As Características da Alma Humana do Redentor

Share
INTRODUÇÃO

 

A criação dos céus e da terra foi um ato da divindade. Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo estiveram ativos em todo o processo. Cada um deles teve o seu papel especifico na realização deste trabalho.

Podemos afirmar que Deus Pai foi quem “arquitetou” a criação – aquele que planejou todos os detalhes; Deus Filho foi quem “executou” o plano da criação – aquele que esteve presente trabalhando em todo o processo; e Deus Espírito Santo foi o “decorador” da criação – poeticamente falando, aquele que “embelezou” os céus e a terra e tudo que nela há com a sua glória. Portanto, a criação foi um trabalho da divindade, porém com diferentes tarefas realizadas por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

Na preparação do corpo humano de Jesus para a encarnação, não temos somente o ato do Espírito Santo, mas da divindade. Deus Pai e o próprio Deus Filho também cooperaram neste ato. Cada pessoa da trindade teve a sua participação.

Deus Pai foi quem planejou a encarnação e providenciou todo o material do corpo humano de Jesus, bem como a criação de sua alma humana e todas as suas propensões. Deus filho foi quem coordenou o trabalho de sua encarnação, e Deus Espírito Santo foi quem concluiu e manifestou este ato divino, a saber, o Deus Filho “encarnado”, o Deus-homem ao mundo.

 

ARGUMENTAÇÃO

Quando um ser é concebido, uma pessoa vem à existência. Entretanto, quando a pessoa de Cristo, que sempre existiu, compartilha da nossa humanidade, ele adota uma natureza humana, tornando-se não um ser bi-pessoal, mas unipessoal. Não temos duas pessoas em Jesus – uma humana e outra divina, mas uma pessoa com duas naturezas – uma divina e outra humana. Na concepção de Jesus, uma nova pessoa não veio a existir, como vemos em outros nascimentos; antes, como Deus que é e que sempre existiu, ele uniu-se a uma natureza humana.

A encarnação do Verbo, através de uma mulher virgem, é que tornou possível o nascimento deste ser que é unipessoal, e não bi-pessoal. Se o Deus Filho fosse um ser humano gerado de pais humanos, haveria, então, dois seres dentro de Maria – um divino e outro humano. Destarte, foi através da atuação do Espírito Santo em uma mulher virgem que produziu um Redentor sem pecado e unipessoal, possuindo uma natureza divina que procedeu da segunda pessoa da Trindade, e uma natureza humana que procedeu de sua mãe biológica, Maria. Com isso, entendemos que “não haveria a possibilidade de haver um Redentor com duas naturezas numa só Pessoa (a do Verbo divino) sem a intervenção sobrenatural do Espírito Santo em Maria causando a unio personalis”.1

Todavia, a ideia herética de que Jesus não possuía um corpo humano sempre esteve presente na história da igreja. Desde os primeiros séculos, a teologia cristã foi bastante influenciada pelo pensamento grego de que a matéria é inerentemente má e inferior ao espírito. De acordo com este pensamento, se Jesus tivesse um corpo humano, ele poderia estar ligado ao pecado. Querendo preservar a divindade de Cristo do pecado, as ramificações que cometeram as heresias cristológicas, como o gnosticismo, docetismo, ebionismo, apolinarismo e o arianismo, acabaram negando a sua verdadeira humanidade: Jesus possuía tanto um corpo humano como uma alma humana (veja Cl 2.9; 1Jo 1.1; 4.1-3; Lc 24.39; Jo 20.27). Portanto, os reformadores tiveram o cuidado de ensinar a Cristologia precisa em seus epítomes teológicos, especialmente quando refutaram alguns anabatistas com ideias docéticas2 no século 16.

Os elementos que constituem a pessoa de Cristo

A natureza humana

Os teólogos de Westminster ressaltaram a substância humana que Jesus herdou de Maria, a qual é o fundamento psicossomático de sua verdadeira natureza humana. Sendo assim, o Catecismo Maior de Westminster enfatiza os dois elementos constituintes da natureza humana de Cristo – o seu corpo e a sua alma – da seguinte maneira:

Cristo, o Filho de Deus, fez-se homem tomando para si um verdadeiro corpo e uma alma racional, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, da sua substância e nascido dela, mas sem pecado (P.37)

Donald Macleod escreve cientificamente acerca da verdadeira humanidade de Cristo Jesus:

Através do cordão umbilical [que ligava Maria ao ente santo que estava nela] ele é este homem específico, o filho dessa mulher específica, o portador de toda a história genética prévia do seu povo e o recipiente de inumeráveis aspectos hereditários. Ele era o genótipo singular exatamente porque ela contribuiu ao menos com metade dos seus cromossomos (como qualquer mãe humana faria). Como o restante apareceu, permanece um mistério. A única certeza é que Maria não poderia sozinha contribuir com o cromossomo Y que determina o sexo, que é sempre proporcionado pelo pai biológico. Esse cromossomo, ao menos, deve ter sido proporcionado de maneira miraculosa; e permanece possível que todos os cromossomos normalmente derivados do pai tenham sido providenciados dessa maneira, [sendo] o ato divino que fertilizou o óvulo simultaneamente criou vinte e três cromossomos complementares àqueles derivados da mãe.3

Esta substancia humana que Jesus herdou de Maria possui duas partes – uma material e outra imaterial. A primeira parte é o que podemos chamar de um corpo verdadeiro, e a segunda parte seria a alma [ou espírito] racional. Com efeito, estes dois elementos constituem a natureza humana do Redentor.

Ora, a concepção de Cristo está vinculada com o fato de Maria ser virgem e não ter mantido relacionamento sexual com José até que ele nascesse (Mt 1.25). Desse modo, a unipersonalidade do Deus Filho só pôde acontecer através da concepção virginal. Se houvesse a fecundação de um homem no ventre de Maria, certamente nasceria uma pessoa humana, e Jesus acabaria possuindo esta pessoa na encarnação. Assim, teríamos um Redentor com dupla personalidade.

O corpo não perfaz a natureza humana. Por isso era imprescindível que Jesus tivesse uma natureza humana completa. Uma vez que era verdadeiramente humano, ele também possuía uma alma, que é a parte imaterial do homem. A expressão alma racional revela certa apreensão apologética dos teólogos que formularam a Confissão de Fé de Westminster, a qual combate equívocos e heresias antigas ainda presentes na mente de muitos cristãos relacionadas à Pessoa de Cristo, o Redentor dos eleitos de Deus. Destarte, os teólogos de Westminster inseriram na Confissão de Fé a expressão alma racional para designá-la como parte essencial da natureza humana do Deus Filho encarnado.

A alma humana é constituída de algumas propriedades que também havia na alma de Jesus Cristo. Vejamos, pois:

Ele possuía uma mente humana

Jesus possuía uma mente como a de qualquer outro homem. “Sua mente possuía percepção, lógica, desenvolvimento de ideias e assimilação de conceitos e informações”.4 Conforme é dito em Lucas 2.52a sobre a infância de Jesus, ele crescia em sabedoria.

Este texto não descreve um fato que pertence à natureza divina de Jesus, no caso, a sua mente divina, mas a sua natureza humana, isto é, faz referência à mente humana do Senhor. A mente divina não precisa se desenvolver em sabedoria; pelo contrário, Lucas relata que a mente humana de Jesus crescia gradativamente à medida que recebia informações e observava os eventos do dia a dia.

Com efeito, um fato interessante que precisa ser destacado, é que a mente humana de Jesus não podia conhecer o que era exclusivo da mente divina. Vejamos um exemplo disso.

Marcos 13.32 – Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos do céu, nem o Filho, senão somente o Pai.

Por razões que não foram reveladas na Escritura, a mente divina do Deus Filho encarnado não revelou à sua mente humana [pelo menos até aquele período do seu estado de humilhação] a data do seu regresso ao mundo. A mente humana de Jesus não era onisciente como é a mente divina.

A mente humana de Jesus não era capacitada a conhecer eventos futuros como a mente divina conhecia, exceto se a mente humana recebesse algum tipo de informação da mente divina ou algum tipo de auxílio através de uma ação do Espírito Santo nela. Um exemplo de que a mente divina revelou a mente humana de Cristo um fato pode ser visto no caso de Natanael, um dos apóstolos. Antes que ele se aproximasse de Jesus para o conhecê-lo pessoalmente, ele já sabia como era o caráter de Natanael (Jo 1.47).

A mente divina, que sabe e perscruta todas as coisas, e que integrava a personalidade de Cristo, reproduziu informações pertencentes ao caráter de Natanael à mente humana. Estas informações, por sua vez, foram comunicadas aos outros discípulos que estavam perto dele. Outro exemplo é o evento da grande pesca realizada pelos apóstolos quando ainda eram discípulos de Jesus e exerciam a profissão de pescadores. Lucas relata que Jesus sabia que, se eles lançassem a rede numa determinada parte do lago, haveriam de colher muitos peixes. Jesus sabia o lugar exato em que se encontrava o cardume. Como pescadores experientes que eram, os apóstolos não conseguiram detectar a localização exata dos peixes (Lc 5.1-7).

Esse conhecimento que Jesus teve é exclusivo da mente divina que foi transmitido à sua mente humana. Não é característico da mente humana esse tipo de conhecimento, porém, quando recebeu essa informação da mente divina, a mente humana de Cristo informou a localização exata do cardume nas profundezas das águas. Sem a revelação da mente divina, a mente humana jamais poderia descobrir este fato.

Ele possuía emoções humanas

As emoções fazem parte da constituição da natureza humana. Não somente os homens, mas também Deus, os anjos e o próprio Jesus, como Deus-homem que é, sentiu emoções. Senão vejamos:

  1. Jesus esboçou ALEGRIA ao proferir as palavras descritas em João 15.11 e na oração sacerdotal, em João 17.13.
  1. Jesus demonstrou ENCANTAMENTO pela fé que encontrou no centurião de Carfanaum, em Mateus 8.10.
  1. Jesus teve COMPAIXÃO por um homem discriminado pela sociedade da época por ser leproso (Mc 1.40-41; veja outro exemplo similar em 6.34).
  1. Jesus manifestou TRISTEZA ao ver Maria, sua família e os amigos chorando e lamentando pela morte de Lázaro (Jo 11.33-35).

Ele possuía vontade humana

Mateus 26.39 – E, adiantando-se um pouco, prostou-se com o rosto em terra e orou: Meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice, todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. (Almeida Século 21)

Heber Carlos de Campos escreve:

Podemos ver perfeitamente duas vontades em questão: a divina e a humana, embora não na mesma pessoa. Lemos aqui que a divina é claramente a do Pai, enquanto que a outra vontade certamente é a vontade humana de Cristo. A vontade divina é a mesma nas três Pessoas da Trindade, porque todas elas possuem a mesma natureza divina. Todavia, somente o Filho encarnado possui a vontade humana, não as outras Pessoas da Trindade, porque a vontade humana se deve ao fato de ter ele assumido a natureza humana. Assim como as duas naturezas em Cristo pensam de modo diferente, sentem de modo diferente, também as volições são diferentes. Contudo, não há conflito na pessoa divino humana de Cristo. Sempre a vontade divina terá preeminência sobre a vontade humana, sendo esta última sempre submissa à primeira.5

As duas vontades em Cristo eram distintas e inseparáveis, mas elas sempre estiveram em harmonia, pois a vontade humana era invariavelmente subordinada à vontade divina.

Ele possuía senso moral

Outra característica que faz parte da natureza humana, e que difere os homens dos animais, é o senso moral. Todos os homens – quer sejam cristãos ou não –, possuem o mínimo de senso moral. Contudo, Jesus é enfatizado nas Escrituras por ter um senso moral absolutamente irrepreensível.

Por Cristo ter seu senso moral acentuado pela sua santidade, seria peremptoriamente impossível ele permanecer indiferente e sem ação ao se deparar com os erros morais de outrem. “O senso moral envolve, não obstante, a capacidade de julgar o que é certo do errado, mas essa capacidade se torna cada vez maior à medida que um ser racional é santificado. Jesus Cristo era santo em sua natureza humana, e por isso tinha a capacidade plena de fazer julgamentos absolutamente corretos”.6

Portanto, ao confrontar os pecados dos homens, Jesus esboçou algumas emoções. Vejamos apenas duas delas, dentre outras.

  1. Jesus demonstrou IRA contra aqueles que estavam fazendo do templo, que era um lugar de adoração e culto a Deus naquela época, um comércio (Jo 2.15-17).
  1. Jesus ficou INDIGNADO com a ausência de compaixão e amor pelo próximo por parte dos líderes religiosos hipócritas e legalistas em uma sinagoga, em um dia de sábado, onde ele estava prestes a curar um homem com a mão ressequida (Mc 3.5).

 

CONCLUSÃO

Termino este artigo reafirmando a Cristologia elaborada pelo Concílio de Calcedônia, que diz:

Nós, então, seguindo os santos Pais, todos com um consentimento, ensinamos os homens a confessarem um e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, o mesmo perfeito com respeito à divindade e perfeito com respeito à humanidade; que ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, consistindo de uma alma racional e um corpo; que ele é consubstancial conosco no que respeita à sua humanidade, e igual a nós em todos os aspectos, exceto no pecado. Ele foi gerado do Pai antes das eras, quanto à sua divindade; mas, nestes últimos dias, ele foi nascido de Maria, a mãe de Deus, quanto à sua humanidade. Ele é um Cristo, existindo em duas naturezas sem mistura, sem mudança, sem divisão, sem separação, a diversidade das duas naturezas não sendo de forma alguma destruída por sua união na pessoa, mas as propriedades peculiares de cada natureza sendo preservadas, e concorrendo a uma pessoa, e uma subsistência, não partida ou dividida em duas pessoas, mas um e o mesmo Filho, o unigênito, Deus, a Palavra, o Senhor Jesus Cristo; como os profetas desde o começo têm declarado a respeito dele, e o próprio Senhor Jesus Cristo tem nos ensinado, e o Credo dos Santos Pais nos tem transmitido.7

 

 

NOTAS:

  1. Heber Carlos de Campos. As Duas Naturezas do Redentor, pág 430.
  2. O docetismo não é somente a negação total da humanidade de Cristo. Qualquer pensamento que negue a plenitude da humanidade de Cristo também é docetismo.
  3. Donald Macleod. The Person of Christ, 1988, pág 162.
  4. Ibid, pág 495.
  5. Ibid, pág 496.
  6. Ibid.
  7. W.G.T. Shedd. A Histoty of Christian Doctrine, pág 399-400.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

Reformados 21
Reformados 21
Site de Teologia e Apologética, cujo intuito é evangelizar, discipular, ensinar, combater as heresias e defender a fé cristã.