As capacidades humanas são dons da graça divina

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Esta é a síntese: pode-se perceber em todo o gênero humano que a razão é própria à nossa natureza, a qual nos distingue dos animais brutos, assim como pela sensibilidade diferem estes das coisas inanimadas. Ora, que alguns nascem imbecis ou broncos, esse defeito não obscurece a graça geral de Deus, senão que, antes, por tal constatação, somos advertidos de que se deve, com razão, atribuir à benevolência de Deus o que nos é deixado; porque, caso ele não tivesse poupado, a queda teria trazido consigo a destruição de toda nossa natureza.

Que, porém, uns excedem em habilidade, outros são superiores no julgar, em outros a mente é mais ágil para aprender esta ou aquela arte, nesta variedade Deus nos recomenda sua graça, para que a si alguém não arrogue como sendo próprio o que flui da mera liberalidade daquele. Porque, donde procede que um seja mais eminente que outro, senão para que na natureza comum se sobreleve a graça especial de Deus, a qual, preterindo a muitos, se proclama não estar obrigada a ninguém? Acrescenta que, em conformidade com a vocação de cada um, Deus lhes instila operações especiais, fato de que ocorrem muitos exemplos no livro dos Juízes, onde se diz que o Espírito do Senhor revestiu aqueles a quem chamava para governar o povo. Enfim, em todos os modos importantes, a impulsão especial é divina. Por essa razão, os valentes cujo coração Deus havia tocado seguiram a Saul (1Sm 10.26). E quando é predita a investidura de Saul ao trono, assim fala Samuel: “O Espírito do Senhor virá sobre ti e serás um outro homem” (1Sm 10.6). E isto se estende a todo o curso de seu governo, como, mais tarde, acerca de Davi se narra: “que sobre ele viera o Espírito do Senhor daquele dia em diante” (1Sm 16.13).

Ademais, o mesmo se ensina em outro lugar no tocante às ações particulares. E até em Homero lemos que os homens excelem em engenho, não só de conformidade com o que Júpiter distribuiu a cada um, mas ainda – na medida em que dia a dia o conduz, tal como a cada dia dirige. E a experiência mostra claramente que, enquanto aqueles que eram assaz talentosos e sagazes, frequentemente se quedam aparvalhados; visto que a mente dos homens está na mão e no arbítrio de Deus, assim ele rege a todo e cada momento. Razão porque se diz que ele arrebata o senso aos prudentes para que vagueiem por paragens intransitáveis (Jó 12.24; Sl 107.40). Contudo, nesta diversidade ainda vemos alguns traços remanescentes da imagem de Deus que a todo gênero humano distinguem das demais criaturas.

 

 

Autor: João Calvino

Trecho extraído das Institutas, edição clássica, volume 2, capítulo 2, pág 44-45. Editora: Cultura Cristã

Reformados 21
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