Exegese de Hebreus 6.4-6 (1/3)

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Ao estudar as palavras deste texto, devemos observar o contexto, as pessoas a quem o texto se refere, e o que se pretendia com essas palavras.

O contexto

Uma das primeiras palavras do texto é “pois” [“assim”, NTLH; “portanto”, NVI], a qual nos manda olhar atrás e ver o motivo pelo qual essas palavras foram escritas. Logo antes temos as palavras: “se Deus permitir”. Mais à frente, no v. 9, os crentes são descritos como sendo aqueles de quem o autor confiava ver coisas melhores, coisas que acompanham a salvação, o que sugere que este texto (v. 4-6) não se refere a crentes. Não obstante, ele os adverte dessa maneira para que não se tornem assim. Acusa-os de serem preguiçosos e negligentes. Em vez de crescerem e progredirem no conhecimento de sua fé e práticas cristãs, eles estavam parados, quando não retrocedendo. Então, ele os avisa do perigo que enfrentam se não se arrependerem de seu comportamento atual. Não crescer no conhecimento do evangelho e na obediência às obrigações compreendidas é estar em perigo de retroceder àquela posição de descrença e ignorância da qual haviam sido resgatados e é rejeitar o evangelho completamente. Para adverti-los, o autor lhes dá uma descrição do estado infeliz e miserável daqueles que pareciam ter começado bem quando reconheceram publicamente sua aceitação do evangelho, e que depois, por ociosidade e negligência, escorregaram e recaíram na velha situação e nas antigas práticas, para então terminarem na apostasia. Podemos ver, destarte, como são úteis os avisos sérios e severos na pregação do evangelho.

As pessoas descritas

Eram pessoas que tiveram, por meio do evangelho, grandes privilégios e vantagens. Tendo estes sido menosprezados e negligenciados, aquelas pessoas encontravam-se em grande perigo de apostasia da qual nunca se poderiam recuperar (Hb 2.3).

Os privilégios que essas pessoas tinham eram quanto às obras especiais do Espírito Santo, obras específicas para a época do evangelho. Não poderiam ter sido feitas participantes delas sob a lei, no judaísmo. Então, nesse sentido, o Espírito não era recebido por “obras da lei, mas pelo ouvir a pregação da fé” (Gl 3.2). Esses privilégios testificavam que essas pessoas haviam sido libertas da servidão da lei por uma participação naquele Espírito que era o grande privilégio do evangelho.

Não há referência clara de qualquer pacto da graça ou da misericórdia sobre elas ou para elas, nem de que tivessem executado qualquer dever da fé ou obediência. Não são declaradas justificadas, santificadas nem adotadas como filhos de Deus. Mais tarde, quando o escritor desta epístola declara que espera e está mesmo persuadido de que seus leitores não faziam parte daquelas pessoas a respeito de quem ele havia descrito, nem eram dos tais que cairiam na perdição, ele faz isso com base em três fundamentos:

(1) Crentes verdadeiros possuem características que sempre acompanham a salvação. São coisas inseparáveis da salvação. Por­tanto, nenhum dos elementos neste texto é inseparável da salvação; caso contrário, seu argumento de que o estado em que se encontravam era seguro não poderia ser mantido.

(2) Crentes verdadeiros são conhecidos por sua obediência e pelos frutos da fé em suas vidas. Este era “seu trabalho e amor evidenciado para com o nome de Deus” (Hb 6.10). Com isso, nosso escritor os declara diferentes daqueles que já descreveu, que estavam em perigo de perecer eternamente. Mas ninguém que tenha estes frutos – fé salvadora e amor sincero – pode perecer.

(3) Crentes verdadeiros vivem sob os cuidados e a fidelidade de Deus, que prometeu preservá-los eternamente. “Deus não é injusto para que se esqueça.” Mas Deus só prometeu guardar de perecer eternamente aqueles que estão no pacto da graça, e nada disso é suposto com respeito às pessoas descritas no texto. Absolutamente não são descritas como sendo aquelas que Deus prometeu fielmente conservar em segurança para a eternidade; antes, muito pelo contrário. Assim, toda essa descrição fala de alguns privilégios do evangelho dos quais os que afirmam aceitar o evangelho foram participantes, quer tenham  verdadeiramente  crido ou não.

Os privilégios que não acompanharam a salvação

O primeiro privilégio é “iluminação” (v. 4). Eles haviam sido “uma vez iluminados”. A tradução siríaca diz “uma vez batizados”. É certo que na igreja primitiva o batismo era chamado de “iluminação”, e “iluminar” era empregado com o sentido “batizar”. As­sim, as ocasiões de se batizar novos convertidos eram chamadas de “dias de luz”. O intérprete siríaco deve ter tido isso em mente, e a expressão “uma vez” sugere que tem sentido essa interpretação.

O batismo seria celebrado uma única vez segundo a fé da igreja de todos os tempos. E chamavam o batismo de “iluminação” porque, sendo uma ordenança de iniciação, introduzia o novo convertido ao privilégio de compartilhar os mistérios da igreja. Pelo batismo, portanto, os convertidos eram retirados do reino das trevas para o reino da luz e graça. Isso parece acrescentar apoio à visão de que o sentido pretendido no texto é mesmo o batismo, porque o batismo também é realmente o início e a base para se tomar parte em todos os outros privilégios espirituais mencionados. Era comum naqueles dias que, ao serem batizadas as pessoas, caía sobre elas o Espírito Santo, dotando-as com dons espirituais extraordinários que pertenceram de modo especial aos dias dos apóstolos.

Esta interpretação tem tanto para apoiá-la, que eu me sentiria tentado a aceitá-la de bom grado, se não exigisse a palavra “iluminado” outra interpretação. Foi bem mais tarde, pelo menos um ou dois períodos ou mais depois de ter sido redigida essa epístola e as demais partes do Novo Testamento, que essa palavra passou a ser usada em sentido místico com a significação de batismo. Mas em toda a Escritura ela tem um outro sentido, que denota a obra interior do Espírito e não a administração exterior de uma ordenança. Aceitar uma palavra de uma forma especial, diferente de seu uso em todas as outras partes da Bíblia, a não ser que o texto nos force a isso, o que esse texto não faz, é presunçoso. E quanto à expressão “uma vez“, ela não se refere apenas a “ilumina­do”, e sim, igualmente a todos os outros privilégios nomeados nesse texto. “Uma vez” não significa senão que as pessoas descritas foram real e verdadeiramente participantes desses privilégios e bênçãos.

Ser “iluminado” é ser instruído no evangelho. A palavra hebraica “ensinar” é frequentemente traduzida pelos gregos como “iluminado” (versículos como Êx 4.12; Sl 119.33; Pv 4.4; Is 27.11). “Ensinar” em hebraico é traduzido na Septuaginta (o Antigo Testamento grego) como “iluminado” (Jz 13.8; 2 Rs 12.2; 17.27). Paulo emprega a mesma palavra grega nesse sentido em 1Co 4.5: “o Senhor… trará à plena luz as coisas ocultas das trevas”; em 2 Tm 1.10: “o qual… trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho”; também em Jo 1.9: “a saber, a verdadeira luz; que vinda ao mundo, ilumina a todo homem”. Cristo “ilumina” ensinando.

Paulo diz: “Porque Deus, que disse: “Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (2 Co 4.6).

A iluminação do conhecimento” significa ser instruído na doutrina do evangelho para que se tenha a posse espiritual dela. E há duas coisas que o evangelho exige que entendamos e captemos espiritualmente.

O evangelho exige que compreendamos e façamos espiritualmente as coisas que ele nos traz pela sua luz, ou em outras palavras, pelo conhecimento que ele nos dá. O evangelho nos traz “vida e imortalidade” (2 Tm 1.10). Pelo evangelho somos chamados “das trevas para sua maravilhosa luz” (1 Pe 2.9). O mundo sem o evangelho é o reino de Satanás (1jo 5.19). O mundo inteiro e tudo que nele pertence está sob o poder do maligno, o príncipe do poder das trevas, e está, portanto, cheio de trevas. O mundo é um “lugar tenebroso” (2 Pe 1.19). No mundo habitam e reinam a ignorância, a tolice, os erros e a superstição. Pelo poder dinâmico dessas trevas, as pessoas ficam impedidas de achar Deus e não sabem para onde estão indo. Isso é chamado de “andar nas trevas” (1Jo 1.6). E o oposto de “andar nas trevas” é “andar na luz” (1Jo 1.7). Portanto, isso só quer dizer “andar no conhecimento de Deus em Cristo pelo evangelho”. Assim, essa instrução no conhecimento do evangelho tem o nome de “iluminação”, porque já é luz em si.

Ora, para entender e dominar essas verdades espirituais do evangelho, a própria mente precisa ser “iluminada”. O conhecimento do evangelho expulsa essa escuridão, ignorância e confusão que enche a mente natural ou carnal. O conhecimento das doutrinas do evangelho com respeito à pessoa de Cristo, de Deus estar em Cristo reconciliando consigo o mundo, dos ofícios, da obra e da mediação de Cristo, juntamente com as outras doutrinas principais da revelação divina, acende uma luz espiritual na mente dos homens, capacitando-os a captar e compreender o que antes lhes estava inteiramente oculto, quando estavam alienados da vida de Deus pela sua ignorância (Ef 4.18). Dessa luz e desse conhecimento há vários graus, dependendo de como são ensinados, da capacidade que têm de receber o que é ensinado, e do esforço com que se dispõem a aprender e lembrar o que lhes foi ensinado. Mas só pelas doutrinas do evangelho a mente pode ser iluminada e livrada das trevas e da ignorância (2 Pe 1.19-21).

Esse é o primeiro privilégio que tiveram as pessoas do nosso tex­to em Hebreus 6.4-6. São aquelas que foram iluminadas pela ins­trução que receberam nas doutrinas do evangelho e pelo resultado dessa instrução, o qual foi impresso na mente delas pelo Espírito Santo. É uma obra realizada igualmente em crentes e não-crentes.

Aprendemos assim três grandes verdades:

  • É uma grande misericórdia, um grande privilégio ser iluminado com a doutrina do evangelho e ter suas verdades impressas na nossa mente pela operação interior do Espírito Santo.
  • Pode-se perder essa grande graça e esse grande privilégio pelo pecado da negligência, o que servirei apenas para aumentar a pecaminosidade e condenação daqueles que um dia foram feitos participantes desse privilégio.
  • Onde houver uma negligência total desse grande privilégio, sem nenhuma tentativa de crescer no conhecimento do evangelho, a condição de tais pessoas é muito perigosa e poderá até levar à apostasia final, da qual descobrirão ser impossível arrepender-se.

Para que possamos fazer um auto-exame para ver se somos um daqueles que esse texto descreve, precisamos descobrir quais são esses privilégios que não acompanham a salvação.

(1) O primeiro privilégio é a “iluminação espiritual” (Hb 6.4a)

Há um conhecimento de coisas espirituais que é puramente natural e disciplinar e ao qual se pode chegar sem qualquer ajuda especial ou operação do Espírito Santo. Com esforço e estudo, pode-se ter um conhecimento da Escritura assim como acontece com qualquer outra arte ou ciência.

A “iluminação” aqui referida, sendo dom do Espírito Santo, é diferente e é mais exaltada do que o conhecimento natural, porque esta iluminação leva a pessoa que é assim iluminada para mais perto das coisas espirituais na natureza delas, o que jamais poderia acontecer com o conhecimento natural. A luz natural julga loucura as coisas do Espírito (1 Co 2.14). Mas a iluminação espiritual dá à mente alguma satisfação, um deleite e uma alegria nas bênçãos espirituais que ela lhe revela. Embora o evangelho possa não ser completamente entendido, essa iluminação o revela como sendo um “caminho de justiça” (2 Pe 2.21). Isso estimula a mente a levar a sério o evangelho.

O conhecimento natural tem pouco ou nenhum poder sobre a alma: não consegue evitar que ela peque nem a torna capaz de obedecer. Confiados nesse conhecimento natural, muitos pecadores ficam tranquilos, crendo que nunca perecerão. Mas a iluminação espiritual opera efetivamente na consciência e na alma, capacitando-a a se abster do pecado e a desempenhar todas as obrigações reconhecidas. Portanto, as pessoas que estão sob o poder dessa iluminação e de suas convicções muitas vezes caminham irrepreensíveis e retas no mundo e, assim, evitam que surja desprezo pelo Cristianismo por parte do mundo. Essa iluminação espiritual também se faz acompanhar de alguns dons espirituais (Mt 7.22). Mas a luz e o conhecimento natural existem desvinculados, sem se fazer acompanhar de dons espirituais.

A iluminação espiritual não é aquela luz e aquele conheci­mento que leva a alma à salvação e a uma vida de santidade, mas é o primeiro passo em direção a isso. A iluminação espiritual pode oferecer à mente um vislumbre da beleza, da glória e da excelência de coisas espirituais, contudo não proporciona aquele entendi­mento iluminado ao qual é impossível chegar pela razão, mas que só se obtém pela graça (2 Co 3.18; 4.6). Também não é que esta iluminação espiritual mude ou transforme a alma na imagem de Cristo, comunicando à vontade e ao coração da pessoa algo da natureza de Cristo como acontece com a luz salvadora, com o conhecimento salvador (2 Co 3.18; Rm 6.17; 12.2).

(2) O segundo privilégio espiritual mencionado é que eles “provaram o dom celestial” (Hb 6.4b)

Perguntamos, então, a que esse dom celestial se refere e o que significa “provar” esse dom.

O “dom de Deus“, por vezes, significa o ato de doar. “Graças a Deus pelo seu dom inefável” (1 Co 9.15). Essa dádiva foi Deus ter dado aos coríntios um espírito liberto, caridoso, generoso no ministrar aos santos carentes. É chamado isso de “dom de Deus”: “segundo a proporção do dom de Cristo” (Ef 4.7), isto é, segundo Deus se agrada conceder os frutos do Espírito aos homens (Rm 5.15-17; Ef 3.7; 1 Co 12.11).

Algumas vezes o dom de Deus significa a coisa dada ( Tiago 1.17). “Se conheceras o dom de Deus” (Jo 4.10), isto é, a coisa dada por Deus, ou a ser dada por Deus. Há quem julgue que as palavras se referem a Cristo como sendo essa dádiva, mas o contexto torna claro que a referência é ao Espírito Santo, porque ele é aquela “água viva” que o Senhor Jesus prometeu dar.

E até onde vejo, o “dom”, significando “aquilo que Deus dá”, é sempre usado para se referir ao Espírito Santo. Se isso é verdade, o “dom” de Atos 2.38 (“Recebereis o dom do Espírito Santo”) não significa aquilo que o Espírito Santo dá, e sim o próprio Espírito Santo. O Espírito Santo é dado no poder de suas obras miraculosas (Atos 10.45; 11.17). O Espírito Santo, portanto, é a grande dádiva sob o Novo Testamento.

Diz-se do Espírito Santo que ele é “celestial” porque vem do céu. Talvez isso se refira apenas à sua obra e ao seu poder porque são celestes em contraste com o terreno e carnal. Mas acima de tudo refere-se a ele ser enviado por Cristo depois de Cristo ter ascendido ao céu e ter sido exaltado à destra de Deus (At 2.33).

A promessa do Espírito Santo foi que ele seria enviado do céu ou “do alto”, visto que se diz que Deus está “em cima”, o que quer dizer o mesmo que “no céu” (Dt 4.39; 2 Cr 6.23; ]ó 31.28; Is 32.15; 24.18). Quando o Espírito Santo veio sobre o Senhor Jesus Cristo para ungi-lo para sua obra, “se lhe abriram os céus” e ele veio do alto (Mt 3.16). No Pentecostes, o Espírito Santo veio sobre os apóstolos como “um som vindo do céu”. Então se disse que foi “enviado do céu” (1 Pe 1.12). Portanto, embora o Espírito Santo possa por outros motivos ser chamado de “celeste”, razões que absolutamente não estão excluídas do sentido do termo “dom celestial”, o “dom celestial” significa principalmente o fato do Espírito Santo ter sido mandado do céu por Cristo após sua ascensão ao céu e sua exaltação no céu.

Destarte, o Espírito Santo é o “dom celestial” mencionado nesse texto.

O que milita contra essa interpretação é que o Espírito Santo é mencionado claramente logo em seguida. Então por que seria ele mencionado duas vezes no mesmo versículo (Hb 6.4)?

Em resposta, eu diria que é natural mencionar a mesma coisa duas vezes, com palavras diferentes, para ênfase. E isso se torna especialmente necessário quando há aspectos diferentes da mesma coisa, como acontece aqui.

O privilégio (“se tornaram participantes do Espírito Santo“) pode ser explanatório do “dom celestial“. É algo que costuma acontecer na Bíblia e, portanto, não há motivo para negar uma interpretação tão adequada a esse ponto e cujo uso constante da palavra confirma, apenas porque a mesma coisa parece ser mencionada duas vezes.

No entanto, o Espírito Santo aqui é mencionado como sendo a grande dádiva dos tempos do evangelho, como descendo do céu, não para que não esteja mais no céu, mas porque ele tem uma obra especial para realizar na terra. E esta obra do Espírito Santo era mudar toda a instituição do culto religioso na igreja de Deus. Assim, no privilégio seguinte, fala-se dele com respeito a suas obras externas. Mas ele era o dom celestial prometido para ser dado sob o Novo Testamento, pelo qual Deus instituiria e ordenaria um novo rumo com novos ritos de culto. Ao Espírito Santo foi confiada a reforma da igreja, cuja hora havia agora chegado (Hb 9.10). O Senhor Jesus Cristo, quando subiu ao céu, deixou o culto veterotestamentário como tinha sido desde os dias de Moisés, ainda que o tivesse torna­do praticamente supérfluo. E ele mandou que seus discípulos não tentassem nenhuma alteração até que o Espírito Santo fosse enviado do céu (At 1.4, 5). Por isso, quando ele chega como grande dádiva de Deus, prometido para os tempos neotestamentários, ele remove todo o velho culto mosaico. Faz isso ao revelar que havia chegado tudo que o culto mosaico significava e para o qual apontava. Agora, o Espírito Santo estabelece o novo culto santo do evangelho, que deveria substituir o antigo culto do templo.

O Espírito de Deus, portanto, dado especificamente para introduzir um novo estado de verdade e culto, é o “dom celestial” mencionado. Assim, os hebreus são avisados de que não devem “recusar ao que fala dos céus” (Hb 12.25). Aquele que fala do céu é Jesus Cristo, falando agora nos tempos evangélicos por meio do “Espírito Santo enviado do céu”.

Chegamos agora à interpretação do que é “provar esse dom celestial”: A expressão “provar” é uma metáfora que não significa nada mais que testar ou experimentar alguma coisa. É “experimentar” algo. É o que acontece quando provamos comida. Provamos antes de decidir se vamos ou não comê-la. Provar, portanto, não inclui engolir e digerir. Quando provamos algo de que não gostamos, nós o cuspimos e recusamos comer ou beber aquilo. Na cruz, Cristo provou o vinho amargo, e “provando-o, não o quis beber” (Mt 27.34).

Em algumas passagens da Escritura, “provar” parece mesmo incluir o comer. Davi fez um juramento, dizendo: ”Assim me faça Deus… se eu provar pão antes do sol posto” (2 Sm 3.35). Mas o sentido ali é “Não provarei pão, muito menos o comerei, antes que o sol se ponha. Então, sob seu juramento, era impossível Davi comer naquela hora. E quando Jônatas disse que só provou o mel (1 Sm 14.29), ele estava se desculpando e querendo fazer parecer que não tinha realmente comido o mel e, portanto, agido contra a ordem de Saul.

Mas esse termo é usado, indiscutivelmente, para descrever alguém que está experimentando algo. A mulher virtuosa “prova e vê que sua mercadoria é boa” (Pv 31.18 – versão revista e corrigida). Em outras palavras, ela testou sua mercadoria e descobriu que era boa. Então, essas pessoas de nosso texto são as que provaram o trabalho do Espírito Santo e verificaram que era bom.

“Provar” muitas vezes é usado no sentido de “experimentar” algo: “Oh! Provai e vede que o Senhor é bom” (Sl 34.8). Pedro diz mais ou menos nesse sentido: “se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso” (1 Pe 2.3). Portanto, “provar” significa simplesmente “experimentar” algo de primeira  mão.

O privilégio espiritual, portanto, que esses hebreus tiveram, foi experimentar o Espírito Santo como dádiva de Deus ofertada no evangelho. Eles viveram a experiência dele como revelador da verdade e como sendo quem introduziu o novo culto espiritual evangélico. Eles provaram e experimentaram a glória e a excelência desse novo estado produzido pelo Espírito Santo, um privilégio que muitos não tinham tido. E com essa prova ficaram convencidos de que era muito mais excelente do que aquele culto ao qual estavam acostumados no passado.

Eles experimentaram a glória do evangelho que o Espírito Santo enviado do céu lhes trouxera, e ficaram grandemente impressionados. Mas agora estavam em perigo de negligenciar e desprezar esse privilégio. Estavam tentados a abandonar o trigo mais fino pelas velhas bolotas deles.

Destarte, de nossa compreensão desse grande privilégio espiritual, nós tiramos quatro grandes lições:

  • Aprendemos que todas as dádivas de Deus sob o Novo Testamento são presentes celestiais (Jo 3.12; Ef 1.3). Cuidado, por­ tanto, para não negligenciá-las nem desprezá-las (Hb 2.3).
  • Aprendemos que o Espírito Santo é a grande dádiva de Deus sob o Novo Testamento, dado para revelar os mistérios do evangelho e introduzir a instituição e as ordenanças do culto espiritual.
  • Aprendemos que há uma bondade e uma glória nessa dádiva celestial que podem ser “provadas” ou experimentadas em certa medida por pessoas que nunca as recebem na vida e no poder que possuem para a salvação. Eles provam a palavra em sua verdade, mas não em seu poder vivificador. Experimentam o culto da igreja em sua forma externa, mas nada veem ou sentem de sua beleza espiritual interior. Experimentam os dons da igreja, mas não as suas graças.
  • Aprendemos que rejeitar o evangelho, tanto em sua verdade como em seu culto, após ter experimentado algo de sua riqueza e glória, é menosprezar Deus e sujeitar-se ao grande perigo espiritual de sofrer a ira de Deus eternamente.

 

Exegese de Hebreus 6.4-6 (2/3)

Exegese de Hebreus 6.4-6 (3/3)

 

Autor: John Owen

Trecho extraído de Apostasia do Evangelho, pág 13-24. Editora: Os Puritanos

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso
Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e bloqueiro. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.