Deus criou a igreja e é Ele quem determina como ela deve ser

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A Bíblia diz alguma coisa sobre governo e organização de uma igreja? Isso é realmente importante? Será que existem diversas estruturas de igreja no Novo Testamento?

As primeiras igrejas começaram carismáticas, como é aparentemente demonstrado em Atos 2 e 2 Coríntios, e terminaram presbiterianas, como alguns dizem ser o caso em 1 e 2 Timóteo e Tito? Ou o Novo Testamento dá testemunho de uma forma consistente de governo de igreja local?

Deus criou a igreja, e isso implica que ele possui toda a autoridade na igreja. Deus nos diz o que a igreja é e como ela deve funcionar. Como a igreja deve ser organizada? De novo, a resposta está na Bíblia.

Precisamos saber o que a igreja deve ser, antes de podermos avaliar o que nossas igrejas estão fazendo e o que devemos continuar fazendo. Imagine tentar ser um bom marido ou esposa se você não sabe o que é o casamento. Um tipo de liberdade vem com a ignorância, e outro tipo (bem diferente) vem com a instrução. A liberdade de ignorância é irrestrita, mas também infrutífera. Sinta-se livre para tentar usar o piano como um aspirador de pó! A liberdade que vem com instrução – usar algo de acordo com o propósito para o qual foi idealizado – é muito mais satisfatória, como usar um piano para fazer música.

A Confissão de Fé de New Hampshire define uma igreja local nos seguintes termos:

Uma igreja visível de Cristo é uma congregação de crentes batizados, associados por aliança na fé e na comunhão do evangelho, observando as ordenanças de Cristo e governados por suas leis, exercendo os dons, direitos e privilégios investidos neles pela Palavra de Cristo; seus únicos oficiais bíblicos são bispos, pastores e diáconos, cujas qualificações, direitos e deveres são definidos nas Epístolas a Timóteo e a Tito.

Uma igreja é governada pelas leis de Cristo e vive em obediência aos seus ensinos. Em outras palavras, a Bíblia ensina às igrejas como funcionar. Isto é o que a Confissão de Fé de Westminster disse muito bem:

Todo conselho de Deus, concernente a todas as coisas necessárias para a sua própria glória, a salvação do homem, a fé e a vida, é expressamente apresentado na Escritura ou pode ser deduzido da Escritura por consequência boa e necessária; ao que nada, em tempo algum, deve ser acrescentado, ou por novas revelações do Espírito, ou por tradições de homens. (CFW 1.6; cf. 2 Timóteo 3.15-17; Gálatas 1.8-9; 2 Tessalonicenses 2.2.)

Objeções

Entendo que muitos dos evangélicos contemporâneos podem não aceitar a ideia de que a Bíblia nos diz como devemos organizar nossas igrejas. Há poucas razões para isso. Muitos questionam, explícita ou implicitamente, se a Bíblia realmente ensina esse assunto. Entre a maioria dos evangélicos e até em seminários batistas de nossos dias, é sugerido que não há nenhum padrão consistente de governo no Novo Testamento.1 (Se essa tem sido a sua suposição, pergunte a si mesmo o que você faria se houvesse ensino sobre esse assunto na Bíblia.) Outros ressaltam que a Escritura pode ser considerada “suficiente” mesmo sem abordar especificamente cada questão que possa surgir em nossa mente. Ou eles dizem que pessoas imaginam coisas e as introduzem na Bíblia.

É claro que estes dois últimos pontos são verdadeiros. No entanto, para verificarmos que a Escritura é “suficiente”, precisamos observar que ela é suficiente para nos ajudar a fazer o que Deus quer que façamos. E, na Bíblia, Deus demonstra que se importa realmente com a organização e a estrutura da igreja local. Ele estabeleceu diferentes tipos de pessoa na igreja, incluindo mestres e administradores (1 Coríntios 12.28). Parece que Deus está interessado na “boa ordem” da igreja local (Colossenses 2.5). E chama as igrejas a considerarem diligentemente a vida e a profissão de fé de seus membros (Mateus 18.15-17; 1 Coríntios 5; 1 João 4.1-3).

Outros podem rejeitar toda essa conversa, dizendo que ela não é importante. Há quase uma impaciência para com qualquer coisa que não é essencial. Muito frequentemente, crentes contemporâneos têm apenas duas marchas em sua bicicleta teológica: essencial e insignificante. Se algo não é essencial à salvação, isso é tratado como insignificante e, portanto, descartável. Mas a Bíblia nos apresenta várias questões que não são essenciais à salvação, porém, apesar disso, são importantes, e até necessárias, em termos de obediência à Palavra de Deus. Obedecer a essas questões produz bom fruto. Questões de governo e organização se enquadram nesta categoria. Na vida de uma igreja local, elas podem, às vezes, se tornar crucialmente importantes para a saúde e a sobrevivência da igreja.

Uma última objeção a ser considerada pode ser apenas: “Ninguém pensa nisso!” Mas esta objeção é historicamente infundada. Há muito os cristãos têm pensado nessas questões, que constituem o motivo porque denominações inteiras se chamam Presbiteriana, Congregacional, Metodista ou Episcopal, designações que se referem a como essas igrejas fazem as coisas. John Bunyan e Jonathan Edwards, John Wesley e C. H. Spurgeon – todos eles acreditavam que a Bíblia nos ensina como devemos organizar nossas igrejas. Alguém poderia até dizer que a Nova Inglaterra foi fundada por causa dessas questões, assim como foram as igrejas batistas. Muitos cristãos antes de nós pensavam que essas questões são importantes porque as viram na Bíblia.

Falando pela congregação em que sirvo, nossa igreja concorda, tal como os cristãos que viveram antes de nós, incluindo os que fundaram nossa congregação local nos anos 1870, que a Bíblia ensina realmente essas questões. Cremos que tais questões são tão importantes, que devemos considerar e estudar com atenção a Escritura na esperança de acharmos algumas respostas sobre como devemos organizar nossa vida em união na igreja local. Nosso alvo é moldar a estrutura e as práticas de nossa igreja, em conformidade com o ensino explícito e implícito da Escritura, achado em mandamentos e exemplos.2

1. Quem é a igreja?

Havendo estabelecido o princípio básico de sermos dirigidos pela Escritura e consideradas algumas objeções populares, voltemo-nos agora para três exemplos de como o ensino da Bíblia sobre questões de governo é importante, ainda que muitos cristãos hoje raramente entendam ou apreciem o que a Bíblia diz sobre isso.

A primeira e mais básica questão sobre o governo da igreja é “Quem é a igreja?”. E a resposta é muito simples: os membros constituem a igreja local. E, assim como a Bíblia determina em que a congregação crê, ela também determina quem possui a palavra final sobre quem são os membros da congregação.

Em Mateus 18.15-20, Jesus ensinou que, se pessoas não se arrependem de seus pecados, devem ser excluídas da igreja local. E chamou a igreja a fazer isso.

Em 1 Coríntios 5, Paulo seguiu o ensino de Jesus. Disse que toda a igreja local – não apenas os presbíteros –excluísse de seu número um pecador impenitente.

Em 2 Coríntios 2.6, Paulo se referiu a uma punição infligida “pela maioria” a um membro que se desviara. De novo, ele não estava escrevendo aos presbíteros e sim à congregação como um todo.

Nessas passagens sobre disciplina, vemos o significado de ser membro de igreja local. A disciplina traça um círculo ao redor dos membros da igreja. Práticas cuidadosas de membresia e disciplina têm o propósito de separar a igreja do mundo e, por meio disso, definir e manifestar o evangelho.

Igrejas que não praticam membresia e disciplina formais tornam mais difícil para os crentes que são parte da igreja seguirem a Cristo, e mais difícil para os presbíteros saberem por quem devem prestar contas (Hebreus 13.17). De fato, iria mais além e diria que igrejas que não praticam membresia autoconsciente estão em pecado, visto que sem ela os cristãos não podem seguir mandamentos bíblicos básicos. De acordo com o Novo Testamento, os líderes da igreja precisam saber quem é e quem não é um membro da congregação. E, talvez o mais importante, os cristãos precisam saber isso – para o bem de sua própria alma!

2. Quem é, finalmente, responsável?

Um segundo assunto de governo que a Bíblia aborda é: quem é finalmente responsável pelo que acontece numa igreja? O exemplo anterior tocou nesse assunto, mas quero deixar claro: o Novo Testamento dá a responsabilidade final à congregação.

Parece que o Novo Testamento dá a responsabilidade final à congregação nas questões de disciplina e, por implicação, de membresia. Considere novamente as três passagens já mencionadas – como 2 Coríntios 2.6 – nas quais a maioria tomou a decisão de excomungar um membro que havia pecado. A igreja tomou a decisão.

Parece também que a Bíblia dá autoridade final à congregação nas questões de doutrina e, por implicação, na escolha de líderes. Isto é evidenciado, por exemplo, no apelo de Paulo às congregações da Galácia para que confiassem em seu próprio julgamento acima do julgamento de um apóstolo ou mesmo de um anjo se um apóstolo ou anjo tentasse alterar o conteúdo do evangelho (Gálatas 1.6-9). Outra vez, não foram os presbíteros que Paulo chamou a agir. Em outra carta, ele censurou igrejas de se reunirem ao redor de muitos mestres para que estes lhes dissessem o que gostavam de ouvir (2 Timóteo 4.3). Certamente esse é um exemplo de autoridade congregacional usada pobremente. O apóstolo João exortou outra igreja a fazer o oposto – exercer cuidadosamente sua responsabilidade por atentar ao ensino que recebia (2 João 10-11).

Nesses exemplos, o Novo Testamento mostra claramente que não era algo externo à igreja local, como uma associação de igrejas, ou uma assembleia geral, ou um bispo, que tinha a responsabilidade final pelo que acontecia numa igreja local. Era a própria congregação. Também não era um subconjunto de membros, como um concílio, presbíteros ou um pastor, que detinha a autoridade final. Embora os presbíteros tenham maior responsabilidade devido ao seu ensino público da Palavra (Tiago 3.1), essas decisões são, em última instância, questões de responsabilidade da congregação.

Essa responsabilidade final da congregação não precisa anular a autoridade pastoral. Pelo contrário, pode tanto reforçá-la quanto protegê-la contra o abuso de tal autoridade. Numa igreja saudável, a congregação sempre (ou quase sempre) apoiará os presbíteros. Ambos os grupos terão o mesmo entendimento da Escritura e adotarão a mesma opinião em questões práticas. A responsabilidade da congregação prescrita no Novo Testamento não é como uma reunião de cidade da Nova Inglaterra, sem pessoas maduras para liderar. Normalmente, as congregações devem se submeter com alegria aos pastores e presbíteros da igreja. No entanto, devem também manter a capacidade de rejeitar o que os presbíteros talvez apresentem aos membros. Isso é um freio de emergência importante, bíblico e, às vezes, preservador do evangelho que foi revelado por Deus em sua Palavra.

3.  As igrejas devem ter líderes múltiplos?

Essa pergunta desperta mais um exemplo do que a Bíblia ensina a respeito de governo da igreja. Se a conversa sobre o que a Bíblia ensina a respeito de estrutura da igreja é recebida com ceticismo por parte de muitos evangélicos hoje, afirmações sobre a natureza e o número de oficiais numa igreja seguem o mesmo caminho.

Com o devido respeito para com aqueles que discordam, acho que a Bíblia ensina claramente que as congregações locais devem ser guiadas por uma pluralidade de presbíteros. Esse é o padrão consistente de igrejas no Novo Testamento. Por exemplo, Paulo orientou que presbíteros fossem constituídos nas igrejas em cada cidade (Tito 1.5; cf. Atos 14.23). Ele se dirigiu aos presbíteros (ou “bispos”) como um grupo na igreja em Filipos (Filipenses 1.1). E fez o mesmo com os presbíteros da igreja em Éfeso (Atos 20.17). Tiago se referiu também aos “presbíteros da igreja” (Tiago 5.14). Em resumo, em nenhuma passagem o Novo Testamento diz algo como: “Submetam-se ao presbítero de sua igreja”. Em vez disso, a palavra “presbítero” sempre ocorre no plural. O exemplo é uniforme (cf. as referências aos presbíteros na igreja em Jerusalém, em Atos 11.30; 15.2; 21.18). Se Paulo e os apóstolos encorajaram e instruíram as primeiras igrejas a seguirem esse padrão, parece que também devemos segui-lo.3

Essas conclusões são importantes porque Deus nos revelou sua vontade sobre tais questões. A reação cristã deve ser ouvir e atender à Palavra de Deus. William Ames, autor de Marrow of Divinty, texto de teologia usado por décadas em Harvard, asseverou esta mesma coisa:

O homem (…) não tem poder nem de remover qualquer daquelas coisas que Cristo deu à sua igreja, nem de lhes acrescentar coisas desse tipo. No entanto, de todas as maneiras, ele pode e deve certificar-se de que as coisas que Cristo ordenou são promovidas e fortalecidas (…) [Porque somente Cristo é “o cabeça” da igreja]. A igreja não pode fazer para si mesma novas leis e instituir novas coisas. Ela deve cuidar apenas de achar claramente a vontade de Cristo e observar suas ordenanças com decência, ordem e a maior edificação resultante.4

Conclusão

Minha esperança é que o leitor veja como a magnífica suficiência das Escrituras nos liberta da tirania da mera opinião de homens. Deus se revelou em sua Palavra. Ele está falando conosco, preparando-nos para representá-lo hoje e vê-lo amanhã! Uma congregação de membros nascidos de novo – cumprindo as responsabilidades que Cristo lhes deu em sua Palavra, reunindo-se regularmente, guiados por um corpo de presbíteros piedosos – é o quadro da igreja que Deus nos dá em sua Palavra – a igreja que ele chama de sua “casa”, comprada com seu próprio sangue (1 Timóteo 3.15; Atos 20.28; cf. Marcos 3.31-35). Finalmente, considere o que Deus está fazendo por meio da igreja. Paulo disse: “Para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Efésios 3.10-11). Isso é o que Deus está fazendo! Portanto, o nosso interesse deve ser semelhante ao de Paulo – “que a igreja revele e manifeste a glória de Deus, vindicando assim o caráter de Deus contra toda a calúnia de esferas demoníacas, a calúnia de que Deus não é digno de que vivamos por ele. Deus confiou à sua igreja a glória de seu próprio nome”.5

 

 

NOTAS:

  1. Um exemplo disso que procede de uma geração anterior seria esta afirmação típica: “No que concerne a ‘governo’, as raízes do Novo Testamento para os modelos episcopal, presbiteriano e congregacional podem ser traçadas, mas não há uma ocorrência específica em favor da predominância de qualquer deles”, Frank Stagg, “The New Testament Doctrine of the Church”, The Theological Educator 12, no. 1 (Fall 1981): 48.
  2. A questão de que exemplos devem ser seguidos é tanto importante como, às vezes, imprecisa. Há uma pequena categoria de exemplos (e até mandamentos) intermediários que eram temporais e situacionais (como saudar um ao outro com ósculo santo), mas, apesar disso, incorporavam princípios maiores e permanentes. Discussão interminável pode ocorrer sobre esses exemplos.
  3. Como disse William Williams, professor de História e um dos fundadores da Igreja no Shouthern Baptist Theological Seminary: “Estamos sob a obrigação de adotar aquele governo que a sabedoria divina designou ser o mais adaptado à promoção dos objetivos da igreja ou podemos nos sentir à vontade para mudá-lo ou substituí-lo por alguma outra, de acordo com nossas opiniões de adequabilidade e conveniência?” (“Apostolic Church Polity”, em Polity: Biblical Arguments on How to Conduct Church Life, ed. Mark Dever [Washington, DC: Center for Church Reform, 2001], 546).
  4. William Ames, Marrow of Divinity (1634: repr., Boston: United Church Press, 1968), 181.
  5. Mark Ross, “An Address at PCA Convocation on Revival”.

 

 

Autor: Mark Dever

Trecho extraído do livro A Igreja: O Evangelho Visível. Editora: Fiel

Marcos Frade
Marcos Frade

Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.