A importância da dieta espiritual

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INTRODUÇÃO

Uma vez que são nascidos de novo, os cristãos devem rejeitar – como quem rejeita uma roupa suja – os vícios pecaminosos da maldade, do dolo, da hipocrisia, da inveja e da maledicência (vs.1). Agora, Pedro passa do imperativo negativo (exortação) – “aquilo que os cristãos devem rejeitar” para o imperativo positivo (exortação) – “aquilo que eles devem desejar”.

Através de uma metáfora, o apóstolo compara os cristãos a recém-nascidos. Como o bebê anela e necessita do leite materno para o crescimento saudável, da mesma forma os cristãos devem desejar com ardor pelo verdadeiro leite espiritual, pois também necessitam dele para o crescimento espiritual.

 

ARGUMENTAÇÃO

1 Pedro 2.2 … desejai ardentemente, como crianças recém nascidas, o genuíno leite espiritual, para que por ele, vos seja dado o crescimento para a salvação, 3 se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso.

Três aspectos cruciais são delineados aqui:

  1. Os cristãos devem se alimentar regularmente da Palavra de Deus

Pedro adverte seus leitores históricos e os cristãos em geral que eles devem ansiar intensamente, como bebês recém-nascidos, o verdadeiro leite espiritual. De significado incerto, a palavra crianças βρέφη (brephos), no grego, se refere tanto a um bebê ainda por nascer quanto ao mesmo em seu primeiro período de vida. A expressão grega recém-nascidos άρτιγέννητα (artigennetos), por sua vez, descreve o cristão convertido há pouco tempo.

A palavra leite γάλα (gala) é uma metáfora que, dentro do contexto imediato (1.23-25), no qual este trecho está ligado, salienta a palavra de Deus.11 Este leite que os cristãos devem apetecer possui duas características:

  1. 1. O leite é genuíno. No grego, o termo genuíno άδολον (adolon), demonstra “ausência de dolo”. Descreve algo puro, incontaminado, livre de adulteração. “Este leite não é falsificado” (ARC) e “isento de toda mentira” (BJ).
  2. 2. O leite é espiritual. A palavra espiritual, no grego λογικον (logikon), possui dificuldades em sua tradução. Aparece mais uma vez apenas em Romanos 12.1, onde Paulo discorre sobre a adoração espiritual. Derivada do substantivo “logos”, possui três significados:

1. Denota a palavra de Deus como a natureza deste leite; 2. faz alusão à mente, a razão (Rm 12.1) e 3. acentua o espiritual, que é o sentido que a ARC e a BJ transmitiram na tradução. Com efeito, fica claro, pelo contexto, que Pedro tem em mente aqui a Palavra de Deus.

Todavia, Pedro estava dizendo que seus primeiros destinatários eram novos convertidos? Não, necessariamente. É óbvio que entre os primeiros destinatários de Pedro havia novos convertidos. Entretanto, o foco do apóstolo não era estes novos convertidos, mas empregar uma figura que aponta para o desejo intenso que os bebês possuem em ser alimentados pelos pais. Da mesma forma, os cristãos devem anelar não pelo leite material, mas pelo “leite da Palavra” que alimenta a nossa alma.

APLICAÇÃO PRÁTICA

Como os bebês expressam o desejo de serem alimentados constantemente pelo puro leite materno, de modo semelhante, os cristãos devem almejar pelo puro leite espiritual, que é a Palavra de Deus. Visto que nem todo leite é bom, igualmente, nem toda a interpretação da Palavra de Deus ensinada verbalmente e escrita é boa. Assim, os Cristãos não devem desejar ouvir e estudar qualquer tipo de ensino supostamente baseado na Palavra de Deus; porém, eles devem desejar ouvir e estudar o ensino fiel da Palavra de Deus. “O leite pode ser aguado ou até mesmo envenenado. Da mesma forma, a Palavra de Deus pode ser falsificada pela opinião humana ou por intenção satânica”.12

Hernandes Dias Lopes escreve:

Não há crescimento espiritual onde a Palavra de Deus é sonegada ao povo. Não há saúde espiritual onde a sã doutrina não está no cardápio diário do povo. Alimentar o povo com a palha das falsas doutrinas em vez de nutri-lo com o trigo da verdade é como dar leite contaminado a um recém-nascido. Mata mais rápido que a fome. A Palavra de Deus tem a vida, dá a vida e sustenta a vida. É preciso ansiar pela Palavra de Deus como recém-nascidos famintos.13

Finalmente, Pedro não repreende seus leitores, como é o caso em 1 Coríntios 3.2 e em Hebreus 5.12-13, mas encoraja-os a demonstrarem um intenso desejo pela Palavra de Deus.

2) O propósito da alimentação na vida dos cristãos

Pedro assevera que o puro “leite da Palavra” é o alimento indispensável para que ocorra o crescimento espiritual. A expressão para que introduz a proposição final, que prossegue esboçando o pensamento de apóstolo, que consiste na rejeição dos vícios pecaminosos (vs.1) e no desejo pela Palavra de Deus. Como resultado, por que obedecer negativamente e positivamente tais instruções? Para que haja progresso espiritual! É importante observar que a ARC omitiu a frase “para a salvação”, que aparece nos melhores manuscritos gregos. A Almeida Século 21, a NVI e a BJ decidiram mantê-la em suas traduções.

A ideia principal neste trecho é o “crescimento”. “O verbo crescer refere-se literalmente ao crescimento físico da criança. É interessante que Pedro não faz nenhuma distinção entre bebês e adultos, leite e alimento sólido; ao invés disso, ele indica que todos os crentes continuam a ser bebês que precisam constantemente do leite da Palavra de Deus”.14

Mais uma vez, Pedro ressalta o conceito de “salvação”, traçando um paralelo com o capítulo anterior, onde ensinou que o novo nascimento leva à salvação (1.3,5,9); agora, neste capítulo, destacou que os cristãos progridem na salvação (vs.2).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Nascemos da Palavra e crescemos pela Palavra.15 Este crescimento não advém dos nossos méritos; pelo contrário, é dado por Deus (1Co 3.6). Os cristãos devem tencionar com ardor se alimentar da Palavra de Deus interpretada de modo fiel para que possam crescer para a salvação. Quando a Palavra de Deus é adulterada por heresias perniciosas, não há crescimento espiritual saudável e verdadeiras conversões. Aquele que não possui o desejo de progredir na vida cristã através da leitura e do estudo da Palavra de Deus, não pode ter nascido de novo! Este desejo intenso pelo crescimento espiritual evidência o novo nascimento.

3) A certeza da bondade de Deus na vida dos cristãos

Pedro estimula os cristãos a desejarem crescer espiritualmente através das Escrituras declarando a bondade de Deus para com eles (vs.3). O assunto iniciado no versículo 1 termina com uma frase que possui duas interpretações:

  1. Entendendo a conjunção grega ει (ei) – se, no sentido condicional, como se Pedro não tivesse certeza se os seus leitores experimentaram ou não a bondade de Deus em suas vidas. 2. Entendendo a conjunção grega ει (ei) – se, no sentido de confirmação. Assim, era como se Pedro dissesse: “haja vista” ou “já” que vocês experimentaram a bondade de Deus.

Ora, a primeira interpretação é incongruente, uma vez que destoa do contexto anterior, o qual salienta que os leitores de Pedro foram regenerados e, portanto, receberam e experimentaram a bondade de Deus (1.3-9,18-21). Contudo, prefiro entender a conjunção grega ει (ei) – se, conforme atesta a segunda interpretação, no sentido confirmativo, pois se harmoniza com o contexto imediato (veja também Ef 4.21, que também deve ser entendido no sentido de confirmação).

A expressão tendes a experiência de que o Senhor é bondoso tem como pano de fundo o Salmo 34.8. É bem provável que Pedro tenha em mente todo o Salmo 34, visto que ele o cita mais extensivamente no capítulo 3.10-12. O apóstolo não somente traz a memória de seus leitores este Salmo; sobretudo, aplica as palavras que tracejam a bondade de Deus a eles. Declarar que “Deus é bom” não reflete apenas a convicção que o salmista tinha baseada em seu conhecimento e em sua experiência pessoal ao receber de Deus manifestações de sua bondade. Antes, esta é uma verdade insofismável que perpassa toda a Escritura e atinge o seu ápice com a vinda de Jesus Cristo para a realização histórica do plano da redentor, que foi a maior prova da bondade de Deus.

No grego, o verbo provar εγενσασθε (egensasthe), traz a ideia de saborear um alimento. A palavra Senhor, no Salmo 34.8, refere-se a Deus Pai. No entanto, aqui, na primeira carta de Pedro, Senhor refere-se a Jesus, o Deus filho encarnado. O adjetivo bondoso, no grego χρηστος (chrestos), literalmente “bom”, apresenta Deus como alguém que é gentil. Através do renascimento espiritual, os cristãos experimentam que Deus é bom para com eles de várias formas.

 

CONCLUSÃO

APLICAÇÃO PRÁTICA

Matthew Henry escreve:

O nosso Senhor Jesus Cristo é muito benigno para com o seu povo. Ele é em si mesmo infinitamente bom; Ele é muito bondoso, disposto e misericordioso para com os miseráveis pecadores; Ele é compassivo e bom para com os que não merecem. Provar a benignidade de Cristo de forma experimental pressupõe o fato de sermos unidos com Ele pela fé. Assim, podemos provar sua bondade em todas as suas providências, em todas as nossas preocupações espirituais, em todos os nossos temores e tentações. A palavra de Deus é o grande agente pelo qual Ele revela e transmite a sua graça aos homens. Os que se alimentam do leite não falsificado provam e experimentam grande parte da sua graça. Na nossa comunhão com sua palavra devemos sempre nos empenharmos para entender e experimentar mais e mais da sua graça.16

 

 

NOTAS:

  1. A figura do leite materno, como alimento espiritual, aparece também em 1 Coríntios 3.2 e em Hebreus 5.12-13, porém, com um significado diferente do qual é apresentado por Pedro. Nestas duas passagens, vemos traçado um contraste entre cristãos que são bebês na fé, que ainda necessitam de leite como o primeiro alimento, e  cristãos que são amadurecidos na fé, os quais já ingerem alimento sólido.
  2. Uwe Holmer. Comentário Esperança, 1 Pedro, pág 30.
  3. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 66.
  4. Simon Kistemaker. Epístolas de Pedro e Judas, pág 112.
  5. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 66.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Trecho extraído do Comentário Expositivo de 1 Pedro do autor.

Divulgação: Reformados 21

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.