Exegese de Hebreus 6.4-6 (2/3)

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(3) O terceiro privilégio foi que ”se tornaram participantes do Espírito Santo” (Hb 6.4c).

Esse privilégio espiritual é colocado no centro de todos os privilégios espirituais mencionados aqui neste texto. Dois dons o ante­cedem e dois o seguem. Todos esses privilégios vêm do Espírito Santo e por isso todos dependem de sermos “participantes do Espírito Santo”.

Ora, só nos tornamos participantes do Espírito Santo quando nós o recebemos, e ele pode ser recebido por nós para vir residir em nós, ou simplesmente para fazer sua obra em nós ou sobre nós.

Do primeiro modo, “o mundo não pode recebê-lo” (João 14.17).

É por isso que o mundo se opõe aos crentes verdadeiros. Por isso, aqueles de quem esse texto quis falar não eram de forma alguma participantes do Espírito Santo nesse sentido. Ele não tinha vindo habitar neles para sua salvação. Não o haviam recebido de forma a tê-lo residindo neles para sua salvação.

Mas haviam recebido e experimentado suas dádivas. Nesse sentido, haviam se tornado participantes do Espírito Santo. Foram privilegiados em compartilhar, junto com os crentes verdadeiros, algo de seus dons espirituais (1 Co 12.11). Por isso Pedro disse a Simão o mágico que ele não tinha parte com os dons espirituais. Ele não era participante do Espírito Santo (At 8.21). Portanto, ser participante do Espírito Santo significa as pessoas compartilharem dos dons dele e experimentarem algo de suas ações sobre elas e por elas.

Mas será que não são todos os privilégios mencionados neste texto dons e operações do Espírito Santo? Se ser participante do Espírito Santo significa ser participante de seus dons e operações, por que esse privilégio é mencionado aqui separadamente?

Em resposta a isso, quero fazer lembrar que já vimos como a Escritura diz a mesma coisa de vários modos a fim de deixar suas declarações firmes em nossa mente. Mas aqui, o escritor da epístola deseja que esses apóstatas saibam que terrível menosprezo e insulto estão infligindo sobre o Espírito Santo que tão graciosamente lhes fez participantes desses grandes dotes espirituais.

Esse privilégio de serem participantes do Espírito Santo pode­rá bem ter sido colocado no centro da lista para mostrar como todos esses privilégios dependem dele. Foram participantes do Espírito Santo porque havia sido Ele que “os havia iluminado”, que era “o dom celestial”, etc. Em todas essas coisas, eles haviam sido feitos “participantes do Espírito Santo”.

Esse privilégio mostrava que o Espírito tinha realmente feito com que ingressassem numa experiência dessas coisas, não só por­que tinham ouvido essas coisas serem pregadas e as tinham visto funcionar na igreja, mas também porque eles próprios tinham sido levados pessoalmente pelo Espírito a experimentar por si mesmos essas coisas e assim se envolverem pessoalmente. É uma coisa o homem ter parte em dons e beneficiar-se do ministério dos dons da igreja, e coisa bem diferente ser dotado com eles em sua pessoa. Para fazê-los lembrar, então, do grande privilégio que gozavam sob o evangelho, privilégio muito acima de qualquer coisa desfrutada por eles sob o judaísmo, pois naquela época nem haviam ouvido falar se existia um Espírito Santo (At 19.2), agora tinham sido feito participantes pessoais dele. Que insulto maior, então, podiam oferecer ao Espírito Santo do que negligenciar e desprezar esse tão grande privilégio? Quanto isso acrescentaria à vileza de sua apostasia!

Disso vemos que o Espírito Santo está com muitas pessoas apenas por meio de seus dotes e poder, mas não veio habitar neles e assim não são verdadeiramente povo de Cristo (Rm 8.9). Muitos são feitos participantes dele em seus dons espirituais que nunca são feitos participantes dele em sua graça salvadora (Mt 7.22, 23).

(4) O quarto privilégio que havia sido dado a esses apóstatas foi o privilégio de “provar a boa palavra de Deus” (Hb 6.5a).

A palavra grega empregada aqui significando “palavra” tem o sentido de uma palavra falada. É usada em outro sentido, somente nesta epístola, para denotar o poder ativo de Deus (Hb 1.3; 11.3). Mas o principal uso dessa palavra na Bíblia é no sentido de “palavra falada”. Quando aplicada a Deus, significa sua palavra conforme pregada e declarada (Rm 10.17; Jo 6.68). Então, o que esses apóstatas haviam provado foi o evangelho conforme pregado.

Mas será que eles não apreciavam a Palavra de Deus no seu estado de judaísmo? Sim, realmente, porque a eles “foram confia­dos os oráculos de Deus” (Rm 3.2). Mas aqui, o sentido é a Palavra de Deus conforme pregada nos tempos do evangelho e com res­peito à qual tão excelentes coisas são ditas (Rm 1.16; At 20.32; Tg  1.21).

É dito que esta Palavra é “boa”, mais desejável do que mel ou o favo de mel (Sl 19.10). A promessa de Deus em particular é chamada de sua “boa palavra” (Jr 29.10). Ela é a “boa coisa” que foi prometida (Jr 33.14). E o evangelho, a própria declaração do cumprimento da promessa de Deus de remir seu povo de seus pecados por Jesus Cristo, é a “boa-nova” de paz e salvação por Jesus Cristo (Is 52.7).

É dito que “provaram” a Palavra, do mesmo modo como “provaram” o dom celestial. O escritor desta epístola insiste nessa palavra de propósito para mostrar que esses apóstatas não eram daqueles que realmente recebem, se alimentam e vivem de Jesus Cristo conforme ele lhes é oferecido no evangelho (Jo 6.35, 49-51, 54- 56). É como se tivesse dito: “Não falo daqueles que receberam e digeriram o alimento espiritual de suas almas, e assim o tornaram em nutrimento espiritual, mas falo daqueles que provaram a Palavra de Deus de tal modo que deveriam tê-la desejado como leite sincero para seu crescimento e saúde espiritual. Mas em vez disso, eles negligenciaram aquela boa Palavra e recusaram-na como crianças que desprezam o alimento que lhes é oferecido”.

  • Aprendemos, então, que há uma bondade e glória na Palavra de Deus que é capaz de atrair e afetar a mente de pessoas que ainda assim nunca chegam a se submeter a ela obedientemente.
  • Aprendemos também que há um bem especial na Palavra da promessa a respeito de Jesus Cristo e na pregação do cumprimento dela.

A bondade e glória da Palavra de Deus se acha em sua verdade espiritual, celestial. Toda verdade é desejável e bela. Quando a mente do homem recebe a verdade, essa verdade leva sua mente à perfeição, conformando-a a sua própria imagem.

O que é verdadeiro é também bom. Assim Paulo coloca juntas a verdade e a bondade (Fp 4.8). E assim como a verdade em si é boa, assim também é bom o efeito dela sobre a mente. Dá paz à mente, dá satisfação e contentamento. Trevas, erros, mentira são males em si e enchem a mente dos homens com a soberba, a in­certeza, a superstição, o medo e a servidão. É a verdade que liberta a alma (Jo 8.32). Ora, a Palavra de Deus é a única verdade pura, sem mistura e sólida (Jo 17.17). Sem a Palavra de Deus, a mente do homem vagueia em conjecturas infindas. Somente a verdade da Palavra de Deus é estável, firme, infalível. Isso oferece descanso à alma. Por ser verdade infalível, que dá luz aos olhos e descanso à alma, ela é a “boa palavra de Deus”.

A Palavra de Deus é boa por causa das boas doutrinas que estão nela. A natureza e as características de Deus são declaradas nesta Palavra. Deus sendo o único bem, a única fonte e causa de tudo que é bom, e no gozo de quem estão toda a paz e bem-aventurança, a revelação que é feita dele, de sua natureza e atributos, tornam a Palavra de Deus boa de fato (Jo 17.3). Se é incomparavelmente melhor conhecer Deus do que gozar o mundo inteiro e tudo que nele há, a Palavra que o revela a nós com certeza será boa (Jr 9.23, 24). A Palavra de Deus é muitíssimo boa também na revelação do mistério glorioso da Trindade. É o mistério que é preciso conhecer, por ser ele o único meio de se entender corretamente todas as outras verdades sagradas – e sem conhecê-lo – nem uma delas pode ser compreendida corretamente, nenhuma delas pode levar-nos àquela verdadeira bondade que Deus deseja ver em nós. Só isso dará à alma verdadeiro descanso e paz. E o crente, por menos verdadeiro que seja, pela fé e obediência, experimenta o poder dessa verdade mesmo que não seja capaz de explicar a Trindade claramente a outras pessoas. Toda graça e verdade são edificadas sobre a doutrina da Trindade, e do Deus Triúno toda graça e verdade derivam seu poder de levar salvação aos pecadores. Então é uma boa Palavra o lugar onde esse mistério é revelado.

A Palavra de Deus é boa também porque nela está revelado o mistério inteiro da encarnação do Filho de Deus, revelando a sabedoria, a bondade e a graça infinita de Deus ao enviá-lo para ser nosso Salva­dor.

É a Palavra boa de Deus porque revela a misericórdia, a graça, o perdão, a justificação, a adoção e todas as outras maravilhosas bênçãos que se tornam nossas quando recebemos Cristo e colocamos nele nossa fé.

Também é a boa Palavra de Deus por causa de seus efeitos benditos (SI 19.7-9; At 20.32; Tg 1.21). Nada há que se compare com a excelência, o valor e a bondade que está na Palavra de Deus. Portanto é, realmente, a boa Palavra de Deus.

Os apóstatas provam essa Palavra de Deus quando sabem que é verdade e quando a reconhecem como sendo verdade. Isso dá certa paz à mente deles, embora ela continue não renovada. Aqueles que ouviram João Batista pregar a verdade se regozijaram na sua luz porque encontraram muita coisa que os satisfizeram (Jo 5.35). Foi o mesmo com outros que ouviram Cristo pregar (Lc 4.22; Jo 7.46). Quando os homens, por meio do conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, fogem das contaminações que há no mundo por causa da concupiscência e abandonam a companhia daqueles que vivem no erro, eles provam uma bondade e uma doçura na Palavra de Deus que dão descanso e satisfação a mente deles. Eles supõem então que já chegaram à salvação, não reconhecendo que por enquanto só “provaram a boa palavra do Senhor”.

Quanto às doutrinas e aos ensinos que estão na Palavra, têm um gostinho da bondade deles porque esses ensinos lhes dão esperança de um gozo futuro. Misericórdia, perdão, vida, imortalidade e glória são proclamadas na “boa palavra de Deus”. Essas verdades eles provam com muita alegria e satisfação e acham que porque eles as provaram, já as receberam verdadeiramente e estão vivendo em submissão a elas. Mas não as tendo recebido verdadeiramente e não estando arraigadas nelas, quando surge o calor da perseguição, desistem logo (Mt 13.20).

Com esse provar, poderão sentir muitos efeitos da Palavra sobre a mente e a consciência, e experimentar algo de seu poder sobre eles. A prova pode se fazer acompanhar de deleite, prazer e satisfação quando ouvem a Palavra sendo pregada (Ez 33.30-33). Gostam de ouvir, mas não recebem no coração o que ouvem. Herodes ouviu João Batista alegremente e fez muitas coisas, mas só provou amostras e nenhuma recepção da Palavra. Multidões também se acotovelavam atrás de Cristo para ouvir a Palavra, mas poucos a receberam de fato. Assim acontece também com muitas pessoas hoje.

Esse provar não só dá deleite no ouvir como também alguma alegria nas coisas ouvidas. Tais são os ouvintes da Palavra que nosso Salvador comparou com o terreno pedregoso. Recebem-na com alegria (Mt 13.20), como fizeram os ouvintes de João Batista (Jo 5.35). A Palavra, só provada, tem esse efeito sobre a mente, elevando-a à alegria nessas coisas que ouvem. Mas essa alegria não é sólida, duradoura. Não é aquela alegria indizível e cheia de glória que só os verdadeiros crentes têm (1 Pe 1.8). A alegria deles é como a névoa ao amanhecer que logo desvanece. Alegram-se com a ideia de misericórdia, perdão, graça, imortalidade e glória, mas não fazem nenhum esforço para assegurar que tenham recebido essas coisas para sua própria salvação.

Provar a Palavra de Deus poderá bem efetuar uma mudança e reforma na vida das pessoas de forma que estejam dispostas a desempenhar muitos deveres (2 Pe 2.18, 20; Mc 6.20).

A palavra do evangelho e Cristo pregado no evangelho são o alimento de nossa alma. A fé verdadeira não fica só em provar, mas se alimenta dessa palavra, transformando-a em graça e nutri­mento espiritual no coração. Para realmente alimentar-nos da Palavra de Deus, então, precisamos primeiro guardá-la ou entesourá­la no coração (Lc 1.66; 2.19). Nenhum nutrimento será obtido do alimento a não ser que seja recebido no estômago, onde é digerido e passado adiante para nutrir todo o corpo. Da mesma forma, se a Palavra de Deus não é recebida no coração pela meditação e pelo deleite, poderá agradar por um tempo, mas não nutrirá a alma.

O alimento deve ser misturado com os sucos gástricos, caso contrário não nutrirá, por mais comida que se dê ao homem. Se ele sofrer de falta de sucos gástricos, aquele alimento não poderá ser ingerido pelo corpo para seu nutrimento. Assim é que enquanto a Palavra recebida no coração não for digerida pela fé, ela não poderá nutrir nossa alma (Hb 4.2). Como é diferente tudo isso de só provar.

Quando os homens se alimentam da Palavra, ela é transformada em princípio de vida, força espiritual que resulta em crescimento espiritual –coisa que só provar não faz. Assim como o alimento, quando digerido, se torna carne, ossos e sangue, assim Cristo e sua Palavra trazem vida a nossa alma. Cristo se torna “nossa vida” e “vive em nós” como causa dinâmica de nosso crescimento espiritual (Gl 2.20; Cl 3.3). Crescemos espiritualmente pela Palavra (1 Pe 2.2). Uma mera provinha, embora possa refrescar naquele momento, não comunica força duradoura. As­sim muitos podem apreciar a Palavra quando é pregada, mas se nunca a recebem pela fé no coração, eles nunca chegam à vida, à força ou ao crescimento espiritual.

A Palavra recebida de fato irá transformar a alma na semelhança de Deus, que nos manda este alimento para mudar-nos e fazer-nos semelhantes a ele em “justiça e verdadeira santidade” (Ef 4.21- 24; 2 Co 3.18). O mero provar não fará nada disso, nem nos dará um amor tão grande pela verdade a ponto de permanecermos fiéis a ela em todas as provações e tentações (2 Ts 2.10). Provar também não produzirá os frutos de obediência à Palavra.

 

Exegese de Hebreus 6.4-6 (1/3)

Exegese de Hebreus 6.4-6 (3/3)

 

Autor: John Owen

Trecho extraído do livro Apostasia do Evangelho, pág 24-31. Editora: Os Puritanos

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.