Os cinco significados da palavra “Igreja”

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Na Bíblia, a palavra “igreja” (ekklesia) tem uma variedade de significados distintos, porém intimamente relacionados. De fato, pode-se afirmar que os cinco sentidos de ekklesia são a base teológica e exegética do governo da igreja presbiteriana (o que será discutido adiante com mais detalhes).

Em primeiro lugar, os teólogos distinguem entre igreja visível e invisível. Como declarado na Confissão de Westminster (25:1,2), a igreja invisível “consiste do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos num só corpo, sob Cristo, seu cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as coisas”. A igreja visível, por outro lado, consiste de membros batizados em todas as congregações locais “pelo mundo inteiro”.

Portanto, a igreja invisível é composta dos eleitos, o corpo completo das pessoas, seja nos céus ou na terra, que tenham sido ou serão unidas salvificamente a Cristo (Mateus 16.18-19). Elas constituem a verdadeira igreja de Cristo, a sua noiva, aqueles pelos quais ele morreu (Efésios 5.25; Atos 20.28). Nas palavras de Calvino, em seu Catecismo de 1536 e 1541: “O que é a igreja? O corpo e a sociedade dos crentes que Deus predestinou para a vida eterna”. Nesse sentido, a igreja não pode restringir-se a uma denominação ou limitar-se a um povo ou congregação. Os crentes em Cristo são membros da igreja universal do Deus Todo-Poderoso, que transcende povos, gênero e nacionalidade. Os membros da igreja invisível são visíveis para Deus, que é quem sonda os corações (1 Samuel 16.7; Apocalipse 2.23); porém não são necessariamente visíveis para nós (1 Timóteo 5.24-25).

Há outro sentido em que a palavra “igreja” é usada quando se refere à “igreja visível” (Atos 7.38; 1 Coríntios 1.2). Nessa outra concepção, “igreja” é identificada com os membros que fizeram uma aceitável profissão de fé em Cristo, que se separaram do mundo pelo batismo, que participam da ceia do Senhor, cuja vida manifesta santidade e obediência à Palavra de Deus, que se submetem à disciplina da igreja, que são fiéis à Grande Comissão. Como lemos na Confissão (25:2):

A Igreja visível, que também é católica ou universal, sob o Evangelho [NT] (não sendo restrita a uma nação, como antes sob a Lei [AT]) consiste de todos aqueles que, pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos; é o Reino do Senhor Jesus, a casa e família de Deus, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação.

Algumas vezes a igreja visível é citada como a igreja militante, como envolvida numa batalha espiritual com as forças do mal (Efésios 6.10-18). Quando um verdadeiro membro (i.e., regenerado) da igreja visível morre e vai estar com o Senhor, ele se torna membro da vitoriosa igreja triunfante. Os verdadeiros membros da igreja visível são também membros da igreja invisível. Porém, há os que estão na igreja visível que não são salvos (Mateus 7.21-23; 25.1-13). Isto é, a igreja invisível não coincide com o rol de membros de várias igrejas visíveis. Essa é a razão pela qual Agostinho falou da igreja visível como sendo um “corpo misto” de eleitos e não eleitos. Há, obviamente, alguns fora da igreja visível que são eleitos de Deus. Porém Deus estabeleceu os “meios ordinários de salvação” dentro da sua igreja visível. Ser membro da igreja visível nunca deveria ser visto de modo leviano, como se alguém acreditasse que estar na igreja visível seja uma salvaguarda suficiente para perseverar em santidade.

O terceiro uso de ekklesia tem a ver com a congregação local, “a igreja sobre a pedra angular”. Aqui “igreja” significa um corpo dos que professam o Senhor Jesus Cristo em qualquer lugar, junto com seus filhos, unidos todos sob os presbíteros, na adoração e culto ao Deus triúno conforme sua Palavra e para sua glória (At. 14.23; Romanos 16.3-5; 1 Coríntios 16.19). Essa é a congregação local. A igreja de Deus é apenas uma, mas também muitas.

Apesar de as congregações locais não serem autônomas e independentes, “totalmente” completas em si mesmas sem qualquer conexão ou dependência com toda a igreja visível, contudo a Bíblia não fala delas como “partes do corpo” ou “filiais da igreja”. Pelo contrário, é dito de cada uma como sendo “a igreja” ou “o corpo”, enfatizando o fato de cada assembleia possuir um tipo de completude em si mesma (1 Coríntios 1.4-9). Nesse sentido, Berkhof escreveu: “Toda igreja local é uma igreja de Cristo completa, plenamente equipada com tudo que se requer para o seu governo. Não há absolutamente necessidade de se lhe impor nenhum governo de fora”.

Em quarto lugar, o termo “igreja” também significa um número de congregações locais associadas sob uma confissão de fé comum e um governo comum de igrejas (Atos 8.3; 9.31; Gálatas 1.22; Filipenses 3.6; 1 Coríntios 12.28). Essa estrutura conectada, organizada e confessionalmente relacionada de igrejas locais no Novo Testamento também implicava no fato de que sobre a Terra há uma igreja única, visível e universal, da qual todos os crentes fazem parte (Hebreus 12.22-24).

Em Atos 8.1, vemos os cristãos em Jerusalém descritos como “a igreja em Jerusalém”. Certamente essa “igreja” era composta de mais de uma congregação naquela cidade, uma vez que o número de convertidos em Jerusalém (bem como a variedade das línguas — Atos 2.6), mencionados em Atos, torna possível pensar que eles poderiam reunir-se em congregações locais nas casas dos fiéis.

Além disso, Atos 6.1-2 demonstra esse fato. O primeiro versículo nos diz que surgiu um problema porque o número dos discípulos “multiplicou-se”. O versículo dois continua informando-nos que era necessário aos doze ministros separados (os apóstolos) permanecerem estritamente ocupados na obra de pregação do evangelho. Como aponta o versículo quatro, era costume dos apóstolos entregarem-se exclusivamente à “oração e ao ministério da palavra”. Se fosse o caso de haver uma única congregação na cidade de Jerusalém, seria difícil imaginar que doze homens não tivessem encontrado tempo para “servir às mesas” (v.2) em favor das viúvas. Mas se houvesse numerosas congregações, então a objeção de que simplesmente não tinham tempo para esse tipo de trabalho, sem que fosse em detrimento do chamado deles, faria todo o sentido.

Também é significante o fato de que os apóstolos não estavam simplesmente interessados em ver seus próprios números crescerem, mas queriam homens aos quais fosse dada essa tarefa em contrapartida à pregação da Palavra e dos sacramentos. É claro que seis homens não poderiam realizar sozinhos todo o trabalho, então não foram instruídos a fazer todo o trabalho, mas foram postos como “encarregados desse serviço” (v. 3, epi tes chreias tautes). Isso indica a possibilidade bem real de que a distribuição diária [de alimentos] fosse muito maior que uma distribuição da qual apenas seis homens pudessem cuidar sem alguma assistência. Três mil adultos foram batizados no dia do Pentecostes em Jerusalém, conforme Atos 2. O Senhor aumentava-lhes o número diariamente (Atos 2.47). Milhares de judeus criam em Jesus ali (Atos 21.20). Todos esses números nos ensinam, não que houvesse uma monstruosa mega-congregação reunindo-se num único local em Jerusalém; porém, que havia uma pluralidade de congregações na cidade, conectadas como um único corpo sob uma mesma fé comum e governo, e chamadas de “a igreja em Jerusalém” (Atos 8.1, veja também 2.47; 14.23; 15.2, 4, 6; 20.17).

Essa verdade bíblica em relação à estrutura e unidade organizacional das congregações locais é chamada de “conectividade”. Nenhuma congregação local é plenamente autônoma, no sentido de estar isolada de todas as demais congregações. A igreja de Cristo é uma confederação de igrejas.

Para demonstrar nossa unidade em Cristo, e seguir o modelo da igreja na Bíblia, as congregações têm de estar organizacionalmente conectadas entre si, sem trair a integridade de nenhuma congregação; sob uma mesma confissão de fé e forma comum de governo da igreja por meio do pastoreio dos presbíteros (Atos 20.28).

Esse princípio da “conectividade” ou “associação” repousa sobre a base da instituição da igreja e está presente em todo o sistema da igreja apostólica. Indivíduos cristãos e famílias, ligados entre si formando uma igreja (Romanos 16.3-5); presbíteros individualmente ligados entre si formando um presbitério, i.e., um conselho, na igreja local (Atos 14.23); e as congregações e seus presbíteros numa região particular estão ligados entre si formando um presbitério regional (1 Timóteo 4.14). Quando, num país, todas as congregações e seus presbíteros estão ligados entre si com propósitos eclesiásticos, isso é chamado de assembleia geral (Hebreus 12.22-24).

Finalmente, “igreja” significa um corpo de cristãos em qualquer localidade representados pelos presbíteros (Mateus 18.17; 1 Coríntios 5.4). No Antigo Testamento, quando se reuniam numa “sessão” oficial, os anciãos de Israel representavam toda a congregação diante de Deus, bem como representavam a Deus e a seu pacto com Israel. Dirigir-se aos anciãos de Israel era dirigir-se a toda a congregação do Senhor. De fato, quando se reuniam numa sessão oficial, esses anciãos poderiam dizer que eram a congregação de Israel ou, representativamente, os filhos de Israel (Êxodo 3.13-18; 4.29-31; 19.7-8).

Em Apocalipse, capítulos 4 e 5, toda a igreja de Cristo está reunida ao redor do trono de Cristo por meio de seus representantes: os vinte e quatro anciãos, i.e., os doze patriarcas do Antigo Testamento e os doze apóstolos do Novo Testamento. Mateus 18.17 usa “igreja” nesse sentido, onde nos é dito que, como último recurso da disciplina da igreja, devemos levar um membro desviado para a “igreja”, i.e., aos presbíteros-representantes da igreja, ao parecer deles, ao conselho, à decisão de julgamento e, se necessário, à excomunhão do ofensor.

Quando enviavam suas cartas à igreja, muitas vezes os escritores apostólicos do Novo Testamento as endereçavam aos presbíteros da igreja, como representantes de toda a congregação dos membros (Filipenses 1.1). Noutras palavras, o governo bíblico da igreja é um governo representativo, i.e., um republicanismo eclesiástico — uma congregação governada por presbíteros representantes, eleitos pela congregação para ministrar a Palavra de Deus.

 

 

Autores: W. Gary Crampton e Richard  E. Bacon

Trecho extraído do livro Edificados sobre a Rocha: um estudo da doutrina da igreja. Editora: Monergismo

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.