O Animismo e o Espiritismo

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Em relação ao ser humano neste mundo, a visão do kardecismo entende que as almas das pessoas são espíritos encarnados. Assim, o kardecismo afirma que as almas das pessoas não são criadas no momento da concepção, mas já existiam antes de chegar a este mundo.2 A divindade criou as almas, mas é possível também que estas sempre tivessem existido, uma vez que a atividade criativa da divindade é eterna.3 Os espíritos existem numa hierarquia do Ser que depende do estado de pureza que cada espírito alcançou. Essas distinções se manifestam nesse mundo, pois a situação na qual a pessoa nasce é determinada pelo seu carma. Cada vida é apenas uma, numa série de reencarnações, cujo propósito é sofrer, expiar o mal de vidas anteriores, e purificar-se cada vez mais na busca da perfeição. Visto que os homens têm livre-arbítrio e uma natureza essencialmente boa, todos os espíritos são capazes de vencer os desafios e chegar a esta perfeição, embora isto possa requerer milhares de encarnações, em muitos mundos.4 A vida do espírito na pele do ser humano, neste mundo, é apenas uma fase neste processo.

Assim, o espiritismo entende que Adão não foi o primeiro homem, e assim não há uma unidade na raça humana decorrente de uma origem comum. O homem é produto da evolução. O livro de Gênesis não oferece um relato histórico da criação, mas, sim, um relato alegórico.5 Como todo sistema gnóstico, o espiritismo afirma que a matéria é a prisão do espírito. Logo, o estado de encarnação num corpo físico é um estado inferior de existência. A inevitável conclusão é que a matéria em si é uma substância de caráter inferior.

O animismo e o espiritismo devem ser rejeitados porque deturpam a natureza do relacionamento que existe entre os seres espirituais criados por Deus e o mundo que ele criou. A Bíblia afirma que Deus criou os anjos, mas não afirma a criação de outros seres, como os orixás ou os deuses das religiões orientais. No capítulo anterior também vimos que a criação não foi feita a partir da essência divina, mas sim, a partir de matéria criada do nada por Deus. Nem a doutrina da criação, nem o nosso estudo dos seres angelicais oferecem apoio à noção de que a terra é viva ou animada por alguma energia divina, como o Axé ou o fluido universal do espiritismo. Os anjos existem para louvar a Deus e fazer a sua vontade na realização do seu plano na história. Eles não foram criados para dar vida ou possuir os elementos da criação.

Não obstante, o testemunho do animismo é no sentido de que o homem enfrenta forças espirituais na criação. As religiões animistas, inclusive as orientais, despendem uma energia significativa na tentativa de apaziguar estes espíritos, tanto que não é incomum os adeptos viverem com pavor das consequências de não atingirem esse objetivo de modo adequado.

O que podemos concluir acerca da identidade dos espíritos do animismo, visto que a Bíblia mostra que o propósito dos anjos não é vivificar a criação? O que podemos dizer a respeito dos espíritos que se manifestam no espiritismo, seja na umbanda ou no kardecismo? É verdade que esses espíritos são espíritos dos mortos e de outros seres espirituais que podem ajudar na evolução espiritual do homem?

Duas conclusões merecem ser consideradas. Em primeiro lugar, podemos concluir que a crença em espíritos é apenas superstição, e que não existem tais seres. Ou podemos concluir que os espíritos existem, mas que não são o que os animistas e espíritas acreditam que são. Um estudo da Bíblia e do fenômeno religioso mostra que as duas conclusões têm seu mérito. Pesquisas sobre os poderes de praticantes de adivinhação e dos médiuns revelam que muito — talvez a maioria — do que fazem nada mais é do que puro ilusionismo. Por exemplo, pesquisas feitas por dois prestidigitadores, sendo um cristão e outro ateu, que sabem como tais ilusões são feitas, expuseram as fraudes do ocultismo e revelaram os métodos que eles empregam para enganar as pessoas.110 Entretanto, nem tudo o que acontece no mundo do ocultismo é ilusão. A existência e o poder dos espíritos são confirmados não apenas na Bíblia, mas também pela experiência de muitos cristãos e praticantes das religiões animistas. A documentação sobre possessão demoníaca, por exemplo, é farta. O leitor deve consultar a literatura sobre o assunto para confirmar que nem tudo pode ser explicado como ilusão e fraude.111 Biblicamente, não podemos aceitar a interpretação que o animismo oferece sobre este fenômeno. Então, como é que devemos entender o fenômeno?

A chave se encontra no ensino apostólico de que existem anjos maliciosos, que caíram do seu estado de inocência e sabem que foram condenados para passar a eternidade no inferno. São eles que inspiram as religiões falsas. Estes anjos caídos, o diabo e os demônios, querem trazer para si mesmos o louvor devido somente ao Senhor e, depois, querem levar quantos homens puderam para sofrer junto com eles no inferno. Eles querem destruir a obra de Deus, a igreja de Deus e o povo que Deus elegeu. Então, temos que levar a sério a possibilidade de que os espíritos do animismo, seja no candomblé, na umbanda, no kardecismo ou nas religiões orientais, são demônios, servos de Satanás, que espalham mentiras através do ensino dessas religiões e que produzem manifestações sobrenaturais para enganar as pessoas, de forma que elas acreditem em falsas doutrinas. Isto é ensinado por Paulo, quando ele disse: “Que digo, pois? Que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Ou que o próprio ídolo tem algum valor? Antes, digo que as coisas que eles sacrificam, é a demônios que as sacrificam e não a Deus; e eu não quero que vos tomeis associados aos demônios” (1Co 10.19-20). Assim, Paulo afirmou que os poderes e espíritos por trás dos símbolos das religiões pagãs de sua época eram, de fato, demônios — espíritos malignos e enganadores. Esta conclusão, talvez, não seja politicamente correta, mas tem total apoio nas Escrituras.

O crítico da fé evangélica poderia dizer que essa afirmação é intolerante e ofensiva. Será que ele reagiria da mesma forma, ao ouvir alguém dizer que havia caído uma ponte situada ao longo da rodovia na qual está viajando? Ora, é intolerância o fato de alguém lhe dizer que o caminho que ele prefere tomar é perigoso, uma vez que lhe falta uma “ponte” essencial? De modo algum. A única questão importante é saber se existe o perigo de a notícia ser verdade ou não. Se for verdade, no entanto, seria um crime e uma falta de amor não falar nada, apenas por medo de ofender ao motorista. Da mesma forma, a questão aqui discutida é uma questão de proclamação da verdade. Segundo a cosmovisão bíblica, os adeptos do animismo e do espiritismo estão enganados e debaixo da influência de seres malignos, que querem levá-los para a morte eterna. O que a fé evangélica faz é mostrar que falta ao caminho do espiritismo a ponte que eles dizem que levará as pessoas para salvação. É o amor que o cristão tem pelos outros que o motiva a avisá-los sobre o perigo dos demônios. O fato de eles ficarem ofendidos não é motivo suficientemente forte para justificar o silêncio.

A verdade é que os adeptos do espiritismo estão cativos e são escravos de espíritos maliciosos, e a única esperança para a libertação é por meio do evangelho do Senhor Jesus Cristo. Os demônios, fingindo serem orixás ou espíritos dos mortos, enganam os adeptos, levando-os a seguir suas doutrinas e até a convidar demônios a entrar neles. Assim, não é incomum que os adeptos destes movimentos fiquem possuídos por demônios. Muitos pastores evangélicos podem testemunhar a realidade destas manifestações demoníacas, quando um espírita vem ouvir a pregação do evangelho. E somente pelo poder de Deus, em Jesus Cristo, através do Espírito Santo, as pessoas cativas por Satanás podem ser libertadas.

 

 

NOTAS:

  1. AIlan Kardec, O livro dos espíritos, p. 101-104.
  2. Allan Kardec, O livro dos espíritos, p. 81.
  3. Cf. Danny Korem e Paul Meier, The fakers\ exploding the myths of the supernatural, e James Randi, Flim Flam.
  4. Cf. os casos relatados em Kurt Koch, Christian counseling and ocultism e Neil T. Anderson, Quebrando correntes. Não concordamos necessariamente com todos os métodos destes autores, mas acreditamos que os casos citados são adequados para demonstrar a existência deste fenômeno.
  1. Cf. Danny Korem e Paul Meier, The fakers\ exploding the myths of the supernatural, e James Randi, Flim Flam.
  2. Cf. os casos relatados em Kurt Koch, Christian counseling and occultism e Neil T. Anderson, Quebrando correntes. Não concordamos necessariamente com todos os métodos destes autores, mas acreditamos que os casos citados são adequados para demonstrar a existência deste fenômeno.

 

 

Autores: Franklin Ferreira e Alan Myatt

Trecho extraído da Teologia Sistemática dos autores, pág 386, 375-376. Editora: Vida Nova

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.