Por que invejamos os ímpios?

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Nos dias em que eu me sento para ler os e-mails dos ouvintes do podcast a pedido do pastor John, eu me preparo para o impacto.

Abrir esses e-mails é entrar nas mais sombrias provações, pecados e lutas relacionais imagináveis: igrejas se dividindo, casamentos terminando, crianças morrendo, adolescentes se rebelando, homens e mulheres sendo assombrados por memórias de abuso físico, espiritual e sexual.

As histórias mais sombrias são sempre as mais complexas e complicadas, e tornam-se menos propensas a chegar ao podcast (uma forma que é mais bem fornecida através de perguntas breves com vasta aplicabilidade). Cada um desses difíceis e-mails nos lembra de que nosso podcast nunca substituirá o trabalho de pastores, irmãos e irmãs nas igrejas locais.

Perdendo a perseverança

Uma mulher (eu vou chamá-la de Julie) recentemente enviou um e-mail dizendo:

Por cerca de 23 anos ou mais, eu pensei que era verdadeiramente uma cristã. Eu pensei que desejava Deus, eu pensei que eu acreditava em Deus, eu pensei que precisava de Deus. Após 20 anos de batalha com o TOC “religioso”, no qual usei a Bíblia para me ajudar a lidar com minhas perguntas, cheguei ao final da estrada.

Depois dos últimos quatro anos, eu não acredito, admite ela.

Foi uma perda devastadora ter construído toda a minha vida e mundo em torno do que eu realmente pensava que acreditava, ou talvez o que eu pensava que desejava acreditar.

O que levou “Julie” a se estagnar e se afastar para longe do Evangelho?

Meu problema foi que eu vi como “pecadores” parecem estar vivendo vidas perfeitamente felizes sem Deus – algo que acreditei erroneamente por muito tempo que ninguém foi capaz de fazer. Honestamente falando, eles parecem estar vivendo belas vidas morais.

Eu compreendi que algumas pessoas não estão procurando por Deus de forma sincera. Levei um tempo para perceber que eu era essa pessoa. Ninguém pensou verdadeiramente que elas queriam que Deus realmente “desejasse” aceitá-las, mas não. Portanto, eu tenho feito todo o possível para disfarçar, esperando que a dor delas vá embora. Sinceramente, não.

Todavia, para sublinhar o que está em jogo para ela, Julie concluiu com esta dolorosa confissão:

Eu descobri que tudo o que eu buscava, a leitura e tudo o que aconteceu me levou. Isso me conduziu até aqui. Eu tenho que partir e viver minha “nova” vida. Deixar meu marido, filhos, família e comunidade. Deixar tudo para trás, assim como um novo crente em Cristo deixa para trás sua antiga vida para seguir a nova vida que eles têm nele.

Este e-mail partiu meu coração. Ele está comigo. Eu o li três vezes e orei por ela. Mas isso também exige uma resposta.

Os não-cristãos não devem ser miseráveis?

Nós olhamos ao redor e tentamos entender se Deus entende e se Ele vê. Deus enxerga as circunstâncias que vemos, ele vê minhas lutas, ele vê a prosperidade dos ímpios? Os ímpios são ricos e confortáveis. Deus está adormecido? Ele observa as circunstâncias do mundo como nós as observamos? Será que ele vê toda esta injustiça?

Assim como observamos nossas circunstâncias, perguntamos sobre a questão de custo-benefício: Os benefícios de seguir a Cristo realmente valem a pena?

Um de apenas um punhado de “salmos de sabedoria”, o Salmo 73, aborda um dilema ético como o de Julie: Por que eu deveria manter a fé, uma vez que os incrédulos frequentemente parecem estar bem melhores? O salmo tomou o centro do palco na história da cabana do Tio Tom na luta contra a escravidão, e logo você verá a razão disso. O tema do Salmo 73 também foi proeminente no sermão mais famoso de Jonathan Edwards: “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado.”

Dilema hesitante (Salmo 73.1-15)

O salmista olha a sua volta e contempla os descrentes vivendo suas vidas opulentas em conforto, bênção e longevidade. Ele olha ao redor e percebe que essas mesmas pessoas são malvadas e oprimem os outros. Ele pensa que elas estão fugindo disso. A simplicidade do desafio do salmista incita nossa busca por clareza e respostas. Onde está o nosso  soberano e justo Deus quando o traficante de sexo “tira uma soneca” em seu iate?

Deus é bom para os “puros de coração” (Salmo 73.1). Isso faz sentido. Então, por que ele não frustra e mina as vidas dos impuros de coração?

Uma pergunta como essa vai tremer sua estrutura, e este salmista (seu nome é Asafe) está “perdendo o chão.” Seus pés tinham quase que saído por debaixo dele. O chão parecia se mover e a sepultura parecia virar e escorregar sob seus pés (Salmo 73.2).

Os que rejeitam a Deus são ricos, saudáveis e confortáveis (Salmo 73.4-15). O coquetel tóxico de saúde, riqueza e conforto deles se torna um “evangelho” da prosperidade degradado. Eles vivem vidas pomposas e arrogantes, de tal modo que olham todos com desprezo e abusam dos outros. Eles têm línguas alardeadoras, mas desprezam a Deus sem falar e sem poder. Eles têm contas bancárias que prosperam, mas desprezam a Deus como alguém inútil. Eles têm prazeres em abundância, mas desprezam a Deus como um narcótico para os pobres e humildes.

Asafe observou esta classe e sentiu o “chão” de sua cosmovisão mudar por baixo de seus pés: Quanto a mim, porém, quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos. Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos (Salmo 73.2-3).

“Chão” é fé, e perder o seu “chão” é perder a sua fé – ou quase perder a sua fé. Neste mundo enfrentamos temporadas de incredulidade que nos atingem como uma magia atordoadora de vertigem espiritual.

A incredulidade nos atinge tão duramente porque a nossa vida espiritual depende inteiramente da fé. “A fé é a maneira inescapável em que vivemos nossas vidas agora em relação a Deus,” escreveu John Webster, um querido teólogo que faleceu este verão. “Não podemos ir além disso; não há, de novo, outros termos sobre os quais possamos ter Deus” (Confrontado, 163).

É tragicamente fácil para nós perdermos o “chão”.

Quatro soluções

Logo, como o salmista firmou os seus pés? O que estabilizou a sua fé perante os tremores da dúvida?

Quatro realidades impediram-no de finalmente tropeçar no precipício da incredulidade.

  1. Busque o santuário (Salmo 73.16-17)

Quando a vida parece injusta, ou você se sente deprimido, ou você sente que está sendo explorado, aonde você se refugia? Você se refugia no trabalho para suprimir sua fraqueza com mais eficácia? Você se refugia no shopping para afogar a sua monotonia com roupas novas? Você se refugia no seu telefone e mídias sociais para afogar sua depressão com um tiro de afirmação? Você recorre ao álcool para entorpecer seu combate? Esses subsídios terapêuticos para nossos desafios não podem nos curar definitivamente. Eles só irão cobrir a dor por um momento.

O salmista voltou-se para o santuário, onde começou a refletir de modo adequado novamente. No santuário, em seus pensamentos adequados, ele encontrou correção para o seu coração e alma.

Dúvidas pessoais expõem nossas lacunas teológicas. Nossas dúvidas revelam que não conhecemos Deus o bastante, diz Tim Keller. “No cristianismo, você se sente melhor quando começa a pensar corretamente. Alguns de vocês irão odiar isso. Para alguns de vocês, esse não é o seu temperamento. Mas você não percebe que este homem entra no santuário para entender. Você nunca sairá de sua espiral a não ser que vá até Deus e confesse: A razão pela qual estou louco, a razão pela qual estou deprimido, e a razão pela qual estou desanimado é porque estou perdendo alguma coisa em meu pensamento.”

Então, o que Asafe viu no santuário?

Asafe não entrou em um santuário de temperatura controlada com um púlpito brilhante, instalação de faixa luxuosa, luzes filtradas por gel e uma máquina de fumaça. Não! O mais provável é que Asafe entrou no santuário de Deus para contemplar a visão de facas, cutelos e sacerdotes chacoalhando sangue para longe de seus dedos. À medida que o sangue escorria para fora da borda da bacia, Asafe testemunhou uma ótica deslumbrante da justiça de Deus sobre o pecado: o animal inocente é que sofre o castigo da morte pelos pecadores culpados (veja Levítico 4.4-7 e Ezequiel 18.20).

O santuário era onde o sangue fresco do animal era drenado, aspergido e derramado. Foi nos momentos finais da morte violenta do animal que Asafe contemplou a realidade divina em toda a sua natureza e densidade. Lá, Asafe foi confrontado com um prelúdio da cruz. E a linha do tempo de Deus fazia sentido.

Esta vida não é a história completa. Adorar e seguir a Deus não é mensurado por bênçãos e confortos temporários; isso vai ser mensurado no último dia. No santuário, a verdade da misericórdia redentora de Deus veio correndo de volta.

  1. Torne-se consciente de si mesmo e do sofrimento com o plano de Deus (Salmo 73.18-22)

Quando invejamos os ímpios e a inveja das circunstâncias daqueles que não honram a Deus floresce, somos como animais estúpidos em nossa ignorância. Essa é a realidade contundente. E a solução não é apenas saber acerca de Deus, mas também saber mais acerca do plano futuro de Deus.

  1. Pegue na mão de Deus (Salmo 73.23-24)

Asafe reconheceu que Deus estava com ele, segurando sua mão e guiando seu caminho para a eternidade pela luz de sua palavra. Sua palavra invisível. É uma questão de fé e incredulidade. Viver satisfeito neste mundo presente é viver ignorante de um caminho para a glória futura.

  1. Resgate a alegria na presença de Deus (Salmo 73.25-28)

Superficialmente, isso parece ser um salmo intelectivo repleto de dilemas filosóficos para pensadores. Contudo, é mais do que isso. O órgão dominante no Salmo 73 é o coração. O salmista luta com uma arritmia do coração, não apenas com um equívoco intelectível.

Inveja e dúvida são indícios de insuficiência cardíaca.

Asafe está perguntando: O que eu realmente necessito? O que eu desejo?

Em todas as suas dúvidas acerca da sabedoria de Deus, em suas dúvidas sobre o poder de Deus, Asafe é pressionado por questões realmente difíceis e fundamentais de sua vida. Por que Asafe diz o que ele diz? Por que ele quase perdeu o “chão”? Por que nós erramos como Asafe? A resposta para ele é a nossa resposta também: Porque queremos algo mais do que queremos a Deus.

A solução para a inveja e a cobiça de Asafe também é a nossa solução: Estarmos satisfeitos em Deus. A história de Asafe nos leva a belas confissões da suficiência de Deus. Em comparação a saúde, a riqueza e o conforto deste mundo, não há outro em quem eu me compraza na terra (Salmo 73.25).

Tudo na vida irá fracassar, e quando fracassar, tremer e desmoronar, você não irá querer estar de pé com toda a sua esperança e alegria enraizada nelas. A força e a alegria de Deus são eternas. Permaneça aqui!

Sobre o outro lado de Cristo, o apóstolo Paulo confirma esse mesmo ponto. Sua alegria em Cristo o sustentou tanto que, em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez. Com uma linguagem extraordinariamente inclusiva, Paulo proclama: Tudo posso naquele que me fortalece (Filipenses 4.12-13).

“Viva pela beleza, mas a beleza desvanece. Viva para o dinheiro, mas o dinheiro desaparece. Viva para o sucesso, mas o sucesso desvanece,” adverte Keller. “Se você não tem Deus, você realmente não tem nada, porque tudo está apenas escapando para longe de você. Portanto, pode ser hesitante para você acreditar em Deus. No entanto, é mais incerto não fazer isso.”

Somos criaturas sem asas, por isso devemos estar em algum lugar. Asafe, Julie, você e eu – todos nós colocaremos nossa fé em alguma coisa ou em uma pessoa. Onde estamos expondo nossa teologia, nossas esperanças e nossas vidas?

Em sua inveja da riqueza, do sucesso e da saúde dos ímpios, Asafe descobriu o que ele realmente queria. Ele queria Deus. Todos os seus surtos de inveja e todas as suas raízes de dúvida eram maneiras de dizer: “Eu quero satisfação através dos confortos terrenos; eu deveria tê-los porque sou suficientemente bom.” Mas, como Keller ressalta, somente Deus pode nos dar a alegria que buscamos. Não são as circunstâncias que buscamos, é de Deus que realmente estamos atrás. Somente Deus pode cumprir essas promessas de alegria.

Como a sua base é forte?

Eu oro por Julie, para que ela seja pega pela soberana mão de Deus. Eu oro para que ela firme os seus pés, e não deposite sua fé em seus tremores e, finalmente, ceda. Quero que ela se volte para Deus e encontre nele a alegria e a satisfação que podem durar muito além das circunstâncias da vida, para que ela testemunhe junto com Asafe:

Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre (Salmo 73.25-26).

Todos nós enfrentamos a aparente injustiça dos confortos mundanos desfrutados por aqueles que rejeitam a Cristo. Somos tentados a invejar a fama e a riqueza dos que rejeitam a Deus, mesmo daqueles que manipulam e se aproveitam dos outros. Na estrutura custo-benefício deste mundo, Cristo às vezes parece inútil. Contudo, trazemos nossas perguntas, dúvidas e inveja para o santuário de Deus, uma sala agora repleta com o seu povo. Nela somos lembrados, juntos, do que estamos capacitados a esquecer sozinhos.

Nossos corações não podem ser sustentados pela saúde, pela riqueza e pelo conforto mundano. Nós permanecemos na fé para um dia eterno de alegria – uma alegria no próprio Deus. Esse dia está amanhecendo agora sobre a linha do tempo do plano de Deus para este mundo. Que nos regozijemos nele e falemos aos outros de suas gloriosas obras.

Quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no SENHOR Deus ponho o meu refúgio, para proclamar todos os seus feitos (Salmo 73.28).

 

 

Autor: Tony Reinke

Fonte: desiringGod

Tradução: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

 

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Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.