Interpretando a Bíblia

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A Hermenêutica bíblica, a arte de interpretar a Bíblia, tem como objetivo desenvolver regras para a sua interpretação. Este artigo apresenta duas regras básicas com importantes aperfeiçoamentos para cada uma e duas palavras finais de encorajamento ao leitor. Essas regras são baseadas na convicção de que o Deus trino, para o bem de seus escolhidos, progressivamente se revelou, de acordo com seu próprio e imutável desígnio, através dos escritores inspirados, e providencialmente supervisionou a coleção de seus textos em um cânone, a Bíblia, para sua própria glória eterna.

Regra Um: Interprete as Palavras da Bíblia à Luz de seu Contexto Histórico

As diferentes partes da Bíblia devem ser interpretadas de acordo com o método histórico-gramatical, ou seja, pelo estudo do significado de suas palavras à luz do tempo e do lugar onde foram originalmente escritas. Os livros da Bíblia são muito antigos, muito mais do que outros livros que a maioria das pessoas já leram. O mundo da Bíblia é tão diferente do nosso, que, às vezes, uma tradução não consegue superar a lacuna entre esses textos antigos e os leitores modernos. Mas os tradutores desta Bíblia e os colaboradores das notas não reinterpretaram a Bíblia para adequar-se às posturas modernas; nem o leitor deve fazer isso.

A aplicação da primeira regra é complexa porque os textos bíblicos foram continuamente reposicionados à medida que o cânone da Escritura se expandia progressivamente. Nesse contexto revelador os textos primitivos adquirem sentido mais amplo. Por exemplo, os Salmos individuais dirigidos às pessoas no período do primeiro templo tornaram-se finalmente a Palavra de Deus escrita para o povo da Aliança como um todo, após terem sido agrupados e organizados no Livro de Salmos. A partir desse ponto, os Salmos deveriam ser lidos e meditados (SI 1) à luz de.seus novos contextos literário e social. Por exemplo, o SI 2, o qual proclama o rei de Israel como o filho ideal de Deus com um mandato para governar a terra através da oração e do poder, foi cantado antes do exílio no primeiro templo, provavelmente na coroação dos reis de Israel. No entanto, quando o Livro de Salmos foi editado após o exílio, o trono de Israel estava vago, aguardando o rei prometido, “o Messias”. Sob esse prisma, o SI 2 tornou-se puramente profético. Após a vinda de Cristo, os Salmos tornaram-se parte da Bíblia, que incluía o Novo Testamento; sob essa luz, “o Messias” do Salmo 2 assume seu mais completo e claro sentido: ele não é outro senão o Senhor Jesus Cristo. Compreender a Bíblia completamente significa vigiar atentamente os estágios de desenvolvimento da revelação.

Regra Dois: Interprete as Partes da Bíblia à Luz do Todo

A segunda importante regra de interpretação é freqüentemente chamada de “a analogia da fé”. Essa regra afirma que as Escrituras interpretam as Escrituras. A própria Bíblia diz que todas as suas partes são inspiradas por Deus (2Tm 3.16), que não é um Deus de confusão ( 1 Co 14.33). A regra é corroborada pela existência da Bíblia como um único volume. A coleção de 66 livros, escritos num período de 1.500 anos em um único livro, reflete a convicção da Igreja de que o Autor transcendente supervisionou a coleção dos muitos textos num todo harmonioso. A interpretação que contrapõe as Escrituras contra as Escrituras desonra o Alfa e o Ômega, que vê e governa desde o começo até o fim de todas as coisas.

Mais especificamente, o Antigo Testamento deve ser interpretado à luz do Novo Testamento. Isso é exigido tanto por razões literárias como por razões teológicas. Numa dissertação lingüística, o fluxo de pensamento mantém-se projetando significados indeterminados. Por exemplo, a palavra “canto” em português é ambígua na afirmação “O canto do palácio da rainha”, que pode ser entendido como uma música cantada ou um lugar no palácio. De forma semelhante, conforme se revela a história da revelação de Deus e do estabelecimento de seu reino, textos ambíguos tornam-se mais claros. Por exemplo, a ambígua palavra “descendência” (uma ou muitas?) na promessa de Deus a Abraão (Gn 22.18) toma-se clara em Cristo (GI 3.16). A virgem e Emanuel que não são identificados em Isaías 7.14 são considerados a Virgem Maria e seu Filho (Mt 1.23), e o Servo anônimo em Isaías (42.1-4; 49.1-6; 52.13-53.12; 61.1-2) é revelado como sendo Jesus, o sofredor e triunfante Salvador (Mt 12.18-21; Lc 24.44-49; 1 Pe 1.11 ).

Esta regra é exigida teologicamente. Cristo, que através do Espírito Santo dirige sua Palavra aos apóstolos, é não somente a final mas também a melhor revelação de Deus. Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras nos tempos passados (Hb1.1 ), incluindo sua revelação a Moisés e aos profetas. Apesar das suas variadas psicologias pelas quais Deus se revelou a eles, todos os autores bíblicos escrevam com infalível autoridade. Mas eles não têm peso igual na interpretação, como a disputa entre Arão e Miriã contra Moisés torna evidente. O irmão e a irmã de Moisés, ambos profetas, desafiaram a importância da Palavra de Moisés sobre as suas (Nm 12.1-2). Em resposta, Deus os censurou por seu orgulho, argumentando que as palavras de Moisés eram superiores, porque Deus deu a Moisés uma revelação mais confiante e mais clara do que para eles (vs. 6-8). A história estabelece o importante princípio de que as formas de revelação exigem uma hierarquia de prioridades interpretativas. Cristo é tanto maior do que Moisés quanto um filho é maior sobre uma casa do que um escravo dentro dela (Hb 3.5-6). Se Arão e Miriã deveriam ter medo de se tornarem iguais a Moisés, tanto mais devem os leitores temer tornar o Antigo Testamento igual ao Novo Testamento, que o completa. Na verdade, conforme a conversa entre Filipe e o oficial etíope demonstra (At 8.30-31), o Antigo Testamento não pode ser completamente compreendido sem o Novo Testamento. Se houver alguma dúvida de interpretação entre o Antigo e o Novo Testamento, a prioridade deve ser dada ao Novo Testamento. Isso não significa que o Novo Testamento corrige o Antigo, mas que ele oferece maior clareza de compreensão do Antigo Testamento.

Interpretando os Diferentes Tipos de Literatura da Bíblia

Com essas duas regras fundamentais em mente, podemos agora desenvolvê-las. O método gramático-histórico reconhece que diferentes tipos de literatura ou “gêneros”, tais como história, lei e profecia, no Antigo Testamento e parábolas e as cartas no Novo Testamento, exigirão diferentes regras de interpretação. Por exemplo, em contraste com a literatura legal, a literatura profética, como Nm 12.6-7 torna claro, é freqüentemente simbólica e cheia de figuras de linguagem, tais como metáfora, personificação e metonímia. Além disso, as visões e os sonhos proféticos simbólicos adquiriram suas cores e matizes de suas situações históricas. Por exemplo, no limiar da profecia, Deus adverte a serpente: “Este (o descendente da mulher) te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Isso não é um mito sobre a antipatia entre seres humanos e serpentes, mas uma afirmação sobre o conflito entre Cristo e Satanás (Rm 16.20); a profecia recebe seu colorido da situação no jardim.

Essa espécie de linguagem simbólica torna-se ainda mais intensificada e extensa na literatura apocalíptica tal como Daniel no Antigo Testamento e Apocalipse no Novo. O Portal de lshtar de Nabucodonosor, agora em um museu na Alemanha, explicará completamente por que Daniel teve sonhos fantásticos com animais. Naquele Portal, por onde Daniel passou muitas vezes, a divindade protetora da Babilônia é representada em tijolos de ouro contra um fundo em azul, como sendo um animal com cabeça de dragão, o tronco de leão e as garras de uma águia. Não é de se admirar que Daniel, o chefe administrativo da Babilônia, tenha visto um leão com asas de águia e uma série de outros estranhos animais representando a Babilônia e seus sucessivos reinos (Dn 7).

Os profetas do Antigo Testamento, usando as imagens de seu mundo para mostrar a grandeza do Reino de Cristo a partir de seu trono celestial, sobrecarregaram as velhas figuras. Para retratar o caráter celestial do Reino de Cristo, por exemplo, o monte Sião é descrito como a mais alta montanha, presumivelmente, como conhecida, mais alta que o monte Everest (Mq 4.1 ). Para mostrar a santidade de seu Reino, até mesmo os arreios de cavalos têm a inscrição reservada antigamente para o diadema do sumo sacerdote, SANTO AO SENHOR (Zc 14.20). Jesus usou parábolas enigmáticas a fim de esconder seu significado dos incrédulos e revelá-lo aos seus discípulos (Mt 13). Enfaticamente, a primeira regra da hermenêutica não significa que as palavras devem sempre ser tomadas no seu significado simples, “natural”; o intérprete tem de levar em conta cuidadosamente as figuras de linguagem e os gêneros literários.

A literatura profética e apocalíptica do Antigo Testamento e as parábolas de Cristo no Novo não devem ser lidas da mesma forma que as cartas de Paulo. Assim como os artigos de enciclopédias não podem ser lidos como poemas, também os Salmos não devem ser lidos como Crônicas. Textos relativamente claros, como as epístolas, não devem ser interpretados à luz da literatura profética e apocalíptica, menos transparente; em vez disso, o texto que não estiver claro deve ser lido à luz do que apresenta clareza. Mais sutilmente, mesmo as cartas de Paulo, como as dirigidas aos coríntios, que pressupõem que o leitor conhece a situação a que o apóstolo está se referindo, são menos claras do que uma epístola como Romanos, que apresenta a fé cristã logicamente dentro de um contexto histórico particular.

Mesmo o que parece ser história direta, tais como Reis e Crônicas no Antigo Testamento e os Evangelhos no Novo, não é tão direta como pode parecer na primeira leitura. Os historiadores inspirados de ambos os Testamentos escolheram cuidadosamente seu material e o organizaram para ensinar lições espirituais, de acordo com as necessidades de seu público. Algumas vezes, os incidentes são organizados em ordem dramática ou em tópicos, em vez de ser numa seqüência puramente cronológica. Por exemplo, o Quadro das Nações em Gn 1 O veio cronologicamente após Gn 11, a história da torre de Babel, mas Moisés queria que seu público visse as nações sob a bênção de Deus (Gn 9.1-17) e não sob seu julgamento (Gn 11.9). Às vezes, a linha entre a literatura histórica e a simbólica é atenuada como nas histórias dos primeiros capítulos de Gênesis e, como alguns pensam, em Jonas. Ninguém pensa especificamente que Eva foi apenas condenada à dor no parto e que Adão foi condenado somente a voltar ao pó após a morte (Gn 3.16-19). Todo leitor intuitivamente percebe que Adão e Eva representam todo homem e toda mulher. No entanto, as genealogias do Antigo Testamento e os ensinamentos do Novo Testamento dão validade também ao seu caráter histórico.

A segunda regra, a “analogia da fé”, necessita ser desenvolvida, particularmente com relação à história política do Antigo Testamento e sua relação com o Novo. Deus não está dando andamento a dois programas, um com o Israel terreno e outro com a Igreja celestial, como ficou popularizado no ensino dispensacionalista. Em vez disso, a apresentação terrena do Reino no Antigo Testamento é típica da sua manifestação celestial e espiritual no Novo Testamento. Por exemplo, a libertação política e religiosa de Israel em relação ao Egito, através do cordeiro pascal, o batismo de Israel no mar Vermelho e a peregrinação através do deserto, sustentada pelo maná do céu e pela água da rocha, e depois a entrada na terra de Canaã retratam, em termos concretos, a experiência espiritual da Igreja. A história do Antigo Testamento retrata graficamente o êxodo do Novo Israel do mundo satânico, com sua submissão ao pecado e morte, através do Cordeiro pascal, Cristo (1Co5.7), do batismo na sua morte e ressurreição, isto é, a morte para o mundo e o nascimento para a novidade da sua vida de ressurreição (Rm 6.3-4; GI 6.14), a peregrinação para a cidade celestial, sustentada pelos sacramentos do pão e do vinho (1 Co 10.1-17) e o descanso final na Terra Prometida (Hb 4.6-11; 11.39-40). O ritual de Israel, com seu lugar consagrado no monte Sião, suas estações e sábados sagrados, seus reis e sacerdotes sagrados e suas instituições santificadas, tal como o sacrifício de animais, simbolizadas nas realidades celestiais (Êx 25.9), estão agora cumpridas desde que Cristo entrou no santuário celestial (Hb 9.10). Os rituais temporais e terrenos eram típicos e tornaram-se obsoletos para sempre, quando Cristo trouxe sua Igreja glorificada para os eternos domínios celestiais. Hoje, a Igreja “está oculta juntamente com Cristo” nos lugares celestiais (CI 3.1-4), e, no futuro, ele será visto como ele é (1 Jo 3.2-3). O cristão deve ler a história de Israel e das cerimônias não somente com uma visão para entender o que significava a história e os rituais de Israel naquele tempo, mas também ter em vista sua significação antitípica, de acordo com o Novo Testamento.

Além do mais, as promessas proféticas, moldadas de acordo com as expressões políticas do reino como eram conhecidas antes de Cristo, não devem ser interpretadas como tendo uma concretização futura, carnal, baseada no modelo típico que foi extinto (Hb 8.13), como supôs algum ensinamento dispensacionalista. Em vez disso, as promessas devem ser lidas à luz das realidades antitípicas, celestiais e espirituais, que perduram para sempre (2Co 4.18).

Duas palavras finais. Primeira, embora a Bíblia seja um livro muito antigo, ela é dirigida a você. Quando apresentam citações do Antigo Testamento, os escritores do Novo Testamento freqüentemente usam o tempo presente: “Deus diz”, em vez de “Deus disse”, e eles reforçam a importância presente de sua antiga Palavra acrescentando “para nós” e “para vós” em lugar de “para eles” (1 Co 9.9-10). Tanto Moisés quanto Paulo dizem: “A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração” (Dt 30.14; Rm 10.8). Segunda, porque a Bíblia é a Palavra de Deus, não leia a Bíblia da mesma forma que outros livros. Os escritores bíblicos constantemente usam expressões como “Deus diz” (Is 1.18-20; Mt 19.4; At 4.25). Freqüentemente, Deus afirma diretamente: “Eu digo” (Mq 1.6-8). Aceite a Palavra de Deus com fé e medite sobre ela com a memorização, a imaginação e a reflexão. Antes de ler as páginas sagradas, ore: “Ó Deus, fala comigo” (Pv 2.1-6). Você também dirá como outros: “Não nos ardia o coração,  quando ele, pelo caminho, nos falava?” (Lc 24.32).

 

 

Autor: Bruce Waltke

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra

Marcos Frade
Marcos Frade

Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.