O Problema do Ateísmo

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Exatamente como vimos no caso da religião,1 agora também é evidente que o conhecimento de Deus só pode ter sua origem na revelação. Naturalmente, se Deus não se manifesta em suas criaturas, nenhum conhecimento dele jamais será possível. Mas se ele revela suas perfeições no mundo das criaturas, sua cognoscibilidade não pode mais ser questionada. É claro que, ao dizer isso, não definimos o caráter e a extensão desse conhecimento. Todos os que ensinam a cognoscibilidade de Deus admitem prontamente que esse conhecimento é totalmente único (sui generis) e de um alcance muito limitado. Pois, embora Deus, em alguma medida, tome-se manifesto em suas criaturas, permanece nele uma plenitude infinita, poder e vida, que não é revelada. Seu conhecimento e poder não são confinados ao mundo nem revelados exaustivamente nele. Nem mesmo é possível para ele revelar-se plenamente em suas criaturas ou a elas, porque o finito não pode compreender o infinito. “Ninguém conhece o Pai senão o Filho” (Mt 11.27; cf. Dt 29.29). Além disso, aquilo que Deus revela de si mesmo em suas criaturas e por meio delas já é tão rico e profundo que nunca pode ser plenamente conhecido por qualquer ser humano. Em muitos aspectos, não entendemos sequer o mundo de coisas criadas e somos, a cada momento, confrontados em todas as direções com enigmas e mistérios. Como, então, seremos capazes de entender a revelação de Deus em toda a sua riqueza e profundidade? Mas, ao dizer isso, certamente não estamos anulando a cognoscibilidade de Deus. A incompreensibilidade de Deus, longe de anular sua cognoscibilidade, a pressupõe e afirma. As riquezas do ser de Deus – riquezas que ultrapassam todo conhecimento – são, de fato, um componente necessário e importante de nosso conhecimento de Deus. Permanece o fato de que Deus se faz conhecido a nós de um modo e na medida em que ele se revela em suas criaturas.

O fato de que o mundo é o teatro da auto revelação de Deus dificilmente pode ser negado. Em primeiro lugar, a Escritura em nenhum momento nos deixa em dúvida sobre isso. Ela não erige um altar ao Deus desconhecido, mas proclama o Deus que fez o mundo (At 17.23, 24); cujo poder e divindade podem ser claramente percebidos pela mente humana nas coisas que foram feitas (Rm 1.19, 20); que, acima de tudo, criou a humanidade à sua imagem e semelhança (Gn 1.26), como sua geração que vive e se move nele (At 17.28). Ele falou aos seres humanos pelos profetas e pelos apóstolos, e, acima de tudo, pelo seu próprio Filho (Hb 1.1), e agora, continuamente, revela-se neles e para eles (Mt 16.17: Jo 14.22, 23; etc). De acordo com a Escritura, todo o universo é uma criação e, portanto, também uma revelação de Deus.

Em um sentido absoluto, portanto, nada é ateísta. E esse testemunho da Escritura é confirmado por todos os lados. Não há um mundo ateísta. Não há povos ateus. Também não há pessoas ateias. O mundo não pode ser concebido de modo ateísta porque, nesse caso, ele não poderia ser obra de Deus, mas teria de ser a criação de um anti deus. O dualismo que recorrentemente vem à superfície na religião e na filosofia de vez em quando interpreta a matéria como um princípio demoníaco, mas, com referência ao universo, ele reconheceu, consistentemente, uma combinação de ideia e matéria, um conflito entre luz e trevas. Ninguém é capaz, de maneira absoluta e com consistência lógica, de negar a cognoscibilidade de Deus e, portanto, sua revelação. O próprio agnosticismo é prova disso: assim como o ceticismo, ele não pode se sustentar exceto com a ajuda daquilo a que se opõe. E precisamente porque o mundo não pode ser concebido com o irreligioso, não há povos ou pessoas sem religião. De fato, o oposto foi alegado por Socínio, Locke e por muitas pessoas em tempos modernos, como, por exemplo, Buchner, Darwin.2 Mas sua opinião foi suficientemente refutada e agora está quase universalmente abandonada.3 A famosa declaração de Cícero de que “não há povo tão bárbaro que não creia nos deuses” tem sido confirmada ao longo dos séculos. Esse fato é de grande importância. A crença que todos os humanos compartilham em virtude de sua natureza não pode ser falsa. “O tempo oblitera as invenções da imaginação, mas confirma os juízos da natureza.”4

Portanto, por fim, não há ateus. Há divergência não tanto com relação à existência de Deus, mas com relação á sua natureza. De fato, há um ateísmo prático, vida sem Deus no mundo (Sl 14.1; 53.2; E f 2.12). No entanto, um ateísmo teórico consciente, em um sentido absoluto, se é que ocorre, é raro. A palavra “ateísmo”, porém, é geralmente usada em um sentido relativo, não como a negação de qualquer tipo de divindade, mas como a negação de certa divindade específica. Os gregos acusaram Sócrates de ateísmo.5 Cícero acusou Protágoras e Prodicus de serem ateus porque eles negavam a existência dos deuses nacionais.6 Pela mesma razão os cristãos eram frequentemente acusados de ateísmo pelos pagãos.7 E os cristãos, por sua vez, aplicaram essa palavra àqueles que rejeitaram a revelação de Deus. Os católicos romanos às vezes contavam Lutero, Melanchthon e Calvino entre os ateus, e Voetius, empregando a palavra em seu sentido estrito, aplicou-a também a Descartes.8 J. G. Fichte foi abertamente acusado de ateísmo porque igualou a própria ordem moral do mundo com Deus. E, ainda hoje, o termo “ateu” às vezes é dado àqueles que não conhecem outro poder além da “matéria”, como Feuerbach, Strauss, Buchner, Haeckel, Czelbe e Dühring.9 De fato, quando os materialistas nada reconhecem além da matéria e do processo de mudança da matéria, eles são ateus e não têm dúvidas em querer ser considerados assim.

Mas isso quase nunca acontece. Entendido em um sentido absoluto, como a negação de um poder absoluto, o ateísmo é quase inconcebível. Na análise final, todas as pessoas reconhecem um poder que veneram como Deus. Assim como o crente cristão convida outros a reverenciarem seu Deus, assim também Strauss requer uma devoção semelhante em relação ao universo.10 O ateísmo e o materialismo repetidamente se transformam em panteísmo11 pela razão óbvia de que os seres humanos não podem resistir ao reconhecimento de um Poder Supremo. No exato momento em que negam o verdadeiro Deus, formam para si um Deus falso. A religião está muito profundamente arraigada na natureza humana, e a revelação de Deus fala em uma linguagem clara demais para que ela resista a essa tendência. Até mesmo quando, em certos períodos, as marés do indiferentismo e do ceticismo são mais profundas e amplas, por exemplo, no tempo de Péricles, do Imperador Augusto, na Renascença e em nossa própria época, a religião sempre sobe à superfície. As pessoas preferem adotar a mais grosseira superstição a permanecer por um longo tempo na fria e nua incredulidade. Mas podemos afirmar isso de maneira ainda mais forte. Não somente o ateísmo, em um sentido absoluto, dificilmente pode ocorrer, mas ele também é raro até mesmo no sentido da negação de um Deus pessoal que reivindica nossa adoração.

Sem dúvida, o naturalismo, o hilozoísmo e o panteísmo repetidamente sucedem tendências intelectuais. Mas são tendências filosóficas, e não religiosas. Eles nunca surgem espontaneamente, mas devem sua existência à crítica da interpretação religiosa de outras pessoas. Eles nunca estão fundamentados no dogma, mas na crítica, e, portanto, sempre são úteis por certo tempo e em um círculo limitado. Uma nação, uma sociedade, uma denominação ou congregação desse tipo de naturalistas e panteístas é inconcebível e não pode existir.

Os próprios panteístas reconhecem isso quando dizem que as representações religiosas gráficas são necessárias para as pessoas comuns e que somente os filósofos podem se elevar ao nível de conceitualidade pura. A crença em um Deus pessoal, portanto, é natural e normal; ela surge espontânea e universalmente na consciência humana. Mas o ateísmo, até mesmo a negação da existência de um Deus pessoal, é a exceção. Isso é filosofia, não religião. Há verdade na pungente declaração de Schopenhauer: “Um Deus impessoal não é Deus. Isso é nada mais que uma palavra mal interpretada, um conceito errado, uma contradição de termos, um chibolete para professores de filosofia que, depois de terem tido de abandonar a coisa em si, têm de dar conta da palavra”.12 É, portanto, necessário certo esforço para não se crer em Deus: “Ninguém descrê da existência de Deus, exceto a pessoa para quem a existência de Deus não é conveniente”. Não há ateus tão completamente seguros de sua incredulidade a ponto de desejarem morrer como mártires por ela. Como o ateísmo é anormal e artificial, baseado não em intuições, mas provas inferenciais e em raciocínio falível, ele nunca está seguro de suas causas. Os argumentos para a existência de Deus podem ser fracos, mas, de qualquer modo, são mais fortes que os argumentos elaborados para sua negação. E até mesmo impossível provar que não há Deus. Para realizar essa façanha, a pessoa teria de ser onipotente e onipresente, isto é, teria de ser Deus!13

 

 

NOTAS:

  1. Cf. H. Bavinck, Reformed Dogmatics, 1, 276 (n°. 81).
  2. F. Socinus, Tract, theol., c. 2; “De auctor script”, c. 2;]. Locke, Essay on Human Understanding, I, 4, 8; L. Buchner, Force a n d Matter, trad, da 15a. edição alemã (Nova York: P. Eckler, 1891); C. Darwin, The Descent of Man, 2a. ed. (Nova York: D. Appleton, 1903), 95ss.
  3. B. de Moor, Comm. In Marckii Comp. I, 57; C. Vitringa, Comm., I, 16; O. Peschel, Abrahandlungen zur Erdund Volkerkunde, 5“. ed. (Leipzig: Duncker & H um bolt, 1878), 260; F. Ratzel, Volkerkunde, 3 vols. (Leipzig: Bibliographisches Institut, 1885-90), I, 30ss; nota do organizador: TI: The History of Mankind, trad. A. J. Ruther,
  4. vols. (Nova York: MacMillan, 1896-98); C. P. Tiele, Geschiedenis van de Godsdienst (Amsterdã: P. N. van Kam pen & Zoon, 1876), 8; R. Flint, Anti-theistic theories, 3a. ed. (Edimburgo e Londres: W. Blackwood and sons,1885), 2 5 0,289, 519, 532; G. Tr. Ladd, The Philosophy of Religion, 2 vols. (Nova York: Scribner, 1905), I, 120ss.; O. Zockler, Das Kreuz Christi (Gutersloh: C. Bertelsmann, 1875), 117ss.
  5. Cicero, On the Nature of Gods, I, 17; II, 2.
  6. Xenofonte, Memorabilia, I, 1.
  7. Cicero, On the Nature of Gods, I, 42.
  8. J. C. Suicerus, Thesaurus ecclesiasticus, veja v. “oeoq”; Hamack, Der Vorwurf des Atheism us in dendreiersten Jahrhundert (Leipzig: J. C. H inrichs, 1905).
  9. J. Buddeus, Theses theologicae de atheismo et superstitione, org. J. Lulofs (1747), 116: sobre Voetius, veja A. C. Duker, G. Voetius, 4 vols. (Leiden: Brill, 1897-1915), II, 151ss.
  10. Cf. A. Dreww, Die deutsche Spekulation seit Kant, 2 vols. (Berlim: P. Maetes, 1893), II, 235ss.
  11. D. F. Strauss, The Old Faith and the New, trad. Mathilde Blind (Nova York: Holt, 1873), 141ss.
  12. L. Buchner, Force and Matter, 370ss.; E. Haeckel, Naturale Schopfungsgeschichte (Berlim: G. Reimer, 1889), 20, 32, 64; nota do organizador: TI: The History of Creation, trad. E. R. Lankester, 2 vols. (Nova York: D. Appleton, 1883); idem, Der Monism us als Band zwischen Religion und Wissenschaft, 6a. ed. (Bonn: Emil Strauss, 1893); idem , The Riddle of the Universe, trad. Joseph McCabe (Nova York: Harper & Brothers, 1900), 288ss.
  13. A. Schopenhauer, Parerga und Paralipomena, 2 vols. (Leipzig: P. Reclam, 1895), I, 123; cf. idem, Die Welt als Wille und Vorstellung, 6a. ed., 2 vols. (Leipzig: Brockhaus, 1887), II, 398, 406, 739; nota do organizador: TI: Parerga and Paralipomena, trad. E. F. J. Payne, 2 vols. (Oxford: Clarendon Press, 1974); e The World as Will and Representation, trad. E. F. J. Payne (Nova York: D over Publications, 1966).

 

 

Autor: Herman Bavinck

Fonte: Trecho extraído da Dogmática Reformada do autor, vol 2, pág  56-59.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.