Deus está Faminto

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Tenho um alimento para comer que vós não conheceis (João 4.32).

(1) Quando Deus está faminto? (2) De qual “alimento” Jesus disse aos discípulos como algo totalmente desconhecido? (3) Você sabe que alimento Jesus mencionou no capítulo 4? Vejamos uma aplicação para nossa vida cristã.

Samaria, um território em que os judeus procuravam evitar, tornou-se o cenário de um triunfo espiritual: um poço, uma mulher, um testemunho, a colheita dos samaritanos que creram. Tanto o samaritanismo quanto o judaísmo precisavam da correção de Cristo; precisavam do novo nascimento.

A crescente popularidade de Jesus, que excedia a de João, começou a alcançar os ouvidos dos fariseus. Para evitar problemas com eles nesta ocasião, Jesus decidiu deixar a área e ir para a Galiléia. Ali fez a maior parte de seu trabalho, de acordo com o registro dos Evangelhos Sinóticos.

Deus está “faminto”, mas a sua comida é outra. Ele tem fome do homem que criou para Sua própria glória, do homem que Ele elegeu para manifestar Sua misericórdia e amor, e está buscando esse homem a todo tempo. Essa é a urgência do coração do Pai. E é para o encargo de satisfazer ao anseio de Deus que venho convidá-lo a viver e dedicar os seus poucos e únicos dias na terra. “Irá descobrir neste artigo que sempre que houver um pecador sedento (um pecador carente da graça de Deus – eleito), haverá um Deus faminto (para manifestar Sua infinita graça em Cristo Jesus).”

Enquanto isso, os discípulos insistiam com Ele: Mestre, coma alguma coisa. Mas Ele lhes disse: Tenho algo para comer que vocês não conhecem. Então os seus discípulos disseram uns aos outros: Será que alguém lhe trouxe comida? Disse Jesus: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra. Vocês não dizem: Daqui a quatro meses haverá a colheita? Eu lhes digo: Abram os olhos e vejam os campos! Eles estão maduros para a colheita (João 4.31 – 35).

Este texto narra um diálogo entre Jesus e uma mulher samaritana, no qual podemos perceber que eles foram solidários entre si. Por quê? Porque os dois estavam numa situação muito parecida: estavam exaustos. Jesus estava cansado da viagem e com fome, e a mulher samaritana tinha ido buscar água porque estava com sede. Mas a sua exaustão não era meramente física. Os dois estavam ali na mesma condição, um com fome e outro com sede. O mais interessante é que depois da conversa, nem ela bebe água nem Ele quer comer. Você já tinha percebido isso? A mulher foi lá buscar água porque estava com sede. Jesus parou ali e tinha dito aos discípulos para comprarem comida porque estava com fome. Contudo, depois que Ele e a mulher samaritana conversaram, a Bíblia relata que a mulher largou o cântaro (v.28) e vai até a cidade chamar o povo para ouvir Jesus. Enquanto isso, os discípulos chegam com a comida, mas Jesus fala: Tenho algo para comer que vocês não conhecem. Em outras palavras, podemos entender pela reação dos discípulos: Ele já comeu e não está com fome (v.31 – 33). Será que o Senhor Jesus não está com fome? Certamente, esses pensamentos acometeram a mente dos discípulos.

Ninguém fez o que queria no final no sentido circunstancial (provisão para o físico), e isso me faz chegar a uma conclusão: onde houver um pecador sedento por Deus, existirá também um Deus faminto por esse pecador; não me refiro a um pecador lisonjeiro, mas de fato aquele que se sente como tal.

Aquela mulher matou a fome do Senhor Jesus, e Ele matou a sede dela. É um princípio belíssimo, pois, sempre que houver alguém com sede, Deus virá! Se hoje você estiver com sede, Ele Virá! O Senhor, por sua vez, ficou satisfeito porque o que mata a fome de Deus é um coração sedento. Deus está faminto, mas a sua comida são homens que têm muita sede e grande desejo ou avidez. E o que mata a nossa sede é a presença de Deus, a verdadeira comunhão e a confissão sincera. Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida (Apocalipse 22.17). A preciosa bondade de Deus se manifesta na oferta da graça.

O texto nos dá uma chave para uma verdadeira espiritualidade. Se você quer atrair Deus, tenha um desejo inflamado de Deus. Cultive isso no seu coração, pois Deus é galardoador daqueles que o buscam. Procure por Deus diligentemente. Acredite que Ele o recompensará por isso, pois Ele é real.

Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que o buscam (Hebreus 11.6).

O lema de João Calvino era “orare et labutare” (oração e trabalho). Ele escreveu:

Portanto, todo aquele que medita na Palavra de Deus, a fim de ser devidamente alimentado, e evitar interpretações equivocadas, precisam fazer isto sob oração.

Um detalhe impressionante no quarto capítulo de João é que, no começo da história, a Bíblia nos revela algo muito precioso.

No versículo 4, a expressão “e era-lhe necessário”, denota a ideia de que não havia outra forma. O Senhor Jesus tinha que passar ali. Era necessário atravessar a província de Samaria. A expressão e foi necessário é uma palavra-chave para entendermos algo na escolha de Jesus em passar por Samaria, ou seja, Jesus, por alguma razão que não era natural, tinha que passar por lá. No entanto, não era o caminho mais perto; ademais, um judeu não passaria por Samaria. E porque era necessário?

A palavra grega para descrever essa ação de Cristo é Ἔδει – Edei, que significa “necessidade estabelecida pelo conselho e decreto de Deus, especialmente por aquele seu propósito que se relaciona com a salvação dos homens pela intervenção de Cristo e que é revelado nas profecias do Antigo Testamento” (Isaías 61.1 – 3). Cristo passou por Samaria para resgatar uma de suas ovelhas perdidas de outro aprisco; aquela que o Pai lhe concedeu que fosse Sua, pelo Seu conselho e decreto, já antes estabelecido. Assim podemos afirmar: desde antes a fundação do mundo para a glória de Seu Filho Jesus Cristo (cf. João 17.9; Efésios 1.4, 5). O verbete grego descreve a necessidade que resulta do momento e das circunstâncias, algo inevitável. De acordo com o texto, podemos destacar tal ação sobre a necessidade física: a fome e a sede.

NOTA:

δει – dei, a terceira pessoa de δεω – deo, é comumente usada de forma impessoal no grego clássico. Este uso é menos comum, mas frequente no Novo Testamento. δει indica uma necessidade na natureza das coisas antes que uma obrigação pessoal. Descreve que aquilo deve ser feito. οφειλει – opheilo indica obrigação pessoal; é aquilo que é próprio, algo que deve ser feito.

Segundo a história, os judeus não passavam lá porque Samaria foi a região mais importante do Norte de Israel e foi tomada pelos assírios (700 a.C), que levaram para lá muitas religiões pagãs da Babilônia.

NOTA:

Samaria é o nome histórico e bíblico de uma região montanhosa do Oriente Médio, constituída pelo antigo reino de Israel (Norte), situado em torno de sua antiga capital, Samaria, e rival do vizinho reino do sul, o reino de Judá (capital Jerusalém). Atualmente, situa-se entre os territórios da Cisjordânia e de Israel.

Eles acabaram se casando com judeus e se misturando, criando uma nova raça. Então, os samaritanos se tornaram “judeus imundos”, e os “puros” não se misturavam com eles. Até hoje é assim. Judeus não conversavam com samaritanos e nem pisavam em Samaria. O interessante é que Jesus não sucumbiu a essa situação conflituosa; Jesus veio no tempo devido, oportuno. Ele foi, é e sempre será a paz de nossos piores conflitos. Ele fez de ambos – samaritanos e judeus – um só povo, derribando assim a parede de separação que estava no meio, unindo-os por Seu sangue, por um alto preço. Em sua carne, desfez a inimizade, e pela cruz iria reconciliar ambos os povos com Deus em um corpo, matando com Ele as inimizades. Sabemos qual o motivo que levou o Senhor Jesus até Samaria: uma pecadora desejosa por Deus, uma adoradora das grandezas de Deus, uma filha à espera do Deus Pai, uma serva à espera de Seu Senhor e uma condenada à espera de um redentor. Isso tudo como causalidade. A relação entre um evento A (a causa) e um segundo evento B (o efeito), visto que o segundo evento seja uma consequência do primeiro, da graça irresistível de Deus, e de uma eleição poderosamente atuante de forma incondicional no resgate desta pobre e pecadora mulher samaritana. Ele tinha um encargo (οφειλω – opheilo – a boa vontade devida) em passar por Samaria. Não era por necessidade geográfica, mas por que certamente isso estava no coração de Deus. Ele veio para salvar pecadores. Veio buscar e salvar o que estava perdido (Lucas 19.10).

Podemos pensar em um fato curioso. Em sã consciência, quem buscaria água em um poço ao meio-dia, em um sol escaldante de uma região desértica com Sicar (arredores de Siquém)? Pela lógica, a manhã seria o horário mais apropriado. Pouco sol e água fresca, mas podemos identificar a necessidade da mulher samaritana, uma vez que isso pode apontar para a sequidão de necessidades de uma vida sem Deus. Também pode apontar para outros pontos de uma vida sem Deus. Ela poderia estar se escondendo em um horário impróprio por causa de sua má reputação (atos pecaminosos), provavelmente o poço de Jacó atendia a todos daquela região –  que nos deu o poço (v.12). (cf. João 4.6 – A hora sexta equivalia às 12h – meio-dia).

Jesus percebeu que o Pai queria encontrar alguém naquele caminho, e o Senhor certamente ouviu a voz do Espírito dizendo: É necessário que passe por lá, porque tem alguém com sede naquele caminho. Não posso deixar de ir (um acontecimento previamente decretado). Era isto que certamente estava no coração de Deus: sua vontade em salvar aquela pecadora sedenta por meio de Jesus Cristo, pois só a salvação vem por Ele.

Assim, chegou a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José. Havia ali o poço de Jacó. Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. Isto se deu por volta do meio-dia (João 4.5-6).

O primeiro a chegar ao poço foi o Senhor Jesus. A palavra grega usada para descrever a chegada da mulher samaritana ao poço no (v.7) veio uma mulher (…) é ἔρχεται – erchetai, que denota a ideia de vir de um lugar. Usado para pessoas que chegam a um determinado lugar, ela veio de algum lugar e chegou depois de Jesus ao poço de Jacó em Sicar.

Deus sempre chegará primeiro para encontrarmo-nos com Ele. Sempre estará à frente na ação salvadora, afinal, o homem perdido não sabe o caminho, ele está perdido. A salvação pertence e vem dEle (do Senhor) (Jonas 2.9). Sempre a iniciativa se dá por parte de Deus monergisticamente, nunca do homem. Em toda a obra da salvação, Deus age sozinho. Ele nos ama primeiro, Ele nos espera, Ele é paciente. Ele nos chama na adversidade e é Ele que nos encontra, seja no poço ou em qualquer outro lugar. Vejamos outro exemplo – o lugar do encontro entre Pedro e André com o Senhor Jesus.

Andando junto ao mar da Galiléia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens. No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram (Mateus 4.18 – 20).

Feliz é lembrarmo-nos do dia em que nos encontramos com o Senhor Jesus. E por isso:

Nós o amamos porque Ele nos amou primeiro (1 João 4.19).

Santo Agostinho descreve o seu encontro com o Senhor. Solilóquio – uma das mais lindas orações de gratidão a Deus.

Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava. Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, te desejei. Eu te provei, te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua paz!.

Ele está dentro de você, mas também está esperando por você. Ele deseja ter comunhão e se revelar a você, mas também quer que você tenha sede para que Ele mate a sua sede. É uma chave poderosa que nós percebemos aqui: a ação Soberana de Deus andando juntamente com a “livre” escolha do homem. A responsabilidade humana, em sua ação de escolha, não interfere na soberania divina, mas de uma forma que nos é misteriosa, faz o que antes foi decretado por Deus, de modo que todas as coisas sejam e são feitas de forma harmoniosa, para que se manifeste tão somente a gloriosa graça de Deus em governar sobre tudo e todas as coisas em Cristo Jesus. A soberania de Deus não anula de modo algum a decisão do homem em escolher a Cristo ou negá-lo, sendo que o aceitar Cristo é obra da bondade e misericórdia de Deus, e o negá-lo é obra de corações mortos e sem vida, totalmente depravados. Podemos pensar que estamos com “sede” de Deus, mas na verdade é um sinal de que Deus está com “fome”. Podemos afirmar que não encontramos a verdade, contudo é a verdade que encontra o homem, porque a verdade é uma Pessoa – Jesus Cristo, o Filho de Deus.

O salmista Davi louva a Deus por Seus perfeitos decretos e Suas ações poderosas:

Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia (Salmos 139.16).

É como se o Senhor dissesse o seguinte: embora eu tenha milhões de poderosos anjos no céu, nenhum deles pode satisfazer meu coração. A relação de Deus com o homem é algo misterioso, pois, olhando para os homens, o que eles podem dar a Deus que o próprio Deus não tenha? O que Deus precisa? O amor de Deus pelo homem é algo inexplicável. Ele tem todos os anjos que não caíram, no entanto, o Senhor coloca o homem no centro de tudo que se relaciona a Ele. O Senhor é atraído por homens que são apaixonados por Ele e também por homens que estão longe dEle, pois em outro tempo éramos pecadores.

Mesmo o homem desobedecendo a Deus, Ele amou aquilo que havia feito. Ele tinha, portanto, amor para com o homem ainda quando ele praticava a iniquidade. E assim, de modo maravilhoso e divino, ainda quando odiava, Ele amava o homem. Pois Ele odiava enquanto o homem era como Ele o fizera. E porque a iniquidade não havia consumido toda a Sua obra no homem, Deus não somente odiava o que faziam, mas também amava o que Ele havia feito, pois dessa situação ocasionaria a glória da nossa Salvação, a manifestação do incomensurável amor de Jesus, o unigênito Filho amado que a Igreja teve como uma mulher gritando com dores de parto (cf. Gênesis 3.15; Apocalipse 12.1, 2).

Talvez você não acredite nisso e viva sofrendo com acusações sem fim, mas o que você não sabe é que você é nada mais nada menos do que o anseio de Deus. Você fica chorando porque alguém o rejeitou, mas o que você não sabe é que Deus anseia por você. Ele deseja que você seja salvo, se assim acontecer que o seu coração arda, queime de desejo e de culpa ao ouvir a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo. Se for assim, certamente Ele morreu por você.

O coração do homem talvez seja a única coisa que Deus não tenha, porque Ele não toma o nosso coração por assalto como o diabo. O coração do homem precisa de transformação, regeneração. O homem precisa passar por um transplante para que viva. O texto de Ezequiel relata esse transplante. O transplante é de um órgão vital, o coração. E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne, Para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os cumpram, e eles me serão por povo, e eu lhes serei por Deus (Ezequiel 11.19-20). (cf. Salmos 139.23, 24; Jeremias 31.33; 32.39; Efésios 2.1 – 10).

A coisa que Ele mais deseja do homem é um coração santo, um coração liberto e conformado na Pessoa de Seu Filho. Por isso eu posso dizer: Deus anseia por você. Pense em uma situação. Como você se sentiria se alguém o procurasse e dissesse: “Olha, o presidente do Brasil viu um vídeo que você gravou e colocou no Facebook, no qual você fala algo que o agradou. Então chegou a nós o convite e o presidente do Brasil quer encontrar com você”. Como você se sentiria? Não é um convite do presidente do Brasil para você, mas eu lhe digo, o Senhor já achou você e Ele manda um convite hoje. Ele quer encontrá-lo, e o mais gracioso é que você não fez nada, absolutamente nada para agradá-lo. Pelo contrário, em toda a sua vida, você não fez nada além de pecar. Mas a questão não é que você pecou. A questão é: Você nasceu quebrando todas as Suas leis, cresceu o odiando e se constitui inimigo de Deus. Mesmo assim Deus convida você! É inexplicável a graça. É algo imerecido. O selo que dá autenticidade a este convite é a graça de Deus. O Espírito Santo levará até você este convite. Mas no convite está escrito algo que se deve observar – é restrito.

O convite é endereçado a você, pecador. Não é endereçado a pecadores lisonjeiros como já mencionei, mas a pecadores confessos e arrependidos: Arrependei-vos e crede no Evangelho (Marcos 1.15). Abra o convite [a Escritura] e o aceite. Jesus Cristo pagou toda a sua dívida.

O cristão é um novo homem. Essa é sua identidade essencial. E por ser um novo homem, ele é chamado a viver como novo homem. Uma vez que o velho homem foi despido, e o novo homem revestido, ele é exortado a crer neste fato: ser renovado no espírito do vosso entendimento e a viver de acordo: despojando-se do velho homem (rejeitando suas obras passadas) e a revestir-se do novo homem (na prática da retidão e justiça).

Esse é o método do Novo Testamento para o crescimento na graça. “Saiba quem você é, e então, seja quem você é”.

Depois do encontro com Jesus Cristo, a mulher samaritana viu quem ela era – uma pecadora sedenta por Deus, uma criatura desejosa por salvação.

Podemos extrair uma aplicação do versículo 28 para nossas vidas.

Então, deixando o seu cântaro, a mulher voltou à cidade e disse ao povo.

O verbo grego usado para “deixando (…)” é ἀφῆκεν – aphēken, que pode significar deixar alguém, abandoná-lo aos seus próprios anseios, de modo que todas as reivindicações são abandonadas; desistir de algo, não guardar mais, ou simplesmente abandonar algo. Nesse sentido, a palavra é usada em conexão especialmente com pecados (Mateus 9.2; 1 João 1.9). O que podemos afirmar acerca desse cântaro? O significado do verbo está ligado ao cântaro? Não! Mas podemos entender o significado desse verbo com a lição do cântaro. Afinal, existe no texto sagrado esse registro do abandono. E por quê?

No versículo 11, a mulher samaritana questiona Jesus acerca de como Ele retiraria água do poço, isto é, com qual instrumento ou objeto. E Jesus lhe responde que qualquer um que tomasse daquela água voltaria a ter sede, mas aquele que bebesse da água que Ele lhe desse jamais voltaria a ter sede.

O ponto é que Jesus deu essa água viva à mulher. No final, ela não retirou água do poço com o seu cântaro. E assim o abandonou (v.28). Aquele cântaro pode muito bem simbolizar seus meios de satisfação, seus anseios, seus pecados, seus medos, tudo aquilo que era motivo de sua adoração superficial e confusa a Deus, mas também pode simbolizar o seu esvaziamento de acordo com a sua pessoalidade. Jesus tinha lhe dado água viva, e ela sabia que Jesus sentia sede (v.7). Por que não pensar que ela deixou o cântaro para que o Senhor Jesus retirasse a água do poço? Afinal, Jesus a amou primeiro, dando-lhe água viva. Assim, podemos entender que ela amou a Jesus posteriormente ao sentir o seu amor, deixando o cântaro para que Ele bebesse da água física e saciasse a sua sede.

Notamos a sede de Deus, o abandono de seus anseios (pecados) e a confissão da mulher samaritana em três pontos.

(1) A sede: Ela pede água viva ao Senhor Jesus (v.15).

(2) A confissão: Confessa que não tem marido (v.17).

(3) O abandono de seus pecados: Deixa o cântaro, “símbolo de pessoalidade, medos e anseios”, e porque não de transformação, sendo que ela amou o próximo como a ela mesma, deixando o cântaro para que Jesus bebesse da água física – (gomos) do fruto Espírito Santo – caridade, amor e bondade (v.28). Assim foi com Zaqueu. Apenas um encontro e transformações aparentes (cf. Gálatas 5.22; Lucas 19.1 – 10).

Deixar o cântaro pode significar uma vida de pecado, de mentira e de engano (v.17). Deixar o cântaro pode representar o abandono do orgulho e dos preconceitos (v.9). Pode simbolizar seu passado (junto com o passado as feridas, mágoas, dor, a depressão e o medo) (v.17 – 19). Deixar o cântaro também pode expressar consequências virtuosas, como também pensar na felicidade dos outros (v.7, 28 – 29). Deixar o cântaro pode significar vencer os obstáculos à evangelização, pois, provavelmente, a mulher samaritana não teria uma boa reputação (v.18).

NOTA 1:

Se a mulher, quando voltou para Sicar, deixou seu cântaro em razão da pressa ou por simples cortesia, de forma que finalmente Jesus pudesse beber, não é claro. Muitos sugerem que João, qualquer que tenha sido o motivo, detecta um profundo simbolismo: na ansiedade de desfrutar da nova e viva água, ela abandona o velho cântaro, e ele assim fala sobre a renúncia das velhas formas cerimoniais de religião em favor da adoração em espírito e em verdade. Não fica nada claro, entretanto, se João queria dizer tanto, porque, diferente dos jarros de água de (2.6), nenhum ritual de purificação está ligado a esse cântaro. Mais surpreendente é sua ansiedade para dar testemunho ao povo da cidade a quem ela anteriormente tinha motivo para evitar. Ela concluiu que a partir do conhecimento que Jesus tinha de sua vida pessoal, Ele devia ser, no mínimo, um profeta (v.19; cf. 1.48). Da discussão que se seguiu, ela começava a perceber que Ele era o profeta. Agora, relatando os passos em seu pensamento ao seu povo, ela os exorta: Venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito, que pode ser uma hipérbole, mas atesta muito bem quão central sua vida pessoal desordenada e pecaminosa era para seu próprio pensamento. Mas, se um forasteiro sabe tanto, Ele não poderia saber mais? Ela pergunta, com evidente agitação e hesitação (μήτι – mēti): Será que Ele não é o Cristo?. Talvez o povo da cidade estivesse tão impressionado por sua agitação e sinceridade do que por seu argumento. De qualquer forma, decidiram ver por si mesmos e começaram a caminhada para o poço de Jacó, enquanto Jesus ainda estava conversando com Seus discípulos.

NOTA 2:

Desimpedida do seu cântaro, a mulher retirou-se apressadamente para a cidade, como prova do seu propósito de retornar, pois estava determinada a obter a água viva daquele momento em diante. Ela fez mais do que Jesus pedi e não foi ter com um só homem, mas com os homens da cidade com a notícia de sua maravilhosa experiência. Ela não tinha a presunção de ensiná-los, mas colocou um pensamento em suas mentes, por meio de uma pergunta tentadora: Será que esse não é o Cristo? Os homens ficaram suficientemente impressionados para irem com ela ao poço.

 

CONCLUSÃO

Assim deve ser a ação de todos os homens: abandonar “seus cântaros” e seguir somente a Escritura. Abandonar pecados, depositar toda confiança no Senhor Jesus e anunciar as boas novas do Reino de Deus, com uma Teologia saudável e uma piedade que acompanha essa Teologia.

Os discípulos, por sua vez, estavam insistindo com Jesus para que comesse do que eles tinham acabado de trazer da cidade. Mas Jesus, ainda com sede (v.7), e provavelmente com fome, estava aparentemente pensando na conversa que Ele acabara de ter com a mulher samaritana. Ele decide usar a circunstância para ensinar aos Seus seguidores algo sobre Suas próprias prioridades: “Tenho algo para comer que vocês não conhecem”. Ou seja, o esvaziamento é a comida que nós ainda não conhecemos (kenosis, doutrina do esvaziamento do logos divino – cf. Filipenses 2.4 – 8). Trata do esvaziamento da vontade própria de uma pessoa e a aceitação do desejo divino de Deus.

Então, quando Deus está faminto? A verdade é que Deus está com fome de homens vazios. “Deus não despede ninguém vazio, exceto aqueles que estão cheios de si mesmos” – Dwight L. Moody.

 

 

NOTAS:

  1. D. A. Carson, João.
  2. Comentário Bíblico Moody.
  3. Citações do Livro de Naor Pedroza: Quando Deus está com fome.

 

 

Autor: Plínio Sousa

Divulgação: Reformados 21

Plinio Sousa
Plinio Sousa

Soteropolitano. Fundador do Instituto Reformado Santo Evangelho — IRSE. Atuo como Diretor e Professor do mesmo. Pastor Reformado, Bacharel em Teologia, Mestre em Teologia do Novo Testamento. Psicólogo Cristão, Juiz de Paz Eclesiástico, Capelão Cristão, Missionário, Palestrante e Escritor.