A origem da teologia experimental

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O misticismo, o conceito de que a teologia pode proceder da experiência pessoal, não se originou nos carismáticos. Diversas outras influências, todas anticristãs, contribuíram para a formação do conceito da teologia experimental: existencialismo, humanismo e paganismo.

O existencialismo é um ponto de vista filosófico que afirma o caráter absurdo e a falta de significado da vida. Ensina que devemos ser livres para agir segundo nossos desejos, desde que estejamos dispostos a assumir a responsabilidade por nossas escolhas. Os existencialistas se preocupam primariamente com a maneira como eles se sentem. Não prestam conta a nenhuma autoridade; na verdade, eles se tornam fonte de autoridade para si mesmos. Creem que a verdade é tudo o que nos arrebata e nos põe em movimento.

O humanismo é a filosofia que preconiza o poder ilimitado da humanidade.37 Deem às pessoas tempo e educação suficientes, e elas poderão solucionar qualquer problema. Sendo meio-irmão do existencialismo, o humanismo estimula as pessoas a se auto afirmarem e a serem alguém. Nesta era tecnológica, em que muitas pessoas se sentem apenas como um número, destituídas de um nome verdadeiro, o humanismo é muito atraente. Vivemos nos dias de fóruns dos ouvintes, dos programas de entrevistas e de trivialidades. Todos querem se fazer ouvir e acham uma oportunidade.

O humanista, à semelhança do existencialista, não reconhece uma autoridade suprema. A verdade é relativa. A verdade é o que menos importa; a questão é: “O que você acha?” Inexistem absolutos, e cada um faz o que é certo aos próprios olhos (cf. Jz 21.25).38

O paganismo é outro exemplo de teologia experimental. A maior parte das crenças e práticas pagãs têm raízes nas religiões de mistério surgidas em Babel. No tempo de Cristo, as pessoas, em todo o mundo greco-romano, participavam de religiões de mistério, com seus múltiplos deuses, de orgias sexuais, idolatria, mutilação e, talvez, sacrifícios humanos. Os historiados afirmam que os participantes dessas práticas pagãs experimentavam sentimentos de paz, alegria, felicidade e êxtase.

O historiador Samuel Angus escreveu: “O devoto poderia, em êxtase, sentir-se acima das limitações comuns, para contemplar a visão beatífica [Deus] ou, entregue ao entusiasmo, crer que estava inspirado por ou cheio de Deus — esse fenômeno é, em alguns aspectos, similar às experiências dos primeiros cristãos a respeito do derramamento do Espírito”.39

De acordo com Eugene H. Peterson, a teologia experimental também era o cerne do culto a Baal, a religião dos cananeus:

A ênfase do baalismo era a ligação psicológica e a experiência subjetiva… A transcendência da divindade era sobrepujada no êxtase das sensações…

O baalismo é a adoração reduzida à estatura espiritual do adorador. Seus cânones são: ser interessante, relevante e estimulante…

O javismo [o judaísmo do Antigo Testamento] estabeleceu uma forma de adoração centrada na proclamação da palavra do Deus da aliança. O javismo apelava à vontade. A racionalidade do ser humano inteligente era destacada, quando este era convocado pessoalmente a corresponder à vontade de Deus. No javismo dizia-se algo: palavras que chamavam os homens a servir, amar, obedecer, agir de modo responsável, decidir…

A distinção entre a adoração e ao culto a Baal e a adoração a Javé equivale à distinção entre a abordagem da vontade do Deus da aliança, que deveria ser compreendida, conhecida e obedecida, e a abordagem da força cega e vital da natureza, que poderia ser apenas sentida, absorvida e imitada.40

Atualmente, com a ênfase exagerada na experiência, muitos adeptos do movimento carismático encontram-se perigosamente próximos de um tipo de neobaalismo! A experiência pode ser uma arma perigosa nas mãos de Satanás. Ele se deleita em fazer cristãos procurarem experiências em detrimento da Palavra de Deus.

O cristianismo está em perigo. Temos sido vítimas do espírito de experiências de nossos dias. O legado do misticismo, com sua prole filosófica e religiosa — existencialismo, humanismo e paganismo — se alastrará por toda a igreja, se não formos vigilantes. As experiências podem ser produzidas por fenômenos psicológicos, fisiológicos ou demoníacos. O único teste verdadeiro para toda experiência é este: está de acordo com a Palavra de Deus?

 

 

NOTAS:

  1. Quanto a uma avaliação do humanismo, ver Geisler, Norman L. Is man the measure? Grand Rapids: Baker, 1983.
  2. Quanto a um debate sobre a natureza absoluta da verdade, ver Barrett, William. Irrational man. Garden City, N.Y.: Doubleday, 1962. Schaeffer, Francis A. How should we then live? Old Tappan, N.J.: Revell, 1976.
  3. Angus, S. The mistery religions and christianity. New York: Dover, 1075. p. 66-67.

 40. Peterson, Eugene H. Baalism and yahwism updated. Theology for Today, p. 139-41, July 1972.

 

 

Autor: John MacArthur

Trecho extraído do livro Caos Carismático, pág 49-56. Editora: Fiel

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.