O lar celestial

Share
  1. Este lar é necessário

No coração dos filhos de Deus há um desejo, sim, até mesmo uma necessidade, pelo lar eterno. Na medida em que ficamos mais velhos e perdemos, ou estamos a ponto de perder, uma mãe devota, uma irmã confiável, uma testemunha viva como nosso pai, ou ainda uma esposa leal e amorosa, etc., desviamos nossa atenção dos assuntos terrenos e a fixamos no céu. Se alguém é um pastor, ele pode pregar sobre o céu muitas e muitas vezes, mas quando a dor entra em sua própria casa e ele começa a notar que a morada terrestre de um ente querido está se desmantelando rapidamente, e que ele não pode ajudar, torna-se então mais atento às realidades celestiais do que era antes. O que era um sermão se torna uma confissão do coração. Permanece um sermão, seguramente, mas um sermão mais eficiente do que jamais o fora.

Sim, o lar divino é necessário, pois nada na terra pode nos satisfazer. Aqui há inquietações sobre inquietações. Também foi esse o caso com respeito aos discípulos. Assim, na noite anterior à sua crucificação, estando junto a seus discípulos no cenáculo, Jesus lhes disse: “Não se turbe o vosso coração”.

O coração dos discípulos estava cheio de uma mistura de emoções. Eles estavam tristes por causa da possibilidade sombria da parti­da de Cristo; envergonhados por causa de seu próprio egoísmo e orgulho demonstrados; perplexos por causa da profecia de que seria um deles que trairia o Mestre, que outro o negaria e que todos seriam enlaçados por sua causa; e, finalmente, eles estavam hesitando em sua fé, provavelmente pensando: “Como pode, alguém que está próximo de ser traído, ser o Messias?” Ao mesmo tempo, contudo, eles amam este Mestre. Eles esperavam contra a esperança. Assim Jesus lhes disse: “Credes em Deus, crede também em mim.”

  1. O lar é descrito

Jesus continua dizendo: “na casa de meu Pai há muitas moradas”.

A casa do Pai realmente é um lar, porque é um lugar onde os filhos de Deus desfrutarão a comunhão mais abençoada, como está evidente no contexto completo. Afinal de contas, é isso que transforma uma mera casa em um lar. Eu li em algum lugar que um garoto, ao sair da escola, correu para dentro de uma casa, e então correu novamente muito depressa para fora dela. Alguém, vendo isto, lhe perguntou, “Por que você entrou e então correu tão depressa para fora?” O menino respondeu, “eu entrei na casa errada. Eu pensei que era a minha, mas a minha casa é a próxima porta”. O homem lhe perguntou então: “Mas a casa que você entrou e da qual partiu tão depressa não é tão agradável como a sua própria?” “Sim, muito melhor”, ele respondeu. “Então por que você não ficou lá?”, foi a pergunta final do homem. A criança respondeu: “Porque minha mãe não está lá”.

Portanto, a primeira coisa que nós aprendemos sobre nosso lar celestial é que é a casa que pertence ao Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (“na casa de meu Pai”); portanto, seguramente, lar para ele é então lar para nós. E, sendo a casa do Pai, nós podemos estar seguros de que será mesmo um lugar muito, muito glorioso. Se mesmo aqui e agora os que voltam da escuridão para a luz experimentam coisas que “nem os olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano” (1Co 2.9), quanto mais aplicável será este texto no que diz respeito à morada que está sendo preparada para nós?

Em segundo lugar, Jesus nos assegura que este lar é um lugar muito espaçoso. Claro que o céu é um lugar. Não precisamos desperdiçar muito tempo neste assunto. Jesus não ascendeu ao céu? Jesus, Enoque e Elias não estão lá, em corpo como também em alma? Exatamente onde é o céu, é de pouca importância. Durante os últimos cinquenta anos nossas visões da extensão do universo se expandiram de tal modo que certamente já não pode haver nenhuma dúvida legítima na mente de qualquer homem que neste vasto domínio haja lugares suficientes para estar o céu.

Note agora que Jesus afirma que nesta grande casa há muitas mansões ou moradas. Em outras palavras, o céu não se assemelha a uma moradia, onde cada familiar talvez ocupasse um quarto. Pelo contrário, se parece muito mais com um belo edifício, com apartamentos ou moradas espaçosos e totalmente mobiliados, não como um cortiço qualquer. “Há muitas moradas no céu, moradas para mim, mas também para vocês”, é única ideia apresentada aqui. (A ideia de variedade, os chamados graus de glória, ainda que verdadeira, por si mesma, como nós vimos anteriormente, é estranha ao presente contexto).

Em terceiro lugar, o lar é o lugar de segurança. Fora a tempestade pode estar turbulenta, como de fato estava turbulento o coração dos discípulos. O céu é o lugar de perfeita segurança.

Em quarto lugar, o lar é o lugar de descanso. Pense no repouso de um bebê nos braços de sua mãe, e então se lembre que, entretanto, os braços da mãe podem se cansar, porque, afinal de contas, eles são limitados em força. Mas os braços de Deus nunca se cansam. “O Deus eterno é a tua habitação e, por baixo de ti, estende os braços eternos.” Em quinto lugar, o lar é o lugar de perfeita compreensão e amor.

Isto ficará claro abaixo no próximo subtítulo, “o lar preparado”. Em qualquer lugar você pode ser frequentemente mal compreendido e seus motivos mal interpretados, mas não no lar, se seu lar verdadeiramente é um lar.

Finalmente, o lar é o lugar de permanência. Esta casa, lembre-se disto, não é uma mera tenda, armada hora aqui, hora em outro lugar, certa de ser desmantelada ou destruída. A casa do Pai – lar, de acordo com o contexto – é o lugar onde a pessoa, pelos séculos dos séculos, habitará “na presença do Senhor”.

  1. O lar preparado

“Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde estou, estejais vós também.”

O retorno é a contrapartida da ida, e refere-se, então, à segunda vinda. Jesus fala para os discípulos que, por meio de sua humilhação (particularmente, a morte dele na cruz) e exaltação, ele estará preparando um lugar para seus discípulos. É completamente possível que muito mais esteja implícito nesta gloriosa passagem do que o que declaramos agora. Quem poderá afirmar exatamente de que maneira Jesus está preparando neste momento nosso lugar no céu? Nós provavelmente nunca saberemos a profundidade e significado desta expressão, até que, com alma e corpo, nós tenhamos entrado em nossa vida no novo céu e na nova terra.

Porém, um ponto é muito tocante. Alguém poderia esperar que Jesus dissesse, “quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos leva­rei até lá”. Mas nosso Senhor, na verdade, diz algo que conforta muito mais, a saber, “vos receberei para mim mesmo, para que, onde estou, estejais vós também”. A amável presença de Cristo é que faz da casa do Pai um lar real e um céu real para os filhos de Deus. Onde quer que Jesus esteja, lá também estarão os seus discípulos. Eles se sentarão com ele em seu trono! Linguagem simbólica? Estou seguro que sim! Tudo isso é somente um símbolo. A realidade será ainda mais gloriosa (veja Apocalipse 3.12; 3.21; 14.l; 19.11, 14; 20.4).

  1. Este lar encontrado

“E vós sabeis o caminho para onde vou”, disse Jesus. Ele quer dizer: “Vocês me conhecem. Eu sou o caminho”. E esta declaração é um convite velado, “Ninguém vem ao Pai senão por mim”, quer dizer, “com­ prometendo-se completamente comigo para a vida e para a morte”.

 

 

Autor: William Hendriksen

Trecho extraído do livro A Vida Futura Segundo a Bíblia, pág 261-265.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.