O conceito calvinista da Graça Comum

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O estudo da vida humana, particularmente tal como se manifesta entre os pagãos ou incrédulos, oferece um problema realmente sério. Por um lado, na Bíblia encontramos afirmações que, aparentemente, descrevem aos pagãos ou os não crentes como aborrecedores de Deus, incapazes e ausentes do desejo de fazer o bem e inclinados a toda iniquidade, ou seja, totalmente depravados. Por outra lado, entre estes pagãos e não crentes descobre-se um modo de vida que parece desmentir a avaliação bíblica. Calvino faz referência a esse tipo de vida, e ao problema que o envolve, com estas palavras tão significativas:

Se cremos que o Espírito de Deus é a única fonte de verdade, não rejeitamos, nem depreciamos esta verdade onde quer que ela se manifeste. Negaremos a luz da verdade aos antigos legisladores que promulgaram princípios tão justos de ordem civil e político? Diremos que os filósofos eram cegos em sua penetrante reflexão e na descrição científica que nos fazem da natureza? Poderemos dizer que eles, que pela arte da lógica nos ensinaram a falar de um modo consistente com a razão, estavam mesmos destituídos de entendimento? Acusaremos de loucura a todos que afanados no estudo da medicina obtiveram vantagens e benefícios para toda a humanidade? O que diremos dos matemáticos? Consideraremos as suas conclusões como devaneios de pessoas dementes? Certamente que não. Pelo contrário, leremos com grande admiração os escritos dos antigos sobre estes temas; os elogiaremos, porquanto não poderemos descobrir o caráter verdadeiramente excelente deles. E não admitiremos que tudo o que louvável e excelente procede de Deus?2

A posição calvinista sobre as obras louváveis praticada pelos incrédulos   

Como solucionaremos o problema que implica esta maldade que a Bíblia atribui ao homem não regenerado e as obras excelentes que o mesmo realiza? Destas obras excelentes não diremos que são “vícios esplêndidos”. Não podemos considera-las como produto do pecado, pois o pecado não pode produzir tão bons resultados. Calvino, depois de se referir ao que Paulo afirma em Rm 3:10-18 acerca da depravação natural de todos os homens, expõe como age o pecado no homem natural: “não há besta selvagem que possa se ver agitada por uma loucura tão descontrolada; nem rio veloz e turbulento que com tanto ímpeto transborde o seu leito.”3

Como podemos, pois, explicar estes atos louváveis que encontramos nos não regenerados? Não podemos adotar o ponto de vista pelagiano, segundo o qual se o homem assim o deseja, e como Adão antes da queda, pode fazer o bem. A Bíblia de uma maneira clara contraria esta posição. Tampouco podemos aceitar a perspectiva arminana, segunda a qual Deus concede ao homem caído suficiente graça preveniente para que este, pela própria iniciativa e decisão, pode buscar a salvação e chegar a fazer o bem. Nem mesmo podemos aceita o ponto de vista católico romano, segundo o qual, para as obras que merecem a salvação, o homem necessita da graça sobrenatural de Deus; mas, no que concerne ao homem, no plano natural, ele consegue fazer o bem – quase como ensina o pelagianismo. Segundo Lutero e Calvino, a natureza do homem se encontra num estado de tal depravação que em nenhuma esfera pode dar bons frutos. O pecado, como uma fera indomável, chegaria a destruí-lo totalmente. Se a natureza pecaminosa do homem pudesse desencadear as suas tendências, a sociedade se converteria num terrível caos. Os campos de concentração alemães e as atrocidades do comunismo demonstram o que a natureza pecadora do homem pode fazer se não é refreada pela graça comum.

Então, como podemos explicar estas obras “louváveis e excelentes” que encontramos no mundo pagão, em seres tão depravados? Calvino responde:

Em seus eleitos, Deus cura estas enfermidades, em outros lhes freia em grau suficiente para que suas efervescências não coloquem em perigo a preservação do universo. Assim, pois, que uns por vergonha e outros por temor às leis, alguns homens não caiam em intermináveis perversidades, ainda que por si mesmos sejam incapazes de livrar-se de sua impureza. Há outros que, havendo percebido que uma vida virtuosa redunda em benefício próprio, chegam a alimentar determinados desejos de moralidade. Alguns homens ainda vão mais longe, e com uma vida acima do comum, pela excelência da mesma, constituem um estímulo para os demais no cumprimento de suas obrigações. Assim Deus, por meio de sua providência, freia a perversidade de nossa natureza e impede que chegue a manifestar-se em atos externos – considerando que interiormente não haja purificado.4

O fato é que o homem natural, por mais depravado que se encontre, todavia tem a luz da revelação de Deus na natureza (Rm 1:19-32), tem uma consciência. Através do poder civil “se amortece a dissolução entre os homens” e se promove “a boa ordem e decência” na sociedade humana. Os homens são guiados pela opinião pública, possuem um sentido de valor e das vantagens da verdade, exibem certo grau de moral, buscam o belo, etc.; pese o fato de que em tudo não sejam levados nem movidos por motivos ou propósitos justos. Os homens, de alguma maneira, estão refreados de uma conduta má sempre latente em sua natureza pecaminosa – seja às vezes por temor pelo castigo ou seja movidos pelo sentido de recompensa que lhes leva a realizar certas coisas que estão em harmonia com a lei externa –, mas que são contrárias ao seu coração e natureza pecaminosa.

Os resultados da Graça Comum: podemos considerá-los como boas obras? 

Podemos concluir que, por terem atos que ao menos externamente se ajustem à lei, e ao colocar em prática estas obras louváveis e excelentes que menciona Calvino, os pagãos e incrédulos fazem realmente o bem? A resposta a esta pergunta dependerá do que entendemos por bem. Num sentido estrito, uma coisa é boa não somente quando em sua aparência externa está em harmonia com a lei, mas também quando a disposição interna do homem que a executa é pura. Por exemplo, um homem faz algo que externamente se ajusta às leis da sociedade, mas isto pode fazer para conseguir a confiança de alguém e com a intenção de roubar ou enganá-lo, uma vez que conseguiu a sua confiança. Tal ação não envolve os requisitos de uma obra verdadeiramente boa, senão que também o propósito e a disposição do sujeito precisam ser bons. Consequentemente, o bom é aquilo que procede de um coração santo, que se ajuste com a lei de Deus e que é um ato para a Sua glória. Estas ações que demandam uma disposição e um propósito puro, assim como uma manifestação externa também pura, não há pagão ou incrédulo que possa realizar. Mas vamos um pouco mais longe. Pode o crente realizar segundo estes requisitos? Novamente a nossa resposta precisa ser negativa. Sendo que nem as ações dos crentes procedem de um coração perfeitamente puro, ou são realizadas conforme motivos perfeitamente puros, o Catecismo de Heidelberg, na questão 60, do Dia do Senhor, XXIII, vai ainda mais longe. Aqui, o cristão confessa “que transgrediu seriamente todos os mandamentos de Deus, que não guardou nenhum deles, e que está inclinado a toda sorte de mal.” Estritamente falando, tanto o crente como o incrédulo não podem fazer nada bom. Tal como disse Jesus: “ninguém é bom, senão somente Deus” (Lc 18:19).

Mas a Bíblia, que atribui o bem somente a Deus, em certas ocasiões aplica o termo bom como qualificativo das ações dos homens: nos fala do cristão como “zeloso em boas obras”; de Dorcas diz que estava “cheia de boas obras” (At 9:36). Timóteo instruí aos cristãos ricos para que sejam “ricos em boas obras” (1 Tm 6:18). Os cristãos, mesmo não sendo perfeitamente santos, pelo menos têm em seus corações um princípio santo; e, ainda que não sejam perfeitamente puros em seus propósitos, têm pelo menos um princípio desta pureza. No coração do incrédulo não há este princípio santo que possa induzi-lo a realizar as suas ações; e, ainda que demonstre amor pela família e amor por aqueles que lhes amam, as suas ações ou sentimento nunca estão motivados por um verdadeiro amor a Deus ou por um desejo de viver para Ele. Assim, pois, as suas ações nunca podem ser consideradas como propriamente boas, nem ainda no sentido em que o são as ações dos cristãos.

Todavia, a Bíblia nos fala de um terceiro significado sob o qual podemos considerar as boas obras. Sejam quais forem os motivos que tenham incentivado uma ação – e ainda que seja suscitada pelo egoísmo, pelo orgulho e o temor do castigo – a ação em si, ou seja, em conformidade com a lei de Deus, vem qualificada de boa. É neste sentido que as obras de Jeú, de Amasias, Joás e outros homens maus às vezes, na Bíblia, são qualificadas como boas obras (Veja 2 Rs 10:29; 12:2; 14:3 e Lc 6:33).

Esta influência de Deus através do qual e por diferentes meios freia as paixões perversas dos homens, fazendo com que eles, ainda que não regenerados façam muitas coisas externamente boas e que são contrárias às intenções de seus corações pecaminosos, é o que o calvinista denomina de graça comum. É comum porque não vem confinada a um grupo específico, tal como procede com a graça especial, mas é uma graça que é concedida a todos os homens, ainda que não em igual medida. De modo que um crente pode ter maior grau da graça do que outro, assim, um incrédulo pode ter mais graça comum do que outro. O romano Camilo – segundo a comparação de Calvino – possuía mais graça comum do que se poderia encontrar em Catilina, o depravado senador.5

São obras da Graça Comum o resultado da Graça de Deus para com os pecadores reprovados?

Esta influência de Deus, pela qual refreia as paixões perversas dos homens e faz surgir neles obras que externamente são boas, podem realmente ser chamada Graça? O que é graça? A palavra Chen, no Antigo Testamento, e a palavra charis, no Novo, se traduzem por graça em nossa Bíblia; tem uma ampla gama de significados, alguns dos quais não vem ao caso em nosso estudo. Todavia, é importante notar que na Bíblia esta palavra pode significar: (1) A atitude do favor que Deus pode mostrar com uma pessoa; (2) com frequência esta palavra expressa a ideia de que este favor é imerecido; (3) gradativamente, a palavra indica o favor de Deus que se manifesta operando fé e conversão no coração de seu povo; (4) outras vezes significa coisas boas que devemos ao favor ou a graça de Deus.

A pergunta importante que devemos questionar é esta: Deus manifesta alguma graça, ou seja, certa atitude de favor, ou boa vontade, inclusive o amor aos não regenerados, aos pecadores não eleitos, aos réprobos? Começaremos dizendo que, como reprovados, como pecadores, estes nunca vem a ser o objeto do favor de Deus, senão de sua ira. Deus é glorificado no cumprimento de sua justiça no castigo eterno do ímpio. Há muitos textos na Bíblia que descrevem a atitude irada de Deus sobre o homem mal. Todavia, a mesma Bíblia mostra uma disposição de favor e inclusive de amor da parte de Deus pelos pecadores não eleitos. Em Rm 2:4 Paulo fala da bondade de Deus por aqueles que se perdem. Aqui, a palavra bondade não somente implica ações bondosas, como também descobre uma atitude de bondade para com aqueles que se refere o versículo. E isso resulta não somente pelo significado do termo grego que significa benevolência, como também pelo termo sinônimo que ali também contém paciência; e também pelo de longanimidade, e com os que se enfatiza a atitude e disposição de Deus. No Sl 145:9 lemos: “o Senhor é bom para com todos e suas misericórdias sobre todas as suas obras”. Em Lc 8:6, 35, o Senhor Jesus diz: “amai os vossos inimigos … e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é benigno para com os ingratos e maus.”

Mas como Deus pode ao mesmo tempo amar e odiar a uma pessoa? Se Ele odeia o homem mal, ao réprobo, e um dia o castigará pelos seus pecados, como é possível dizer que de alguma maneira os ama? De fato, esta pergunta provoca um grande problema aos que argumentam segundo uma lógica estritamente supralapsária, pois, segundo esta concepção, Deus, na eternidade, decidiu em seu primeiro decreto glorificar-se em dois de seus atributos: em seu amor e graça com os vasos de honra, ou seja, os eleitos; e em sua justiça punitiva sobre os vasos de ira preparados para a destruição, ou seja, os réprobos. Depois, em seu segundo decreto, Deus decidiu criar os vasos de honra e os de ira. Observe que segundo este esquema supralapsariano, os réprobos no decreto da criação foram concebidos como vasos de ira, e que sob nenhum significado são considerados como objetos do amor divino. Na concepção do infralapsarianismo, ao contrário, Deus primeiro decidiu criar aos seres humanos, e como estes são concebidos como objetos de seu amor; logo, Deus decidiu permitir a queda e salvar a alguns em seu amor eletivo, passando por alto os demais os não eleitos que, por seus pecados, se fazem réus de sua ira e castigo. Sobre esta base se pode falar de um amor de Deus para os não eleitos e pelo fato de serem suas criaturas. Um exemplo disto nos  é oferecido na experiência do pai justo cujo coração sangra por seu filho perdido cujas ações perversas exigem que seja expulso do lar.

Esta é a posição que adota Calvino ao perguntar sobre este tema:

Portanto, e de um modo maravilhoso e divino, Ele nos amou e nos odiou ao mesmo tempo. Ele nos odiou ao sermos diferentes do que Ele nos fez; mas, apesar da nossa iniquidade, não chegou a destruir eternamente sua obra em nós. Ele poderia odiar o que havíamos feito e, ao mesmo tempo, amar o que dele perdurava em nós.6

Na resposta às acusações que foram feitas sobre a sua obra: A Secreta Providência de Deus, e em réplica à primeira calúnia, Calvino disse: “as provas do amor de Deus com toda a humanidade são inumeráveis, e todas elas manifestam a ingratidão daqueles que perecem ou vão no caminho da perdição. Este fato, todavia, não constitui base sólida para negar que Deus possa delimitar o seu amor especial ou peculiar a uns poucos que, em condescendência infinita, lhe agradou escolher dentre todos os demais. Quando Deus, em seu beneplácito, decidiu adotar para si a Abraão e sua família, claramente deu a entender que sob este amor especial não incluía a toda humanidade. E, em segundo lugar, pelo fato de que Deus ama os seus escolhidos, de modo algum pode-se concluir que Ele, como justo Juiz, não tenha o direito de rejeitar aqueles que em vão desfrutam durante as suas vidas do amor e indulgência de Deus, como um amoroso Pai mostra.”7 Assim, pelos textos da Escritura e pelos ensinos de Calvino, aprendemos que Deus mostra uma atitude de favor ou de graça aos não eleitos, e que desta graça comum algum dia agravará ainda mais o seu castigo, porque não lhes levou ao arrependimento e a uma vida de entrega a Deus.

Vantagens que oferece esta concepção da Graça Comum 

Esta concepção calvinista da graça comum é de grande valor positivo. O anabatista se separa do mundo e o condena como manifestação má, em que somente operam as más artes do diabo. Para o pelagiano e o católico romano, a ciência, a arte e o bem-estar em geral do mundo são resultados do bom, que se baseia no homem natural. Mas o calvinista, em todas as coisas e em todas as partes no mundo pagão e entre os não crentes, e em qualquer avanço científico, artístico ou cultural, descobre a obra do Espírito Santo de Deus; ou seja, o vê como frutos que Deus fez adquirir realidade apesar da maldade do coração natural do homem. O calvinista reconhece com gratidão que estes frutos são resultado da graça de Deus e os reivindica para o Reino de Deus. A obrigação e a meta gloriosa de todo bom calvinista não é de separar-se do mundo, ou de se conformar-se com ele, mas que a sua missão é a de usar estes dons da graça comum de Deus para a Sua glória e para a vinda do Seu Reino.

 

 

NOTAS:

  1. Calvin, John, Institutes of the Christian Religion, vol. 1, livro 2, cap. 2, parte 15, p. 247. Tradução de John Allen. Também consulte os parágrafos 13-17 do mesmo capítulo. (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1921).
  2. Calvin, John, Institutes of the Christian Religion, vol. 1, livro 2, cap. 3, páragrafo 3, p. 263.
  3. Ibid.
  4. Ibid, p. 264.
  5. Ibid, p. 457. Citando a Agostinho.
  6. Cole, Henry, ed., Calvin’s Calvinism, a Treatise on the Eternal Predestination of God, pp. 26, 269-270 (London: Sovereign Grace Union, Henry Atherton Sec, 98 Camberwell Grove, London, Publication No. 150).

 

 

Autor: H. Henry Meeter

Trecho extraído de H. Henry Meeter, La Iglesia y el Estado (Grand Rapids, TELL, 1963), pp. 63-73. Este livro foi originalmente publicado com o título de The Basic Ideas of Calvinism.

Tradução: Ewerton B. Tokashiki

Via: Estudantes de Teologia/Academia Edu

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.