Entendendo a Arte

Share

Não acredito que a alta arte (pintura, escultura, música clássica, poesia, etc.) seja apenas uma distração pecaminosa, mas como posso apreciá-la se não tive educação, berço e nem treino nas artes?

Essa pergunta se faz especialmente com relação ao comentário: “Não entendo muito de arte moderna”. Muitas vezes o inquiridor conclui que é o seu problema e não do artista. O elitismo esotérico, de alguma arte moderna e pós-moderna, é sintomático do desvio da arte como prazer e lazer para as massas para arte como um distintivo de quem atinge certo nível especial que admita o artista ao lugar muito acima do sentimento e gosto do publico, para acenar com graça e paternalismo à multidão de “não lavados” lá embaixo. Como Owen Warland, eles reconheceram que são especiais, singulares.

Mas nem sempre foi assim. Na verdade, os museus de arte são fenômeno da era moderna. Tanto a arte católica romana quanto a arte protestante tinha a finalidade de enfeitar o espaço de gente comum. Não obstante os pontos de vista diferentes quanto à missão e o serviço da arte, ambas as tradições e os artistas que as representavam, criam que sua obra tinha que ter contato com o público de alguma forma. Não acreditavam no caráter auto-existente de seu trabalho, como se os gostos do público pudessem ser totalmente desrespeitados como rudimentares demais para sua auto-expressão. A arte tinha que ser desfrutada com prazer, e tinha como propósito causar deleite, maravilha, crítica e até mesmo desconforto ao observador. Assim como a Reforma insistia que o homem comum deveria ser retirado do analfabetismo e alimentado por um corpo comum de literatura, assim também o artista conspirava com o escritor e músico para criar obras a ser apreciadas pelas massas. Em vez de confundi-las, era para elevá-las. Isso foi geralmente verdade, até o período do Romantismo. As óperas de Mozart foram originalmente apresentadas a auditórios comparáveis aos que vão ao cinema hoje em dia.

Não precisa se preocupar por não entender muito da arte abstrata moderna ao ponto de deixá-lo mal-preparado para a tarefa de apreciar arte e literatura. Além do mais, nem toda arte contemporânea é abstrata. Assegure-se que, se estiver lendo um autor ou vendo uma pintura, ou ouvindo uma peça musical produzida antes do meio do século dezenove, o autor o fez para o prazer de seu público, não apenas para sua própria auto-apreciação esotérica e gnóstica. Não determine sua lista de leitura por aquilo que alguém disse que você tem de gostar. Se você não gosta de fantasia, ler o comprido Senhor dos Anéis, de Tolkien, o deixará doido. Você gosta de história, contos sobre a natureza, mistérios? Comece sua leitura aí. Só porque existem filmes que não parecem ligar-se ao que assiste, não nos leva a concluir que devamos abandonar todo o cinema, e o mesmo pode-se dizer da arte em geral. Note o comentário de Lewis sobre o assunto:

Estou farto de nossos poetas do abracadabra. O que revela o segredo do show é que seus confessos admiradores fazem interpretações bastante contraditórias da mesma poesia ⎯ estou preparado a crer que um retrato ininteligível é, na verdade, um bom cavalo se todos os seus admiradores me disserem assim, mas quando um diz que é um cavalo, outro que é um navio e um terceiro que é uma laranja, e o quarto que é o Monte Evereste, eu o rejeito.

Leitura de ficção

Por que perder tempo lendo ficção?

Num grupo, sempre se pode saber quem despreza a ficção. Frequentemente, os que não tiram tempo para ler ficção olham para o mundo através de suas perspectivas limitadas, conhecendo apenas os seus próprios sentimentos e pensamentos dentro de seu próprio tempo e lugar. Observe um programa de entrevista na televisão por uma hora e você notará que ninguém escuta, todo mundo fala. Todo mundo está preparando sua próxima sentença enquanto a outra pessoa (ou essas, pois muitas vezes estão todos falando ao mesmo tempo) se dirige à nação. Falam sobre eles mesmos ⎯ suas experiências, seus hábitos, suas opiniões e preferências. Na nossa época de “psicoblablablá”, nos sintonizamos a nós mesmos e aos nossos mundos interiores.

Ler ficção é viajar à terra de Merlin ou às florestas encantadas da Alemanha ou a lugares mais modernos, como o Havaí, Texas, Alasca ou a África do Sul de Michener. É adentrar no mundo bagunceiro da Terra Média de Tolkien e ler nas entrelinhas da baleia de Melville e da vila de Salem de Hawthorne. Cristãos que vivem no final do século vinte fazem parte de uma cultura com pouco conhecimento ou imaginação histórica. Conquanto conheçamos nossos próprios pensamentos, imaginações, sonhos e histórias, geralmente ligamos a televisão para “fugir” para outros mundos, ao invés de irmos para a ficção e vestir a armadura do matador de dragões.

A leitura de ficção não apenas diverte (que já seria razão suficiente para sua existência), como também nos ajuda a entrar em outro período de tempo e lugar e entender um mundo diferente, e não simplesmente levar nossas próprias opiniões e experiências como uma verdade determinada.

O bom, o verdadeiro e o belo

Pode ser bom se não for verdade? Pode ser verdade se não for belo? Pode ser belo se não for bom?

Muitos crentes reagem ao permeante relativismo cultural de nossa época insistindo que tudo – inclusive a arte ⎯ responda a um conjunto objetivo de critérios. Sugerir que não existam critérios tão simplistas para a arte, pode parece igual a dizer que eles não existam para a moralidade ou a religião; mas mais uma vez, isso confundiria as esferas da atividade humana.

Aristóteles disse que o maior bem era a felicidade, enquanto a Escritura declara que é a glória de Deus.

O cristianismo é verdade revelada. Enquanto algumas verdades sobre Deus e a pessoa possam ser conhecidas através da natureza, a mensagem salvífica de Cristo, o Evangelho, nunca é descoberto pela atividade de seres humanos. É sempre dado por Deus. Deus não somente mandou seu Filho ao mundo para a salvação, como também prometeu o Messias aos patriarcas e profetas antes da encarnação e explicou o significado desses eventos através dos apóstolos após os fatos ocorridos. Não existe “Evangelho” na natureza. Isso significa que, não importa a grandeza do conhecimento de um incrédulo ou sua experiência em coisas “espirituais”, ele (ou ela) está morto nas suas transgressões e pecados”(Efésios 2.1) e é incapaz de entender o caminho de salvação a não ser através das Escrituras e do Espírito Santo (1 Coríntios 2.14).

Conquanto o Evangelho não reside em nós através da natureza (dormente em algum dos recessos de nosso coração, nossa mente ou nossas emoções) e nem nos está disponível pela natureza (por exemplo, através do estudo das religiões do mundo), há muito mais que está. Se queremos a verdade sobre a natureza de Deus, não descobriremos a Trindade na física; se buscamos respostas sobre o caminho de salvação, não as ouviremos numa palestra sobre filosofia e nem seremos de repente e intuitivamente “esclarecidos” sobre essas respostas vendo uma grande obra de arte. Mas a moralidade civil não está tão longe do coração e da mente da humanidade caída, e é por isso que o apóstolo, nos capítulos 1 e 2 de Romanos, enfatiza esta esfera como “terreno comum: entre o crente e o incrédulo. Tendo isso como fundo, então, reflitamos na “trindade” clássica grega de virtudes estéticas: “o bom, o verdadeiro e o belo”. Alguns reconheceram um eco na exortação de Paulo: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupa o vosso pensamento” (Filipenses 4.8). Mais uma vez chegamos num ponto de terreno em comum.

Sem dúvida, Paulo conhecia esse critério clássico de filosofia e colocou sobre sua verdade para o povo de Deus o selo apostólico. Isso não significa que os filósofos tenham entendido corretamente o alvo final do bem (Aristóteles disse que o maior bem era a felicidade, enquanto a Escritura declara que é a glória de Deus), nem que eles estivessem sempre certos em sua identificação daquilo que era bom, mas havia muita concordância.

Em sua Ética, Aristóteles considerava como maiores virtudes intelectuais a ciência (conhecimento demonstrável do necessário e eterno), arte ( conhecimento de como se faz as coisas) e sabedoria prática (conhecimento de como buscar as finalidades da vida humana), sabedoria intuitiva (conhecimento dos princípios dos quais procede a ciência), e sabedoria filosófica (união da razão intuitiva com a ciência). Mas até mesmo entre os filósofos seculares buscamos em vão quando procuramos um critério para se julgar a arte.

Até mesmo se tomarmos a lista paulina de “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe,” ainda não temos muito em que nos firmar quanto a um método universalmente aceito para discernir entre a boa arte e a má, a não ser nosso próprio senso intuitivo. Um grupo de artistas, talvez todos cristãos, pode estar completamente convencido de que sua arte se conforma com aquilo que é verdadeiro, nobre, direito, puro, amável, admirável, excelente e louvável, sem concordar nas definições das características específicas de cada um. Se isso é verdade quanto aos próprios artistas, quanto mais dos seus patronos e seu auditório.

Por esta razão, é melhor tomar muito cuidado quanto a fazer julgamentos absolutistas sobre a “boa” e a “má” arte. Em matéria de arte, o “bom” de uma pessoa poderá ser o “mau” de outra. Esse relativismo muitas vezes levas as pessoas modernas a concluir que o mesmo pode-se dizer da religião e da moral em geral. Se não distinguirmos as esferas, criaremos o dogmatismo que leva à relativização da religião e moral, ou nós mesmos cairemos no relativismo por não saber distinguir entre o silêncio de Deus quanto a dar um critério para o “bom” na arte e em oferecer tais critérios para outras esferas da atividade humana. Como é mais subjetiva, a arte é mais relativa do que história, direito, filosofia, religião e ética.

Nossa própria intuição, portanto, forjada pela consciência alimentada pelas Escrituras e iluminada pelo Espírito, deve nos guiar pelo emaranhado do “bom” na arte, lembrando sempre que estamos no âmbito da criação, não da redenção; da experiência, não da revelação.

O mesmo se diz quanto ao verdadeiro? Não há maneira de distinguir arte “verdadeira” da “falsa”? Verdadeiro e falso podem ser empregados em dois sentidos. Primeiro, pode-se dizer “verdade” em relação aos fatos. Ou pode-se dizer “verdade” em termos de julgar se uma determinada obra é digna de ser chamada de arte. Vamos examinar os dois sentidos.

Pode-se ler a Náusea de Sartre ou O Rebelde de Camus, ver uma peça de Expressionismo alemão, e ouvir uma seleção de Der Ring des Nibelungen, de Wagner, e sair com um senso da expressão artística de uma era e uma visão do mundo. Conquanto todas essas obras sejam distintas, empregando meios diferentes, são todas janelas sobre o mundo moderno existencialista e niilista. Contudo, todas essas obras, na minha opinião, são obras-primas. Não precisamos achar que o suicídio é a melhor saída do dilema humano para apreciar o desespero de Sartre após duas guerras mundiais; nem precisamos ser rebeldes para notar a honestidade brutal de Camus e ver em sua obra ecos de Eclesiastes. O Expressionismo alemão, em toda sua feiura, seu cinismo e violência, está contando a verdade sobre a condição humana do Ocidente neste século, com todos seus defeitos. E Wagner, compositor favorito de Hitler e devoto no niilismo ateísta que produziu o Holocausto, hoje é ouvido em auditórios em Tel Aviv.

Muitas vezes cristãos boicotarão autores, filmes ou outras formas de expressão artística por causa do caráter ou do compromisso religioso do artista, mas é possível ter prazer na arte sem aprovar o artista. É também possível uma determinada obra ser boa num sentido estético (ou seja, artístico), mas moralmente má, e vice versa. Até mesmo em tais circunstâncias, não é necessariamente proibido para o cristão (embora obras que divertem glorificando a depravação possam ser sutilmente perigosas). Se fosse assim, a descrição do adultério de Davi com Batseba e o assassinato de Urias seria indigno dos ouvidos cristãos, mas Deus não é pudico como nós frequentemente o julgamos. Na Escritura encontramos coisas que são verdadeiras, mas não necessariamente boas ou belas.

É essa diversidade rica que encontramos na Escritura que tantas vezes falta na expressão cristã contemporânea. Parece que temos medo de contar a história toda. James Ward, músico evangélico, colocou música em alguns desses Salmos ⎯ não só os pedaços alegres, mas também as partes deprimentes, e utilizou o estilo de “blues” para transmitir o sentimento. O estilo é apropriado ao conteúdo.

Mas, em muita da música cristã contemporânea, o estilo é igual ao dos “jingles” de propaganda de televisão. Na música clássica de igreja, encontramos os corais saindo de uma emoção para outra, dependendo do fluxo do texto. Mas, como os personagens em muita “ficção cristã”, a música de hoje é achatada e unidimensional. Quase sempre é alegre, repetitiva e fácil de lembrar, não diferente do regime que recebemos na subcultura evangélica. Onde está o terror de Deus encontrado nos profetas? A ira e o juízo, contrastado com a ternura e misericórdia justificadora de Deus encontrada em Cristo Jesus? Ou onde, na música cristã contemporânea, encontramos o sentimento expresso por Paulo em Romanos 7, a experiência de um cristão que fracassou? É impossível, dada a ênfase de “vitória”, expressar o que o antigo escritor de hinos dizia: “Tendente a vagar, Senhor, eu sei, tendente a abandonar a Quem amei”? Ao eliminar essas características, a experiência cristã refletida no gênero moderno está fora de sintonia com a realidade, e o amor e a ternura de Deus em Cristo foi trivializado num mero sentimentalismo. Ironicamente, essa espécie de música começa dizendo cumprir especificamente os parâmetros paulinos, pensando que isso exige eliminar pensamentos e expressões negativas que pintem um quadro realista da condição humana; no entanto, acabe sendo carente nos três aspectos: não é boa, verdadeira ou bela.

Pode-se ler a poesia de John Donne, pregador e poeta inglês do século dezessete, e encontrar peças seculares e sacras, mas as anteriores glorificam a Deus abrindo os olhos do leitor às maravilhas da criação, enquanto as últimas glorificam a Deus pelo louvor e gratidão diretos por sua obra salvadora em Cristo, Há sonetos nos quais não encontramos referência a Deus ou tópicos religiosos, mas Donne não acreditava que por isso fosse secular em sua visão do mundo. Donne não precisava justificar que suas poesias fossem boas usando referências a Deus assim como Deus não precisa justificar que suas árvores, pedras, montanhas, vales e criaturas fossem boas carimbando seu nome sobre todas as coisas. Herbert e Milton são outros exemplos disso. John Bunyan escreveu O Peregrino numa época em que muitos cristãos se inspiravam em teologia reformada e alegorias da Renascença. O Fairy Queene, de Spenser, foi outro exemplo disso, e sem dúvida Bunyan foi influenciado por essa maravilhosa alegoria. Mas até mesmo esses escritores que escreveram alegorias especificamente cristãs reconheciam que não era apenas para oferecer uma visão cristã da ficção popular. Não se promoveu como ficção geral, mas, como as parábolas do Senhor, tinha o propósito de iluminar através da alegoria o que outros tinham tentado explicar através de tratados e sermões doutrinários. Era boa teologia e boa alegoria porque não tentou fazer mais do que era capaz, e as histórias podiam permanecer por si mesmas como boas histórias. Séculos de crítica literária insistem em classificá-los como clássicos da literatura ocidental.

Por que hoje tantos insistem que os cristãos escrevam, apresentem ou apreciem somente arte e música “cristã”? E por que tanto do que é especificamente cristão é tão medíocre? Reconheço que esses julgamentos são gerais e que há artistas cristãos tentando mudar essa tendência, mas a generalização parece justificável, dado às tendências principais na música contemporânea.

A má teologia leva à má arte, e uma teologia que só tem espaço para “Tudo posso naquele que me fortalece” e não admite “desventurado homem que eu sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?” só produzirá arte “vitoriosa” a que faltam honestidade e verdade, duas qualidades que se espera ver especialmente no cristão, e demonstradas ainda menos nas páginas agradáveis das Escrituras. Ironicamente, pode-se encontrar mais que seja pelo menos verdadeiro num conto de ficção que destaque o desespero de um existencialista em face à vida sem Deus do que numa ficção cristã de tipo “guerra nas estrelas” que relata batalhas cósmicas decididas pelas criaturas ao invés de pelo Criador.

Deve-se fazer mais uma ressalva. Temos argumentado que é permissível o cristão ler, assistir ou escutar alguma coisa com a qual discorde. Ademais, até mesmo a Bíblia contém o bem e o mal, verdade e erro (embora não apresente o mal como bem e o erro como verdade): a Bíblia não tenta encobrir a escuridão da condição humana, até mesmo da condição dos crentes. Mas há uma diferença entre um filme como Atração Fatal, que nos deixa aterrorizados com o mal do adultério, e um filme como Superman ou Batman, no qual o herói é seduzido e a pressuposição é que “até mesmo os super-heróis são infiéis”. Contudo, muitos cristãos que não permitiriam a seus filhos assistirem o primeiro não tiveram dificuldades em mandá-los ver os outros dois. Tombstone talvez tivesse sua parcela de violência do velho oeste, mas era uma excelente história sobre caráter, amizade e lealdade. O romance de Steinbeck, A leste do Éden, está repleto de mal moral, mas o mal é repulsivo. Mas no livro de Hemingway, Por quem os sinos dobram, o personagem principal encontra significado no sexo ilícito.

Destes exemplos, e muitos outros, vemos que discernir “o verdadeiro, o bom e o belo” pode ser uma coisa complicada. Mas vale à pena, e mais importante, é ordenado pelas Escrituras (Filipenses 4:8).

 

 

Autor: Michael Horton

Trecho extraído do livro O Cristão e a Cultura, pág 111-124. Editora: Cultura Cristã

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.