Comentário de Mateus 5.38-40

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Mateus 5.38-40 – Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa.

Olho por olho. Aqui outro erro é corrigido. Deus havia ordenado, por sua lei (Lv 24.20), que os juízes e magistrados deveriam punir aqueles que haviam causado infortúnios, fazendo-os sofrer tanto quanto eles haviam infligido. A consequência foi que cada um se beneficiou disso como um pretexto para a vingança pessoal. Eles pensavam que não fizeram nada de errado, desde que não foram os primeiros a realizar o ataque, mas somente quando feridos, de igual para igual. Antes, Cristo informa-os que, apesar de ter sido confiado aos juízes a defesa da comunidade, pois foram investidos com autoridade para coibir os ímpios e reprimir a violência, é dever de todo homem suportar com paciência as injúrias que ele recebe.

Não resistais ao perverso. Há duas maneiras de resistir: uma, afastar as injúrias através de uma conduta inofensiva, a outra, por retaliação.412 Ainda que Cristo não permita ao seu povo repelir a violência pela violência, todavia não os proíbe de empreender esforços para evitar um ataque injusto. O melhor intérprete dessa passagem que podemos ter é Paulo, que nos ordena a vencer o mal com o bem (Rm 12.21), do que contender com os malfeitores.413 Devemos nos atentar ao contraste entre o vício e a correção do mesmo. O presente assunto é a retaliação.414 Para impedir os seus discípulos desse tipo de condescendência, ele os proíbe de retribuírem o mal por mal. Depois ele se estende a lei da paciência, de tão longe que estamos, não apenas para suportar com paciência as injúrias que temos recebido, mas preparar nosso comportamento para novas injúrias. A importância da admoestação inteira é que os crentes devem aprender a esquecer as maldades que foram feitas a eles – que eles não devem, quando ofendidos, despontar em ódio, má vontade ou no desejo de cometer uma injúria da parte deles – mas que, quanto maior a obstinação e raiva do homem perverso estiver acesa e inflamada, eles devem estar completamente mais dispostos a exercer a paciência.

Quem deve infligir um golpe. Julian,415 e outros da mesma natureza, têm tolamente caluniado esta doutrina de Cristo, como se ele derrubasse inteiramente as leis de um país e seus tribunais civis.

Agostinho, em sua quinta carta, emprega muita habilidade e bom senso em mostrar que o desígnio de Cristo era apenas para treinar a mente dos crentes à moderação e justiça, e que eles não poderiam, ao receber uma ou duas ofensas, falhar ou perder a coragem. A observação de Agostinho, “que esta não estabelece uma regra para ações externas”, é verdade, se ela for corretamente entendida. Eu admito que Cristo refreia nossas mãos, assim como nossas mentes, da vingança; porém, quando qualquer um que tenha em seu poder a proteção de si mesmo e de sua propriedade de uma injúria, sem exercer vingança, as palavras de Cristo não impedirá ele de se desviar tranquilamente e inofensivamente para evitar a ameaça do ataque.

Inquestionavelmente, Cristo não tinha a pretensão de exortar o seu povo para estimular a malícia daqueles cuja tendência de ferir os outros era suficientemente forte; e se eles estavam virando a outra face para os outros, o que isto deveria ser, senão a extensão de tal encorajamento? Não é o objetivo de um bom e sensato comentarista agarrar-se avidamente em sílabas, mas atentar-se para o modelo de quem fala. E nada é mais indecoroso aos discípulos de Cristo do que despender tempo em sofismas de palavras, onde é fácil descobrir o que o Mestre significa. Entretanto, no presente caso, o objeto que Cristo tem em vista é perfeitamente óbvio. Ele nos diz que o final de uma prova será o começo de outra, e que durante o rumo de suas vidas, os crentes devem aguentar as injúrias e suportá-las. Quando algo de errado acontece a eles em determinada circunstância, Cristo deseja que eles sejam treinados por este exemplo para uma submissão humilde, para que através do sofrimento eles possam aprender a ser pacientes.

E, ao que quer demandar contigo. Cristo, agora, olha para outro tipo de aborrecimento: quando homens maus nos atormentam com ações judiciais. Ele nos ordena, mesmo em tal ocasião, a sermos pacientes e submissos, para que, quando nosso casaco for tomado, estejamos preparados para dar também a capa. Ninguém, senão um tolo, vai querer ficar em cima das palavras, de modo a sustentar que nossa obrigação é ceder ao nosso adversário o que ele demanda. Antes de entrar em um tribunal de justiça, para tal cumprimento, seria mais fortemente inflamar as mentes dos homens malvados para roubo e extorsão; e nós sabemos que nada está mais distante do modelo de Cristo. O que significa, então, dar a capa para aquele que se empenha em um processo judicial para tomar o nosso casaco? Se um homem, afligido por uma decisão injusta, perde o que é seu por direito, e ainda está preparado, quando ele achar necessário separar o restante, ele não merece ser menos elogiado por paciência do que o homem que se permite ser duas vezes roubado antes de entrar no tribunal. Em suma, quando os cristãos se depararem com alguém que se esforça para arrancar deles uma parte de suas propriedades, eles devem estar preparados para perder tudo.

Destarte, nós concluímos que os cristãos não são totalmente proibidos de participar de processos judiciais, desde que tenham uma defesa justa para oferecer. Conquanto eles não entreguem os seus bens como uma vítima, também eles não se desviem da doutrina de Cristo, a qual nos exorta a suportar com paciência a “deterioração dos nossos bens” (Hb 10.34). Indubitavelmente, é raro encontrar um homem que procede com sentimentos leves e adequados para pleitear em um tribunal; no entanto, como é possível para um homem defender uma causa justa, tendo em vista o benefício público, não temos nenhum direito de condenar a coisa em si mesma, pois parece ser dirigida por sentimentos impróprios.

Os diferentes modos de expressão que são empregados por Mateus e Lucas não fazem nenhuma alteração no significado. Um manto é geralmente mais valioso do que um casaco; e, portanto, quando Mateus diz que devemos dar uma capa para ele, que toma um casaco, ele quer dizer que, após ter sofrido uma perda menor, devemos estar preparados para suportar uma maior. O que é afirmado por Lucas concorda com o antigo provérbio: “A pelagem é mais perto do que o manto”.417

 

 

NOTAS:

  1. “L’une par laquelle nous empeschons qu’on ne nous outrage, sans mal-faire a personne de nostre coste: l’autre, par laquelle nous rendons mal pour mal.” – A um, por qual nos impediu de serem feitos ataques sobre nós, sem esforço de qualquer pessoa de nossa parte, o outro, por qual torna o mal por mal”.
  2. “Plustost que de rendre la pareille a celuy qui nous a mal-fait.” – “Em vez de devolver o gosto de quem nos fez o mal.”
  3. “Il est ici parle de la facon de faire de ceux lesquels rendent la pareille a ceux qui les ont offensez.” – “O sujeito fala aqui da maneira de agir das pessoas que retribuem o desejo para aqueles que têm ofendido.”
  4. Julian, o imperador romano, geralmente conhecido pelo nome de Juliano, o Apóstata. O ódio inveterado deste homem para o próprio nome de nosso bendito Salvador ganhou um lugar dolorosamente evidente na história eclesiástica.
  5. “Sous couleur de proceder par voye de justice.” – “Sob o pretexto de proceder por meio da justiça”.
  6. “Que le saye est plus pres de la chair que le manteau.” – “A pelagem é mais perto da carne do que o manto”.

 

 

Autor: João Calvino

Fonte: Commentary on Matthew, Mark, Luke, volume 1, pág 262-264, disponível em http://www.ccel.org/ccel/calvin/commentaries.i.html

Tradução: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

 

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