As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (2/4)

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  1. O mal da TENTAÇÃO é controlado para o bem do homem piedoso

O mal da tentação coopera para o bem. Satanás é chamado de tentador (Mc 4:15). Ele sempre está armando uma emboscada, ele está continuamente ocupado com um santo ou outro.  O diabo tem seu caminho e ele o percorre todos os dias; ele ainda não está totalmente aprisionado, mas como um prisioneiro que sai sob fiança, ele anda por aí com o intuito de tentar os santos. Isto é uma grande molestamento para um filho de Deus.  Com relação às tentações de Satanás, há três coisas que precisam ser consideradas:

(1) Seu método usado na tentação

(2) A extensão do seu poder

(3) Estas tentações são controladas para o bem

(1) O MÉTODO de Satanás na tentação. Aqui tome nota de duas coisas. Sua violência na tentação; nisso ele é o dragão vermelho.  Ele labora para tempestuar o castelo do nosso coração, ele lança pensamentos de blasfêmia, ele nos tenta para negar Deus. Esses são os dardos ardentes que ele atira, pelos quais ele inflamaria as paixões. Note também sua sutileza na tentação; e nisso ele é a antiga serpente. Há cinco principais sutilezas que o diabo usa.

1.1. Ele observa seu temperamento e constituição, e lança iscas apropriadas de tentação. Como o fazendeiro, ele sabe qual semente é melhor para o solo. Satanás não tentará de forma contrária ao temperamento e à disposição natural. Este é seu plano, ele faz o vento e a onda virem juntos; desta forma a onda natural do coração corre e o vento da tentação sopra. Embora o diabo não possa conhecer os pensamentos dos homens, ainda sim ele conhece seus temperamentos; assim ele lança suas iscas adequadamente. Ele tenta o homem ambicioso com uma coroa e o homem lascivo com a beleza.

1.2. Satanás espera à hora certa para tentar, como um astuto pescador que lança seu anzol exatamente quando o peixe irá morder. Geralmente a hora que Satanás usa para nos tentar é depois de uma ordenança; e a razão é: ele acha que nessa hora ele vai nos encontrar mais seguros. Quando acabamos de realizar deveres solenes, estamos aptos a pensar que está tudo feito, aí ficamos preguiçosos e abandonamos aquele zelo e fervor de antes; como um soldado, que depois da batalha abandona a armadura, sequer sonhando com um inimigo. Satanás fica atento esperando a hora certa, e quando menos suspeitamos, lança a tentação.

1.3. Ele faz uso de relações próximas; o diabo nos tenta através de alguém próximo a nós. Deste modo ele tentou Jó através de sua esposa: “Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus e morre.” (Jó 2:9). Uma íntima esposa pode ser um instrumento do diabo para tentar ao pecado.

1.4. Satanás tenta para o mal por meio daqueles que são bons; e deste modo ele dá veneno num cálice dourado. Ele tentou Cristo usando Pedro. Pedro o dissuade do seu sofrimento: “Senhor, tem compaixão de ti”. Quem imaginaria encontrar o tentador na boca de um apóstolo?

1.5. Satanás tenta ao pecado sob uma pretensa religião. Ele deve ser mais temido quando ele se transforma em anjo de luz. Ele veio a Cristo com a Escritura em sua boca: “Está escrito”. O diabo joga seu anzol usando a religião. Ele tenta muitos homens à cobiça e extorsão sob a pretensão de provisão para sua família; ele tenta alguns a acabarem com si próprios, para que não mais possam viver pecando contra Deus; mas então ele os lança no pecado, sob a pretensão de estar evitando o pecado.  Estes são seus sutis estratagemas na tentação.

(2) A extensão do seu PODER; até onde alcança o poder de Satanás

2.1. Ele pode expor o objeto, como ele expôs a barra de ouro a Acã

2.2. Ele pode envenenar a imaginação e insinuar pensamentos malignos à mente. Como o Espírito Santo nos leva a bons pensamentos, assim o diabo nos leva aos maus. Ele pôs no coração de Judas que ele deveria trair Jesus (João 13:2).

2.3. Satanás pode excitar e provocar a corrupção interior, e operar algum tipo de inclinação no coração a abraçar a tentação. Embora seja verdade que Satanás não pode forçar a vontade a dar consentimento, ainda sim, ele sendo um esperto litigante, pela sua contínua solicitação, ele pode provocar o mal. Desse modo ele provocou Davi a fazer o censo (1Cr 21:1). O diabo pode, pelos seus sutis argumentos, disputar conosco para nos levar ao pecado.

(3) Estas tentações são controladas para o bem dos filhos de Deus. Uma árvore que é balançada pelo vento é mais fixada e enraizada.  Desta forma, os ventos de uma tentação fazem um cristão se fixar mais na graça. As tentações são controladas para o bem de oito maneiras.

3.1. Tentação conduz a alma à oração. Quanto mais furiosamente Satanás tenta, mas fervorosamente o santo ora.  O cervo, sendo atingido por um dardo, rapidamente corre para a água. Quando Satanás atira seus dardos inflamados na alma, ela corre rapidamente para o trono da graça.  Quando Paulo teve um mensageiro de Satanás esbofeteando-o, ele diz: “Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim” (2Co 12:8). A tentação é um remédio para segurança carnal. Aquelas que nos fazem orar mais são as que mais cooperam para nosso bem.

3.2. Tentações são meios de se guardar da perpetração do pecado. Quanto mais um filho de Deus é tentado, mais ele luta contra a tentação. Quanto mais Satanás tenta o santo à blasfêmia, mais o santo treme em tais pensamentos e diz: “Retira-te Satanás”.  Quando a senhora de José o tentou a cometer uma loucura, a tentação dela foi muito forte, porém mais forte foi a oposição dele.  Daquela tentação que o diabo usa como um estímulo ao pecado, Deus faz uma rédea para manter o Cristão longe dela.

3.3. Tentações cooperam para o bem, pois elas abatem o inchaço do orgulho. “E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar” (2Co 12:7). O espinho na carne era para perfurar o inchaço do orgulho. Melhor é a tentação que me humilha do que um dever que me faça orgulhoso. Para que um Cristão não se torne arrogante, Deus o deixará cair nas mãos do diabo por um tempo, para que ele seja curado do inchaço do seu orgulho.

3.4. Tentações cooperam para o bem como uma pedra-de-toque (critério) para testar o que há no coração. O diabo tenta para que ele possa enganar; mas Deus permite que sejamos tentados para nos testar. Tentação é um teste de nossa sinceridade. Ela pode argumentar que nosso coração é puro e leal a Cristo quando a olhamos face a face e viramos às costas a ela. Também testa nossa coragem. “Porque Efraim é como uma pomba ingênua, sem entendimento” (Os 7:11). Isso pode ser dito de muitos, eles não têm conhecimento; eles não têm conhecimento para resistir à tentação. Tão cedo Satanás vem com uma isca, eles já se rendem; como um covarde, que mau se aproxima o ladrão, e já entrega sua bolsa.

3.5. Tentações cooperam para o bem — enquanto Deus faz com que aqueles que são tentados sejam capazes de confortar a outros na mesma angústia. Um cristão deve estar sob as bofetadas de Satanás antes que ele possa dizer uma palavra em determinado tempo àquele que está cansado. Paulo era bem experimentado em tentações. “Não somos ignorantes quanto aos seus ardis” (2Co 2:11). Portanto, ele era capaz de instruir a outros sobre as malditas artimanhas de Satanás (1Co 10:13). Um homem que cavalgou por um lugar onde há pântanos e areias movediças é o mais apto para guiar outros pelo caminho perigoso. Aquele que sentiu as garras do leão que ruge, e que já sangrou sob essas feridas, é o mais apto para lidar com aquele que é tentado. Ninguém pode descobrir melhor as artimanhas de Satanás do que aqueles que passaram um longo tempo na escola de esgrima da tentação.

3.6. As tentações cooperam para o bem — enquanto desperta compaixão paternal em Deus para com aqueles que são tentados. O filho que está doente e ferido é o mais cuidado. Quando um santo está sob os ferimentos das tentações, Cristo ora e Deus Pai tem compaixão. Quando Satanás deixa uma alma febril, Deus vem com um remédio; o que fez Lutero dizer que as tentações são os abraços de Cristo, pois dessa forma Ele manifesta a Si mesmo mais docemente à alma.

3.7. As tentações cooperam para o bem — enquanto fazem os santos desejarem mais o céu. Lá eles estarão fora da mira; o céu é o lugar de descanso. Nenhuma bala de tentação voa até lá. A águia que plana pelo ar e pousa sobre as altas árvores não se preocupa com a picada da serpente. Só assim, quando os crentes sobem aos céus, não serão molestados pela antiga serpente, o diabo. Nesta vida, quando uma tentação acaba, outra vem. Isso faz com que o povo de Deus deseje a morte — que os chama para fora do campo de batalha onde as balas voam tão depressa para receber a coroa vitoriosa, onde nem tambores nem canhões, mas harpa e violino, soarão eternamente.

3.8. As tentações cooperam para o bem — enquanto envolvem a força de Cristo. Cristo é nosso Amigo; e quando somos tentados, ele disponibiliza todo Seu poder trabalhando por nós. “Uma vez que ele mesmo passou por sofrimentos e tentações, é capaz de socorrer aqueles que são tentados” (Hb 2:18). Se uma pobre alma fosse lutar sozinha contra o Golias do inferno, ela com certeza seria subjugada; mas Jesus Cristo traz Suas forças auxiliares e nos dá novos suprimentos de graça. “Somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou!” (Rm 8:37). Então o mal da tentação é tornado em bem.

Pergunta:

Mas às vezes Satanás desvia um filho de Deus. Como isso coopera para o bem?

Resposta:

Eu garanto que, através da interrupção da graça divina, e a fúria de uma tentação, um santo pode ser superado; ainda que esse desvio por uma tentação seja tornado em bem. Por esse desvio, Deus abre caminho para aumento de graça. Pedro era tentado em autoconfiança, ele confiava em sua própria força; e Cristo deixou que ele caísse. Mas esse feito para seu bem lhe custou muitas lágrimas. “Ele saiu e chorou amargamente” (Mt 26:75). E agora ele cresce menos dependente de si mesmo. Ele ousou não dizer que amava a Cristo mais do que os outros apóstolos. “Você me ama mais do que os outros?” (Jo 21:15). Ele ousou não dizer — então sua queda em pecado quebrou o pescoço do seu orgulho!

O desvio por uma tentação causa mais prudência e vigilância em um filho de Deus. Embora Satanás o tenha laçado antes no pecado, no futuro ele será mais cauteloso. Ele terá o cuidado de não chegar mais perto da corrente do leão. Ele está mais vigilante e temeroso nas ocasiões do pecado. Ele nunca sai sem sua armadura espiritual, e ele envolve sua armadura com oração. Ele sabe que anda em chão escorregadio; portanto, observa sabiamente seus passos. Ele mantém uma sentinela em sua alma, e quando vê o diabo chegando, ele toma suas armas espirituais e exibe o escudo da fé (Ef 6:16). Isso tudo é a ferida que o diabo causa quando desvia um santo pela tentação — ele o cura de sua negligência; ele o faz observar e orar mais. Quando feras selvagens passam pela cerca e danificam os grãos, o homem fará uma cerca mais forte. Só assim, quando o diabo passa pela cerca com uma tentação, o cristão estará certo de consertar sua cerca; ele será mais temeroso com o pecado, e mais cuidadoso com o serviço. Assim, ser derrotado pela tentação coopera para o bem.

Objeção:

Mas, se ser desviado coopera para o bem, isso faz com que os cristãos não se importem se forem subjugados pelas tentações ou não.

Resposta:

Há uma grande diferença entre cair em uma tentação e correr para uma tentação. O cair em uma tentação cooperará para o bem, não o correr para ela. Aquele que cai num rio é digno de socorro e compaixão — mas aquele que desesperadamente corre para o rio é culpado de sua própria morte. É loucura correr para o covil de um leão. Aquele que se joga em uma tentação é como o rei Saul, que caiu sobre sua própria espada.

De tudo o que foi dito, veja como Deus desaponta a antiga serpente, fazendo com que suas tentações se voltem para o bem de Seu povo. Sem dúvida, se o diabo soubesse quantos benefícios advêm aos santos pela tentação, ele evitaria tentar. Lutero disse uma vez: “Há três coisas que criam um homem piedoso: oração, meditação e tentação.”

Paulo, em sua viagem a Roma, deu-se com um vento contrário (At 27:4). Então o vento da tentação é um vento contrário ao do Espírito; mas Deus faz uso desse vento cruzado para soprar os santos para o céu!

 

 

As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (1/4)

As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (3/4)

As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (4/4)

 

 

Autor: Thomas Watson

Fonte: Iclnet

Tradução: Voltemos ao Evangelho

Via: Voltemos ao Evangelho

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.