Rompendo com as dificuldades da hipocrisia

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MUITAS PESSOAS RELACIONAM O CRISTIANISMO com a hipocrisia. Thomas R. Ybarra, um cético, escreveu: “O cristão é um homem que arrepende-se no domingo pelo que fez no sábado e vai fazer na segunda-feira.”

Isso é muito triste, mas geralmente verdadeiro.

Quando eu era menino cria que a maioria dos pregadores era hipócrita. Muitos deles tinham uma aparência engraçada, falavam de modo engraçado quando pregavam e oravam. Nunca entendia porque eles falavam “Deeeeeeeeeeuuuuus” em vez de “Deus”. Não compreendia porque as palavras religiosas tinham de virem lá do fundo em vez de serem simplesmente afirmadas.

Infelizmente há uma ligação depreciativa entre o clero e os hipócritas hoje em dia. A epidemia de padres aproveitadores e pastores enganadores impediu o pouco de confiança que as pessoas ainda depositavam nos líderes de igreja. Que tristeza!

Esse tipo de engodo espalhafatoso entre muitos líderes religiosos não é novidade. Para a surpresa de alguns, era algo bastante comum na época de Jesus. Ele constantemente confrontava os hipócritas que existiam entre os líderes judeus. Na verdade, Jesus denunciou os sistemas religiosos mais de sete vezes em suas mensagens repetindo a mesma exortação séria: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!” (Mateus 23:13,14,15,23,25,27,29)

No entanto a condenação severa de Jesus a respeito dos hipócritas não termina ali. Ele expressou assim sua objeção: “Ai de vós, guias cegos! Que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas se alguém murar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o santuário que santifica o ouro?” (Mateus 23:16-17)

Isso não se parece em nada com o “Jesus gentil, meigo e manso”, na minha opinião. Encarar os homens que alegavam viver uma vida de serviço a Deus, expondo a duplicidade brutal, exigiu uma coragem notável. Há uma boa possibilidade de, neste ano, você não ter olhado ninguém nos olhos e o chamado de hipócrita. Eu admito que não. Que palavras pesadas!

O que deixou Jesus tão perturbado? Ele se opôs à justiça própria daqueles homens porque “dizem e não fazem” (v. 3), e quando faziam algo significativo, faziam “com o fim de serem vistos dos homens” (v. 5). Em outras palavras, em público alardeavam as suas obras, mas não andavam no caminho de verdade. Pareciam espiritualmente fortes, mas eram carnais e impotentes. Pareciam justos, mas não tinham substância espiritual. Hipócritas – todos eles.

Se fôssemos sinceros conosco mesmos, deveríamos reconhecer que temos vários graus de hipocrisia também. Todos nós já tivemos de enfrentar a dificuldade da falsa fé em nós mesmos ou em alguém a quem respeitamos e em quem confiamos. Apenas Jesus viveu de forma perfeitamente justa, com integridade e livre da hipocrisia. Por isso que Ele é o nosso modelo.

Expondo a hipocrisia

Uma breve análise da palavra hipocrisia faz-se necessária. No grego, a palavra que Jesus usou para descrever os fariseus e seus colegas religiosos foi hupokrites. No original, o termo grego literalmente significa “aquele que responde”, como um orador ou uma pessoa recitando um poema faria.

O teatro era uma característica importante da cultura grega dos dias de Jesus. A ideia que a palavra nos dá é de um ator grego interpretando diferentes papéis no palco. Ele se fantasiava usando várias máscaras, que ele mudava nos bastidores para divertir a plateia. Ele vinha da coxia usando uma máscara com um sorriso e contava piadas. A multidão ria ruidosamente do seu monólogo humorístico, assistindo ao ator correr para fora do palco para trocar a sua máscara sorridente por outra séria de expressão trágica. Com isso o ator voltava recitando falas de pensamentos solenes e de tristeza e, num sentido, respondia à plateia. Não é surpresa que o ator fosse chamado de “hipócrita”.

Com o tempo, o termo tomou uma conotação mais negativa e acabou sendo usado por Jesus para expor o fingimento de “duas caras” dos fariseus.

Aquele tipo de fingimento de ser o que não é condenado com veemência na Bíblia. Sempre que o nosso Deus aborda a falsa piedade, a falta de autenticidade, a dissimulação ou a duplicidade de caráter, Ele condena o fingimento.

O Senhor condenou abertamente a hipocrisia em seu povo através do antigo profeta hebreu, Isaías.

Visto que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo; sim, obra maravilhosa e um portento; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá. (Isaías 29:13-14)

Pouca coisa mudou em milhares de anos desde que essas palavras foram proferidas. Tenho raiva daquilo que parece ser uma interminável demonstração de hipocrisia na religião organizada de hoje. E, francamente, não culpo os incrédulos de fugirem das falsidades religiosas. Nada melhor do que a autenticidade para desarmar uma pessoa sem Cristo. Por outro lado, nada causa mais dano à causa de Cristo do que atitudes, palavras e ações hipócritas de pessoas que se chamam cristãos.

A região americana da Nova Inglaterra produziu alguns dos pregadores mais poderosos que essa nação já conheceu. Os servos mais piedosos de Jesus Cristo foram criados e treinados em instituições como Harvard, Yale, Princeton e Dartmouth. Essas instituições já se posicionaram com firmeza contra a onda de secularismo e humanismo da cultura emergente. Agora, muitas igrejas e comunidades que se formaram ao redor dessas universidades, assim como os seminários que elas patrocinam, estão em decadência religiosa – relíquias espiritualmente ocas de uma era passada. Na Europa acontece o mesmo. As catedrais mais magníficas da Europa que pulsavam com a pregação fiel e poderosa do evangelho estão virtualmente vazias – símbolos solenes de uma cultura espiritualmente corroída.

O que podemos encontrar no coração dessa morte espiritual? A hipocrisia. Eram pessoas que louvavam a Deus com lábios, mas cujo coração estava longe dele. Pouco a pouco as pessoas começaram a sair da igreja para flertarem com o mundo. Os alunos ficaram em silêncio. O evangelho ficou mudo.

Não é de se admirar que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos em Roma com grande fervor e os exortou a “amar sem hipocrisia” (Romanos 12:9). Ele queria que as ações fossem coerentes com as palavras. Ele desejava que as capas falsas do exterior religioso fossem jogadas fora e trocadas por uma fé autêntica, vibrante e viva.

Pedro caiu na armadilha da hipocrisia, como você deve se lembrar. Embora ele pregasse que todos os cristãos, tanto judeus quanto gentios, fossem um em Cristo, sua conduta enquanto pregava na Antioquia não combinava com as suas palavras. Ele tinha duas máscaras – ele era um hupokrítes – e Paulo o expôs com uma exortação contundente (Gálatas 2:11-14).

A questão é esta: tenha a certeza de que seu amor é autêntico. Não seja falso. Deixe sempre claro o que quer dizer e seja sério no que diz. E quando estiver em um grupo, diga as mesmas coisas que disse quando estava no grupo anterior. Sempre tenha a certeza de que a sua vida se encaixa no que você diz que crê. Quando não, admita. Seja corajoso e diga a verdade!

Certa vez perguntaram a Mark Twain: “Qual a diferença entre um mentiroso e uma pessoa que diz a verdade?” De modo sábio, ele respondeu: “Muito simples. Um mentiroso precisa de uma memória melhor”. Uma das minhas expressões favoritas foi criada por um pastor do interior: “Seja quem você é, porque se você não for quem é, você é quem não é.”

A hipocrisia acontece quando mascaramos a carnalidade por trás das palavras religiosas. Isso é ser falso. Quando estivermos lutando contra a dificuldade da hipocrisia, precisamos ouvir o que Jesus disse a esse respeito e permitir que Ele defina a maneira que devemos nos conduzir diariamente. Há muito em jogo para ficarmos entrando e saindo do palco, trocando máscaras. Está na hora de baixar as cortinas e terminar a encenação.

Hipocrisia ilustrada

Em seu Sermão do Monte, Jesus desafiou os seus ouvintes a viverem de forma simples e autêntica. Ele marcou o seu convite a uma piedade genuína com uma breve e ousada exortação: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.” (Mateus 6:1.) Em outras palavras, não tente parecer super piedoso com o intuito de parecer bom. Não aja sem autenticidade.

Para os judeus da época de Jesus, havia três modos fundamentais de “praticar a justiça”: dando aos pobres, orando e jejuando. Entenda que Jesus nunca rejeitou essas três disciplinas. A sua maior preocupação era que esses atos de justiça tinham se tornado plataformas públicas para uma conduta hipócrita, graças ao modelo dos Kderes religiosos, que escondiam os seus motivos malignos por trás de máscaras bonitas. Jesus deu instruções sobre o modo correto para cada uma dessas disciplinas para que a capa hipócrita desaparecesse.

Primeiro, Jesus tratou da oferta.

Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. (v.2)

Hoje Jesus nos diria para não esperarmos uma placa com o nosso nome gravado e afixada em um prédio porque demos toneladas de dinheiro para o fundo de construção. Não se sinta ofendido, portanto, se seu nome não aparecer em alguma notícia como honra a sua generosidade. Não contribua somente por aparência. Jesus nos deu uma opção melhor: “Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” (v. 3-4)

Dê com generosidade, com alegria, de modo sacrificial. Mas guarde isso com você. A sua doação não é da conta de ninguém, apenas da sua e de Deus. Se você fizer que isso seja da conta de alguém, terá a sua recompensa. Você será privado da oportunidade de receber algo ainda maior quando chegar ao céu. Deus sempre nota e (mais tarde) recompensa a contribuição fiel e sacrificial. No entanto, quando você insiste em alardear o que fez de algumas maneiras, essa será a única recompensa que terá.

Lemos no Novo Testamento que Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos. (Hebreus 6:10)

Da próxima vez que você sentar no banco da igreja, preparando-se para a adoração, perceba que há muitos cristãos fiéis ao seu redor que dão, e dão, e dão e ninguém fica sabendo. Você pode ser um desses que descrevi. Todos os domingos você esbarra com pessoas que contribuem muito. E eles fizeram isso “como ao Senhor” mantendo o segredo e esperando a sua recompensa prometida. Você pode nunca ficar sabendo, mas Deus nunca esquece. Que tal isso?

Jesus também nos instrui sobre a forma correta de orar.

Quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. (Mateus 6:5)

Na época de Jesus, a prática da oração já havia se degenerado em cinco áreas que precisam ser corrigidas.

Primeiro, a oração havia se tornado um exercício formal em vez de uma expressão livre. O que existia eram as orações “oficiais” para todas as ocasiões. As orações tinham se tornado padronizadas, rotineiras e monótonas.

Segundo, a oração havia ficado cada vez mais ritualista em vez de autêntica em sua expressão. A maioria dos judeus orava três vezes por dia. Os fariseus tinham colocado em seu lugar uma rotina rígida de lugares e horários definidos. Não havia espontaneidade ou oração iniciada pelo Espírito.

Terceiro, as orações eram longas e prolixas. Quanto mais eloquente e mais floreada, melhor. Esse era o estilo aceito quando oravam em público. Meu bom amigo, Howie Hendricks, instrui os seus alunos de seminários a resistir à tentação de orar dando uma volta ao mundo quando estão orando em público: “Diga mais falando menos” é seu conselho frequente. Quem quer ouvir um sermão quando você está apenas agradecendo ao Senhor por um sanduíche? Os fariseus e os líderes religiosos faziam longas petições.

Quarto, as orações eram cheias de repetições e clichês sem sentido. Na minha infância, meu irmão mais velho já amava Jesus muito antes de mim. Na verdade, sua fé profunda e sincera me deixava louco. Eu costumava acordar no meio da noite (ele tinha acabado de chegar da marinha e eu era adolescente) e via o vulto do meu irmão orando em silêncio de joelhos, com apenas o luar delineando o seu corpo. Eu costumava pensar: Que ótimo, Scott. Por que meu irmão é o Martin Luther (Martinho Lutem)? Por que Deus não me deu um irmão campeão de futebol americano? Sua fé era vibrante e discreta. Mesmo assim. Para falar a verdade, naquela época a minha era tão falsa quanto dinheiro de papel comum. Sua vida autêntica era uma exortação silenciosa.

Nunca vou me esquecer do dia em que meu irmão Orville se debruçou por cima da mesa após aguentar uma das minhas orações fracas e repetitivas antes da refeição, e perguntou: “Charles, quando você vai aprender a orar?” Naquele momento, eu queria responder: “Quando você vai desistir?” Eu e ele sabíamos que as minhas orações eram expressões vazias de repetições sem sentido e clichês. Antes que você se sinta muito espiritual, talvez precise admitir que as suas orações também são assim. Se soubéssemos tudo o que acontece, veríamos que poucos cristãos oraram de forma genuína em meses. Jesus nos instrui a orar com espontaneidade, simplicidade e de forma específica.

Quinto, a oração tornou-se motivo de orgulho em vez de uma oportunidade para expressar a confiança humilde em Deus. William Barclay observa que “orar bem tornou-se um símbolo de status legalista. Quando são cheias de detalhes, as orações produzem demonstrações públicas de ostentação: mãos estendidas, com as palmas para cima, cabeça baixa, com palavras eloquentes repetidas três vezes ao dia – de preferência no meio da rua.”

Jesus não nos permite tropeçar enquanto lutamos com as dificuldades das nossas orações hipócritas. Ele fala de forma direta.

Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. (Mateus 6:6-7)

Como é bom nos achegarmos de forma natural perante o Senhor e conversarmos com Ele. Se alguns filhos falassem com os seus pais como falamos com Deus, daríamos boas gargalhadas. “Ó, meu pai terreno grandioso, jubiloso, bom e amoroso. O que tu queres que eu faça?” Puxa vida!

A propósito, esse é um bom momento de eu inserir uma palavra em favor dos cristãos novos na fé e as suas orações. Você quer aprender como orar? Ouça as orações desses jovens cristãos. Elas são maravilhosas, espontâneas, reais, pessoais, sinceras. Sem jargões. Sem um palavreado cristão fioreado. Uma conversa franca que certamente anima o coração de Deus. Eles simplesmente falam o que pensam. Amo isso!

Jesus tratou também do jejum, outra disciplina onde a hipocrisia floresce.

Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. (v.16)

Imagine a seguinte cena:

Os dias de jejum dos judeus eram segunda-feira e quinta-feira. Eram dias de feira, e o resultado era que aqueles que jejuavam com ostentação tinham um grande público nesses dias. Eles eram vistos e admirados por sua piedade. Muitos tomavam todas as medidas para serem vistos quando jejuavam. Andavam pelas ruas com os cabelos despenteados, com as roupas deliberadamente sujas e amassadas. Chegavam ao extremo de passarem um pó branco no rosto para acentuar a palidez.

Demonstração pública de espiritualidade é hipocrisia rasgada, era justamente isso que Jesus alertava o povo para evitar. Como então devemos jejuar perante o Senhor? Vamos ver a resposta de Eugene Peterson em sua paráfrase de Mateus 6:17-18.

Quando você praticar uma disciplina que nega o apetite para se concentrar melhor em Deus, não faça disso um grande evento. Você pode virar uma celebridade momentânea, mas não um santo. Se você exercita a disciplina interiormente, aja de modo normal exteriormente. Lave e escove os cabelos, escove os dentes, lave o rosto. Deus não precisa que você chame sua atenção. Ele não vai deixar de ver o que você está fazendo; Ele o recompensará à altura.

Seguindo a tradição

Antes de terminarmos este capítulo, preciso mencionar outra área da hipocrisia que Jesus confrontou em relação à conduta dos fariseus e outros líderes religiosos. Dizia respeito ao apego às tradições sem sentido.

“Então, vieram de Jerusalém a Jesus alguns fariseus e escribas e perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos, quando comem.” (Mateus 15:1-2.) Os fariseus e escribas eram legalistas de carteirinha no primeiro século. Tinham as próprias regras que exigiam lavar as mãos antes das refeições. A reclamação que tinham contra Jesus não era por causa da transgressão da Lei de Moisés, mas, sim, porque ele quebrava as tradições dos anciãos.

O estudioso bíblico, Alfred Edersheim, tenta explicar o significado desse absurdo em sua conceituada obra The Life and Times of Jesus the Messiah (“A vida e a época de Jesus, o Messias”).

Os jarros d’água ficavam prontos para serem usados antes das refeições. A quantidade mínima a ser usada era um quarto de LOG, definida como o suficiente para encher uma e meia casca de ovo. A água era primeiro colocada em ambas as mãos, com os dedos para cima, e entornada pelos braços até à altura dos pulsos. Tinha de ser sacudida dos pulsos pois, como já havia sido tocada por mãos sujas, a água era considerada suja. Se escorresse novamente para os dedos, eles seriam considerados impuros. O processo se repetia com as mãos de modo inverso, com os dedos para baixo – e finalmente cada mão era limpa com um punho esfregando o outro. Os judeus mais rígidos faziam tudo isso, não apenas antes das refeições, mas entre cada prato servido.

Com todo esse ritual, todos iriam mesmo querer jejuar! Tedioso demais, trabalhoso demais. Minha opinião? Seria mais fácil pular a refeição.

Jesus imediatamente identificou a hipocrisia do coração daqueles homens. Ele não poupou palavras para exortá-los de modo firme. À luz disso tudo, tente sentir a indignação reta que Jesus sentiu quando exortou de forma contundente.

Ele [Jesus], porém, lhes respondeu: Por que transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Mas vós dizeis: Se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: É oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais honrará a seu pai ou a sua mãe. E, assim, invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição. Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. (Mateus 15:3-9)

Trata-se de um engano passar a tradição por cima da Bíblia, pois ela invalida a Palavra de Deus, como Jesus explicou. Nunca se esqueça disso. Quando damos uma lista de regras às pessoas para que vivam de acordo com ela, elas são tentadas a seguirem à risca em vez de obedecerem às ordens bíblicas. Isso sempre acontece. As listas legalistas obscurecem a verdade conforme vão invalidando, de forma sutil e vagarosa, a Palavra escrita de Deus.

Há muito em jogo para que nos acomodemos e não combatamos a hipocrisia com uma estratégia para nos livrarmos do seu poder tóxico. Por isso devemos confrontar a hipocrisia nas nossas igrejas, em nossas instituições de treinamento ministerial, em casa e nos lugares escondidos do nosso coração teimoso e frequentemente orgulhoso.

Opondo e derrotando a hipocrisia

Permita-me dar algumas aplicações práticas para derrotarmos as tendências hipócritas em nós mesmos ou na conduta de outros.

Primeiro, é útil expor a hipocrisia. Exponha-a! Para vocês que são pais, eu os encorajo a discutirem o assunto com os seus filhos, principalmente aqueles que estudam em escolas cristãs. Eles frequentam o que eu algumas vezes chamo de estufa religiosa. Recebem doses dobradas diárias de cristianismo, cristianismo, religião, religião, Bíblia, Bíblia, Deus, Deus até que passa a ser tudo o que ouvem! Esses filhos podem muito bem estar caminhando em direção à rebeldia a menos que você interrompa o processo. Talvez você nunca tenha ouvido o que vou falar, mas preciso dar um conselho sobre os perigos sutis da exposição exagerada. Sem um equilíbrio necessário, os seus filhos podem entender a mensagem de forma errada e desenvolver hábitos hipócritas que carecem da autenticidade da semelhança em Cristo.

Pais, vocês precisam dar duro para ajudar os seus filhos a levarem a vida de forma tranquila e isso inclui o cristianismo deles. Não precisamos de outra geração de cristãos tensos, que fazem pouco para avançar a mensagem de Cristo da graça e do perdão a um mundo cético e fraco espiritualmente. Não os force a orar por tudo. Não procure uma analogia espiritual em tudo o que acontece. Faça menos sermões em casa. Deixe que o pastor pregue. E, por favor, o que quer que você faça, não tolere uma fachada religiosa superficial atrás da qual eles aprenderão a se esconder. Descobri que, quando esse tipo de religião é promovida, ela leva aos vícios, aos piores tipos de carnalidade e à conduta cristã mais irreal e repulsiva do planeta. Você só terá testemunhado a tragédia da hipocrisia quando tiver de catar os pedaços de uma vida destruída pelo legalismo.

Segundo, a prática da hipocrisia é natural. Resista a ela! A conduta hipócrita vem tão natural para os cristãos quanto a respiração. A nossa velha natureza a deseja. Ficamos viciados na hipocrisia porque ela causa boa impressão e resulta em muita bajulação. No entanto ela representa a parte vulnerável da nossa fé. Por isso precisamos identificá-la.

Terceiro, é doloroso romper com a hipocrisia. Mantenha-se firme! Prefiro ter a tarefa de mentorear um cristão novo na fé a instruir os que estão avançados em tradicionalismo eclesiástico e religioso. Mesmo assim precisamos continuar o processo de livrar a nossa vida do flagelo da hipocrisia, em nossa casa, e na igreja. No entanto preciso alertar você de que é doloroso romper com a hipocrisia. Creia em mim, eu sei disso. Tenho filhos adultos (que tem filhos também) e eles me ajudam a tentar romper com ela para que não se esgueire em minha vida e no meu ministério. Sempre lhes digo como preciso de todos para me ajudar a permanecer na realidade. Filhos fiéis são um bem genuíno!

Se quisermos vencer qualquer batalha pessoal, teremos primeiro de admitir o problema. É aí que o Espírito Santo começa a operar para a nossa libertação e para nos colocar no caminho da liberdade permanente e genuína. É uma luta demorada e violenta.

Termino com palavras eternas de esperança e ajuda a todos nós que lutam contra a dificuldade da hipocrisia – dentro de nós ou do lado de fora, com ataques desferidos por outros. Vencer o poder destrutivo da hipocrisia começa quando ficamos totalmente desarmados e sinceros.

Não pode haver subterfúgios, culpa do passado ou acusação aos outros. Como o grande apóstolo Paulo nos lembra, temos os recursos do a nosso dispor. (Efésios 4.17-25)

 

 

Autor: Charles Swindoll

Trecho extraído do livro Rompendo Dificuldades. Editora: Motivar

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.