As aparições de anjos

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Em que consistiram as aparições de anjos e que corpos eles assumiram?

1. A questão não é se os anjos apareceram aos homens (pois a Escritura tão amiúde faz menção de tais aparições, apresentadas aos patriarcas antes da lei, ou aos pais sob ela, ou aos santos do Novo Testamento, que isso é estabelecido além de qualquer sombra de dúvida); antes, a questão é: em que consistiram essas aparições e que corpos os anjos assumiram quando apareceram?

2. Lemos sobre três aparições angélicas (angelophamias). Algumas ocorreram durante um sonho, justamente como aconteceu a Jacó na visão da escada mística,“sobre a qual ele viu anjos subindo e descendo” (Gn 28.12); a José, a quem “um anjo do Senhor apareceu durante o sono” (Mt 1.20); e a Paulo: “um anjo de Deus, de quem eu sou e a quem eu sirvo, esteve comigo, dizendo: Paulo, não temas!” (At 27.23,24*). Outras ocorreram em visão meramente extática, como frequentemente acontecia aos profetas e a João em Apocalipse. Ou em visão sensível e numa forma que feriu os sentidos, o que aconteceu a homens despertos e de olhos abertos (tal como se deu com a maioria das aparições exibidas aos patriarcas). Nas primeiras aparições, não houve necessidade de os anjos assumirem corpos, porque, por simples sugestão (chrêmatismon), sem a determinação de alguma forma, a revelação pôde concretizar-se; também não na visão extática. Nos outros casos, contudo, foi preciso que os anjos assumissem corpos para que pudessem aparecer aos homens sob uma espécie sensível. A questão é principalmente sobre esses casos – se porventura assumiram corpos reais, e como.

3. Ora, os corpos nos quais apareceram não eram espectros vazios e fantasmagóricos (com que pudessem enganar os homens), nem corpos próprios hipostaticamente unidos a eles, porém econômicos e emprestados (segundo a prescrição de Deus). Assumiram-nos de livre vontade por algum tempo, a fim de realizar o ministério que lhes foi requerido.

4. Não obstante, o que eram, de onde foram assumidos (se criados do nada ou de alguma matéria preexistente, porém inapta, ou adotada e combinada do ar condensado, ou deveras de algum outro material comprimido), é curiosidade inquirir e temeridade definir (a Escritura mantém silêncio). E melhor ser ignorante sem crime do que sondar com riscos.

5. Não se pode negar que os anjos, às vezes, assumiam corpos reais (quer novos, criados imediatamente por Deus, quer já existentes de homens ainda em vida), em cuja transição realizavam certas ações econômicas (a imagem daqueles a quem o corpo pertencia sendo por pouco tempo afastada), de modo que eles mesmos não sabiam o que era feito neles e por eles. As operações dos anjos em tais corpos, as conversas que mantinham com os homens e a hospitalidade que recebiam testificam suficientemente disso. Também todos os sentidos dos homens santos (bem dispostos e não enganados por qualquer vã imaginação) o reconheciam, de modo que eram, às vezes, considerados homens reais.

6. Entretanto, eram unidos a esses corpos de tal modo que nem por isso podiam ser chamados realmente de homens, porque a união não era pessoal e interna (tal como a de alma e corpo), mas externa e acidental (segundo a maneira de formas acompanhantes), para que pudessem manifestar-se (como a força que move está unida à coisa móvel), despindo-se e descartando-se daqueles corpos como vestes (como diz Agostinho, “Second Discourse on Psalm 25”, 3 [ACW 29:241; PL 36.189]), usando-os como auxílios, não como co- iguais, mas como instrumentos para a realização de sua obra. Se, pois, são chamados de “homens”(shym), isso se dá quanto à opinião (kata doxan) e em virtude da forma externa na qual apareciam, não com base na realidade da coisa. E, no entanto, com isso não se pode dizer que se impunham aos pais para que os julgassem assim, pois não os assumiam com a intenção de fingir-se homens, ou de professar-se homens, mas apenas para que manifestarem intercurso familiar com os homens e assim realizarem a obra a eles designada. Portanto, ainda que os pais se enganassem sobre eles, não se pode dizer que eles mesmos os enganaram.

7. As operações realizadas pelos anjos naqueles corpos (tais como falar, andar, comer) não podem própria e estritamente ser chamadas de vitais, pois estas são feitas num sujeito vivo, animado por uma alma hipostaticamente unida com um corpo e que o move intimamente (como só pertencente aos homens), porque um segundo ato pressupõe necessariamente um primeiro. Mas nada impede de serem chamadas de vitais ampla e impropriamente, porque são eficientemente de um princípio vivo. Quanto a comer, se for tomado simplesmente pela mastigação de alimento, é possível dizer que eles comeram; mas se for usado para a recepção de alimento conversível em substância e sua digestão no estômago, não lhes pode ser pertinente.

8. O que foi feito dos corpos assumidos, após haver sido concretizada a obra para a qual foram enviados, é uma questão supérflua. A Escritura nos conta apenas que eles desapareciam no momento em que os anjos partiam – seja que tais corpos foram decompostos cm seus próprios princípios (dos quais se compunham), seja que foram reduzidos a nada, ou seja, ainda que eram corpos de homens vivos, restaurados a seu estado prístino.

9. Assim como Deus “muitas vezes e de muitas maneiras” (polytropõs kaipolymerõs) quis comunicar-se com os pais no Antigo Testamento (especialmente antes da lei, no tempo dos patriarcas, quando a Palavra de Deus ainda não fora entregue à escrita e quando uma noite ainda escura encobria o céu da igreja), assim também não surpreende que ele quisesse usar mais amiúde essas aparições de anjos para a consolação dos crentes e a confirmação da fé. Agora, porem – visto que a clara luz do evangelho já raiou, o Filho de Deus, o Senhor dos anjos em quem Deus nos fala, havendo se manifestado na carne, e visto que o Espírito Santo já foi derramado mui copiosamente sobre a igreja e o cânon da Escritura já se encerrou e foi selado – aquela dispensação se tomou menos necessária, porque a igreja já não precisa de tais auxílios. Por isso, embora no princípio do evangelho tenha havido ainda algumas aparições angélicas (angelophaneiai) para servir como ministros de Cristo e congraçar a crença em sua doutrina, mais tarde deixaram a igreja, agora confirmada. Ainda que ele sempre use seu ministério invisível, seja na igreja, seja no mundo, não mais (ou bem raramente) os torna claramente visíveis aos homens.

 

 

Autor: François Turretini

Trecho extraído do Compêndio de Teologia e Apologética do autor, volume 1, pág 689-691.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.