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O jesuíta Luis de Molina, no final do século XVI, propôs uma reconciliação entre as doutrinas do livre-arbítrio e da predestinação. Essa reconciliação tem sido defendida atualmente por um erudito evangélico, William Lane Craig.155 Segundo esta posição, Deus sabe não apenas todas as coisas que teoricamente poderiam acontecer, mas ele também sabe tudo que aconteceria em todo e qualquer mundo possível. Este conhecimento é o seu conhecimento médio. Ele sabe todas as coisas que são necessárias e todas as possibilidades contingentes. Além disso, Molina afirmava que as ações das pessoas são livres e indeterminadas, de modo que as pessoas podem escolher o contrário do que escolheriam. Mas ele também disse que Deus determina tudo o que acontece. Afinal, Deus sabe quais serão as escolhas livres de todas as pessoas, em quaisquer circunstâncias que poderiam existir, em todos os mundos possíveis.

Esta seria a solução do problema, segundo Craig. Deus, conhecendo tudo que aconteceria, em todos os mundos possíveis, escolheu um destes mundos e o criou. Assim, por exemplo, sabendo que em um mundo x, Judas trairia Jesus livremente, Deus criou o tal mundo x para realizar seus propósitos. Portanto, Judas agiu livremente, mas o fato de que esta realidade foi realizada, e não alguma outra realidade alternativa, ocorre porque Deus resolveu criar este mundo, e não algum outro. Neste esquema, tanto a liberdade quanto a soberania de Deus são preservadas.

Temos de confessar que existe respaldo bíblico em favor desta noção. Em Mateus 11.23, Jesus disse que se Sodoma tivesse visto os milagre feitos em Carfanaum, ela não teria sido destruída, insinuando que ela se arrependeria dos seus pecados. Isto é um exemplo claro do chamado conhecimento médio da parte de Deus. Não negamos este fato. Mas a questão é a aplicação do mesmo. Segundo Craig, o arminianismo e o calvinismo podem ser reconciliados, assim como o problema do mal ser resolvido. Mas a coisa é realmente assim tão fácil? Em nossa opinião, o conhecimento médio de Deus não resolve estes problemas.

Primeiro, esta posição não resolve o problema do mal. Pelo contrário, o problema se toma mais complicado à luz deste fato. Porque, se Deus conhecesse todos os mundos possíveis, com certeza deveria ter existido pelo menos um único mundo possível, no qual a queda dos anjos e da raça humana não aconteceu — e o mal não entrou na criação. Não seria possível pelo menos um mundo no qual Adão e Eva não comeram o fruto proibido?156 Mas, se tal mundo fosse possível, e Deus não resolveu criá-lo, então a teoria do conhecimento médio não exime Deus da culpa pela existência do mal. Em conclusão, a realidade do conhecimento médio é irrelevante ao problema.

Em segundo lugar, há o problema da independência ontológica destes mundos possíveis de Deus. Se as ações das criaturas nestes mundos são autônomas, no sentido de liberdade indeterminada, como ensinada pelos atuais arminianos, então estes mundos são o que eles são por causa da atividade criativa das criaturas e não de Deus. É como se Deus, ao criar o mundo, fosse numa loja de mundos possíveis e, olhando as estantes, tivesse encontrado um mundo de que gostava, e a partir daí o tomasse real. Mas esses tais mundos possíveis, de onde vieram? Não são criados por Deus, mesmo como ideias, mas existiam como possibilidade, independentes de Deus, como se fossem ideias platônicas. Assim, esta visão reduz Deus a uma divindade, mais parecida com o demiurgo de Platão, que criou o mundo segundo padrões abstratos que já pré existiam. Assim, a distinção entre o Criador e a criação é negada de forma sutil. Deus não é mais auto contido, mas, ao contrário, ele estaria contido no contexto do ser impessoal, que abrange as ideias abstratas dos mundos possíveis. A única maneira de escapar deste dilema é afirmar que até os mundos possíveis são determinados pelo decreto de Deus. Então, Deus criou este mundo, escolhendo o mundo dentre as possibilidades que ele determinou. Assim, as ações das criaturas nos mundos possíveis não poderiam ser livres, no sentido que os arminianos querem, mas sim, no sentido que o pensamento reformado afirma. Portanto, esta posição também não serve de ajuda para o arminiano.

Em terceiro lugar, o conceito do conhecimento médio não consegue tomar coerente a noção do livre-arbítrio, no sentido arminiano dessa noção. Em quaisquer mundos imagináveis, uma ação totalmente indeterminada (ou uma escolha sem causa) é algo irracional, sendo o resultado de puro acaso. Como discutimos acima, tais escolhas são inerentemente incognoscíveis de antemão. A noção do conhecimento médio não explica como é que tais coisas, de repente, podem ser previstas por Deus e ainda permanecerem indeterminadas.

O problema final seria que, na passagem de Mateus 11.20-30, se Deus sabia que eles se arrependeriam, mas não fez os milagres necessários lá, por que ele não escolheu um mundo em que estes milagres fossem feitos — e os habitantes de Sodoma fossem salvos? O fato de Deus escolher não se revelar só ressalta a liberdade da graça de Deus. Devemos notar que, no restante desta passagem, o evangelista afirma claramente a soberania de Deus na salvação de pecadores (11.25-27) e o chamado para que os cansados e sobrecarregados venham a Jesus — e encontrem alívio, recebendo o jugo suave e o fardo leve (11.28-30).

Então, longe de apoiar o molinismo, esta passagem só realça ainda mais a liberdade e a soberania divina. O texto mostra que até o conhecimento médio de Deus age de acordo com sua soberania e liberdade. Por estes motivos, não podemos aceitar o molinismo como solução do problema.157

 

 

NOTAS:

  1. Cf. a discussão em J. P. Moreland e William Lane Craig, Filosofa e cosmovisão cristã, p. 634-637, 681-686.
  2. Alvin Plantinga afirma que não seria possível para Deus criar um mundo sem o mal, uma vez que as pessoas são dotadas de livre-arbítrio. Mesmo assim, se Deus resolveu criar o mundo, e se ele também conheceu de antemão que este mundo teria o mal, o dilema não é solucionado pela introdução do livre-arbítrio. Deus ainda poderia ter evitado a existência do mal, optando por não criar nenhum mundo. Cf. Alvin Plantinga, God, freedom and evil, p. 45-53 e Gordon Clark, Religion, reason and revelation, capítulo 5.
  3. Cf. a discussão de J. A. Crabtree, “Does middle knowledge solve the problem of divine sovereignty”. In: Thomas R. Schreiner e Bruce A. Ware (eds), The grace of God, The bondage of the will, v. 2.

 

 

Autores: Franklin Ferreira e Alan Myatt

Trecho extraído da Teologia Sistemática dos autores, pág 340-341. Editora: Vida Nova

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.