Secular e Sagrado

Share

Ao distinguir entre secular e sagrado, não estaríamos voltando ao isolacionismo e separatismo, que diz haver um lugar certo para os cristão neste canto, mas não naquele?

Aqui é necessário que tomemos bastante cuidado, pois existe muita confusão. Frequentemente se diz que a reforma libertou os cristãos de ver o mundo em termos de uma dicotomia entre o secular e o sagrado. Isso é verdade em um sentido e falso em outro. Primeiro, é verdade que os reformadores negaram o dualismo neoplatônico entre espírito e matéria, e insistiram que estivéssemos envolvidos em cavar trincheiras ou trabalho missionário, criar filhos ou pregar toda a vida. Era como disse Calvino: “teatro maravilhoso da glória de Deus”. Nenhuma parte da atividade humana deveria ser vista como fora do interesse e desígnio providencial de Deus. Contudo, os reformadores distinguiam, sim, entre “coisas celestes” e “coisas terrestres”, como já vimos. Na Escritura, há distinção óbvia entre o santo e o comum. Israel era nação santa, o Egito era comum. Mas isso não significava que com isso o Egito estivesse fora do interesse de Deus. Mesmo quando José regeu o Egito sob Faraó, e Daniel regeu a Pérsia sob Nabucodonosor, essas nações eram “comuns”. Essas nações gozavam de chuvas sobre suas plantações e Deus os guiou providencialmente a grandes descobertas e realizações culturais através da revelação natural. Mas elas não foram separadas por Deus como seu povo especial, seu povo redimido.

O que é verdade quanto às pessoas é verdadeiro também com respeito às coisas e às esferas. Como não vivemos em uma teocracia nacional, a atividade cultural não é sagrada. A reforma não negou a distinção entre o santo e o comum, mas afirmou a bênção temporal de Deus sobre esse último. Não é que varrer o chão seja uma atividade de alguma forma religiosa ou cristã, mas glorifica a Deus assim mesmo, porque é o serviço e a vocação para com o próximo, de alguém que leva em si a imagem de Deus.

Na sua obra Júlio César, Handel nos conduz a maravilhar-nos com o Criador e Preservador de um mundo em rebeldia; no seu Messias, o mestre nos conduz a Deus, o Redentor. Não são dois deuses diferentes, mas podemos honrar a Deus em ambas as funções.

É quando se pensa não haver distinção entre usos seculares e sagrados que quase acabamos com a grande tradição da música de igreja, ao mesmo tempo que criamos um estilo de música popular que não é realmente secular e nem verdadeiramente sagrado. Como na ficção, é má teologia e pobre arte.

Isso não quer dizer que quem escreve cânticos cristãos está livre de suas convicções cristãs quando se senta ao piano, da mesma forma que o político cristão não pode deixar de lado suas convicções ou crenças bíblicas a fim de servir ao público. Mas, em ambos os casos, significa que o cristão tenha que participar da cultura de modo a reconhecer a criação, e não a redenção, como a base teológica apropriada para tais atividades. Enquanto os reformadores insistiam que já que fomos criados dentro deste mundo, chamados para este mundo e redimidos neste mundo, não deveríamos pendurar nossa fé no armário quando fôssemos para o trabalho; eles, contudo, distinguiam a igreja  do mundo.

Talvez uma ilustração sirva para ressaltar a importância desta questão. Não muito tempo atrás, eu estava falando com alguns artistas cristãos, e um deles comentou que na música contemporânea cristã havia emocionalismo e falta de conteúdo bíblico em muitos exemplos. Outro artista se contrapôs: “Sim, mas a música, por sua natureza, é emotiva”. Os dois fatos pareciam levar a discussão a um impasse, mas naquele ponto ficou fácil demonstrar a distinção que eu estive fazendo. Os dois artistas estavam certos. Os hinos clássicos focalizam em Deus e sua obra salvífica em Cristo, já que era esse o foco da teologia, da pregação, do ensino e do culto. Os hinos do século dezenove, influenciados pelo Romantismo, focalizaram sobre meus sentimentos para com Deus e sua obra salvadora em Cristo. “Cânticos de louvor” contemporâneos dão um passo além no subjetivo, focalizando apenas o “meu sentimento”, muitas vezes com pouco conteúdo que relacione esses sentimentos às verdades sobre Deus e sua obra salvífica em Cristo.

A música e a arte em geral não deve ser forçada a sempre servir um objetivo cerebral, intelectual associado com a pregação ou leitura da Bíblia ou um tomo de teologia. Não há nada de errado com a arte que apele aos sentimentos e à imaginação, mas há muito de errado com um culto motivado por sentimentos e imaginação. Portanto, a música da igreja deve ser julgada por critérios diferentes daqueles pelos quais julgamos a arte comum. Não há nada não-espiritual sobre apreciar um concerto secular por simples prazer.

Embora não devamos ser ingênuos quanto às visões do mundo que formam a música secular, nem ignorar a letra porque gostamos da música, não precisamos ser rigorosamente analíticos quanto à música. Mas temos que ser rigorosamente analíticos quanto à música sacra. Por quê? Porque ela não foi feita simplesmente para o nosso entretenimento: é feita para adorar a Deus! Infelizmente, a maior parte de nós se preocupa mais com palavras chãs nas letras dos Rolling Stones do que com a falta de reverência no culto a Deus, mas esse último é o segundo mandamento de Deus. Não podemos adorar a Deus com as nossas próprias opiniões ou emoções; nosso culto (que inclui nossa música) deve ser rigorosamente verificado por sua integridade teológica. Não é uma apresentação para divertir. É por isso que me preocupo mais com a influência de Carman do que com a influência de Clapton.

A música cristã contemporânea faz parte de uma terceira categoria. Os que escreveram os hinos eram músicos das igrejas. Alguns, como Bach e Handel, escreveram peças seculares e sagradas, mas somente agora vemos todo um estilo musical que não é nem sagrado nem secular, mas uma fusão de ambos (e, mais uma vez, fusão das piores formas de ambos). Podemos acabar tendo uma música religiosa demais e fora do mundo, que não consegue ser tocada com seriedade nas estações seculares, mas em que falta transcendência e profundidade teológica para ser usado no culto. Por exemplo, “Fico cada vez mais apaixonado por ele” é, mais uma vez, péssima teologia e péssima arte. Se cristãos se sentissem em liberdade de escrever canções de amor seculares (focalizando o horizontal) para estações seculares, e escrevessem também música sacra para a igreja com profundidade lírica e grandeza musical (focalizando na relação vertical, com Deus), talvez veríamos a alvorada de um novo tempo de grande música produzida por cristãos em ambas as esferas.

 

 

Autor: Michael Horton

Trecho extraído do livro O Cristão e a Cultura, pág 99-103. Editora: Cultura Cristã

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.