Exegese de Hebreus 6.4-6 (3/3)

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(5) O último privilégio mencionado é os “poderes do mundo vindouro” (Hb 6.5b). Esses também eles tinham provado por experiência pessoal. Esses poderes do mundo vindouro são as operações poderosas, grandes, miraculosas do Espírito Santo. Esses sinais, maravilhas e obras potentes operados pelo Espírito Santo, foram preditos pelos profetas (Jl 2.28-32; At 2.16-21). É possível que esses apóstatas fossem participantes desses poderes, no dom de línguas e outras obras miraculosas. Portanto, negligenciar o Espírito Santo que lhes tinha concedido tais poderes tornava muito grave seu pecado, redundando em blasfêmia contra ele, o que tornaria impossível sua recuperação. Estavam rejeitando a verdade que tinha sido confirmada por Deus com sinais e maravilhas e com vários milagres e dons do Espírito Santo (Hb 2.4). Como, então, poderiam escapar quando negligenciavam e desprezavam tão grande salvação que havia sido confirmada por esses dons sobrenaturais do Espírito Santo? (Hb 2.3, 4.).

Dons ordinários do Espírito Santo também são “poderes do mundo vindouro”. Então trata-se de tudo o que pertence ao reino de Cristo. Quando um reino é primeiro estabelecido, é imprescindível que haja grande e forte poder. Mas quando já está instituído, poderes comuns irão preservá-lo. Assim é com o reino de Cristo. Os extraordinários dons miraculosos do Espírito foram empregados para estabelecer o reino de Cristo, mas esse reino é mantido por dons comuns. Portanto, esses dons também pertencem aos “poderes do mundo vindouro”.

De todos esses privilégios espirituais, podemos agora entender clara­mente quem são as pessoas que o escritor dessa epístola tinha em mente. É claro que não se tratava de crentes verdadeiros e sinceros. Não há nenhuma menção de fé ou crença. Não há nada aqui que nos faça pensar que tinham qualquer relacionamento especial com Deus em Cristo. Não são descritos como “sendo chamados segundo o propósito de Deus”. Não são descritos como tendo nascido de novo. Não são descritos como sendo justificados, nem santificados, nem unidos a Cristo, nem filhos de Deus por adoção.

Por outro lado, são descritos como terra na qual chove frequentemente, mas onde só crescem espinhos e abrolhos (v. 7). Mas isso não é verdade com respeito a crentes verdadeiros, porque a fé em si já é uma erva cultivada com esmero na horta cercada de Cristo. O escritor desta epístola, descrevendo crentes verdadeiros, distingue-os bem dos apóstatas. Nos crentes ele está confiante que vai achar coisas melhores, as coisas que acompanham a salvação (v. 9). Os crentes são conhecidos pelo seu “trabalho e amor operante”, porque é só a verdadeira fé que trabalha pelo amor (v.10). Mas nenhuma dessas coisas é dita dos apóstatas.

Quanto aos crentes, o escritor dessa epístola afirma sua preservação  eterna  por  causa  da justiça  e  fidelidade  de  Deus,  e pela imutabilidade de seus desígnios a respeito deles (vv. 10, 17, 18). Desses modos e de muitos outros, os crentes são distinguidos dos apóstatas.

Fica claro que as pessoas do texto são aquelas que tiveram privilégios espirituais especiais.

Tinham recebido dons extraordinários do Espírito Santo, tais como falar em línguas ou operar milagres.

Tinham encontrado, em si e em outros, provas convincentes de que o reino de Deus e o Messias – o que chamavam de “o mundo vindouro” –lhes havia chegado, experimentaram algo de suas glórias e ficaram satisfeitos. Tais pessoas, com a mente iluminada e o coração tocado, com certeza gozavam de alta estima entre os crentes.

Então deverá existir alguma inimizade maliciosa contra a verdade e a santidade de Cristo e do evangelho, algum amor violento ao pecado e ao mundo, que poderá desviar da fé pessoas como essas, e obliterar toda aquela luz e convicção da verdade que já tinham recebido. Assim aprendemos que a menor graça é segurança melhor do céu do que os maiores dons ou privilégios.

Se esses caíram (Hb 6.6a). O escritor da epístola supõe que esses apóstatas bem poderão cair. Pelo exemplo de Pedro que negou Cristo e ainda assim foi renovado para o arrependimento, nós dizemos que não há nenhum pecado em particular em que algum homem possa cair ocasionalmente, pela força da tentação, que possa levar o pecador àquele estado do qual seria impossível renová-lo para arrependimento.

Este “cair”, portanto, deve referir-se à rebelião e desobediência persistente contra Deus e sua Palavra. Um homem pode cair no pecado de tal maneira que ainda retenha em sua mente uma norma de luz e convicção tal que o leve de volta ao arrependimento e à aceitação de Deus. Excluir os tais de toda esperança de arrependimento vai contra todo o conteúdo da verdade bíblica (Ez 18.21; Is 55.7). Pois os homens,  após alguma convicção  e reforma de vida, poderão até cair em hábitos corruptos e maus e continuar nesses caminhos por muito tempo. Um grande exemplo é o mau rei Manassés, que no final se arrependeu e foi restaurado e aceito por Deus. Então, enquanto houver em tais pessoas qualquer semente de luz ou convicção da verdade que possa ser reavivada, para novamente operar poderosamente na alma, elas não podem ser vistas como apóstatas que seja impossível restaurar ao arrependimento, embora com toda certeza estejam vivendo perigosamente. Paulo faz distinção entre “tropeçar” e “cair” (Rm 11.11). Paulo nunca disse que os judeus tinham chegado ao estágio em que haviam caído absoluta e irrevogavelmente. A mesma palavra usada para “tropeçar” é empregada aqui, mas com uma preposição acrescentada para aumentar a força do tropeço deles, ou pelo modo terrível pelo qual vieram a tropeçar, ou então para sugerir que seu tropeçar resultou em queda violenta.

Do que já foi dito, fica claro o que não significa “cair”:

(1) Não é cair neste ou naquele pecado verdadeiro, seja de que natureza for.

(2) Não é cair em alguma tentação, pois temos muitos exemplos daqueles que caíram em várias tentações e depois foram restaurados ao arrependimento. Este cair em tentação não é preme­ditado e não acontece por escolha proposital.

(3) Não se trata de uma queda que signifique renunciar a algum princípio importante e essencial da religião cristã. Os coríntios caíram negando a ressurreição dos mortos, e os gálatas negando a justificação pela fé em Cristo unicamente.

Esse cair, então, deve se achar numa renúncia plena de todos os princípios e doutrinas importantes do Cristianismo. Esse foi o pecado daqueles que renunciaram ao evangelho para voltar ao judaísmo. Esse é o cair ao qual se refere essa passagem da Escritura. Para ser completo e final este cair, a renúncia deve ser declarada abertamente de forma que a pessoa seja vista abandonando o Cristianismo completamente a favor do judaísmo ou alguma outra religião ou para voltar ao paganismo. Alguns, em seu coração e mente, renunciam ao evangelho inteiro, mas por medo de interesses seculares de uma ou outra natureza, conservam as aparências de ainda serem crentes. Assim, buscam encobrir dos olhos dos homens sua apostasia. Mas de Deus não se zomba, e essa total desonestidade aumenta a seriedade de seu pecado e traz sobre eles ainda maiores condenações.

Portanto, podemos definir esse “cair” como uma renúncia voluntária e resoluta à fé, ao governo e à obediência ao evangelho, o que não pode ser feito sem infligir a maior censura e desprezo sobre a própria pessoa de Cristo.

O que este texto diz de tais apóstatas

Somos renovados interiormente pela obra regeneradora e santificadora do Espírito Santo (Tt 3.5; 1 Ts 5.23). Mas não é isso que é tencionado aqui, pois esses apóstatas nunca tinham sido regenerados e santificados, portanto não seria possível falar em serem renovados novamente a isso.

Nessa passagem, a renovação só pode ter referência à confissão de fé externa, selada pelo sinal e afirmação dessa confissão. A renovação, nesse sentido, trata da profissão de seu arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus Cristo, selada pela ordenança exterior do batismo. Isso era exigido de todos os que eram convertidos ao evangelho. Mas esses apóstatas, embora tivessem feito uma profissão ostensiva de arrependimento e fé e tivessem sido batizados, não tinham sido regenerados e santifica­dos. Então foi da renovação externa que esses apóstatas decaíram, renunciando totalmente à fé cristã e ao seu batismo.

Renová-los novamente, então, seria levá-los novamente a professar arrependimento para com Deus e fé para com nosso Senhor Jesus Cristo, e a receber novamente o sinal exterior e penhor do batismo. É isso que é dito ser impossível alguém fazer acontecer com esses apóstatas.

Portanto, em nenhum lugar desse texto é dito algo sobre a aceitação e a recusa de quaisquer pessoas que se arrependam de verdade. Nem esse texto impede qualquer pessoa que depois de ter caído em algum grande pecado ou retornado a práticas pecaminosas e continuado nelas, esteja agora convencido em sua consciência, desejando arrepender-se em toda sinceridade de ser aceita de volta à comunhão da igreja.

Portanto, esse texto encoraja muito tais pecadores e lhes assegura que eles não são aqueles que o texto descreve. Mas também proclama uma advertência a todos os que possam ser tentados a voltar ao judaísmo ou à velha situação em que viviam antes de serem batizados na fé cristã.

Na pregação do evangelho, então, é necessário esclarecer às pessoas e insistir na severidade de Deus no trato com os pecadores apóstatas.

Nós devemos apresentar ante os homens não só a bondade de Deus, como também sua severidade (Rm 11:22), pois o escritor dessa Epístola aos Hebreus nos ensina que Deus “é fogo consumidor” (Hb 12.28-29). Ele quer que saibamos que Deus é infinita­mente puro, santo e justo e que pode, portanto, repentina e inesperadamente, tratar-nos com a maior severidade se negligenciarmos buscar “graça, para servir a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor”.

Essa severidade de Deus em seu tratamento de apóstatas rebeldes, segundo sua santidade e sabedoria, nos é dada como exemplo de como ele bem pode tratar de nós se o provocarmos da mesma forma. Existem alguns pecados, ou graus de pecado, que nem a santidade, nem a majestade, nem a sabedoria de Deus pode deixar passar sem punição, como exemplo a outros que são tentados a ir pelo mesmo caminho. Em tais casos, é dito que Deus exercita sua severidade.

A severidade de Deus é vista em condenações exteriores sobre pecadores temerários, notórios, especialmente os inimigos de sua igreja e glória (Na 1.2).

Para fazer o mundo acordar e prestar atenção a sua severidade, as condenações de Deus precisam ser incomuns (Nm 16.29, 30). Seus juízos também precisam ser evidentes e claros para todos: “Dá o pago diretamente aos que o odeiam” (Dt 7.10). Quando Deus diz que dará o pago diretamente, quer dizer que ele o fará abertamente e à vista de todos. Então: “Quando andarem dizendo ‘Paz e segurança!’, eis que lhes sobrevirá repentina destruição” (! Ts5.3). Isso é o que acontecerá um dia com a Babilônia romanista e todos os que a apoiam (Ap 18.7-10). Mas não são esses os juízos visados primordialmente nessa passagem da Escritura.

A severidade de Deus é vista também em condenações espirituais, pelas quais ele deixa os apóstatas sob a sentença de nunca poderem ser renovados ao arrependimento. Nesse julgamento há uma sentença da condenação eterna (1Tm 5.24). Deus dá a sentença sobre eles de tal modo neste mundo que nunca poderão escapar de sua ira eterna no vindouro.

Deus deixa de ter qualquer interesse neles e não espera qualquer fruto espiritual deles. Quando Deus providencia graciosa­mente os meios de conversão e arrependimento, ele é descrito como procurando fruto, assim como acontece quando uma pessoa planta um vinhedo e espera obter fruto dele (Is 5.2, 4). Assim, quando Deus não mais dá os meios para que uma pessoa possa arrepender-se, ele não mais espera os frutos do arrependimento, e assim como ninguém trata e cuida de um deserto, assim Deus deixa de tratar e cuidar deles da maneira que trata de seu próprio povo.

Deus aflige os apóstatas com dureza de coração e cegueira de mente de modo que eles nunca irão se arrepender nem crer (jo 12.39, 40). Deus poderá, em sua severidade, entregá-los às paixões infames (Rm 1.26, 28, 29). Nessas paixões carnais eles são amarrados como se fosse com cordas e correntes, o que torna completamente impossível eles se erguerem e se arrependerem.

Deus envia sobre eles uma ilusão forte para que acreditem numa mentira, para que aqueles que não creram na verdade sejam condenados (2 Ts 2.10-12). A verdade do evangelho foi-lhes pregada, e por algum tempo foi por eles professa. Receberam a verdade, mas não amaram a verdade para que se submetessem e obedecessem a ela. Portanto, eram estéreis e infrutíferos. Mas isso não foi tudo. Tiveram prazer em seus pecados, deleites pecaminosos e injustiça, e estavam resolvidos a não se arrependerem deles. Como esses pecados eram condenados e julgados pelo evangelho, começaram a detestar e a odiar secretamente a própria verdade. Mas descobrindo que precisavam conservar as aparências, estavam dispostos a receber qualquer coisa que lhes fosse oferecida que não exigisse deles a renúncia a esses pecados. Nesse estado, Deus lhes entrega ao poder de Satanás, que os cega, os ilude e os engana com suas mentiras; e eles, por estarem sob a condenação de Deus, prontamente acreditam nelas e as aceitam. E é por isso que tantos que querem conservar a aparência exterior de cristãos, mas não querem abandonar seus pecados e paixões carnais, aceitam pronta­mente a idolatria romanista.

Então que esperança tem os pecadores apóstatas, abandona­dos por Deus, de um dia serem renovados novamente para arrependimento?

Há uma tendência na natureza humana corrupta para “desprezar a riqueza da bondade, e tolerância, e longanimidade de Deus, ignorando que a bondade de Deus é que os conduz ao arrependi­mento” (Rm 2.4, 5). Assim, em sua dureza espiritual e seus corações impenitentes, eles entesouram para si ira no dia da ira e da revelação do julgamento justo de Deus.

Então vemos de que grande importância é pregar não somente a bondade de Deus, mas também sua severidade. É nossa a obrigação de advertir todos os homens do perigo da apostasia, pois em tal situação nenhum arrependimento lhes será concedido.

Nós devemos avisar a todos os que estão em perigo de tais apostasias que “se alguém retroceder, a alma de Deus não terá nele prazer” (Hb 10.38). Devemos avisá-los de que “horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31). Devemos adverti-los de que Deus endurecerá tais pecadores e “os entregará a grandes enganos, para que possam ser condenados”. Devemos avisá-los de que ele não prometeu renová-los para arrependimento, mas ao contrário já pronunciou muitas ameaças severas. Eles são como árvores “duplamente mortas, desarraigadas” (Jd v.12), para as quais não há esperança. Negaram “o Senhor que os comprou”, e assim trouxeram sobre si repentina destruição.

É verdade que essa passagem se refere primeiramente àqueles que, nos dias dos apóstolos, tinham recebido dons extraordinários ou miraculosos do Espírito Santo. Mas por uma analogia justa, esse aviso pode ser estendido a outros, agora que esses dons de milagres têm cessado na igreja. Os dons e privilégios comuns que o Espírito Santo concede hoje obrigam-nos  igualmente a continuar fiéis ao evangelho, e portanto essa advertência ainda é tão relevante hoje como quando primeiro foi escrita. “Não sejamos, portanto, altivos, mas tenhamos temor”. Não  é seguro que nos aproximemos demais da beira de um precipício.

 

 

Exegese de Hebreus 6.4-6 (1/3)

Exegese de Hebreus 6.4-6 (2/3)

 

 

Autor: John Owen

Trecho extraído do livro Apostasia do Evangelho, pág 31-41. Editora: Os Puritanos

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.