Distinções entre a Vontade de Deus

Share

Só existe uma vontade em Deus, mas a fim de que compreendamos melhor a matéria, que é complexa, costumamos distinguir este assunto sob várias óticas, usando, tanto quanto possível, os termos empregados pelas próprias Escrituras.

  1. VONTADE DECRETIVA E VONTADE PRECEPTIVA

Base teológica

Embora estas expressões não estejam literalmente colocadas nas Escrituras, é perfeitamente fácil a sua dedução.

a.1. Vontade Decretiva 

A expressão ‘”vontade decretiva” é aquela por meio da qual Deus ordena ou decreta tudo aquilo que decide que tem de acontecer, seja por meio da sua agência direta, ou através da agência irrestrita das suas criaturas racionais. Esta vontade só pode também ser chamada de secreta quando não sabemos nada a seu respeito. Há inúmeras referências nas Escrituras que indicam um decreto de Deus que ele já deu a conhecer aos homens. Nesse caso, a vontade não é mais secreta, embora continue sendo expressão do seu decreto.

À vontade decretiva pertencem todas as coisas que Deus decide efetuar imediatamente (sem o uso de meios) ou mediatamente, isto é, através de seus instrumentos secundários, que são as suas criaturas racionais, e essas coisas acontecem com absoluta certeza. Nessa vontade Deus não permite ser resistido. Para executar essa sua vontade ele não consulta a opinião dos homens. Os homens não têm participação nessas suas decisões. Com ela nós devemos nos alegrar, porque essa vontade de Deus “é perfeita, boa e agradável” (Rm 12.2) e por ela devemos dar graças (1Ts 5.18).

a.2. Vontade Preceptiva

A expressão “vontade preceptiva” (que diz respeito aos preceitos) é a regra de vida que Deus tem apontado para suas criaturas morais trilharem, indicando os deveres que elas têm que cumprir, ou que ele impõe sobre elas. Essa vontade está revelada na lei e no evangelho. É a norma de conduta estabelecida por Deus para todas as suas criaturas morais, sejam elas crentes ou não. Nesta vontade Deus prescreve o que nós devemos fazer. Contudo, é necessário entender que nem tudo o que está revelado diz respeito aos preceitos de Deus para conosco, mas também refere-se a decretos que ele revela, de antemão, sobre fatos que já aconteceram ou que ainda irão acontecer.

Base bíblica

b.1. Vontade Preceptiva de Deus

Ela está explícita em inúmeros textos das Escrituras. Abaixo estão alguns exemplos, com pequenos comentários:

Sl 40.8 – … agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração está a tua lei.

Observe que este verso é colocado nos lábios de Cristo em Hebreus 10.5-7. Cristo tinha por meta fazer o que estava prescrito para ele como regra de vida. Esta vontade sempre está relacionada com a obediência à lei. O Senhor tinha prazer em fazer essa vontade.

2 Cr 27.6 – Assim, fotão se foi tornando mais poderoso, porque dirigia os seus caminhos segundo a vontade do Senhor, seu Deus.

Jotão era rei de Judá, porque reinava em Jerusalém, no sul . Como um ungido de Deus, ele possuía conhecimento da vontade de Deus, que havia aprendido pela leitura das Escrituras (Pentateuco). Assim, a sua vida pessoal era norteada pelos preceitos do Senhor seu Deus, o que o tornava ainda mais poderoso e cheio de autoridade. O conhecimento dos preceitos de Deus e a obediência a eles lhe davam autoridade diante do povo.

Sl 143.8, 10 – Faze-me ouvir pela manhã da tua graça, pois em ti confio; mostra-me o caminho por onde devo andar, porque a ti elevo a minha alma… Ensina me a fazer  a tua vontade, pois  tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terreno plano.

Há duas coisas a serem analisadas nesses versos: 1) O salmista pede orientação a Deus para seguir o caminho correto. A vontade de Deus é algo que se aspira, pois o salmista disse: “mostra-me o caminho…”. Ele queria trilhar os caminhos corretos, e a única luz que o salmista tinha eram as Escrituras, pois ele diz: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz, para os meus caminhos” (Sl 119.105). Deus nos mostra o caminho somente através das Escrituras. Esta é a vontade revelada que devemos seguir. 2) O salmista mostra o seu desejo de aprender a fazer a vontade de Deus. Ele disse: “Ensina-me a fazer a tua vontade”. Para que aprendamos a fazê-la, é necessário primeiro que a conheçamos. E os preceitos do Senhor estão revelados na sua Palavra.

Mt 7.21 – Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus. Mas aquele que faz  a vontade de meu Pai que está nos céus.

Jesus está tratando de combater a religião formal, que consiste apenas de rituais, e está condenando atitudes hipócritas. O que ele está querendo ensinar nesse verso é que só entra no reino de Deus aquele que “faz a vontade de meu Pai”, isto é, aquele que segue os preceitos de Deus numa vida de retidão. Não basta apenas aparentar religiosidade, mas, sim, obedecer à vontade do Senhor que está registrada nas Escrituras. A mesma ideia está expressa no texto de Mateus 12.50 – “Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe.” É um dever seu e meu cumprir a regra de vida para nós, para que sejamos considerados membros da família de Jesus.

Lc 12.47-48  – Aquele servo, porém, que conheceu a vontade do seu Senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites.

Muitos há no meio do povo de Deus que recebem o conhecimento da vontade do Senhor, embora não a obedeçam, nem fazem conforme o que lhes está prescrito. Note que essa vontade de Deus pode ser conhecida através das Escrituras. Não há outro meio. Além disso, aqueles servos que não observam a regra de conduta prescrita recebem a devida disciplina de Deus. Daí, a grande importância de se obedecer à Palavra revelada de Deus.

Jo 7.16, 17  – Respondeu-lhes Jesus: O meu ensino não é meu. e, sim, daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo.

Observe que a vontade preceptiva de Deus está ligada ao ensino da Palavra de Deus. Por essa razão Jesus disse para provarem se a doutrina dele era de Deus. Para que eles pudessem verificar, era necessário que conhecessem as Escrituras. Fazer a vontade de Deus, aqui, é o mesmo que conhecer a sua doutrina e obedecê-la.

Jo 9.31 – Sabemos que Deus não atende a pecadores; mas, pelo contrário, se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade , a este atende.

Contrariamente aos pedidos dos pecadores, as orações dos filhos de Deus, que são os tementes a Deus, são respondidas de um modo afirmativo pela simples razão de estes fazerem a vontade de Deus. Essa vontade está explicitada nas Escrituras. A sua prática é a obediência a elas. E a única obediência que devemos a Deus é a obediência aos seus preceitos como nossa norma de comporta­mento.

At 13.22 – E, tendo tirado a este (Saul), levantou-lhes o rei Davi do que também dando testemunho, disse: Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade.

A despeito dos seus pecados, Davi foi reconhecido como um homem que obedeceu a vontade de Deus como expressão da regra de vida que ele impôs sobre os homens. Um homem segundo o coração de Deus é um homem obediente. Nenhum homem obedece aos decretos de Deus, pois estes o Senhor realiza, mas cabe ao homem obedecer os seus preceitos, que neste verso são o mesmo que “fazer a minha vontade”.

Rm 2.17, 18 – Se, porém, tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei. e te glórias em Deus; que conheces a sua vontade e aprovas as cousas excelentes, sendo instruído na lei

Os judeus possuíam uma grande responsabilidade perante Deus, pois eles haviam recebido os oráculos de Deus. Perceba que o texto fala na vontade de Deus e a iguala à sua lei. Eles eram instruídos na lei, conhecendo a vontade de Deus. Essa vontade de Deus é a preceptiva, pois mostra como os homens deve­riam segui-la para o bem de suas vidas. Contudo, mesmo aprovando as coisas excelentes, muitos dos judeus não foram obedientes à vontade de Deus em sua vida. Eles quebraram muitos preceitos, como é próprio dos homens de todas as gerações.

Ef 6.6, 7 – … não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus; servindo de boa vontade. como ao Senhor, e não como a homens.

Observe que o termo “servos” aqui implica que essas pessoas estão sob autoridade e possuem conhecimento de uma ordem expressa. A única maneira de se entender essa ordem é através de leis objetivas que lhes são dadas. Como fariam a vontade do Senhor se não a conhecessem? Essas leis são conhecidas porque estão prescritas na Santa Escritura. E os servos devem fazer essa vontade de Deus, mas de maneira sincera, de coração, como se fosse diretamente para o Senhor.

1 Ts 4.3 – Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição.

Deus requer dos seus filhos uma vida de acordo com o seu padrão moral estabelecido na sua Palavra. A santidade do cristão é fundamental para que ele seja agradável diante de Deus. Isto é o que Deus tem prescrito para a vida de todos os seus filhos, como norma de vida. A santificação inclui a obediência aos preceitos de Deus.

1 Ts 5.18 – Em tudo dai graças, pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.

Observe que a oração de ação de graças é uma das regras de sua vontade preceptiva que Deus estabeleceu para o seu povo. A ação de graças é um preceito para a nossa vida diária.

1 Pe 2.15 – Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos.

A prática do bem é preceito para a sua vida. Ela é estimulada do começo ao fim das Escrituras. Tudo o que Deus prescreve para os seus filhos é a prática do bem. Quando o cristão obedece os preceitos de Deus, ele faz calar o adversário, que não tem nada de indignidade que dizer contra ele. Quando o cristão cumpre os preceitos de Deus é dito que ele faz a vontade de Deus.

1 Pe 4.1, 2 – Ora, tendo Cristo sofrido na carne, amai-vos também vós do mesmo pensamento; pois aquele que sofreu na carne deixou o pecado, para que, no tempo que vos resta na carne, já não vi vais de acordo com as paixões dos homens, mas segundo a vontade de Deus.

Note que a vontade de Deus, como norma de vida, é a vida de santidade, que é o oposto a “paixões dos homens”.

1Jo 2.17 – Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus, permanece eternamente.

Esta vontade preceptiva ou revelada está ao alcance de todos, pois “não está longe de cada um de nós” (Dt 30.9, 10; Rm 10.8), e nela estão prescritos todos os deveres do homem e representa para ele o caminho no qual este pode gozar as bênçãos de Deus.

Observação: Esta vontade preceptiva nem sempre é feita. Nem tudo o que Deus requer de nós como norma de vida é obedecido.

Você conhece a vontade de Deus? Sim, se você lê o que está escrito na Palavra de Deus. Você faz exatamente todas as coisas que Deus quer de você? Não. Esta vontade, portanto, pode e, frequentemente, é resistida.

b.2. Vontade Decretiva de Deus

Há uma gama enorme de textos que falam da vontade decretiva de Deus, em distinção à sua vontade preceptiva. Essa vontade decretiva infalivelmente acon­tece e Deus pode operar imediata ou mediatamente, ou seja, ele opera direta­mente ou usa meios ou causas secundárias para a consecução da sua vontade.

Vejamos alguns exemplos nas Escrituras:

2 Cr 22.7 – Foi da vontade de Deus que Acazias, para sua ruína , fosse visitar a Jorão, porque vindo ele, saiu com Jorão para encontrar-se com Jeú, filho de Ninsi, a quem o Senhor tinha ungido para desarraigar a casa de Acabe.

Acazias era um mau rei porque andou nos caminhos da casa de Acabe e “porque sua mãe [Atalia] era quem o aconselhava a proceder impiamente” (v. 3). A morte de Acazias por Jeú foi parte das duras decisões de Deus contra a casa de Acabe. Tudo o que veio a acontecer a Acazias (vv. 8, 9) era produto dos desígnios estabelecidos por Deus, de forma que os seus propósitos foram cumpridos na vida de Acazias, como expressão de sua vontade decretiva (ler 2Cr 22. 1 -9).

Sl 103.20, 21 – Bendizei ao Senhor, todos os seus anjos, valorosos em poder, que executais as suas ordens e lhe obedeceis à palavra. Bendizei ao Senhor todos os seus exércitos, vós, ministros seus, que fazeis a sua vontade.

Os anjos não estão debaixo da vontade preceptiva de Deus como estão os seres humanos. Eles obedecem à palavra de Deus, mas essa palavra não é a Escritura, porque esta é só para os homens. Essa palavra é a determinação divina para a vida dos homens. Os anjos são ministros de Deus para executar os seus decretos na vida do mundo e dos homens. O escritor aos Hebreus fala que os anjos “são todos espíritos ministradores enviados para serviço, a favor dos que hão de herdar a salvação” (Hb 1.14). É exatamente para esse serviço que eles recebem a “palavra”. Eles cumprem os decretos de Deus na vida dos homens. É nesse sentido que eles fazem a vontade de Deus, e Deus faz a sua vontade de maneira mediata, isto é, através dos seus ministros.

Is 46.9-1 1 – Lembrai-vos das cousas passadas da antiguidade: que cu sou Deus e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princí­pio anuncio o que há de acontecer, e desde a antiguidade as cousas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé ,f arei toda a minha vontade ; que chamo a ave de rapina desde o Oriente, e de urna terra longínqua, o homem do meu conselho. Eu o disse, eu também o cumprirei; tomei este propósito,  também o exultarei.

A força inamovível do seu decreto está no fato de ele ser o único Deus! O “seu conselho permanecerá de pé”, isto é, não é mudado, porque ninguém é capaz de fazer nada contra ele. Ele controla todos os seres vivos, homens ou animais, para que os seus propósitos sejam atingidos. Ninguém pode resistir a uma decisão decretiva de Deus. É por isso que ele diz: “tomei este propósito, também o executarei”. Ele decide fazer e faz, e ninguém contraria a sua vonta­de. Ele faz toda a sua vontade.

Is 53.10 – Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará  nas suas mãos.

A obra de redenção através de Jesus Cristo, na cruz, foi expressão da vonta­de decretiva de Deus. A morte de Cristo foi uma obra do desígnio eterno de Deus (At 2.23) e não produto do acaso. Ela foi predeterminada. A vontade decretiva de Deus foi feita na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Por isso é dito que a obra de redenção de Cristo fez esta vontade de Deus prosperar.

Dn 4.35 – Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; nem há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes.

Neste verso vemos Deus trabalhando mediatamente. O exército dos céus (que aqui provavelmente se refere aos anjos) é o instrumento através do qual Deus executa a sua vontade decretiva. Todavia, nenhum ser humano, seja pequeno ou grande, pode impedir o que Deus decide e se põe a fazer. O exercício desta vontade independe da vontade dos homens. Estes nada podem fazer contra a vontade decretiva de Deus, nem tampouco questioná-la.

Mt 6.10 – … venha o teu reino, faça-se a tua vontade , assim na terra como no céu.

Como Deus é Rei nos céus, assim ele é Rei na terra. O Reino de Deus tem sempre o seu cumprimento lá em cima ou cá na terra. O que Jesus nos está ensinando  nessa oração é pedir para que Deus cumpra os seus propósitos  de santidade e de justiça, propósitos esses que já são realizados nos céus.

Mt 26.42 – Tornando-se a retirar-se, orou de novo, dizendo: Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba,faça-se a fila vontade.

Era um decreto de Deus que Jesus passasse por aquilo que ele passou ali no Getsêmani. Em sofrimento e grande agonia Jesus se conforma à poderosa vontade de seu Pai. Como homem que era, o Redentor tinha o desejo de escapar da dor (porque isso é constitucional  num ser humano), mas ele sabia que havia urna vontade divina sobre a vontade humana. Corno Deus que era, o Redentor entendeu que a vontade de Deus era inevitável para que houvesse a redenção do peca­dor. Essa vontade decretiva teria que ser inquestionável mente cumprida, porque estava escrito que ele seria o servo sofredor, a quem Deus iria pisar com ira (Is 53).

Jo 4.34 – Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra.

Perceba que a vontade de Deus que Jesus fazia não tem nada a ver com a vontade preceptiva, embora esta ele a fizesse também. Neste verso, Jesus está tratando da realização do plano redentor de Deus para os homens. A vontade decretiva de Deus era a redenção de pecadores, e essa obra foi executada na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Tudo o que aconteceu a Jesus foi o que ele fez corno cumprimento dos planos redentores de Deus.

Jo 6.39. 40 – E a vontade daquele que me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu. De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.

A salvação do seu povo não é apenas um desejo de Deus que poderia ou não ser realizado. Antes, foi uma decisão divina firme, resoluta, de que Cristo, em cumprimento à vontade de seu Pai, não perdesse nenhum só, mas que os conduzisse à eterna glória. O decreto foi cumprido: todos aqueles que foram entregues a Cristo pelo Pai foram salvos, estão sendo salvos, ou serão salvos.

At 21.1 1, 13, 14 – e, vindo ter conosco (Ágabo), tomando o cinto de Paulo, ligando com ele seus próprios pés e mãos, declarou: Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus em Jerusalém farão ao dono deste cinto, e o entregarão nas mãos dos gentios … Então ele respondeu: Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer cm Jerusalém, pelo nome do Senhor Jesus. Como, porém, não o persuadimos, conformados, dissemos: Faça-se a vontade do Senhor.

Os cristãos de Cesaréia tiveram notícia pelo profeta Ágabo que Paulo iria ser tirado deles, ser preso e sofrer por causa de Jesus Cristo. Paulo os conforta dizendo de sua prontidão até para morrer. Então, percebendo a firmeza de Paulo, e que ele não seria demovido de seu intento de pregar em Jerusalém, disseram de si para si mesmos: “Que seja feita a vontade do Senhor”. Esta é a resignação daqueles que entendem que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. A vontade decretiva do Senhor é sempre feita e há a necessidade de nossa conformação a ela. É assim que procedem todos quantos o amam e que são chamados segundo o seu propósito.

Rm 1.9, 10 – … faço menção de vós em todas as minhas orações, suplicando que, nalgum tempo, pela  vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de visitar-vos.

Paulo era um obreiro atencioso para com as suas igrejas. Orava por elas constantemente. Por certo, ele recebia cartas pedindo que fosse visitá-las. Paulo gostava de estar com elas, mas entendia que ele não possuía controle sobre o destino de sua vida. Orava a Deus motivado pelo desejo de visitar suas igrejas, mas compreendia que só iria pela “vontade de Deus”. Ele já havia tentado fazer esse tipo de viagem por sua própria conta, e havia sido impedido por Deus duas vezes (ver At 16.6, 7). Ninguém pode dizer com certeza que irá a tal e tal lugar, a menos que isso seja a expressão do desígnio divino (ver o ensino de Tiago 4.13-16 que combina exatamente com o de Paulo).

Rm 8.27 – E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Delis é que ele intercede pelos santos.

Por que não podemos entender esta “vontade” como preceptiva? Porque o Espírito não está debaixo dos preceitos de Deus. Estes só são para os homens. O Espírito sempre executa uma determinação divina. Quando ele intercede pelos santos é porque isto é uma decisão divina que tem que ser feita. Certamente, quando essa vontade decisória de Deus é realizada por ele próprio, os crentes são altamente beneficiados.

Rm 9.19 – Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?

Quando o assunto da vontade soberana de Deus entra em cena, os homens sempre se recusam a tratar dele, porque rechaçam o modus operandi de Deus. Eles sempre encontram injustiça em Deus. Por isso perguntam: “De que se quei­xa ele ainda?” como se dissessem: “O que Deus quer mais, se ele já exerce a sua misericórdia segundo a sua vontade. Por acaso, alguém pode ir contra o que ele faz? Alguém já resistiu a sua vontade?” Esse não é um reconhecimento sincero da soberania divina, mas uma crítica azeda que reflete a sua capitulação diante da vontade soberana de Deus. Novamente a impotência humana para lutar contra um desígnio de Deus! Não é sem razão que, no verso seguinte, Paulo retruca aos objetores de Deus: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?”

1 Co 1.1 – Paulo chamado pela vontade de Deus, para ser apóstolo de Jesus Cristo.

O apostolado não era apenas um desejo de Deus para Paulo, mas uma convocação ou uma vocação irrevogável. Paulo não poderia (e certamente nem queria) lutar contra o chamado divino, pois ele é eficaz. Paulo entende a sua vocação apostolar em termos de uma vontade contra a qual ele não podia lutar. Era a vontade decretiva de Deus, que o havia separado antes dele nascer e que o havia chamado por sua graça, revelando o seu Filho nele (Gl 1.15, 16). É curioso que essa expressão de Paulo é repetida em quase todas as suas cartas. O Paulo que nunca teve qualquer intenção de seguir a Cristo, depois de transformado, reconhece: “Paulo, chamado para ser apóstolo, por vontade de Deus”.

Gl 1.4 – (Jesus Cristo), o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso. segundo a vontade de nosso Deus e Pai.

É verdade que Jesus Cristo veio voluntariamente a este mundo para resgatar os perdidos que o Pai lhe havia entregue, mas a obra de “desarraigamento do mundo perverso “não era simplesmente um desejo do Pai, mas um decreto ou uma determinação dele. Paulo possuía plena consciência de que Cristo veio fazer o que fez para cumprir o decreto libertador de Deus.

Ef 1.1, 5. 11 – Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus, aos santos que vi vem em Éfeso e fiéis em Cristo Jesus… e com amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, segundo o beneplácito da sua vontade nele (Cristo), no qual fornos também feitos herança, predestina­dos segundo o propósito daquele que faz todas as cousas conforme o conselho  da  sua  vontade.

Novamente atribui o seu apostolado à vontade soberana de Deus (v. 1). Depois, nos versos seguintes ele trata a vontade soberana de Deus como causadora da predestinação de alguns para a salvação. Então, conclui, no verso 1 1 , que todas as coisas são feitas segundo o conselho soberano de Deus, que faz tudo como lhe apraz. Ele não consulta ninguém no exercício da sua vontade soberana, com relação à salvação dos homens ou outra coisa qualquer. Sua vontade é absoluta e indiscutível.

Fp 2.13 – Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.

Quando você fizer algum ato santo, justo e bom, nunca se jacte como se ele tivesse nascido no seu coração independentemente da ação de uma outra pessoa. Se você é capaz dessas ações, glorifique a Deus, porque é ele quem decide colocar em nós as intenções das coisas santas e a capacidade para realizá-Ias, conforme a sua determinação, que é chamada de “sua boa vontade”.

1Pe 3.1 7 – Porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal.

As experiências doloridas que acontecem em nossa vida não vêm simples e unicamente por causa dos nossos pecados. Algumas delas têm origem na vontade decretiva de Deus. É parte da economia divina fazer com que muitos dos seus filhos sofram. Há quem afirme com grande ênfase que é graça esse tipo de sofri­ mento (Fp 1.29). Nesse caso, é necessário que os cristãos entendam que eles têm de se portar resignadamente diante da manifestação de uma vontade superior, que é a vontade de Deus. Por essa razão, o apóstolo Pedro recomenda: “Por isso também os que sofrem segundo a vontade de Deus encomendem as suas almas ao fiel Criador, na prática do bem” (1Pe 4.19).

Ap 4.1 1 – Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder. porque todas as cousas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.

Todas as obras que são feitas fora do ser divino, as chamadas opera ad extra, devem ser entendidas corno produto da vontade decretiva de Deus. Nada do que foi feito vem a sê-lo como produto do acaso ou de geração espontânea, mas como resultado de uma vontade eterna e eficaz de Deus que faz com que tudo venha a existir, quando antes não existiam. A existência do universo é o produto de um plano elaborado na eternidade e que, juntamente com o tempo, veio a ser concretizado pela vontade poderosa e soberana de Deus.

1 Jo 5.14 – E esta é a confiança que temos para com ele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade , ele nos ouve.

Esta “vontade” neste verso pode ser entendida de duas maneiras, dependendo da abordagem ao texto. Se o autor está falando dos decretos de Deus, pedindo segundo o que ele tem determinado (decretado) para nós, certamente ele nos ouvirá. Mas se o autor está se referindo à vontade preceptiva, isto é, aos manda­mentos de Deus para nós, então, se pedirmos segundo essa vontade, ele também nos ouvirá. (Um exemplo é o pedido para amar o próximo: este é um pedido que será atendido porque é exatamente isto o que ele quer que façamos.) Pessoalmente, creio que João está falando da vontade de Deus no primeiro sentido.

Quando pedimos o que ele decidiu nos dar, certamente ele nos ouve. Por isso, algumas de nossas orações não recebem a resposta que pedimos, porque não pedimos segundo a sua vontade.

Observação: A vontade decretiva, que geralmente é secreta, sempre é cumprida, enquanto a vontade preceptiva ou revelada nem sempre é cumprida, ou melhor, ela é frequentemente desobedecida. Há, portanto, uma grande diferença entre o que Deus prescreve para que façamos e o que ele decide fazer.

  1. VONTADE DE PRAZER E VONTADE DE PROPÓSITO

Esta é uma outra distinção da expressão “vontade de Deus”, mas não pode ser igualada, em todos os seus detalhes, à primeira distinção analisada acima.

Base teológica

A vontade de propósito está ligada à vontade decretiva, enquanto que a vontade de prazer não deve ser equivalente à vontade preceptiva, porque esta indica o que o homem deve fazer e aquela o que Deus gostaria que acontecesse, mas que não depende de uma obediência do homem para acontecer. Deixe-me explicar: Essa vontade expressa o prazer e o deleite de Deus em coisas que ele gostaria que acontecessem na vida dos homens, mas que nem sempre acontecem. Esta vontade de prazer não está relacionada diretamente com aquilo que os homens devem fazer, mas é um desejo que expressa a natureza constitucional de Deus.

Este desejo, que nem sempre é satisfeito, é constitucional e não pode ser negado nele, de forma alguma. As ilustrações que se seguem abaixo servem para evidenciar o que acabamos de definir.

Base bíblica

Há vários exemplos dessa vontade de desejo afirmada nas Escrituras:

Exemplo 1

O desejo natural e espontâneo de Deus para com todos os homens está expresso em dois textos de Ezequiel:

Ez 33.11 – Dize-lhes: Tão certo corno eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho, e viva.

Ez 18.23 – Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? Diz o Senhor Deus: não desejo eu antes que ele se converta dos seus caminhos e viva?

É comum, dentro de círculos calvinistas, negar em Deus este prazer, por causa do temor da violação da doutrina da expiação limitada. Não há fundamento para esse temor, porque essa vontade de Deus, expressa nos versos acima, é constitucional nele. Deus afirma de modo claro, nos versos acima, o seu prazer de duas maneiras: uma negativa e a outra positiva. Primeiro, Deus não tem prazer na morte do perverso; segundo, Deus tem prazer na conversão do ímpio. Por não fazerem essa distinção da vontade de Deus, muitos calvinistas tentam negar o que está óbvio nas Escrituras. Faz parte da natureza constitucional de Deus não ter prazer na condenação do perverso e se comprazer na conversão deles. Ninguém pode, em sã consciência, negar essas verdades que o próprio Deus diz de si, de maneira incontestável.

Todavia, esse desejo constitucional constante em Deus nem sempre é realizado. Esse desejo constitucional é distinto da sua realização ou satisfação. Por razões desconhecidas de nós, Deus determina não satisfazer ou realizar seu próprio desejo. Está em suas mãos salvar o pecador. É ele quem efetua a regeneração nele e o ressuscita espiritualmente. É obra da soberania de Deus salvar o pecador. Ele resolveu não salvar alguns (isso tem a ver com a sua vontade de propósito, que é igual à vontade de decreto), mas o fato de ele resolver não salvar alguém não elimina o outro, que ele tenha prazer em que o pecador se converta e não tenha prazer que ele seja condenado. Isso não é contradição em Deus (que possui uma mente infinita), pois é possível esse tipo de situação em nós próprios (que possuímos mente finita). É possível para nós termos prazer em que alguma coisa boa aconteça a alguém e, todavia, por razões suficientes a nós, resolvemos não fazer nada para que isso aconteça. Algumas vezes não fazemos por incapacidade ou impotência. Aqui está a grande diferença entre nós e Deus. Não é por incapacidade ou falta de poder que Deus resolve não salvar, mas é um ato de sua soberania que não anula a sua vontade de prazer de ver ímpios convertidos ou o seu desprazer de vê-los condenados. Afinal de contas, todos os ímpios que não são convertidos são criaturas suas, e isso explica por que ele não tem prazer na condenação deles. Deus lhes aplica a condenação porque ele é justo, mas não há qualquer sugestão de que ele se alegra na conde­nação deles. Pensar isso seria uma blasfêmia contra a sua natureza e uma negação de sua vontade de prazer, que lhe é constitucional.

Exemplo 2

A vontade de prazer, que é natural e espontânea em Deus para com todos os homens, é demonstrada de maneira positiva numa situação em que Jesus diz:

Lc 13.34 – Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes (comparar com Lc 19.41, 42).

Este quadro apresentado por Lucas é uma situação similar à de Ezequiel, mas o personagem, expressando a sua tristeza pela perdição do povo, é o Deus Filho encarnado. Neste verso podemos perceber um sincero prazer na salvação dos habitantes de Jerusalém. Jesus, o Deus encarnado, inquestionavelmente revelou o seu prazer em que os habitantes de Jerusalém largassem a sua incredulidade. -Isso mostra a vontade de prazer ou do deleite de Deus. Nenhum de nós pode negar essa vontade no Deus homem. Seria uma injustiça a Cristo dizer que ele se alegrava na incredulidade e na perdição de Jerusalém. As suas lágrimas indicam o seu desgosto pela situação de incredulidade e, ao mesmo tempo, o seu prazer em que Jerusalém se voltasse arrependida e em fé para ele.

Todavia, por razões desconhecidas de nós, Cristo resolveu não vencer a obstinação dos judeus, pois ele poderia fazê-lo se assim tivesse decidido, uma vez que é “o autor e o consumador da fé” (Hb 12.2). A fé sempre vem por meio de Jesus (At 3.16); a fé é um dom de Jesus aos homens, uma graça eminentemente divina. Essa resolução de Jesus Cristo, de não conceder fé salvadora a todos os habitantes de Jerusalém, mostra a vontade de propósito de Deus.

É muito comum a citação do texto de 1Tm 2.4 e 2Pe 3.9 para mostrar o mesmo desejo de Deus de salvar todas as pessoas, com a devida argumentação, mas que podem ser explicados de maneira diferente, como se observa na nota de rodapé abaixo.205

            3. APLICAÇÃO

a. Procure conhecer a vontade do Senhor

Cl 1.9-10 – Por esta razão, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda sabedoria e entendimento espiritual, a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra, e crescendo no pleno conhecimento de Deus.

Observe que o alvo final de conhecer a vontade de Deus é ter uma vida prática agradável a ele. Portanto, a vontade de Deus aqui pode estar diretamente relacionada com os preceitos que são a expressão de sua norma de vida para nós.

As Escrituras nos instam a termos um conhecimento da vontade de Deus (ver Cl 1.9, 10; 4.12), mas o problema é saber se Paulo está falando da vontade revelada nos ensinos das Escrituras, ou se ele está falando dos planos de Deus para a nossa vida que, por ora, estão escondidos de nós.

Admitindo que podemos conhecer alguma coisa dos planos de Deus para nós, e entendendo Efésios 5.17 como se referindo à possibilidade de se conhecer essa vontade, então, tente algo nesse caminho.

b. Esforce-se para descobrir a vontade de Deus

A pergunta mais comum com respeito ao descobrimento da vontade de Deus, num caso específico, é: “Como é que eu sei se essa é a vontade de Deus para a minha vida?” Esta é uma questão crucial, pois todos a enfrentamos em alguma medida. Mas como você pode sair dessa? Que elementos você tem para ter alguma luz? Há algumas coisas que você pode perguntar, que podem ajudá-lo bastante a ter a sua carga aliviada. Faça a si mesmo algumas perguntas:

b.1. É legítimo o que eu quero fazer?

Esta é uma pergunta muito importante. Às vezes essa pergunta define a nossa situação, porque o que é contrário à lei não deve ser feito. Portanto, se existe algum preceito na lei divina contra o que você pensa fazer, então certamente você não deve fazer. Segundo Ferguson escreve:

Nenhuma ação que é contrária à clara palavra de Deus pode ser legítima para o cristão. Nenhum apelo à liberdade espiritual ou a circunstâncias providenciais jamais pode tornar o que é eticamente errado em qualquer coisa que não seja pecaminosa. Pois o cristão é livre somente para amar e para obedecer a lei de Deus. Aqui repousa a verdadeira liberdade.

Não há nada que deva demover você da busca da verdade de Deus. Nem que um anjo do céu venha e lhe diga que você tem de fazer algo que seja contrário aos preceitos de Deus, você deve fazer. Se é contra a lei, o ponto está definido: Não!

b.2. Traz edificação para mim o que quero fazer?

Em outras palavras, você poderia perguntar-se: “O que vou fazer melhora o meu relacionamento com Jesus Cristo? Melhora o meu relacionamento com as outras pessoas? Faz-me crescer em maturidade?” Há certas coisas que não são pecaminosas em si mesmas (Rm 14.14). Algumas delas são lícitas até, mas nem todas convêm, como Paulo deixa claro, porque não trazem crescimento.

1Co 10.23 – Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam.

Paulo é sapientíssimo nesta afirmação. Os cristãos deveriam aplicar esse critério bíblico a muitas atitudes que devem tomar, quando não possuem um mandamento específico sobre determinados assuntos. Nem todas as coisas convêm porque não trazem crescimento espiritual para você.

b.3. Será de grande ajuda para os outros o que quero fazer?

Eu não posso perguntar se será bom somente para mim, mas também para o bem-estar dos outros. Tratando dos limites da liberdade cristã, Paulo expressa o seu pensamento altruísta no trato com as pessoas:

1Co 10.24 – Ninguém busque o seu próprio interesse e sim o de outrem.

1Co 10.33 – … assim como também eu procuro em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos.

A preocupação de Paulo era a de ajudar muitas pessoas, mesmo que fosse em seu próprio prejuízo. O objetivo final de Paulo era ver as pessoas sendo salvas por meio daquilo que ele fazia. Certamente, esse espírito ele aprendeu de Jesus. Quando Cristo veio ao mundo, veio para o bem dos outros, “não para ser servido, mas para servir”. Paulo disse que Cristo “não agradou a si mesmo, mas o seu objetivo era fazer o bem aos outros.” Se Cristo se preocupasse apenas consigo mesmo e se agradasse a si mesmo, nunca ele faria o que fez em favor de outros. Como se portou Jesus Cristo, assim devemos nos portar naquilo que fazemos.

b.4. Há o perigo de me tornar escravo do que quero fazer?

Há certas coisas que não são más em si mesmas, como já dissemos, mas é possível que você comece a fazê-las e depois não consiga mais parar. Paulo deixa essa matéria bem clara:

1Co 6.12 – Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as cousas me são lícitas, mas não me deixarei dominar por nenhuma delas.

Há muitos cristãos que têm sido escravizados por coisas que não são más em si mesmas, mas que vêm, em última análise, trazer malefícios para eles mesmos e para os que convivem com eles. Se acontece com você, isso pode ser perigoso para o seu crescimento. Quando nos tornamos escravos de um hábito (como ver televisão, por exemplo), podemos deixar de fazer coisas muito mais importantes na vida, como conversar em família, ou podemos deixar de produzir coisas muito boas para o proveito nosso e dos outros. Paulo diz: “vou fazer uma coisa que é lícita, sem que eu corra o perigo de ser dominado por ela”. Seja sábio ao praticar uma ação. Verifique se ela não vai tornar você escravo dela.

b.5. Traz glória para Deus o que quero fazer?

Esse é um princípio genérico que norteia os demais acima.

A fim de descobrir a vontade de Deus num caso particular, quando você não tem mandamento específico, você precisa fazer a pergunta acima. Esse princípio vale tanto para as pequenas como para as grandes coisas. Veja o receituário de Paulo:

1 Co 10.31 – Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra cousa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.

Se fizermos alguma coisa que faça alguém tropeçar (l Co 10.32; Rm 14. 13) ou que faça um irmão perecer (Rm 14.15), ou que não traga crescimento para outrem (1Co 10.24), não estamos fazendo algo que seja a vontade do Senhor. A vontade do Senhor é medida pelo que fazemos com o intuito de trazer glória a ele.

É curioso que não há nada do que fazemos que possa escapar desse princípio bíblico. Se comemos ou bebemos (coisas triviais e comuns) ou fazemos outra coisa qualquer (o que inclui tudo o mais), deve ser feito com o propósito de tornar o nome do Senhor engrandecido, admirado e amado entre os homens. Se o que você vai fazer tem esse propósito, então, certamente você deve fazer.

 

 

 

 

NOTA:

  1. O argumento formulado poderia ser assim: O desejo natural e espontâneo de Deus é que todos os homens, sem exceção, sejam salvos, chegando ao arrependimento e à fé, como está claramente expresso em 1 Timóteo 2.4 e 2 Pedro 3.9. Isto mostra o desejo constitucional de Deus, que é a vontade de prazer ou do seu deleite. Contudo, Deus mesmo afirma claramente em Romanos 9.18 que ele “tem misericórdia de quem quer, e que ele endurece a quem lhe apraz”. – Isto mostra o propósito de Deus.

Na verdade, esses textos não devem ser usados como exemplos similares aos dois anteriores. Há algumas observações a serem feitas neste assunto: As expressões de 1 Timóteo 2 “em favor de todos os homens” ( v. 1 ). “o qual deseja que rodos os homens” (v. 4), assim como “resgate por todos” (v. 6) podem perfeitamente se referir a classes de pessoas indistintamente (como reis, pessoas em autoridade, etc., como nos mostra o v. 1), não como se referindo a cada homem, sem exceção. Todavia, se essas expressões forem entendidas com o significado de “cada ser huma­no, sem exceção”, então podemos aplicar com justeza o argumento acima como mais um exemplo para distinguir a vontade de prazer da vontade de propósito. Somente nesse caso pode ser aplicável o exemplo. Se o entendimento é o primeiro, então o exemplo não serve, porque todas as classes de pessoas que Deus desejou salvar ele salvou. Esta é a opinião do autor.

 

 

Autor: Heber Carlos de Campos

Trecho extraído do livro O Ser de Deus e os seus atributos, pág 367-393. Editora: Cultura Cristã

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.