John Knox sobre Liturgia e Adoração

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Antes da Reforma na Escócia, a Igreja Católica Romana estava tão profundamente corrompida que qualquer adoração verdadeira de Deus era quase impossível. Homens e mulheres se curvavam diante de imagens. Mártires, apóstolos e virgens eram adorados. Numerosos dias santos e festas (frequentemente pagãs na origem) estavam constantemente sendo adicionadas. A igreja na Escócia estava, portanto, numa terrível necessidade de reforma, especialmente na área da liturgia e adoração.

No tempo da necessidade da igreja, Deus levantou John Knox para liderar a Reforma Escocesa. Ele corajosamente e ousadamente enfrentou os males da Igreja de Roma. Aspirava incansavelmente limpar a igreja e a nação das corrupções da falsa adoração. Ele condenou abertamente as práticas perversas de Roma. Mostrou ao povo o que exatamente estava errado na forma de adoração de Roma, e apresentou, de forma adequada, uma liturgia e adoração bíblica.

Fazendo isto, Knox aplicou à adoração um dos solas da Reforma: o sola scriptura. Somente a Escritura deve ser o guia para a adoração. Todas as práticas e observâncias na igreja que não têm autoridade escriturística, devem ser abolidas. Ao apelar para o princípio do sola scriptura para a adoração, Knox estava confirmando o que desde então se tornou conhecido como o “Princípio Regulador do Culto”.

Knox chegou a um claro entendimento deste princípio de adoração durante seu exílio em Genebra. A perseguição severa aos Protestantes na Escócia o forçou, e muitos outros, a fugir. Embora retornando ocasionalmente a Escócia, Knox esteve em Genebra por aproximadamente seis anos, de 1554 a 1559.

Enquanto esteve em Genebra, Knox desfrutou de muita interação com o reformador João Calvino. Isto lhe deu oportunidade de discutir com Calvino não somente teologia, mas também política da igreja. Ele aprendeu muito de Calvino e tornou-se perfeitamente inteirado com as visões do mesmo sobre adoração.

Em Genebra, Knox também serviu como pastor de uma pequena congregação de ingleses exilados. Através disso, ele ganhou, aparentemente, experiência prática na forma Reformada de adoração que Calvino ensinou e estabeleceu em Genebra. E ele a aprovou. Isto é evidente a partir de uma carta que ele escreveu de Genebra para amigos na Inglaterra, na qual ele declarou, “… Não temo nem me envergonho de dizer [que aqui] é a mais perfeita escola de Cristo que já houve na terra desde os dias dos apóstolos. Em outros lugares, eu confesso ser Cristo pregado verdadeiramente; os costumes e a religião são tão sinceramente reformados que não tenho visto isso em nenhum outro lugar”.1

Knox adotou as visões de Calvino sobre adoração, perfeitamente convencido de que elas eram bíblicas e corretas. Ele entendeu que o homem, por si mesmo, não pode decidir como Deus deve ser adorado. Somente Deus pode determinar isso. Portanto, qualquer prática ou cerimônia religiosa na igreja que não tenha garantia escriturística deve ser profundamente rejeitada. Fazendo referência à Deuteronômio 4:2 e 12:8, Knox coloca isto desta forma: “Não fareis tudo o que bem parece aos seus olhos para o Senhor teu Deus, mas o que o Senhor teu Deus te ordenou; não acrescentareis nada; nem diminuireis dela”. O resultado da estadia de Knox em Genebra foi que ele retornou a Escócia decididamente a fazer as coisas como Calvino as havia feito em Genebra. Através de escritos, debates e especialmente pregações, ele começou a implementar os princípios Reformados de liturgia e adoração.

Knox era um pregador poderoso. “Ele colocava mais vida em seus ouvintes a partir do púlpito em uma hora do que seiscentas trombetas”.2

Mesmo quando estava velho e tinha que ser assistido ao púlpito, ele ainda se tornava tão animado que, segundo alguns, parecia como se ele estivesse “ding the pulpit in blads” (quebrando o púlpito em pedaços) até ele sumir de sua frente. Do púlpito, portanto, ele sem medo condenou os erros da igreja de Roma e apresentou o caminho bíblico da adoração.

Um exemplo disso é um sermão que ele pregou em St. Andrews, logo após o seu retorno de Genebra. A audiência de Knox consistia de muitos homens influentes, incluindo nobres e sacerdotes. Nem todos eram a favor da Reforma, mas isso não o dissuadiu. Ele pregou sobre a limpeza de Jesus do templo. Durante seu sermão, ele fez direta aplicação ao papado. Ele descreveu e condenou, sem reservas, a corrupção que o papado tinha introduzido na igreja. O sacerdócio de Roma, disse, eram simonistas (N.T.: de simonia, compra ou venda ilícita de coisas espirituais), vendedores de perdão, colecionadores de relíquias e encantos, exorcistas e traficantes dos corpos e almas dos homens.

A adoração de Roma, de acordo com Knox, consistia de incontáveis “invenções papais”. Era inventada por homem e, dessa forma, grandemente desonrante e desagradável a Deus. Portanto, “a ira e a terrível maldição de Deus é declarada cair sobre todos aqueles que ousam tentar adicionar ou diminuir qualquer coisa em Sua religião.”3

De acordo com Knox, permitir aos homens determinar o que pode e o que não pode ser incluído na adoração abre o caminho para idolatria. Isso foi verdadeiro, especialmente no caso da missa. Em A Vindication of the Doctrine That the Sacrifice of the Mass Is Idolatry (Uma Vindicação da Doutrina de que o Sacrifício da Missa é Idolatria), Knox declara: “Toda adoração, honra ou serviço inventada pela mente do homem na religião de Deus, sem Seu expresso mandamento, é idolatria. A Missa foi inventada pela mente do homem, sem qualquer mandamento de Deus; portanto, ela é idolatria” e “blasfema à morte e paixão de Cristo.”4

Por meio da insistência de Knox sobre a adoração biblicamente baseada e seus labores diligentes em proclamar esta verdade, Deus produziu uma reforma na adoração na Escócia. A falsa adoração de Roma foi abandonada e a verdadeira adoração de Deus foi restaurada. Os ídolos mortos de Roma foram substituídos pela pregação viva da Palavra. E somente aqueles elementos de adoração que a Escritura prescrevia foram admitidos, tais como oração, a leitura e pregação das Escrituras, o cântico dos Salmos e a administração apropriada dos sacramentos.

Knox escreveu Book of Common Order (Livro da Ordem Comum), frequentemente referido como “A Liturgia de Knox”. Este livro foi aprovado e adotado pela Assembléia Geral em 1564, e usado na Escócia até o diretório de Westminster para adoração aparecido em 1645.

A liturgia de Knox foi baseada largamente naquela da congregação Inglesa que ele pastoreou em Genebra, seguindo as mesmas regras gerais e conteúdo. No prefácio deste livro ele declara: “Nós, portanto, apresentamos a vocês, que desejam o aumento da Glória de Deus, e a Simplicidade pura de Sua Palavra, uma Forma e Ordem de uma Igreja Reformada, limitada dentro do Compasso da Palavra de Deus, que nosso Salvador nos deixou como única e suficiente para o governo de todas as nossas ações por ela”.

Com respeito aos sacramentos, Knox mostrou que somente aqueles sacramentos que foram instituídos por Cristo são válidos. “Para que os Sacramentos sejam corretamente administrados, julgamos duas coisas serem indispensáveis: A primeira, que sejam administrados por ministros fiéis, os quais afirmamos serem somente eles que foram designados para a pregação da Palavra. A outra, que sejam administrados em tais elementos, e de tais maneiras, como Deus estabeleceu; de outra forma, afirmamos que eles cessam de ser os Sacramentos corretos de Cristo Jesus”.5

Concernente a leitura da Escritura na adoração, Knox cria “ser de extremo proveito que as Escrituras sejam lidas em ordem, que algum livro do Velho e do Novo Testamento seja iniciado e ordenadamente lido até o fim.”6

Ele aplicou isto também a pregação. “Pulando e divagando de um lugar ao outro da Escritura, seja na leitura, ou na pregação, julgamos não ser proveitoso para edificar a igreja, como o seguimento contínuo de um texto.”7

Os ministros devem pregar a partir das Escrituras livro por livro, e capítulo por capítulo, numa forma contínua e ordenada.

As formas de oração foram incluídas na liturgia de Knox. Eles foram destinados para o uso durante os serviços de adoração. Knox deixou claro, contudo, que devia haver também lugar para as orações livres. As formas de oração eram modelos. Ninguém estava estritamente obrigado a usá-las. Os ministros, portanto, desfrutavam de liberdade na oração pública.

A própria adoração tornou-se uma atividade corporativa. A Igreja Católica Romana tinha impedido as pessoas de serem envolvidas na adoração. Agora, contudo, o latim foi substituído pelo inglês, de forma que todos pudessem entender. As Escrituras foram traduzidas para uma linguagem comum. Todas as igrejas tinham uma Bíblia em inglês e a expunham regularmente para que até mesmo aqueles que não podiam ler pudessem se beneficiar. O evangelho era proclamado com claridade e simplicidade. E os Salmos eram colocados em canções familiares de forma que as próprias pessoas podiam expressar louvores e graças a Deus.

A Confissão Escocesa de Fé expressa claramente esta opinião de Knox com respeito à liturgia e adoração. Elaborada em 1560 por Knox e outros cinco ministros, o Artigo 20 desta confissão declara que “na Igreja — como casa de Deus que é — convém que tudo seja feito com decência e ordem. Não que pensemos que a mesma administração ou ordem de cerimônias possa ser estabelecida para todas as épocas, tempos e lugares; pois, como cerimônias que os homens inventaram, são apenas temporais, e, assim, podem e devem ser mudadas quando se percebe que o seu uso fomenta antes a superstição que a edificação da Igreja”.

Esse artigo mostra que Knox e seus colegas Reformados na Escócia não estavam a favor de fazer uma forma particular de adoração obrigatória. As igrejas estavam livres para mudar sua liturgia. Mas elas não podiam mudá-la para seja o que for que lhes agradasse. Elas deviam ser governadas pelas Escrituras. A Palavra de Deus devia dirigi-las. Especificamente, a liturgia e a adoração eram para serem governadas pelos dois princípios apresentados em 1 Coríntios 14, a saber, que todas as coisas devem ser feitas “decentemente e com ordem” (v. 40), e que todas as coisas devem ser feitas para “ edificação” (v.26).

A igreja de hoje faria bem em levar no coração e colocar em prática as visões bíblicas de John Knox com respeito à liturgia e adoração. Porque novamente hoje muitas “invenções feitas por homens” têm se infiltrado nos serviços de adoração de muitas igrejas. Knox corretamente apontou que isto se eleva à idolatria. Deve ser condenado e abandonado. Somente o que Deus ordena pode ser incluído na adoração. Que possamos sempre, pela graça de Deus, manter e praticar a adoração bíblica.

 

 

NOTAS:

  1. Charles Baird, The Presbyterian Liturgies (As Liturgias Presbiterianas), Grand Rapids: Baker Book House, 1957, p. 97.
  2. Philip Schaff, Creeds of Christendom (Credos do Cristian- ismo) , Grand Rapids: Baker Book House, 1990, vol. I, p. 677.
  3. John Knox, True and False Worship (Adoração Verdadeira e Falsa), Dallas: Presbyterian Heritage Publications, 1994, p.36.
  4. Knox, True and False Worship (Adoração Verdadeira e Falsa) , pp. 22, 23.
  5. The Scotch Confession of Faith (A Confissão de Fé Escocesa) , Article 22.
  6. John Knox, The Reformation in Scotland (A Reforma na Escócia) , Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1982, p. 253.
  7. Knox, Reformation in Scotland (A Reforma na Escócia). 

 

 

Autor: Daniel Kleyn

Tradução: Felipe Sabino

Fonte: Monergismo

Marcos Frade
Marcos Frade
Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.