Um Chamado à Restauração

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Texto base: Oseias 14.1-9

 

INTRODUÇÃO

O livro de Oseias é o primeiro dos profetas menores e o mais extenso.1 David Hubbard considera o livro de Oseias teologicamente o mais completo, pois abarca os grandes temas proféticos da aliança, do julgamento e da esperança.2 O tema do livro de Oseias consiste em quatro pontos:

1) A idolatria de Israel; 2) os seus pecados; 3) o cativeiro como resultado do pecado e 4) a restauração.

Myer Pearlman escreve que:

O livro de Oseias é uma grande exortação ao arrependimento dirigida às dez tribos. Durante os quarenta anos ou cinqüenta anos antes do seu cativeiro. Os reis e sacerdotes eram assassinos e libertinos; os sacerdotes desviavam o povo do culto ao Senhor. Em dificuldades, o governo voltava ao Egito ou à Assíria pedindo ajuda. Em muitos casos, o povo imitava a vileza moral dos cananeus; vivia numa segurança descuidada, interrompida somente em tempos de perigo por um arrependimento fingido; sobretudo, Deus e sua Palavra eram esquecidos.3

Todavia, o capítulo 14 do livro de Oseias é a conclusão de uma série de profecias acerca do propósito de Deus para o seu povo. “Depois dos grandes vagalhões de condenação que se chocaram contra Israel, Deus agora fala ternamente em graça”.4 Deus chama o seu povo à restauração!

O esboço analítico deste capítulo pode ser dividido em cinco seções:

A primeira enfatiza a necessidade da restauração (vs.1). A segunda a condição da restauração (vs.2-3). A terceira a promessa de restauração (vs.4-5). A quarta as bênçãos provenientes da restauração (vs.5b-7). E a quinta uma solene exortação de Deus ao seu povo (vs.8).

 

ARGUMENTAÇÃO

  1. A NECESSIDADE DA RESTAURAÇÃO (14.1)

a) Deus chama o seu povo para voltar-se para ti (vs.1a)

No livro do profeta Oseias, podemos observar que o povo de Israel era habitualmente inclinado a se desviar dos caminhos de Deus (11.7). Além da vida moral do povo ser permeada de hábitos pecaminosos como a idolatria, que Deus considerava como um tipo de prostituição ou um ato de imoralidade espiritual (4.12), tais hábitos pecaminosos se tornaram em obstáculos intransponíveis que os escravizaram em uma vida de pecados, impedindo-os de se voltarem para Deus (5.4).

A reação de um suposto arrependimento e de uma volta para Deus em virtude da sua disciplina, com a afirmação descrita em (6.1-6): Venham, voltemos para o Senhor. Ele nos despedaçou, mas nos trará cura; ele nos feriu, mas sarará nossas feridas… (NVI) foi, até agora, apenas meras palavras proferidas de uma confissão superficial e vazia. Não houve o arrependimento sincero e a conversão genuína.

APLICAÇÃO PRÁTICA

O próprio Deus, que havia sido ofendido com os pecados do seu povo, é quem toma a iniciativa de chamá-los a se voltarem para ti. O povo de Israel não queria e não podia se voltar para Deus. Eles estavam mortos espiritualmente e eram escravos do pecado (Ef 2.1).

Portanto, é somente Deus, pelo seu Espírito, que tem o poder de ressuscitar e reconciliar o homem morto e escravo no pecado consigo mesmo, baseado na obra redentora de Cristo (2 Co 5.18).

b) O motivo do chamado de Deus ao seu povo (vs.1b)

A razão do chamado de Deus reside no fato da queda política, moral e espiritual da nação de Israel. O crime deste povo não foi simplesmente a violação da lei; antes, foi o pecado que eles cometeram contra Deus que os levaram à ruína.

APLICAÇÃO PRÁTICA

É necessariamente uma vida norteada pelo pecado o vital motivo do chamado de Deus à sua igreja. São os próprios pecados de negligência (fazer aquilo que não deve ser feito) e omissão (não fazer aquilo que deve ser sido feito) dos pastores e dos cristãos que os fizeram cair na decadência espiritual.

  1. A CONDIÇÃO PARA A RESTAURAÇÃO (14.2-3)

Para que o relacionamento da nação de Israel com Deus fosse restaurado, era necessário haver uma mudança de vida sincera e radical. Sendo assim, Deus estabelece cinco exigências para a restauração:

a) O povo de Deus deve se arrepender e se converter (vs.2a)

O Deus que exige arrependimento do seu povo rebelde é também o mesmo que opera e o capacita para o arrependimento (2 Tm 2.25; At 5.31; 11.18). O homem irregenerado não tem a capacidade de se arrepender por si mesmo de seus pecados sem o convencimento interior do Espírito Santo (Jo 16.8).

O arrependimento significa mudar de mente, de sentimento e de direção. Envolve desejo, propósito e ação.5 A conversão é o resultado de que houve o arrependimento, que consiste em uma mudança interior e exterior atestada por uma nova conduta. Portanto, a nação de Israel deveria se arrepender de seus pecados, abandonando a idolatria e se voltar para Deus convertendo-se a Ele.

O arrependimento é definido por duas fases: A primeira acontece após a regeneração, quando a pessoa abandona a vida norteada pela prática do pecado e, crendo, se volta para Deus. A segunda é um processo contínuo que dura à vida inteira e aplica-se à santificação, que envolve uma mudança de vida diária caracterizada pela rejeição ao pecado.

APLICAÇÃO PRÁTICA

O verdadeiro arrependimento não é um mero pedido de perdão dissimulado, produzido por um remorso superficial e passageiro; é regado em lágrimas.  Consiste em palavras que desembocam em atitudes que confirmam que houve a mudança de vida e em uma profunda tristeza operada pelo próprio Deus (2 Co 7.10).

Hernandes Dias Lopes corrobora que a tristeza segundo Deus é a ferida que cura, é assepsia da alma, é a faxina da mente. É a tristeza que leva o homem a fugir do pecado para Deus, e não de Deus para o pecado. É a tristeza que leva o homem a abominar o pecado, e não apenas as consequências dele.6 Que Deus opere o sincero arrependimento em nós, para que todos os dias possamos abandonar os nossos pecados e nos voltar para Ele.

b) O povo de Deus deve confessar os seus pecados, pedir perdão e mudar de vida (vs.2b)

Para que houvesse a restauração, a nação de Israel não deveria apenas reconhecer os seus pecados, mas também confessá-los, rogando o perdão de Deus e, por conseguinte, mudar completamente de vida.

A expressão aceita o que é bom pode ser entendida como uma oração do povo para que Deus aceite a oferta de seus lábios que expressavam um coração sinceramente arrependido, sendo que o próprio Deus exigiu isto deles (6.6; Sl 51.17).

O perdão que Israel implora aqui e que foi negado por Deus anteriormente (1.6), agora é oferecido, uma vez que o seu juízo disciplinador sobre o seu povo que visava o arrependimento e a restauração fazia parte do seu Soberano propósito que foi cumprido.

APLICAÇÃO PRÁTICA

Assim como o povo de Israel no passado, não devemos simplesmente reconhecer os nossos pecados sem rogar o perdão de Deus e mudar de vida. Reconhecimento de pecados sem o genuíno arrependimento que culmina em transformação é apenas um obtuso remorso.

Ora, esta foi a diferença entre Pedro e Judas. Pedro reconheceu o seu pecado negando Jesus três vezes, no entanto se arrependeu e mudou de vida. Judas, por sua vez, apenas reconheceu o seu pecado, isto é, que havia traído Jesus, porém não se arrependeu e não mudou de vida, mas suicidou-se por remorso e culpa (Pv 28.13).

Que venhamos a reconhecer e nos arrepender dos nossos pecados. E todos os dias nos convertermos, nos voltarmos para o Senhor Jesus, porque ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça (1 Jo 1.9/Cl 3.5-10; Ef 4.17-24).

c) O povo deve abandonar a religiosidade falsa e superficial e adorar sinceramente a Deus (vs.2c)

A adoração que Israel oferecia a Deus, estabelecida pela lei de Moisés e também a Baal, o deus pagão da fertilidade, haviam se entrelaçado (2.5-13). O povo havia abandonado e se desviado do único e verdadeiro Deus, que é o único digno de toda a adoração, para unir-se a uma prostituta chamada religião sincrética, cometendo, assim, adultério espiritual (4.4-13; 5.1-4; 6.9-10).

Se a oferta dos lábios da nação de Israel é um tipo de confissão que emanava de um coração arrependido por conta do reconhecimento de pecados, contudo, este reconhecimento de pecados deveria resultar em um rompimento definitivo com a adoração sincrética para uma volta fervorosa a adoração ao Deus verdadeiro. A exigência feita por Deus eram palavras contritas e não sacrifícios vazios (Sl 51.17).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Deus não se impressiona com números de pessoas, com igrejas estruturadas nem com a exímia qualidade musical da “adoração” dirigida a Ele. Deus não se impressiona com o fervor de tais cerimônias, que, em sua maioria, provém de corações gélidos e apáticos para com Ele.

A igreja de Sardes, na ótica das pessoas, tinha a fama de que era uma igreja viva e fervorosa; talvez por causa de suas cerimônias. Mas, da ótica perscrutadora de Cristo, era uma igreja morta e que todas as suas fervorosas cerimônias eram superficiais porque advinham de corações hipócritas e cauterizados pelo pecado (Ap 3.1).

Deus requer da sua igreja adoração sincera, que consiste em uma vida piedosa e dedicada a Ele através da fome pela oração e pelo conhecimento. Fervor e adoração sem amor que não desemboca em obediência a Deus é um falso fervor que Ele não se agrada (Jo 14.15; 15.10). Que abandonemos a religiosidade falsa, superficial e hipócrita e venhamos adorar a Deus através de um estilo de vida sincero em sua presença.

d) O povo de Deus deve romper definitivamente com alianças mundanas (vs.3a)

Em vez de se voltar e confiar em Deus para salvar-se do fracasso político, como uma pomba enganada, Israel fez alianças estrangeiras com a Assíria e o Egito (5.13; 7.11; 8.9; 12.1). Foram através destas alianças que Israel se envolveu com a religião sincrética destes povos, cultuando os seus deuses pagãos e tornando-se dependentes dessas alianças políticas, em vez de depender de Deus.

A decadência espiritual de Israel culminou em decadência política. Não obstante, “depois de humilhar-se diante de Deus em arrependimento sincero, Israel reconhece que sua salvação não está nas mãos do grande império Assírio nem nas cavalarias do Egito (Dt 17.16).”7

APLICAÇÃO PRÁTICA

Quando o cristão se deparar com alguma adversidade da vida, ele não deve, se refugiar buscando apoio no sistema secular mundano afastado de Deus.

O pastor que prega e ensina o evangelho de Cristo na sua pureza e simplicidade, quando vê a sua igreja enfraquecendo com a perda de membros [débeis], os quais são atraídos pelo movimento das igrejas pragmáticas e sincréticas por não suportarem mais os cultos que só possuem em sua liturgia a oração, o louvor e a exposição das Escrituras, não deve buscar ajuda aderindo também ao pragmatismo para atrair pessoas à igreja. Pelo contrário, o pastor deve recorrer a Deus, continuando firme em suas convicções pautadas nas Escrituras e buscar direção do que fazer em tal situação, sabedoria, força e ânimo para continuar sendo fiel no seu trabalho para Deus.

O jovem cristão, por sua vez, não deve buscar relacionar-se amorosamente com pessoas não cristãs. O cristão, na tentativa de salvar o seu casamento desgastado pela monotonia e pelas constantes brigas e fadado ao divórcio, não deve recorrer aderindo aos meios pecaminosos oferecidos pela cultura da sexualidade moderna como a relação sexual envolvendo mais parceiros e a troca dos mesmos, que é algo que tem se tornado bastante comum e aceito por muitos atualmente.

Satanás também sugere através de seus dardos inflamados que, se o marido ou a esposa não se valorizam no casamento, ambos devem trair-se um ao outro, buscando encontrar alguém que os valorize.

Quando o casamento passa pelo vale da crise, tanto o marido como a esposa deve recorrer ao Deus Soberano, para que este restaure o casamento através do aconselhamento com o pastor e sua equipe capacitada para tratar de tais problemas pautados nas Escrituras. Que nunca venhamos deixar de depender de Deus para depender dos meios mundanos!

e) O povo de Deus deve abandonar a idolatria (vs.3b)

A nação de Israel havia se corrompido tanto moralmente quanto espiritualmente. O povo se desviou do Senhor para envolver-se com a religião cananeia da fertilidade que prestava culto a Baal (2.13; 3.1; 10.5-6; 13.2). Os rituais de adoração a Baal consistiam de orgias sexuais e bebedeiras (2.8; 4.10-11). Israel também cometeu a loucura de fabricar ídolos e prostar-se diante deles em adoração (4.12; 8.4-6; 13.2).

Em virtude da idolatria, Deus castigou Israel através de seus inimigos, que os assolaram severamente (2 Rs 20.16-18). A idolatria do povo resultou no cativeiro assírio (2 Rs 17.7-21; 18.12) e, por conseguinte, no cativeiro babilônico (2 Rs 24 10-16; 25.11-12; Jr 25.11-14; 29.10), que foram os meios utilizados por Deus para purificar Israel de seus pecados, regenerá-los e restaurá-los (Ez 36/37; 1.10-11; 2.1, 21-23).

APLICAÇÃO PRÁTICA

A Idolatria pode ser definida em dois aspectos:

i. Idolatria não é somente quando uma pessoa se ajoelha diante de uma imagem de escultura e direciona suas orações ao “deus” [ou mediador] representado por ela; nem tampouco é prestar um culto de adoração a um deus específico através de certos rituais. Idolatria também é tudo aquilo que toma o lugar de proeminência que pertence ao Deus verdadeiro em nossa vida.

Quando colocamos pessoas como o marido, a esposa, filhos, os amigos, objetos, como casa, carro, aparelhos eletrônicos, livros, o trabalho e a faculdade como prioridade em nossa vida, dando mais valor a esses em detrimento de Deus, tais coisas se tornam um ídolo para nós.

O apego exacerbado às pessoas, objetos, ao trabalho e a faculdade é um tipo de idolatria, pois roubam de Deus o tempo, amor e dedicação que deveríamos prestar a Ele em primeiro lugar do que a tais coisas que ficam em segundo lugar em nossa vida.

ii. Idolatria, segundo John Macarthur, é também pensar qualquer coisa sobre Deus que não seja verdadeira ou tentar transformá-lo em algo que Ele não seja.8 Por conta do evangelho sincrético que norteia a igreja evangélica contemporânea, a grande maioria dos cristãos que fazem parte do rol de membros destas “igrejas” possuem um entendimento equivocada e distorcido de quem é Deus.

Tais cristãos imaginam, pelo falso evangelho ensinado a eles, um Deus que morreu por todos, incluindo aqueles que nunca hão de ser regenerados e salvos. Um Deus que é somente amor e que não corrige os seus filhos quando estes pecam contra Ele. Um Deus que não condena direta ou indiretamente réprobos ao lago de fogo. Um Deus que é obrigado a abençoar os seus filhos sempre que estes determinam ou profetizam as bênçãos sobre as suas vidas. Na verdade, tais cristãos creem em um deus que não é o Deus apresentado pelas Escrituras; simplesmente creem em um deus formulado no laboratório do sincretismo e imaginado pela mente pessoal de cada um: um “deus” genérico, bonachão e que não existe!

  1. A PROMESSA DE RESTAURAÇÃO (14.4-5a)

Depois de apresentar a necessidade e as condições de Deus para que houvesse a restauração do povo de Israel (vs.1-3), o profeta Oseias salienta agora a promessa de restauração. Vejamos, pois, os três atos de Deus na restauração:

a) Deus curará a infidelidade do seu povo (vs.4a)

Apesar de Deus ter exigido de Israel o cumprimento das condições estabelecidas por Ele para que houvesse a restauração (vs.2-3), todavia, vemos aqui que o povo não tinha condições de se auto curar da sua doença chamada infidelidade ou apostasia.

A obstinação de Israel necessitava de cura, e a cura fingida que o povo buscou, a Assíria foi incapaz de realizar (5.13; 6.1). Contudo, o Senhor desejou outorgar a cura (7.1), porém Israel resistiu ser curado, uma vez que esta resistência fazia parte dos propósitos Soberanos de Deus (11.3).

Desta vez, a cura de Israel é prometida e executada. O povo não seria curado apenas das feridas do juízo disciplinador de Deus, mas, também, da causa desse juízo que os havia levado cativos: a infidelidade. Deus, por intermédio do seu Espírito, deu um novo coração a Israel. O povo nasceu de novo (Ez 36.25-28).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Derek Kidner afirma que a nossa própria obstinação é incurável até que Deus a cure.9 Se somos filhos de Deus e estamos sendo infiéis a Ele, indubitavelmente seremos disciplinados para que haja o arrependimento e a cura da nossa infidelidade (Hb 12.6). É no processo da disciplina que a cura acontece. Se não há disciplina não há cura; e se não há cura não há restauração e transformação de vida.

b) O amor de Deus para com o seu povo é incondicional (vs.4b)

Após manifestar sua ira através do seu juízo disciplinador e no abandono expresso nas palavras – já não os amarei – descritos no (9.15), agora, o amor e a misericórdia de Deus substituem a sua ira e são derramados novamente sobre Israel.

APLICAÇÃO PRÁTICA

Hernandes Dias Lopes escreve:

Deus ama o seu povo não por causa dos seus méritos, mas apesar dos seus deméritos. A causa do amor de Deus está nele mesmo, e não no objeto amado. Deus ama o seu povo incondicionalmente. Em vez de destruir o seu povo por causa da sua ira, Deus se aparta e lhe concede misericórdia.10

c) Deus é quem restaura o seu povo (vs.5a)

Quando o orvalho de Deus foi privado de Israel pela ausência do seu amor e de sua misericórdia, o povo se tornou seco e estéril. Eles cessaram de produzir frutos que glorificassem a Deus. A figura do orvalho extraída da natureza, que antes aparece em (6.4), se refere ao curto período da suposta conversão de Israel que se revelou numa falsa conversão.

O capítulo 13.3 mostra a transição e a destruição do Reino do Norte pela invasão da Assíria. Aqui, por sua vez, o destilar do poder que advém de Deus, o qual revigora, nutre e capacita o seu povo a produzir frutos que o glorifiquem. Portanto, a figura do orvalho aqui demonstra o triplo resultado do poder restaurador de Deus sobre Israel, que também pode ser aplicado a Igreja contemporânea.

APLICAÇÃO PRÁTICA

i. O orvalho desce do céu. Ele emana do céu e destila sobre a terra seca e árida. O orvalho de Deus, que chuvisca sobre o seu povo, dissipa a sequidão espiritual e cura a sua esterilidade. Ele revigora o espírito e nos mantém ativos, firmes e constantes na presença e na obra de Deus.

ii. O orvalho desce sereno. Ele não vem após os trovões e relâmpagos; antes, o orvalho cai tranquilamente, renovando as plantas outrora murchas que recebem o seu frescor. Semelhante ao orvalho, a presença de Deus, quando está sobre a vida do seu povo, renova e refrigera a alma abatida pelas adversidades da vida.

iii. O orvalho desce à noite. Quando estamos em meio às noites escuras da vida, onde as tribulações nos assaltam e as forças diminuem, o orvalho de Deus nos fortalece e vivifica.

  1. AS BENÇÃOS PROVENIENTES DA RESTAURAÇÃO (14.5b-7)

Oseias apresenta cinco bênçãos decorrentes da restauração sobre a nação de Israel. Senão vejamos:

a) O povo de Deus cresce espiritualmente (vs.5b)

O lírio é uma planta muito produtiva. É dito que apenas uma raiz desta planta pode produzir até cinquenta novas plantas. Ademais, o lírio também tem a capacidade de florescer de forma magnífica, mesmo em um lugar inapropriado ou contaminado ao seu redor.

APLICAÇÃO PRÁTICA

O povo de Deus, quando molhado pelo orvalho de sua presença, floresce e desabrocha como o lírio. Isso representa crescimento espiritual.

Embora o lírio floresça em lugares inapropriados e até contaminados, todavia, isso se aplica no fato de que o ambiente no qual vivemos, por mais contaminado que seja, como no caso da nossa convivência com pessoas não cristãs no trabalho, na faculdade e na vizinhança, não deve nos influenciar. Pelo contrário, nós, como cristãos, é quem devemos influenciar tais ambientes, sendo luz em vez de apagarmos a luz de Cristo em nós (Mt 5.16).

 b) O povo de Deus se torna estável e inabalável (vs.5c)

O cedro do Líbano “é uma árvore conífera de grande porte, que antigamente era abundante no Líbano, mas atualmente é rara e protegida pelo governo. A sua madeira é altamente procurada devido à sua durabilidade. Foi usada na construção da casa de Davi (2 Sm 5. 11), bem como do templo de Salomão (1Rs 5.6-10), e também do novo templo após o exílio babilônico (Ed. 3.7). Essa árvore pode atingir uma altura de até 37 metros; e, metaforicamente, no Antigo Testamento, era usada para aludir à estatura de um homem (Ez 31.3; Am 2.9)”.11

APLICAÇÃO PRÁTICA

Os cedros do Líbanos eram famosos por sua firmeza e estabilidade. Desse modo, a restauração de Deus para o seu povo proporciona firmeza e estabilidade em meio às intempéries da vida, não deixando com que o cristão esmoreça.

c) O povo de Deus passa a refletir o brilho da sua presença (vs.6a)

A oliveira é uma árvore que tem a capacidade de renovar-se constantemente. Ela emerge da morte com grande esplendor. No jardim do Getsêmani, há oliveiras com mais de dois mil anos. Essas oliveiras são contemporâneas de Jesus. Do tronco que parece estar morto, ressurgem novos ramos, e ela se renova cheia de esplendor.12

APLICAÇÃO PRÁTICA

O esplendor da oliveira reflete a beleza da presença de Deus na vida do seu povo, que converge numa vida espiritual maiúscula e que se renova em glória a cada dia.

d) O povo de Deus passa a influenciar os outros ao seu redor (vs.6b)

O Líbano era uma região montanhosa que ficava localizado atrás da cidade de Sidom. Era um lugar repleto de densas florestas que o tornaram famoso. As melhores madeiras procediam dali. São “as árvores coníferas e as plantas aromáticas que fornecem a fragância do Líbano”13 (Ct 4.11).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Quando Deus restaura o seu povo, dele também procede o bom perfume de Cristo14 (2 Cor 2.15-16). Este perfume que exala do cristão tem um poder influenciador quando é percebido tanto pelos não cristãos como pelos cristãos. A fragância de Cristo, pregada através do evangelho e do testemunho de vida, influencia qualquer ambiente. O mesmo evangelho que alcança e salva, é também o evangelho que condena os que o rejeitam.

e) O povo de Deus passa a ser um instrumento de restauração para os outros (vs.7)

As expressões vivificados florescerão e fama revelam que a benção da restauração proporciona em Israel crescimento, vigor e satisfação em Deus. Embora tais promessas sintetizam a prosperidade da nação de Israel, contudo, estes símbolos também denotam bençãos espirituais. O Israel restaurado por Deus seria, agora, um instrumento de restauração para outros povos. Calvino escreve:

(…) Depois que os israelitas começassem outra vez a prosperar, a sombra deles seria vivificante, de tal forma que restauraria e refrigeraria aqueles que se deitassem debaixo dele. Ele chama de “os que se assentam de novo à sua sombra” todos aqueles que pertencem ao povo, comparando o estado ordinário do povo de Israel a uma árvore cheia de folhas que estende seus ramos em todas as direções, de modo que os que fogem para debaixo de sua sombra ficam resguardados do calor do sol.14

APLICAÇÃO PRÁTICA

Ao invés de ser um povo que só é conhecido pelos seus escândalos morais, corrupções, exageros e hipocrisia, a igreja, quando restaurada por Deus, se torna um instrumento de bênçãos tanto para outros cristãos de outras igrejas como para pessoas que não são cristãs.

  1. UMA SOLENE EXORTAÇÃO DE DEUS AO SEU POVO (14.8)

Prestes a concluir sua mensagem, Deus, através do profeta Oseias, elenca uma exortação final a Israel em um tipo de resumo de tudo o que Ele já disse, baseado em quatro pontos.

 a) O confronto de Deus com o seu povo (vs.8a)

Derek Kidner acentua que agora, é como se Deus quisesse persuadir o ouvinte pela última vez, pois as palavras de arrependimento dos (vs.2-3) e a bela perspectiva dos (vs.4-7) fazem parte de um convite (vs.1-2a) que ainda tem de ser aceito e apropriado por Israel.15

 APLICAÇÃO PRÁTICA

Ora, é impossível adorar os ídolos e ao mesmo tempo adorar a Deus. É impossível um cristão priorizar ao mesmo tempo Deus e o casamento, filhos, objetos, trabalho e faculdade. Ou a prioridade reside em Deus ou nas pessoas.

É impossível também coadunar o verdadeiro evangelho com o falso evangelho. Conforme vimos, a adoração baseada em uma vida cristã que não é direcionada e pautada no Deus verdadeiro e em seus princípios declarados pelas Escrituras, é idolatria, uma vez que Deus não recebe a adoração e o serviço cristão equivocado.

 Com efeito, é impossível alguém que conheceu o verdadeiro evangelho continuar adorando e servindo a Deus em uma denominação evangélica que ensina e propaga um evangelho híbrido e sincrético. A volta para Deus passa pelo rompimento com a idolatria.

 b) Os ouvidos de Deus estão inclinados ao seu povo (vs.8b)

Deus quer que Israel entenda definitivamente que os ídolos são inúteis. Eles não podem ajudá-los em meio às adversidades. Eles tem boca, mas não falam; têm olhos mas não vêem; tem ouvidos, mas não ouvem; tem nariz, mas não cheiram; tem mãos, mas não apalpam, têm pés, mas não andam; nem som algum lhes sai da garganta (Sl 115.5-7). Deus, entretanto, fala pela sua Palavra, conhece a aflição do seu povo, ouve o seu clamor (Sl 50.15) e se relaciona com ele.

 c) O cuidado de Deus para com o seu povo (vs.8c)

Quando se desviou de Deus, fazendo alianças com as nações pagãs e adorando os seus deuses, Israel colheu os frutos amargos dessa escolha: uma vida decadente em todas as áreas. Contudo, quando Israel retornou para Deus em sincero arrependimento, voltou a receber o cuidado, a bondade, a misericórdia e a providência de Deus.

 APLICAÇÃO PRÁTICA

Deus verdadeiramente cuida do seu povo. Ele, como um pai, protege, sustenta e provê na vida dos seus filhos. Deus não desampara os seus!

 d) A benção de Deus está sobre o seu povo (vs.8d)

Deus é a árvore cipreste e Israel os seus ramos. A seiva que faz Israel frutificar vem dele. Israel só produz frutos se estiver ligado ao cipreste, que é o próprio Deus.

 APLICAÇÃO PRÁTICA

Assim como Israel, só frutificaremos se estivermos ligados em Deus por meio de Cristo (Jo 15.5). Daí, somos como José, um ramo furtífero junto à fonte (Gn 49.22) e como árvore plantada junto às correntes das águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto (Sl 1.3; Jr 17.8).

 

CONCLUSÃO

Deus transmitiu sua mensagem ao seu povo por intermédio do profeta Oseias. Assim como Israel, não podemos ficar passivos diante do que Deus ordena para nós fazermos pelas Escrituras. Deus, portanto, conclui a profecia com as palavras do (vs.9), que diz: Quem é sábio, que entenda estas coisas; quem é prudente, que as saiba, porque os caminhos do Senhor são retos, e os justos andarão neles, mas os transgressores neles cairão.

Diante disso, percebemos que existem somente duas classes de pessoas:

i. O sábio e o prudente. Estes são os que ouvem e obedecem o que Deus requer pelas Escrituras. São aqueles que edificam a sua casa sobre a rocha, não sendo apenas meros ouvintes da Palavra de Deus, mas, sobretudo, praticantes (Mt 7.24-25).

ii. Os transgressores. Estes, por sua vez, são aqueles que ouvem a palavra de Deus, porém não observam as Escrituras. São aqueles que edificam a sua casa sobre a areia. Estes são os que apenas ouvem a Palavra de Deus e não a praticam (Mt 7.26-27).

Charles Feinberg ressalta com nitidez:

Toda profecia é dada visando a induzir um caminho piedoso em conformidade com a vontade de Deus. Esse caminhar piedoso nem sempre acontece, porque o mesmo sol que derrete a cera, endurece o barro. Que benção é ter o coração submisso para aprender os caminhos do Senhor, depois andar neles com diligência para a nossa benção e para benção de incontáveis outros! O transgressor, que não encontra prazer nos caminhos do Senhor, verificará que o propósito de Deus o condenará na hora do juízo.17

Apesar de Oseias não ter visto o cumprimento final de sua profecia, que está caminhando pela história para este cumprimento, todavia, pela fé, ele sabia que a restauração da nação de Israel aconteceria e acontecerá no futuro, na consumação da salvação, que se dará na eternidade, onde reinaremos para sempre com Cristo Jesus.

 

 

NOTAS:

  1. Hernandes Dias Lopes. Oseias, pág 11.
  2. David Hubbard. Oseias, pág 25.
  3. Myer Pearlman. Através da Bíblia, pág 143.
  4. Charles Feinberg. Os profetas menores, pág 65.
  5. Hernandes Dias Lopes. Oseias, pág 248.
  6. Ibid. 2 Coríntios, pág 180.
  7. Ibid. Oseias, pág 249.
  8. John MacArthur. Deus, face a face com sua Majestade, pág 8.
  9. Derek Kidner. Oseias, pág 112.
  10. Hernandes Dias Lopes. Oseias, pág 251.
  11. Russel Norman Champlin. Enciclopédia de Teologia e filosofia, vol 1, pág 689.
  12. Hernandes Dias Lopes. Oseias, pág 254.
  13. A.R. Crabtree. O livro de Oseias, pág 205.
  14. Hernandes Dias Lopes. Oseias, pág 254.
  15. Calvino. Oseias, pág 327.
  16. Derek Kidner. Oseias, pág 113.
  17. Charles Feinberg. Os profetas menores, pág 66.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.