Os filhos de um presbítero devem ser crentes?

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E que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?). (1Timóteo 3.4-5)

Alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. (Tito 1.6)

Pode um homem que tem filhos descrentes ser apontado ou continuar como um presbítero? 1Timóteo 3.4-5 e Tito 1.6 evocam essa pergunta.

Há duas interpretações primárias. Douglas Wilson resume a primeira visão de forma bastante sucinta: “Se os filhos de um homem se afastarem da fé (quer doutrinariamente ou moralmente), ele está, nesse ponto, desqualificado do ministério formal da igreja”.1 Alexander Strauch sugere a segunda opção de interpretação: “O contraste que é feito não é entre filhos descrentes e crentes, mas entre filhos respeitosos e obedientes com filhos sem controle e desobedientes à lei”. O que deve ser destacado, Strauch sugere, é “o comportamento dos filhos, não seu estado eterno”.2

Uma liderança fiel na igreja e em casa

A lógica básica de Paulo, especialmente em 1Timóteo 3, é bastante clara. A pergunta retórica na segunda metade do versículo 5 (“pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?) logicamente fundamenta sua insistência em uma casa ordenada no verso 4 (“que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito”). Por que “a casa de um crente deve ser como uma pequena igreja”,3 o resultado é que “aquele que não obtém dos seus filhos qualquer reverência ou sujeição… dificilmente estará apto para conter as pessoas pelo controle da disciplina”.4  Isso significa que a forma como um presbítero ou presbítero em potencial administra e ordena sua casa são da máxima importância em determinar sua qualificação para o ofício. John Stott cuidadosamente resume o assunto: “O pastor casado é chamado para liderar em duas famílias, a sua e a de Deus, e a primeira deve ser o treinamento para a segunda”.5 (cf. Mateus 25.14-30 – aquele que é fiel no pouco será fiel no muito6). A análise acima é um pouco controversa entre os exegetas. Desentendimentos surgem, entretanto, quando sondamos mais profundamente a natureza dessa casa bem ordenada.

Os filhos de um presbítero devem ser crentes?

A questão mais controversa em volta desses versos é se Paulo está dizendo que os filhos de um presbítero têm que ser crentes, ou se eles somente devem ser fiéis, submissos e obedientes.

O termo pistas pode significar “crente” ou “fiel” nas Epístolas Pastorais (nas duas vezes com um substantivo, cf. 1Timóteo 6.2; 2Timóteo 2.2). Portanto, somente estudos linguísticos não podem resolver a questão.

Entretanto, quero sugerir que a resolução para essa questão pode ser encontrada em comparação com o paralelo ente Tito 1.6 e 1Timóteo 3.4. Podemos estar razoavelmente certos que tekna echonta en hupotagç (“criando filhos sob controle/submissão/obediência”; 1Timóteo 3.4) é praticamente sinônimo de tekna echôn pista (“criar filhos fiéis/crentes”; Tito 1.6).7 Em outras palavras, ter filhos pista significa ter filhos em hupotagç. Isso significaria que a parte final de Tito 1.6 (“que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados”) é a descrição do que pista significa.

Com isso em mente, aqui vão cinco razões a mais que me inclinam a acreditar que Paulo esteja se referindo à submissão e obediência do filho de um presbítero, e não à sua salvação.

Primeiro, a questão fundamental em 1Timóteo 3.5 conecta explicitamente as qualificações do presbítero com as suas habilidades administrativas no verso 4. De forma geral, um comportamento obediente não requer intervenção miraculosa; até mesmo um bom técnico de laboratório pode fazer um rato seguir um determinado caminho se planejamento suficiente e premeditação forem investidos. Enquanto uma casa piedosa geralmente contribui para que haja crença, ela não a produz. Se insistirmos que a salvação de uma criança está fundamentalmente conectada com habilidade administrativa do seu pai, temos inadvertidamente corroborado para um papel não-bíblico para a ação humana. Isso é claramente o caso de uma aplicação feita por Stott: “Uma extensão do mesmo princípio pode ser que seja menos esperado que presbíteros-bispos ganhem estranhos para Cristo, se tiverem falhado em ganhar aqueles que estão mais expostos à sua influência, seus próprios filhos”.8 O isso poderia significar? Se você é um bom administrador em casa, então podemos esperar que descrentes venham a Cristo através do seu ministério?

Segundo, até mesmo os melhores administradores pastorais possuem descrentes dentro de suas igrejas ou debaixo da sua esfera de influência (cf. Gálatas 1.6). A consequência lógica disso significaria que alguém pode administrar bem uma grande casa (sua igreja), mesmo que nem todos sejam crentes. Se é assim, então parece que alguém pode administrar bem a casa menor (sua família), mesmo que nem todos sejam crentes.

Terceiro, insistir que ter filhos crentes é um pré-requisito para o presbitério leva a algumas questões desconfortáveis. O que faríamos com um presbítero que tem vários filhos – mas um que não é crente? Se a maioria dos seus filhos são crentes, ele não é um bom administrador da sua casa? Ou, a criança descrente põe em cheque sua habilidade administrativa no geral? Se é assim, então por que qualquer um dos seus filhos se tornou crente? Wilson escreve:

… um homem pode decidir (e penso que deveria decidir) retroceder se um dos seus seis filhos negar a fé. Mas se outro pastor em seu presbitério, na mesma situação, não decidir fazê-lo e seus outros cinco filhos são virtuosos, somente um comportamento estranho expressaria sua divergência através de uma grande luta de uma igreja.9

Ainda assim, parece ser inconsistente; se Paulo verdadeiramente ensinar que filhos descrentes automaticamente desqualificam um homem para o presbitério, então a pureza do corpo de presbíteros é digna de ser discutida.

Quarto, todos os requerimentos para o presbitério que são listados nessa passagem (ser casado uma vez, ser temperante, sensato, respeitável, hospitaleiro, bom professor, não dado ao vinho, não amante do dinheiro e não neófito) são ações de responsabilidade pessoal. Deveríamos esperar que o requerimento no que diz respeito aos seus filhos esteja na mesma categoria. Requerer que os filhos do presbítero tenham fé genuína é requerer responsabilidade pessoal pela salvação de outro, algo que não vejo ser ensinado nas Escrituras.

Conclusão

Acredito, portanto, que 1Timóteo 3 e Tito 1 estão se referindo à submissão geral e ao comportamento dos filhos do presbítero. Deus designou o universo de tal forma que o papel disciplinador, modelador, autoritativo e de líder-servo dos pais geralmente tenha um profundo impacto sobre o comportamento dos filhos. Paulo não fala como isso se manifesta em cada caso, nem fala todas as especificidades do que desqualificaria um presbítero. O caso geral, entretanto, é claro:

O que não deve ser característica dos filhos de um presbítero é imoralidade e rebeldia indisciplinada, se a criança ainda está em casa e debaixo de sua autoridade.10 Paulo não está pedindo nada mais do presbítero e de seus filhos do que é esperado de todo pai cristão e seus filhos. Entretanto, somente se um homem que exercita tal controle apropriado sobre seus filhos pode ser um presbítero.11

Que Deus possa dar aos pastores e aos presbíteros de nossas igrejas graça e sabedoria na liderança fiel das suas igrejas e suas casas.12

 

 

NOTAS:

  1. Douglas Wilson, “The Pastor’s Kid” in Credenda/Agenda, vol. 2, no. 3.
  2. Alexander Strauch, Biblical Eldership: An Urgent Call to Restore Biblical Church Leadership, revised & expanded (Littleton, Col.: Lewis & Roth Publishers, 1995), 229.
  3. John Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon, translated from Latin (Grand Rapids: Eerdmans, 1948), 83 n. 1.
  4. Ibid., 293.
  5. John Stott, Guard the Truth: The Message of 1 Timothy and Titus, The Bible Speaks Today (Downer’s Grove, Ill.: InterVarsity Press, 1996), 98.
  6. William D. Mounce, Pastoral Epistles, WCB (Dallas: Word, 2000), 180.
  7. As Andreas Kostenberger comenta: “No contexto mais amplo do ensino bíblico das Epístolas Pastorais, não seria comum se o autor tivesse dois padrões distintos, um mais brando em 1Timóteo 3.4 (obediente) e um mais rigoroso em Tito 1.6 (crente). Isso gera a pressuposição de ler pistos em Tito 1.6 (crente) de forma conveniente no sentido de “fiel” ou “obediente” para continuar com o requerimento iniciado em 1Timóteo 3.4”. Veja http://www.biblicalfoundations.org/?p=36, sobre seu tratamento em 1-2 Timóteo e Tito em Expositor’s Bible Commentary, vol. 12 (rev. ed.; Zondervan, 2007), pp. 606-7, and ch. 12 in God, Marriage, and Family (Crossway, 2004).
  8. Stott, Guard the Truth, 176.
  9. Douglas Wilson, “The Pastor’s Kid, Again” in Credenda/Agenda, vol. 2, no. 5.
  10. Veja Knight, Commentary on the Pastoral Epistles, 161, para seu argumento que Paulo se refere a tekna (“filhos”) que estão sob a autoridade e ainda não são crescidos.
  11. Ibid., 290.
  12. Gostaria de agradecer a Ray Van Neste, Tom Schreiner, e Andreas Kostenberger por oferecerem uma resposta útil ao rascunho desse artigo.

 

 

Autor: Justin Taylor

Fonte: 9Marks

Tradução: Matheus Fernandes

Revisão: Yago Martins

Via: Voltemos ao Evangelho

Reformados 21
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