As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (4/4)

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  1. O mal do PECADO coopera para o bem daqueles que temem a Deus

O pecado em sua própria natureza é condenável – mas Deus, em Sua infinita sabedoria, faz com que coisas boas venham daquilo que parece se opor a elas. Realmente, é de se admirar, que algum mel saia desse leão! Nós podemos entender isso de duas maneiras.

(4.1) Os pecados de OUTROS são governados para o bem dos que temem a Deus. Não é um pequeno problema para um coração gracioso viver em meio aos perversos. “Ai de mim, que peregrino em Meseque” (Salmos 120:5). Contudo, até isso o Senhor transforma em bem.

(4.1.1) Os pecados dos outros cooperam para o bem dos que temem a Deus – de maneira a gerar uma tristeza santa. O povo de Deus chora por aquilo que não podem reformar. “Rios de águas correm dos meus olhos, porque não guardam a tua lei.” (Salmos 119:136). Davi era alguém que chorava pelos pecados das eras; seu coração se transformava em uma fonte – e seus olhos em rios! Homens perversos se alegram com o pecado. “Quando tu fazes mal, então, andas saltando de prazer.” (Jr. 11:15, ARC). Mas os tementes são pranteadores; eles se compadecem pelos juramentos e blasfêmias das eras. Os pecados dos outros, assim como lanças, perfuram suas almas!

Esse sofrimento pelos pecados de outras pessoas é bom. Ele mostra um coração como o de uma criança, que se entristece com as agressões cometidas contra nosso Pai. Ele também mostra um coração como o de Cristo. “condoendo-se da dureza do seu coração” (Marcos 3:5). O Senhor dá uma atenção especial para essas lágrimas. Ele se agrada disso – que choremos quando Sua glória sofre. Se condoer com os pecados dos outros demonstra mais graça do que condoer-se pelos próprios pecados, nós podemos nos condoer por nossos pecados – por medo do inferno; mas condoer-se pelos pecados de outras pessoas vem do princípio de amar a Deus. Essas lágrimas caem como água de rosas – que são doces e cheirosas, e Deus as coloca em Sua garrafa! “Tu contas as minhas vagueações; põe as minhas lágrimas no teu odre. Não estão elas no teu livro?” (Salmos 56:8)

(4.1.2) Os pecados dos outros cooperam para o bem dos que temem a Deus – de maneira a estabelecer mais orações contra o pecado. Se não houvesse tamanho espírito de perversidade pelo mundo, talvez não haveria tamanho espírito de oração. Grandes pecados geram grandes oradores! O povo de Deus ora contra a iniquidade dos tempos – que Deus dê um ultimato ao pecado, que Ele envergonhe o pecado. Se eles não podem orar pelo fim total do pecado, eles oram contra ele; e isso Deus recebe gentilmente. Essas orações serão tanto gravadas como recompensadas. Mesmo que não prevaleçamos em oração, não devemos deixar de orar. “Minha oração voltava para o meu seio” (Salmos 35:13).

(4.1.3) Os pecados dos outros cooperam para o bem – de maneira a nos tornar mais apaixonados pela graça. Os pecados dos outros são um contraste que realça mais o brilho da graça. Um contrário expõe o outro: deformação expõe beleza. Os pecados dos perversos os desfiguram. Orgulho é um pecado desfigurador; dessa maneira, contemplar o orgulho de outras pessoas nos torna mais apaixonados pela humildade! Malícia é um pecado desfigurador, é a imagem do diabo; quanto mais dela vemos nos outros, mais nos apaixonamos pela mansidão e caridade. Alcoolismo é um pecado desfigurador, ele transforma homens em monstros, ele priva o uso da razão; quanto mais embriagados vemos os outros, mais devemos amar a sobriedade. O lado negro do pecado expõe muito mais a beleza da santidade.

(4.1.4) Os pecados dos outros cooperam para o bem – de maneira a gerar em nós maior oposição contra o pecado. “Pois eles têm quebrantado a tua lei. Por isso amo os teus mandamentos” (Salmos 119:126-127). Davi nunca teria amado tanto a lei de Deus se os perversos não tivessem se oposto tanto a ela. Quão mais violentos os outros são contra a verdade, mais valentes os santos são a favor dela. Peixes vivos lutam contra a corrente. Da mesma maneira, quanto mais a maré do pecado avança, mais os tementes a Deus nadam contra ela! As impiedades dos tempos provocam paixões santas nos santos! Essa ira é sem pecado – a qual é contra o pecado. Os pecados de outros são como um amolador que nos deixa mais afiados; eles afiam nosso zelo e indignação contra o pecado!

(4.1.5) Os pecados dos outros cooperam para o bem – de maneira a nos fazer mais zelosos no desenvolvimento da nossa salvação. Quando vemos homens perversos sofrerem tantas dores pelo inferno – isso nos torna mais diligente para o céu. Os perversos não têm nada para encorajá-los – mesmo assim eles pecam. Eles experimentam vergonha e desgraça, passam por cima de qualquer oposição. As Escrituras estão contra eles, suas consciências estão contra eles, existe uma espada flamejante no caminho – e mesmo assim eles pecam. Os corações daqueles que temem a Deus, ao verem os perversos se enlouquecerem pelo fruto proibido, e se consumirem a serviço do diabo – são ainda mais encorajados e despertados nos caminhos de Deus. Eles vão tomar os céus como se fosse pela tempestade. Os perversos são como camelos – correndo atrás dos pecados (Jeremias 2:23). E nós rastejamos como lesmas na piedade? Será que os pecadores impuros devem servir mais ao diabo que nós a Cristo? Será que eles devem ser mais empolgados em ir para a prisão do inferno do que nós para o reino dos céus? Eles nunca se cansam do pecado e nós nos cansaremos da oração? Não temos nós um melhor Mestre que eles? Não são os caminhos da virtude agradáveis? Será que não existe alegria no caminho do dever e o paraíso no final? A atividade dos filhos de Baal no pecado é um alerta para os tementes apertarem o passo, e correrem o mais rápido para o paraíso!

(4.1.6) Os pecados dos outros cooperam para o bem – de maneira a servires como óculos que nos permite enxergar nossos próprios corações. Estamos vemos um miserável e hediondo ímpio? Contemple a imagem de nossos próprios corações! Seríamos desta maneira se Deus nos deixasse! O que existe nas práticas dos perversos está em nossa própria natureza. O pecado na vida dos ímpios é como um fogo que lança chamas e labaredas para a frente; o pecado na vida do servo é como um fogo nas brasas. Cristãos, apesar de vocês não se lançarem em uma chama de escandaloso pecado, vocês não têm motivo para se gabar, pois existe a mesma quantidade de pecado nas brasas das suas naturezas. Vocês possuem a raiz de todos os pecados dentro de vocês, e vocês dariam os mesmos frutos infernais que qualquer ímpio se Deus não os tivesse curvado pelo Seu poder ou transformado por Sua graça!

(4.1.7) Os pecados dos outros cooperam para o bem – de maneira a ser o meio de fazer o povo de Deus ser mais agradecido. Quando você vê alguém infectado com uma praga, quão agradecido você é que Deus o preservou dela! É um bom uso que pode ser feito dos pecados dos outros nos tornar mais agradecidos. Porque será que Deus não nos abandonou ao mesmo excesso de perversidade? Pense com vocês mesmos, cristãos, por que Deus deveria ser mais misericordioso com você do que com outro? Por que ele deveria tomar você, como tição tirado do fogo e não ele? Como isso deve fazer vocês adorarem a graça gratuita! O que os fariseus disseram se gabando, nós podemos dizer agradecidos: “O Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, etc.” (Lucas 18:11)

Se nós não somos tão perversos como outros – nós deveríamos adorar as riquezas da graça gratuita! Toda vez que vemos homens correndo para o pecado, devemos agradecer a Deus que não somos nós. Se olharmos para uma pessoa louca, agradecemos a Deus que o mesmo não ocorreu conosco. Ainda mais, quando vemos outros sob o controle de Satanás – quão agradecidos deveríamos ser, que esta não é mais a nossa condição! “Porque também nós éramos noutro tempo insensatos, desobedientes, extraviados, servindo a várias concupiscências e deleites, vivendo em malícia e inveja, odiosos, odiando-nos uns aos outros .” (Tito 3:3)

(4.1.8) Os pecados dos outros cooperam para o bem – de maneira a serem meios de tornar o povo de Deus melhor. Cristãos, Deus pode fazer de vocês ganhadores através do pecado de outra pessoa. Quão mais ímpios os outros são, mais santo vocês devem ser. Quanto mais os perversos se entregam ao pecado – mais um servo se entrega a oração. “Mas eu faço oração.” (Salmos 109:4).

(4.1.9) Os pecados dos outros cooperam para o bem – de maneira a nos proporcionar uma oportunidade de fazer o bem. Se não houvesse pecadores, nós não estaríamos em tanta capacidade para o serviço. Os piedosos geralmente são os meios para converter os perversos; seus conselhos prudentes e seu bom exemplo é um atrativo e uma isca para trazer os pecadores a acreditar no evangelho. A doença do paciente coopera para o bem do médico; através da cura do paciente, o médico se enriquece. Da mesma maneira, através da conversão dos pecadores de seu caminho errado, nossa coroa se torna maior. “Os que a muitos ensinam a justiça, como as estrelas sempre e eternamente” (Dn. 12:31). Não como lâmpadas ou velas – mas como as estrelas para sempre! Portanto, nós vemos que os pecados dos outros são governados para o nosso bem.

(4.2) A sensação de sua própria pecaminosidade será  governada para o bem dos servos de Deus. Apesar dos nossos próprios pecados cooperarem para o bem, isto deve ser entendido cuidadosamente, pois quando digo que os pecados dos crentes cooperam para o bem – isso não significa que haja o mínimo de bondade no pecado. Pecado é como veneno, que corrompe o sangue e infecta o coração; e, sem um antídoto soberano, o pecado sempre causa a morte. Tal é a natureza peçonhenta do pecado – ele é mortal e condenável. O pecado é pior que o inferno. Mas ainda assim Deus, pelo Seu poder soberano, faz com que os resultados do pecado se transformem em bem para o Seu povo. Lembrem-se daquele grande ditado de Agostinho: “Deus nunca permitiria o mal se Ele não pudesse trazer bem do mal.” A sensação de pecaminosidade nos santos coopera para o bem em várias maneiras.

(4.2.1) O pecado nos torna fatigados desta vida. O pecado dos homens de Deus é triste; mas é o fato de ser o fardo deles – é bom. As aflições de Paulo (perdoem-me a expressão) não passavam de brincadeira de criança para ele em comparação com os seus pecados! Ele transbordava de júbilo em sua tribulação (2 Coríntios 7:4). Mas como esse pássaro do paraíso chorava e se entristecia com seus pecados! “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7:24). Um crente carrega seus pecados como um prisioneiro carrega sua algemas; oh, como ele anseia pelo dia do seu livramento! Esse sentido do pecado é bom.

(4.2.2) Essa habitação da corrupção faz os santos valorizarem mais a Cristo. Quão bem vindo é Cristo para aquele que sente seu pecado como um homem doente sente a sua doença! Quão preciosa é a serpente de ouro para aquele que se sente incomodado com o pecado! Quando Paulo tinha lamentado seu corpo da morte – quão grato ele era por Cristo! “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Romanos 8:25). O sangue de Cristo salva do pecado, e é o sagrado unguento que mata essa doença morta do pecado.

(4.2.3) Esse entendimento do pecado coopera para o bem – de maneira a ser uma ocasião de colocar a alma sobre seis deveres especiais:

a) O Pecado coloca a alma em uma auto-análise

Um Filho de Deus sendo consciente do pecado, pega o lampião e lanterna da Palavra e procura em seu próprio coração. Ele deseja conhecer o pior de si mesmo, como um homem em um corpo adoecido deseja saber o pior de sua doença. Apesar das nossas alegrias se basearem no conhecimento de nossas graças – ainda assim existe algum beneficio no conhecimento de nossas corrupções. Portanto Jó ora: “Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado.” (Jó 123:23). É bom conhecer nossos pecados – para que nós não elogiemos a nós mesmos, ou pensemos que nossa condição é melhor do que realmente é. É bom descobrir nossos pecados – para que eles não nos descubram!

b) O pecado coloca um filho de Deus em uma auto-humilhação

O pecado é deixado no homem de Deus  como um câncer de mama ou um caroço nas costas para impedi-lo de ser orgulhoso. Cascalhos e lama são bons para alastrar um navio e impedi-lo de virar de ponta cabeça; o entendimento do pecado ajuda a alastrar a alma para que ele não afunde com orgulho. Nós lemos sobre as “manchas nos filhos de Deus” (Deuteronômio 32:5). Quando um homem de Deus contempla sua face através dos óculos das Escrituras – ele vê as manchas do orgulho, luxúria e hipocrisia. Elas são manchas que os tornam humildes – e faz com que as plumas do orgulho caiam. Esse é um bom uso que pode ser feito até mesmo de nossos próprios pecados, quando eles geram pensamentos ruins de nós mesmos. Melhor é o pecado que me torna humilde do que o serviço que me deixa orgulhoso. Holy Bradford exclamou essas palavras dele mesmo: “Não sou nada além de um hipócrita pintado”; e Hooper disse: “Senhor, eu sou o inferno e Você é o paraíso”.

c) O pecado coloca um filho de Deus em um auto-julgamento

Ele estabelece uma sentença sobre ele mesmo. “Sou demasiadamente estúpido para ser homem” (Provérbios 30:2). É perigoso julgar os outros – mas é bom julgar a nós mesmos. “Mas se julgássemos nós mesmos, não seríamos julgados” (1 Coríntios 11:31). Quando um homem julga a si próprio, Satã é colocado pra fora. Quando Satã deixa qualquer coisa nas mãos de um santo, ele pode dizer: “É verdade, Satã, eu sou culpado desses pecados; mas eu julguei a mim mesmo e já os encontrei; e tendo condenado a mim mesmo no tribunal da minha consciência, Deus irá me absolver no tribunal dos céus”.

d) O pecado coloca um filho de Deus em um auto-conflito

Nosso Espírito combate nossa carne. “A carne milita contra o Espírito” (Galátas 5:17). Nossa vida é uma jornada a pé e uma jornada em guerra. Ocorre um duelo que é combatido todos os dias entre duas sementes. Um crente não pode permitir que o pecado vença. Se ele não consegue deixar de pecar, ele irá pecar menos; apesar dele não poder vencer o pecado – ainda assim ele está vencendo. “Para o vencedor” (Apocalipse 2:27).

e) O pecado coloca um filho de Deus em uma auto-observação

Ele sabe que o pecado é um grande traidor, portanto, ele observa a si mesmo cuidadosamente. Um coração súbito e fácil de enganar necessita de um olho atento. O coração é como um castelo que está sempre em perigo de ser atacado; isso faz o filho de Deus estar sempre alerta, e manter sempre uma guarda sobre seu coração. Um crente tem um olho rigoroso sobre si mesmo, a não ser que ele caia em um pecado escandaloso – e então abra uma brecha que permita que todo seu conforto saia.

f) O pecado coloca a alma em uma auto-reforma

Um filho de Deus não somente descobre o pecado – mas também expulsa o pecado! Um pé ele coloca sobre o pescoço de seus pecados, e o outro ele “volta para o testemunhos de Deus” (Salmos 119:59). Apesar dos pecados do povo de Deus cooperarem para o bem, Deus faz dos males dos santos seus remédios.

Mas não deixe que alguém abuse dessa doutrina. Eu não digo que o pecado coopere para o bem de uma pessoa impenitente. Não, ele coopera para a sua condenação! O pecado somente coopera para o bem daqueles que amam a Deus; e vocês que são tementes a Deus, eu sei que vocês não vão tirar uma conclusão errada disso ou tornar o pecado uma coisa leve ou se encher de pecado. Se vocês o fizerem, Deus fará isso custar caro! Lembrem-se de Davi. Ele se aventurou presunçosamente no pecado, e o que ele recebeu? Ele perdeu sua paz, ele sentiu os terrores do Todo-Poderoso em sua alma, apesar de ter tido toda ajuda para a alegria. Ele era um rei, ele tinha habilidades na música; mesmo assim nada poderia trazer conforto para ele; ele reclama de seus “ossos esmagados” (Salmos 51:8). E mesmo ele tendo saído finalmente daquela nuvem negra – ainda assim ele nunca recuperou completamente sua alegria até o dia de sua morte. Se qualquer um do povo de Deus brincar com o pecado, pois Deus pode torná-lo em algo bom, apesar do Senhor não condena-los, Ele pode mandá-los para o inferno nesta vida. Ele pode colocá-los em tão grande agonia e convulsões da alma como pode enchê-los de terror e faze-los ficar a beira do desespero. Que essa seja a espada flamejante que os impedirá de se aproximar da árvore proibida!

E apesar de eu ter mostrado que as piores coisas, através da mão soberana do grande Deus, cooperam para o bem dos santos, novamente eu lhes digo – não façam pouco caso do pecado!

 

 

As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (1/4)

As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (2/4)

As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (3/4)

 

 

Autor: Thomas Watson

FonteIclnet

Tradução: Voltemos ao Evangelho

Via: Voltemos ao Evangelho

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.