As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (1/4)

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  1. O mal da AFLIÇÃO coopera para o bem do homem piedoso

Algo que nos aquieta o coração é considerar que em todas as aflições, Deus está operando de forma especial: “o Todo-Poderoso me tem feito mal” (Rute 1:21). Instrumentos não podem mais se mexer até que Deus ordene, da mesma forma que um machado não pode cortar sem uma mão. Jó viu Deus em sua aflição, mas como Agostinho observa, ele não diz: “O Senhor deu e o diabo tirou”, mas “O Senhor tirou”.  Seja quem for que nos traz aflição, é Deus quem a envia.

Outra consideração que nos aquieta o coração é que as aflições cooperam para o bem.  “Eu os enviei para o cativeiro para o seu próprio bem.” (Jeremias. 24:6). O cativeiro de Judá na Babilônia foi para seu bem. “Foi-me bom ter sido afligido” (Salmo 119:71). Que esse texto, como a vara de Moisés lançada nas águas amargas da aflição, possa fazê-las doce e salutar para que você as beba.  Aflições são medicinais para o homem piedoso. Da droga mais venenosa Deus extrai nossa salvação.  Aflições são tão necessárias quanto as ordenanças (1 Pedro 1:6). Nenhum vaso pode ser feito de ouro sem fogo; assim é impossível que sejamos vasos de honra, a não ser que sejamos derretidos e refinados na fornalha da aflição. “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade” (Salmo 25:10). Assim como o pintor mistura cores claras com sombras escuras; então o sábio Deus mistura misericórdia com julgamento. Aquelas providências aflitivas que parecem ser prejudiciais, são benéficas. Vamos ver alguns exemplos das Escrituras:

Os irmãos de José o jogaram em um poço; posteriormente eles o venderam; depois ele é jogado numa prisão; apesar disso, tudo isso cooperou para seu bem.  A sua humilhação foi que causou sua progressão, ele se tornou o segundo homem no reino. “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem” (Gênesis 50:20).

Jacó lutou com o anjo, e a junta da sua coxa foi deslocada. Isto foi triste, mas Deus o tornou em bem, pois lá ele viu a face de Deus e lá o Senhor o abençoou. “Jacó chamou aquele lugar de Peniel, pois disse: “Tenho visto a Deus face a face” (Gênesis 32:30). Quem não estaria disposto a ter um osso deslocado para que pudesse ter uma visão de Deus?

O rei Manassés foi amarrado em cadeias. Foi algo triste de se ver – uma coroa de ouro se transformou em grilhões. Mas isso cooperou para seu bem. “Assim o SENHOR trouxe sobre eles os capitães do exército do rei da Assíria, os quais prenderam a Manassés com ganchos e, amarrando-o com cadeias, o levaram para babilônia. E ele, angustiado, orou deveras ao SENHOR seu Deus, e humilhou-se muito perante o Deus de seus pais; e fez-lhe oração, e Deus se aplacou para com ele, e ouviu a sua súplica, e tornou a trazê-lo a Jerusalém, ao seu reino. Então conheceu Manassés que o SENHOR era Deus” (2 Crônicas 33:11-13). Ele era mais devedor a sua cadeia de ferro do que a sua coroa de ouro. Uma o fez orgulhoso, a outra o fez humilde.

foi um espetáculo de miséria; ele perdeu tudo que sempre teve; ele abundou somente em feridas e úlceras. Foi algo triste; mas isso cooperou para seu bem, sua virtude foi provada e melhorada. Do céu Deus deu testemunho de sua integridade, e o compensou sua perda dando o dobro de tudo o que antes possuíra (Jó 42:10).

Paulo foi atingido por uma cegueira. Foi algo desconfortável; mas isso se tornou em bem para ele. Deus, pela sua cegueira, fez com que a luz da graça brilhasse em sua alma; isso foi o começo de uma feliz conversão (Atos 9).

Assim como as duras geadas no inverno trazem as flores na primavera, assim como a noite precede a estrela da manhã, assim os males da aflição produzem muito bem para aqueles que amam a Deus. Mas estamos prontos a questionar a veracidade disso, e dizer, como Maria disse ao anjo, “Como pode ser isso?” Portanto lhe mostrarei muitas maneiras de como as aflições cooperam para o bem.

(1) A Aflição coopera para o bem como nosso pregador e mestre: “Ouvi a vara” (Miquéias 6:9). Lutero disse que ele não pôde entender corretamente alguns dos Salmos até que ele estevisse em aflição.

A Aflição ensina o que é o pecado.  Na palavra pregada, nós ouvimos como o pecado é uma coisa horrível; ele tanto mancha quanto condena – mas nós o tememos tanto quanto um leão numa pintura; portanto, Deus permite a aflição e então sentimos o amargo do pecado em seu próprio fruto.  Um leito enfermo geralmente ensina mais que um sermão.  Nós podemos ver melhor o feio semblante do pecado quando olhamos pelas lentes da aflição!

A Aflição nos ensina a conhecermos a nós mesmos. Na prosperidade nós somos, na maioria das vezes, estranhos a nós mesmos. Deus nos aflige para que possamos nos conhecer melhor. É em tempo de aflições que vemos aquela corrupção em nossos corações que não acreditaríamos que estava lá.  A água parece limpa num copo, mas ponha ela no fogo e a sua impureza vai fervilhar. Na prosperidade, um homem parece ser humilde e grato, a água parece limpa; mas ponha esse homem um pouco no fogo da aflição, e suas impurezas começam a fervilhar; muita impaciência e incredulidade começam a aparecer. “Oh”, diz um Cristão, “eu nunca pensei que tinha um coração tão mau, agora eu vejo que tenho! Eu nunca pensei que minhas corrupções fossem tão fortes e minhas virtudes tão fracas.”

(2) Aflições cooperam para o bem, pois elas são meios de fazer com que o coração seja mais voltado para o alto. Na prosperidade o coração está apto para ser dividido (Oséias 10:2). O coração se divide em uma parte para Deus e outra para o mundo. É como uma agulha entre dois imãs: Deus puxa de um lado e o mundo do outro. Agora Deus afasta o mundo para que o coração possa se inclinar mais a Ele em sinceridade. A correção põe o coração numa posição reta e correta. Assim como às vezes nós seguramos uma barra de ferro torta sobre o fogo para endireitá-la; Deus nos segura sobre o fogo da aflição para nos fazer mais retos e mais voltados para o alto. Oh, como é bom, quando o pecado nos entortou a alma para longe de Deus, aquela aflição pode nos endireitar de novo!

(3) As Aflições cooperam para o bem, pois elas nos moldam à imagem de Cristo. A vara de Deus é como um pincel que pinta a imagem de Cristo de forma cada vez mais vívida em nós. É bom que haja uma simetria e uma proporção entre o Cabeça e os membros.  Seríamos parte do corpo místico de Cristo sem sermos parecidos com Ele? Sua vida, como diz Calvino, foi uma série de sofrimentos; “homem de dores, e experimentado nos sofrimentos” (Isaías 53:3). Ele chorou e sangrou. Sua cabeça foi coroada com espinhos, e nós achamos que seremos coroados com rosas? É bom ser parecido com Cristo, mesmo que seja através das aflições. Jesus Cristo bebeu um amargo cálice, e só de pensar nisso O fez suar gotas de sangue; e, embora Ele tenha bebido o veneno que havia no cálice (a ira de Deus), ainda há algum absinto no cálice que os santos devem beber; apenas aqui está a diferença entre o sofrimento de Cristo e o nosso: o dEle foi expiatório e o nosso é apenas purificador.

(4) As Aflições cooperam para o bem, pois elas são destrutivas para o pecado. O pecado é a mãe, a aflição é a filha; a filha ajuda a destruir a mãe.  O pecado é como a árvore que gera um verme, e a aflição é o verme que come a árvore. Há muita corrupção no melhor coração; a aflição trabalha aos poucos para remover essa corrupção, como o fogo trabalha para remover a escória do ouro, “E voltarei contra ti a minha mão, e purificarei inteiramente as tuas escórias; e tirar-te-ei toda a impureza.” (Isaías 1:25) Se tivéssemos mais da nossa aspereza polida – se tivéssemos menos ferrugem! Aflições tiram de nós nada mais do que as escórias do pecado. Se um médico disser a um paciente: “Seu corpo está pálido e com muitas infecções que precisam ser tratadas ou você morrerá. Mas eu vou lhe prescrever um remédio que, embora possa fazer você ficar doente, apesar disso vai retirar os resíduos da sua doença e salvará sua vida”. Isso não seria para o bem do paciente? Aflições são remédios que Deus usa para nos curar de nossas doenças espirituais; elas curam o inchaço do orgulho, a febre da luxúria, o câncer da avareza. Elas não cooperam então para nosso bem?

(5) As Aflições cooperam para o bem, pois elas são meios de desprender nosso coração do mundo. Quando você escava para retirar terra da raiz de uma árvore, é para afastar a árvore da terra. Assim também Deus escava para retirar nossos confortos mundanos e para desprender nosso coração da terra. Um espinho cresce com qualquer flor. Deus teria o mundo suspenso como um dente frouxo que ao ser puxado não nos incomodaria mais. Não é bom ser liberto? Os santos do passado precisaram. Por que o Senhor quebra o tubo-condutor, senão para que possamos ir a Ele, em Quem “são todas as nossas fontes” (Salmo 87:7)?

(6) As Aflições cooperam para o bem, pois elas são um meio de nos confortar. “E lhe darei o vale de Acor por porta de esperança” (Oséias 2:15). Acor significa sofrimento. Deus adoça a dor externa com a paz interna. “A vossa tristeza se converterá em alegria.” (João 16:20). Aqui é onde a água se transforma em vinho. Depois de uma amarga pílula, Deus dá o açúcar. Paulo cantou na prisão. A vara de Deus tem mel no seu final. Os santos em aflição tiveram tão doces êxtases de alegria, que eles mesmos achavam-se nas fronteiras da Canaã celestial.

(7) As Aflições cooperam para o bem, pois elas nos engrandecem. “Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas nele o teu coração, e cada manhã o visites?” (Jó 7:17-18). Pela aflição Deus nos engrandece de três formas:

(1ª) Em nossas aflições, Ele irá condescender até o baixo nível de nos notar. É uma honra que Deus se importe com poeira e cinzas. O fato de Deus julgar-nos dignos de sermos afligidos nos engrandece. Deus não nos castigar é nos menosprezar: “Por que seríeis ainda castigados?” (Isaías 1:5). Se vocês irão continuar no pecado, então sigam seu curso — pecando para o inferno.

(2ª) Aflições também nos engrandecem, pois são insígnias de glória, sinais de filiação. “Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos” (Hebreus 12:7a). Cada marca da vara é um emblema de honra.

(3ª) Aflições tendem a ser o engrandecimento dos santos, pois elas os tornam renomados no mundo. Soldados nunca foram tão admirados pelas suas vitórias, como os santos foram pelos seus sofrimentos. O zelo e constância dos mártires em suas provações renderam-lhes fama para a posteridade. Quão eminente foi Jó por sua paciência! Deus deixou seu nome registrado. “Ouvistes qual foi a paciência de Jó” (Tiago 5:11). Jó, o sofredor, foi mais renomado que Alexandre, o Conquistador.

(8) As Aflições cooperam para o bem, pois elas são meios de nos fazer felizes. “Eis que bem-aventurado é o homem a quem Deus repreende” (Jó 5:17). Que político ou moralista alguma vez encontrou felicidade nas aflições? Jó encontrou. “Eis que bem-aventurado é o homem a quem Deus repreende”.

Alguém pode dizer: “Como as aflições nos fazem felizes?” Nós respondemos que, sendo santificadas, elas nos trazem para perto de Deus. A lua quando cheia está mais longe do sol; assim, muitos estão bem longe de Deus na lua cheia da prosperidade. Aflições os trazem para perto de Deus. O ímã da misericórdia não nos aproxima tanto de Deus quanto as cordas da aflição. Quando Absalão pôs fogo no pedaço de campo de Joabe, então ele veio correndo a Absalão (2 Samuel 14:30). Quando Deus põe fogo em nossos confortos mundanos, aí nós corremos para Ele, e encontramos paz nele. Só quando o pródigo sofreu aperto e necessidade, ele retornou à casa do seu pai (Lucas 15:14). Quando a pomba não pôde encontrar descanso para a planta de seus pés, só então ela voou para a arca. Quando Deus traz um dilúvio de aflições para nós, só então voamos para arca, que é Cristo.  A fé pode fazer uso das águas das aflições, para nadar mais rápido para Cristo.

(9) As Aflições cooperam para o bem, pois elas silenciam o ímpio. Como eles estão prontos para difamar e caluniar o homem piedoso, dizendo que eles servem a Deus apenas por interesse próprio. Portanto, Deus terá seu povo suportando sofrimentos para a religião, para que Ele possa colocar um cadeado nos lábios mentirosos dos ímpios. Quando os ateus de todo o mundo veem que Deus tem um povo que O servem, não por algo em troca, mas por amor, isso fecha suas bocas. O diabo acusou Jó de hipocrisia, dizendo que ele era um mercenário, que toda sua religião era baseada a fim de ter prata e ouro. “Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não o cercaste de sebe?” Etc. “Bem”, diz Deus, “estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem” (Jó 1:9-12). O diabo mal havia recebido a comissão e já desceu destruindo a sebe de Jó; mas Jó ainda adora a Deus (Jó 1:20) e professa sua fé nele. “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13:15). Isso silenciou o próprio diabo. Como isso atinge em cheio ao ímpio, quando eles veem que o homem piedoso se manterá perto de Deus mesmo numa condição de sofrimento, e que, mesmo quando eles perdem tudo, eles ainda permanecerão na sua integridade.

(10) As Aflições cooperam para o bem, pois elas nos guiam para a glória (2Co 4:17). Não que elas mereçam a glória, mas elas nos preparam para isso. Como o arado prepara a terra para a colheita, assim as aflições nos preparam e nos tornam aptos para a glória. O pintor coloca a cor dourada sobre as cores escuras, como Deus primeiro põe as cores escuras das aflições, e só depois Ele deposita a cor dourada de glória. O vaso é primeiro experimentado para o vinho ser derramado nele; os vasos de misericórdia são primeiro experimentados com aflições, só depois o vinho da glória é derramado neles. Desse modo, vemos que as aflições não são prejudiciais, mas são benéficas.  Não devemos olhar muito para o mal da aflição, como para o bem; não tanto quanto o lado escuro da nuvem como para a luz. O pior que Deus faz com seus filhos é chicoteá-los para o céu!

 

 

As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (2/4)

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As Piores Coisas: Quando Tudo colabora para o Bem (4/4)

 

 

Autor: Thomas Watson

Fonte: Iclnet

Tradução: Voltemos ao Evangelho

Via: Voltemos ao Evangelho

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.