedagogia consistiria em dar a este a capacidade e, por si mesmo, investigar as causas, as razões, os porquês das coisas. Eis aqui um tema de máxima importância, e que merece de nós uma atenção mais cuidada: o problema pedagógico sob o aspecto da formação mental do homem. Não deve ser a primacial finalidade da pedagogia construir mentes capazes de investigarem os porquês, as causas e as razões das coisas, ou apenas formar mentes medíocres, eruditas de certo modo, mas sem saberem por si mesmas alcançar as causas das coisas?

 

 

Autor: Mário Ferreira dos Santos

Trecho extraído do livro Invasão vertical dos bárbaros. Editora: É Realizações

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.