A Imagem de Deus no Antigo e no Novo Testamento (1/2)

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O aspecto mais característico da concepção bíblica do homem é o ensino de que o homem foi criado à imagem de Deus. Analisaremos este conceito neste e nos dois próximos capítulos. Nossa primeira tarefa consistirá no exame do ensino bíblico sobre a imagem de Deus, primeiro conforme aparece no Antigo Testamento e, em seguida, no Novo Testamento.

O ENSINO DO ANTIGO TESTAMENTO

O Antigo Testamento não diz muita coisa a respeito da imagem de Deus. Na verdade, o conceito é tratado especificamente em somente três passagens, todas no livro de Gênesis: 1.26-28; 5.1-3 e 9.6. O Salmo 8 também poderia ser visto como uma descrição do significado da criação do homem à imagem de Deus, mas a frase “imagem de Deus” não aparece neste salmo. A seguir, examinaremos cada uma dessas passagens separadamente.

Lemos em Gn 1.26-28:

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.

O primeiro capítulo de Gênesis ensina a singularidade da criação do homem. Nesse capítulo, lemos que, enquanto Deus criou cada animal “segundo a sua espécie” (v. 21, 24, 25), somente o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (vv. 26-27). Herman Bavinck expressa isso da seguinte forma:

O mundo inteiro é uma revelação de Deus, um espelho das suas virtudes e perfeições; cada criatura é, ao seu próprio modo e em sua própria medida, uma personificação de um pensamento divino. Mas, dentre todas as criaturas, somente o homem é à imagem de Deus, a mais elevada e mais rica revelação de Deus e, portanto, cabeça e coroa de toda a criação.1

A primeira coisa que nos impressiona quando examinamos Gênesis 1.26 é que o verbo principal está no plural: “Também disse Deus: Façamos o homem”. Isso indica que a criação do homem distingue-se do restante da criação, visto que essa linguagem não é usada com relação a qualquer outra criatura. Muitos eruditos têm tentado explicar o emprego do plural aqui. Alguns o chamam de “plural de majestade”, uma possibilidade bastante remota, visto que tal plural não é encontrado em nenhum outro lugar da Escritura. Outros sugeriram que, nesse texto, é Deus dirigindo-se aos anjos. Também esta interpretação deve ser rejeitada, visto que jamais se fala de Deus tomando conselho com os anjos, os quais – sendo eles mesmos criaturas – não podem criar o homem, nem foi o homem feito à semelhança de anjos.2 Ao invés disso, deveríamos interpretar o plural como uma indicação de que Deus não existe como um ser solitário, mas como um ser em comunhão com “outros”. Embora não possamos dizer que temos aqui um ensino claro a respeito de Trindade, aprendemos que Deus existe como uma “pluralidade”. O que, aqui, apenas se vislumbra, o Novo Testamento mais tarde desenvolve na doutrina da Trindade.

Deve-se notar também que a criação do homem foi precedida por uma deliberação ou conselho divino: “Façamos o homem ….” Isso demonstra nova­mente a ideia da singularidade da criação do homem. Esse conselho divino não é mencionado com relação a nenhuma outra criatura.

A palavra traduzida como homem nesses versos é a palavra hebraica [adam]. Esta palavra é empregada algumas vezes como nome próprio, Adam (ver, p. ex., Gn 5.1, “Este é o livro da genealogia de Adão”). A palavra hebraica adam, contudo, também pode significar homem no sentido genérico: ser humano. Neste sentido, a palavra tem o mesmo significado da palavra alemã Mensch: não homem em distinção de mulher, mas homem em distinção de criaturas não-humanas, isto é, como masculino ou feminino ou ambos, masculino e feminino. É neste sentido que a palavra é usada em Gênesis 1.26 e 27. A palavra adam também pode algumas vezes significar raça humana (ver, por exemplo, Gn 6.5, “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra”). Visto que as bênçãos contidas em Gênesis 1.28 aplicam-se à toda a humanidade, podemos inclusive dizer que os versos 26 e 27 descrevem a criação da humanidade, mas deveremos então qualificar esta afirmação de alguma maneira, como: Deus criou o homem e a mulher de quem toda a humanidade descende.

Passemos agora aos vocábulos principais: “à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. A palavra traduzida como imagem é tselem; a palavra traduzida como semelhança é demuth. No hebraico, não existe qualquer conjunção entre essas duas palavras. O texto simplesmente diz: “façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Tanto a Septuaginta3 como a Vulgata4 inserem um e entre as duas expressões, dando a impressão de que “imagem” e “semelhança” se referem a coisas diferentes. O texto hebraico, contudo, deixa claro que, essencialmente, não há diferença entre ambas: “conforme a nossa semelhança” é apenas uma maneira diferente de dizer “à nossa imagem”. Isso é confirmado pela análise do uso dessas palavras nessa passagem bem como nas outras duas passagens de Gênesis. Em Gênesis 1.26, as duas palavras, imagem e semelhança, são usadas; em 1.27 somente imagem é usada, ao passo que, em 5.1, somente a palavra semelhança é usada. Em 5.3, as duas palavras são usadas novamente, mas, desta vez, na ordem inversa: “à sua semelhança, conforme a sua imagem”. Novamente, em 9.6, aparece somente a palavra imagem. Se, com estas palavras, se quisesse descrever aspectos diferentes do ser humano, não seriam usadas como vimos que foram, isto é, quase que indistintamente.

Embora essas palavras sejam geralmente usadas como sinônimas, deve-se reconhecer uma pequena diferença entre elas. A palavra hebraica para imagem, tselem, é derivada de uma raiz que significa “esculpir” ou “cortar”.5 Poderia, portanto, ser usada para descrever a figura esculpida de um animal ou pessoa. Aplicada à criação do homem em Gênesis 1, a palavra tselem indica que o homem reflete a imagem de Deus, ou seja, ele é uma representação de Deus. A palavra hebraica para semelhança, demuth, vem de uma raiz que significa “ser igual”.6 Poderia se dizer, então, que a palavra demuth em Gênesis 1 indica que a imagem é também uma semelhança, “uma imagem que é semelhante a nós”.7

As duas palavras juntas nos dizem que o homem é uma representação de Deus que é semelhante a Deus em certos aspectos.

Em que aspectos o homem é semelhante a Deus não é específica nem explicitamente afirmado no relato da criação, embora possa se notar que certas similitudes com Deus se encontram ali implícitas. Por exemplo, podemos inferir de Gênesis 1.26 que o domínio sobre os animais e sobre toda a terra é um aspecto da imagem de Deus. Ao exercer esse domínio, o homem assemelha-se a Deus, visto que Deus tem domínio supremo e definitivo sobre a terra. Do verso 27, podemos inferir que outro aspecto da imagem de Deus consiste em o ser humano ter sido criado homem e mulher. Visto que Deus é espírito (João 4.24), não podemos concluir que a semelhança a Deus, neste caso, esteja na diferença física entre homens e mulheres. Ao contrário, a semelhança deve ser encontrada no fato de que o homem necessita do companheirismo da mulher, de que a pessoa humana é um ser social, de que a mulher complementa o homem e o homem complementa a mulher. Dessa forma, os seres humanos refletem Deus, que não existe como um ser solitário, mas como um ser em comunhão – uma comunhão que é descrita, em um estágio posterior da revelação divina, como aquela existente entre o Pai, o Filho e Espírito Santo. Do fato de que Deus abençoou os seres humanos e lhes deu um mandato (v. 28), podemos inferir que os humanos também assemelham-se a Deus por serem pessoas, seres responsáveis, aos quais Deus pode se dirigir e que são ultimamente responsáveis a Deus como seu Criador e Soberano. Assim como Deus, aqui, é revelado como uma pessoa (mais tarde, na história da revelação, como três pessoas) que é capaz de tomar decisões e de governar, igualmente o homem é uma pessoa capaz de tomar decisões e governar.

Continuando nosso estudo de Gênesis 1.26-28, vemos, no v. 28, a bênção de Deus ao homem (como o v. 22 traz a bênção de Deus aos animais). A última parte desta bênção corresponde quase exatamente ao que é dito a respeito do homem no v. 26: “tenha ele domínio”. Somente agora, isto é, no v. 28, é que os verbos aparecem na segunda pessoa do plural e são dirigidos aos nossos primeiros pais. Estas palavras a respeito do domínio do homem são precedidas das seguintes palavras, não encontradas no versículo 26: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra”. A ordem de ser fecundo e de multiplicar sugere a instituição do casamento, que é narrada no segundo capítulo de Gênesis (vv. 18-24).

Ao dar sua bênção, Deus promete tornar os seres humanos aptos a se propagarem e gerarem filhos que encherão a terra; ele também promete dar­ a capacidade para subjugarem a terra e para terem domínio sobre os animais e sobre a própria terra. Embora essas palavras sejam chamadas uma bênção, elas também contêm um mandamento ou um mandato. Deus ordena que o homem seja fecundo e tenha domínio. Esse é geralmente chamado de mandato cultural: a ordem de governar a terra para Deus e de desenvolver uma cultura que glorifique a Deus.

Antes de vermos a próxima passagem, ainda há uma coisa que se deveria levar em conta. O versículo 31 diz: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom”. Neste “tudo que Deus fizera” inclui-se o homem. O homem, portanto, quando formado pelas mãos do Criador, não era corrupto, depravado ou pecaminoso; seu estado era de integridade, inocência e santidade. Tudo o que é mau ou pervertido não fazia parte da criação original do homem. Por ocasião de sua criação o homem era muito bom.

A segunda passagem que trata da imagem de Deus, Gênesis 5.1-3, lê como segue:

Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão, no dia em que foram criados. Viveu Adão centro e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e lhe chamou Sete.

Temos, no primeiro versículo, uma recordação de que Deus fez o homem à sua semelhança. Somente uma das duas palavras usadas em Gn 1.26 é empregada aqui, a palavra semelhança. A omissão da palavra imagem não é particularmente importante, mesmo porque, pelo que vimos, estas palavras são usa­das como sinônimas.

Alguns creem que, no momento da Queda, o homem perdeu a imagem de Deus, não podendo mais ser chamado de portador dessa imagem. Mas não há qualquer sugestão nesse sentido em Gênesis 5.1. Esta afirmação, posterior à narrativa da Queda (cap. 3), ainda fala de Adão como alguém que foi feito à semelhança de Deus. Não haveria sentido em dizer isto se, então, a semelhança divina tivesse desaparecido completamente. É verdade que podemos considerar manchada, pela queda do homem em pecado, a imagem de Deus, mas afirmar que o homem havia perdido completamente, então, a imagem de Deus, é afirmar algo que o texto sagrado não diz.

No versículo 3, lemos que Adão tornou-se o pai de um filho à sua semelhança, segundo a sua imagem. Aqui, são empregadas ambas as palavras, como em Gênesis 1.26; apenas a ordem das palavras é invertida e as palavras são modificadas por preposições diferentes – uma prova adicional de que imagem e semelhança são usadas como sinônimas. O que nos impressiona aqui é que não é dito que Sete, o filho de Adão, foi feito à imagem e semelhança de Deus. Antes, é dito que Adão tornou-se o pai de um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem. Mas se Adão era ainda portador da imagem de Deus, como vimos, podemos inferir que Sete, seu filho, era também um portador da imagem de Deus. Além disso, visto que a Bíblia ensina que a natureza de Adão foi corrompida e poluída pela Queda,8 podemos novamente inferir que Adão transmitiu esta corrupção e poluição ao seu filho. Mas, novamente, não há qualquer sugestão de que a imagem de Deus tenha sido perdida.

Gênesis 9.6, a terceira passagem que trata da imagem de Deus, diz: “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem a sua imagem”.

Primeiro, deve-se observar o contexto desses versos. As águas do dilúvio haviam baixado, e Noé e sua família haviam deixado a arca. Depois de Noé ter construído um altar e levado uma oferta ao Senhor, o Senhor lhe prometeu que jamais amaldiçoaria a terra outra vez por causa do homem e que preservaria a terra a fim de realizar o seu propósito redentor em favor da humanidade (8.20-22).

Os primeiros sete versículos do capítulo 9 contêm as ordenanças que Deus em seguida instituiu a fim de preservar a terra e seus habitantes. “Estas ordenanças se referem à propagação da vida, à proteção da vida, por causa de animais e de homens igualmente, e para o sustento da vida”.9 O mandamento para se multiplicarem e encherem a terra é repetido (v. 1 ). Além disso, é anunciado que os animais terão medo dos seres humanos (v. 2). O homem recebe em seguida permissão explícita para comer a carne dos animais (v. 3), mas comer a carne com sangue nela é proibido (v. 4). Deus requererá o sangue da vida de cada animal que mata um homem e de cada ser humano que mata um homem (v. 5). Neste contexto aparecem as palavras familiares do versículo 6.

O que foi dito no versículo 5 sobre os animais e dos seres humanos é dito agora especificamente sobre o homem: quem quer (isto é, qualquer homem) que derrame o sangue do homem, deve ser executado (“requererei a vida do homem”). Estas palavras não dizem como se dará a execução, nem se há quais­quer exceções à regra. Nem se especifica quem conduzirá tal execução. Muitos intérpretes têm sugerido que essas palavras apontam para o estabelecimento de uma agência governamental por meio da qual semelhante punição pode ser aplicada. Embora essa passagem possa ser interpretada como pressupondo a existência de uma certa agência governamental, o texto não faz qualquer referência a isso.

A segunda metade do versículo 6 dá a razão para esse mandamento: “porque Deus fez o homem segundo a sua imagem”. A razão pela qual o assassinato é descrito aqui como um crime tão hediondo que deve ser punido com a morte é que o homem que foi assassinado é alguém que refletia a imagem de Deus, era semelhante a Deus e representava Deus. Portanto, quando alguém mata um ser humano, não tira a vida dessa pessoa somente, mas ofende o próprio Deus – o Deus que está refletido naquele indivíduo. Tocar na imagem de Deus é tocar no próprio Deus; matar a imagem de Deus é fazer violência ao próprio Deus.

Parece claro, portanto, que de acordo com essa passagem, o homem caído é ainda um portador da imagem de Deus. Que os nossos primeiros pais caíram em pecado já havia sido registrado anteriormente no livro de Gênesis; que a natureza humana por essa razão se corrompeu é claramente afirmado no contexto imediato da passagem que estamos analisando: “Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade” (8.21). Embora essa descrição do homem seja verdadeira, em Gn 9.6 o assassinato é proibido porque o homem foi feito à imagem de Deus – isto é, ele ainda traz essa imagem.

Nem todos os teólogos concordam com esta interpretação. O teólogo holandês Klaas Schilder, em seu comentário ao Catecismo de Heidelberg, asse­ vera que essa passagem ensina somente que Deus fez o homem à sua imagem no momento da criação, mas não diz que Deus deixou o homem permanecer à sua imagem após a Queda.10 O homem caído, Schilder continua, não traz mais a imagem de Deus. É possível, contudo, que no futuro ele possa novamente trazer essa imagem:

Quem sabe o que pode ainda acontecer a este mundo falho? Quem sabe se, talvez, algum dia no futuro, não se verá outra vez a imagem de Deus? Interpretada dessa forma, esta passagem [Gn 9.6] diz tudo a respeito do passado e provavelmente muito a respeito do futuro, mas nada a respeito do que homem é no presente. Estas palavras somente nos dizem qual a intenção de Deus para com o homem quando o criou, qual o seu propósito quando o formou.11

Esta interpretação – defendida também por G. C. Berkouwer12 – é problemática, no entanto, porque faz violência ao sentido de Gênesis 9.6. A razão porque você não deve cometer assassinato, diz a passagem, é que a pessoa que você está para assassinar é alguém que é à imagem de Deus. Se o homem caído não traz mais a imagem de Deus à parte da redenção, como afirmam Schilder e Berkouwer, essas palavras perdem a sua força. A passagem diria então que você não deve matar um homem porque o homem a quem você está para matar trazia numa certa época a imagem de Deus, embora ele não a possua mais hoje. Por seu próprio pecado o homem perdeu o privilégio de permanecer um portador da imagem de Deus – assim estes teólogos argumentariam – e ainda assim, embora ele tenha perdido essa imagem, você não deve matá-lo. De fato, é até mesmo possível que este homem a quem você está para matar viesse, caso sua vida fosse poupada, algum dia no futuro novamente trazer a imagem de Deus, embora nunca possamos estar certos disso; não obstante, você não deve matá-lo. O homem foi portador da imagem de Deus no passado, por ocasião da sua criação, e que pode provavelmente ser um portador da imagem de Deus no futuro, mas não traz essa imagem agora. E esta é a razão porque você não deve matá-lo.

Esta forma de raciocínio, contudo, não faz justiça ao texto. A razão pela qual nenhum ser humano pode derramar sangue humano, diz a passagem, é que o homem tem um valor singular, um valor que não é atribuído a nenhuma outra das criaturas de Deus, a saber, que ele é um portador da imagem de Deus. Precisamente porque é um portador da imagem, não porque foi no passado ou porque possa vir a ser no futuro, matar um ser humano é um pecado tão grande.

As passagens do Antigo Testamento que vimos até aqui ensinam que o homem foi criado à imagem de Deus e que ainda existe à essa imagem. Na verdade, devemos não somente dizer que o homem tem a imagem de Deus, mas que ele é a imagem de Deus. Do ponto de vista do Antigo Testamento, ser “humano” é trazer em si a imagem de Deus.

Embora não se encontre a expressão “imagem de Deus” no Salmo 8, este salmo descreve o homem de um modo que reafirma ter sido ele criado à imagem de Deus. Como Franz Delitzsch afirma, o Salmo 8 é “eco lírico” de Gênesis 1.27-28.13 O propósito principal deste salmo é render louvor a Deus pelas obras de suas mãos, particularmente pelo céu estrelado lá em cima e pelo homem aqui em baixo.

A contemplação do salmista das maravilhas do céu estrelado o faz perceber, por comparação, a pequenez e insignificância do homem. Todavia, Deus atribuiu ao homem uma posição exaltada sobre a terra, tendo-lhe dado o domínio sobre o restante da criação. E isto é de se admirar muito mais do que o próprio céu.

O verso 5 descreve o estado exaltado do homem: “[Tu, SENHOR,] Fizes­te o [o homem], no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste”. Os tradutores e comentadores diferem quanto à tradução mais adequada da palavra elohim. Algumas traduções, como a Almeida Revista e Atualizada aqui citada, traduzem esta palavra como Deus (RSV, ASV, NASB, Amplified Bible, Today’s English Version); outras versões trazem anjos (LXX, Vulgata, KJV), seres celestiais (NN), ou um deus (NEB, JB). Embora muitas vezes a palavra elohim possa significar “seres celestiais” ou “anjos”, o sentido mais comum da palavra é “Deus”. Eu prefiro a tradução “Deus” no Salmo 8.5 pelas seguintes razões: (1) é o sentido mais comum de elohim; (2) anjos não têm tido domínio sobre as obras das mãos de Deus, como os humanos têm; e (3) nunca édito dos anjos que eles foram criados à imagem de Deus; assim, por que se deveria considerá-los como mais elevados do que os seres humanos, os quais foram criados à imagem de Deus?14

O homem, assim diz o autor inspirado do Salmo 8, foi feito somente um pouco menor do que Deus -uma afirmação que nos faz lembrar das palavras de Gênesis 1arespeito da criação do homem à imagem e semelhança de Deus. Igualmente ecoando Gênesis 1, os versos 6-8 do salmo afirmam que Deus deu ao homem domínio sobre todas as obras das mãos do Criador, colocando todas as coisas debaixo do seus pés.

A descrição do homem que emerge deste salmo é semelhante à esboçada em Gênesis 1.27-28. O homem é a mais elevada criatura que Deus fez, um portador da imagem de Deus, que é apenas um pouco menor do que Deus e a ele foi sujeita toda a criação. Tudo isso é verdade apesar da queda do homem em pecado. Assim, de acordo com o Antigo Testamento, o homem ainda traz em si a imagem de Deus.

 

 

A Imagem de Deus no Antigo e no Novo Testamento (2/2)

 

 

NOTAS:

  1. Herman Bavinck, Dogmatiek, 2:566 (citado pelo autor em  tradução  própria  para  o inglês).
  2. Observe, por exemplo, o que é dito a respeito de Deus em Is 40.14 – “Com quem tomou ele conselho?”. Observe, além disso, que Gn 3.22 também se refere a Deus no plural, onde os anjos são obviamente excluídos: “Eis que o homem se tornou como um de nós”. Sobre esta questão, veja-se Calvino, Comm. on Genesis, John King, trad. (Grand Rapids: Eerdmans, 1948), ad /oc.; G.  Ch. Aalders, Genesis, W.  Heynen, trad. (Grand Rapids: Zondervan, 1981), ad toe.; H. C. Leupold, Exposition of Genesis, (Grand Rapids:. Baker, 1953), ad /oc.; L. Berkhof, Systematic  Theology,  edição revisada  e aumentada  (Grand  Rapids: Eerdmans,  1941), p.  182.
  3. A versão grega do Antigo Testamento, feita no terceiro século a. C.
  4. A versão latina da Bíblia, feita por Jerônimo entre 382 e 404 d. D. Francis Brown, S. R. Driver e Charles Briggs, Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (New York: Houghton  Mifflin,  1907), p.  853.
  5. Francis Brown, S. R. Driver e Charles Briggs, Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (New York: Houghton Mifflin,  1907), p.  853.
  6. Ibid .. pp. 197-98.
  7. Atribuído a Lutero em Biblical Commentary on the Old Testament, de Keil e Delitzsch, vol. 1, The Pentateuch, traduzido por James Martin (Edinburgh: T. & T. Clark, 1861), p. 63.
  8. Ver abaixo, pp. 161-163, 165-173.
  9. Geerhardus Vos, Biblical Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1948), p. 64.
  10. Heidelberg Catechismus, vol. 1 (Goes: Oosterbaan  & Le Cointre,  1947), pp.  296-97.
  11. lbid., pp. 297-98 (citado pelo autor em tradução própria para o inglês).
  12. Man, pp. 56-59.
  13. Citado em John Laidlaw, The Bible Doctrine of Man (Edinburgh: T. & T. Clark, 1905), p. 147.
  14. Entre os comentadores que preferem a tradução “Deus” estão os seguintes: Helmer Ringgren, “elohim”, citado em G. Johannes Botterweck e Helmer Ringgren, Theological Dictionary of the Old Testament, trad. por John T. Willis, vol. 1, edição revisada (Grand Rapids: Eerdmans,  1977), 282; e N.
  15. Ridderbos, De Psalmen na série Korte Verklaring (Kampen: Kok, 1962), 1:123. J. A. Alexander, em seu Commentary on the Psalms (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1850), afirma: “E removeu-o um pouco da divindade – isto é, de um estado divino e celestial ou, ao menos, de um estado supra-humano” (p.60).

 

 

Autor: Anthony Hoekema

Fonte: Trecho extraído do livro Criado à Imagem de Deus, pág 23-32. Editora: Cultura Cristã.

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.