A Marca da Besta

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  1. E ela [a Besta] faz que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, recebam uma marca na mão direita ou em sua fronte, 17. E ninguém podia comprar nem vender, exceto aquele que tivesse a marca, isto é, o nome da besta ou o número de seu nome.

 

a. Categorias. A segunda besta não só executa os que se esquivam de adorar a imagem da primeira besta, mas também obriga todas as categorias de pessoas a receberem uma marca distintiva que os separa dos cristãos. A expressão todos não significa que todo ser humano em particular está incluso, mas, antes, que pessoas de todas as esferas da vida estão em pauta. Isso é evidente à luz de várias classes que são catalogadas. “Pequenos e grandes” na verdade é um idiomatismo que inclui “pessoas de todas as idades ou de todas as condições de vida”.36 Esta expressão ocorre no Apocalipse com frequência (11.18; 19.5,18; 20.12). Note que as categorias são apresentadas como opostas: pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos. São pessoas de todos os níveis sociais.

b. Marca. As explicações para esta palavra oscila de escravos sendo marcados a pessoas imprimindo uma tatuagem em sua mão direita ou fronte. A História está repleta de relatos de escravos, soldados ou fanáticos sendo marcados ou tatuados. O versículo, contudo, especifica que o propósito para imprimir a marca da besta é para ter condição de comprar e vender mercadorias, e isso inclui uma categoria muito mais ampla do que um pequeno segmento da população. Alguns estudiosos colocam a sentença no contexto histórico do culto a César, de modo que somente as pessoas que tivessem recebido uma marca impressa em seu punho ou fronte podia entrar no mercado.37 A dificuldade com esta interpretação é que os historiadores romanos nada registram acerca de tal prática no império.

Se entendermos João a escrever não para um momento particular no tempo enquanto reflete sobre um incidente local, mas para a Igreja universal de todas as eras e lugares, então precisamos interpretar este versículo mais amplamente. Primeiro, notemos bem que a palavra marca aparece várias vezes no Apocalipse. João a menciona em 14.9: “Se alguém adora a besta e a sua imagem, e recebe a marca em sua fronte e em sua mão” (ver também 19.20; 20.4). E em 14.11, ele escreve sobre “alguém que recebe a marca de seu nome”. Portanto, ter a marca da besta conduz a atos de culto e o porte de seu nome. Ela designa uma pessoa como devota e seguidora genuína da besta. Ela indica uma pessoa que é hostil a Deus, à sua Palavra e ao seu povo; ele ou ela porta a marca do Anticristo na mão direita ou na fronte.

Segundo, o símbolo da mão direita significa amizade e companheirismo (G1 2.9); é um sinal de cooperação em uma causa comum, isto é, oposição a Deus. A marca na fronte implica que tais pessoas são influenciadas pela mesma filosofia e padrões de pensamento.38 Em seu pensamento anticristão, glorificam a besta e seus empreendimentos e tentativas de destruir a obra de Cristo na terra.

Como os devotos do Anticristo portam a marcam da besta em sua fronte ou mão direita, assim os servos de Deus já receberam o selo do Senhor e o nome de ambos, o Pai e o Cordeiro, em suas frontes (7.3; 14.1). Se a marca no povo de Deus é invisível, interpreto as marcas nos incrédulos como sendo também invisíveis. E, por último, receber a marca de fidelidade à besta é em si mesmo uma imitação do compromisso feito no batismo cristão.

c. Comércio. A impossibilidade de comprar ou vender equivale a boicote por meio do qual o suprimento de alimento é cortado e a fome bate à porta. Os primeiros recipientes do Apocalipse podiam relacionar-se a essas circunstâncias, pois muitos deles em Esmirna viviam em desprezível pobreza (ver o comentário sobre 2.9). Mas os boicotes não se têm confinado a certo lugar na história; são comuns e em muitos casos o povo de Deus passa a ser suas vítimas. A marca da besta significa o porte de seu nome e número.

 

 

NOTAS:

  1. Aune, Revelation 6 -1 6, p. 766.
  2. Consultar E. A. Judge, “The Mark of the Beast, Revelation 13.16”, TynB 42 (1991): 158-60.
  3. Ver os comentários de Beale (p. 716), Caird (p. 173), Hailey (p. 296), Hendriksen (pp. 181, 182), Hughes (p. 153) e Sw ete (p. 173).

 

 

Autor: Simon Kistemaker

Trecho extraído do livro Apocalipse, pág 497-498.

 

 

Adendo  de William Hendriksen sobre a marca da besta

A segunda besta é o falso profeta (19.20). Ele simboliza a falsa religião e a falsa filosofia sob qualquer forma que se apresentem ao longo desta presente dispensação. Embora essa besta se pareça exteriormente com o Cordeiro, ela esconde um dragão no seu interior.16 Noutras palavras, ela surge de modo atraente e chamativo aos olhos. A besta parece muito inocente: um pequeno c lindo cordeirinho, um bichinho de estimação para crianças. Mas sua fala revela seu pensamento interior, sua vida, sua essência e seu caráter. Ela fala como o próprio diabo! Essa segunda besta, de conformidade com isso, é a mentira de Satanás proferida como se fosse verdade. E Satanás travestido de anjo de luz (2 Co 11.14). Ela simboliza todos os falsos profetas em todas as épocas desta dispensação. Eles vêm disfarçados de ovelhas, mas são, na verdade, lobos devoradores (Mt 7.15).

As duas bestas – os governos e as religiões anticristãs – operam em conjunto. Esse é, invariavelmente, o que acontece. Foi verdadeiro nos dias do apóstolo: o sacerdote pagão era amigo do procônsul. A influência sacerdotal apoiou e manteve o poder secular do Estado em sua perseguição contra os crentes. A religião e a política pagãs cooperaram nas batalhas contra os crentes. Os sacerdotes dos templos pagãos fizeram o máximo para imprimir a mentira de Satanás na mente do povo: César é Senhor! Recorreram até mesmo a proezas e pseudomilagres para enganar o povo. Ordenaram aos habitantes dos diversos distritos que erigissem estátuas em honra ao imperador. Lembre-se de Pérgamo.17 Qualquer que se recusasse a prestar culto ao imperador frente à sua estátua, ou a declarar: “o imperador é senhor”, era, imediatamente, morto.18 Será que o apóstolo, realmente, pretende nos dizer que, em seus dias, os sacerdotes pagãos, a fim de estabelecer mais firmemente na mente das pessoas a religião do Estado ou o culto ao imperador, teriam recorrido a proezas tais como fazer surgir fogo sem causa aparente e, por meio de ventriloquia, fazer parecer que a voz do imperador vinha da está-tua?19 Ou esses detalhes apenas pertencem à figura e atribuem-lhe uma interpretação simbólica? De qualquer modo, o significado principal parece ser que, durante toda esta dispensação – e num crescente à medida que a segunda vinda de Cristo se aproxima – falsos profetas tentam enganar as massas por meio de sinais e maravilhas (Mt 24.24), e fortalecer a mão do governo quando ele ataca a Igreja. Observe, entretanto, o verso 15: “E lhe foi dado…” Além da esfera da permissão de Deus, Satanás nada pode fazer!

A seguir, o falso profeta marca a todos – pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos – com a marca da primeira besta. Esse profeta, aqui, se parece, exteriormente, com o Cordeiro. Não foram, os seguidores do Cordeiro, selados na fronte?20 De igual modo, os seguidores da besta devem ser marcados em sua fronte ou mão direita. Contudo, o que significa a “marca da besta”? Diversas respostas divertidas têm sido dadas.21 Essas teorias falham em interpretar essa marca como um sinal único, individual e externo, que aparece na fronte ou na mão do iníquo em um momento particular da História; nessa hora e só nessa hora. A besta, entretanto, persegue sempre a Igreja e usa toda forma de poder secular para tentar destruir os crentes. Onde e quando a besta aparece, poderá se encontrar a marca da besta. Ambas andam juntas e não podem ser separadas.

Para se entender a expressão “marca da besta”, devemos nos lembrar que não apenas o gado, mas também os escravos, eram marcados com um sinal de propriedade. A marca significava que o escravo pertencia ao seu dono. Logo, a expressão “receber a marca de alguém” começou a ser usada para indicar que alguém servia ou cultuava a alguém. Provemos esse ponto. Em Apocalipse 14.9, lemos: Se alguém adora a besta e a sua imagem, e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão”. Aqui, “receber a marca da besta” parece significar “pertencer à besta é adorá-la”. Igualmente, em Apocalipse 14.11: “os adoradores da besta e da sua imagem, e quem quer que receba a marca do seu nome” (cf também Ap 20.4). Assim, “receber a marca da besta” parece significar “pertencer à besta e adorá-la”. A “marca da besta” é a oposição a Deus, a rejeição a Cristo, o espírito do anticristo de perseguição da Igreja, onde e quando ela se manifesta. Essa marca está impressa na fronte e na mão direita (cf Dt 6.8). A fronte simboliza a mente, a vida em termos de pensamento, da filosofia da pessoa. A mão direita refere-se às obras da pessoa, a ação, o comércio, a indústria, etc. Portanto, receber a marca da besta na fronte e na mão direita, significa que a pessoa pertence à companhia dos que perseguem a Igreja, e nisso –  quer eminentemente no que ela pensa, diz, escreve ou, mais enfaticamente, no que ela faz – o espírito anticristão se torna evidente.

Essa interpretação se harmoniza perfeitamente com nossa explicação com respeito ao selo que o crente recebe em sua fronte. O selo indica que ela pertence a Cristo, adora-o, respira seu Espírito e pensa seus pensamentos. Igualmente, a marca da besta simboliza que o não-crente, que persiste em iniquidades, pertence à besta e, assim, a Satanás, a quem adora. Observe, entretanto, que há uma diferença. O crente recebe um selo, não apenas uma marca.22 Através da dispensação tem-se demonstrado verdadeiro (lembre-se de Tiatira)23 que aqueles que não recebem a marca da besta e que não adoram o seu nome sofrem restrições em seus negócios. São impedidos e oprimidos. Não lhes é permitido comprar ou vender enquanto permanecem leais aos seus princípios. À medida que nos aproximamos do fim, essa oposição aumentará. Não obstante, que o crente não se desespere. Que ele se lembre de que o número da besta é número de homem. Ora, o homem foi criado no sexto dia. O número seis, sobretudo, não é o número sete e jamais chega a sete. Falha sempre em atingir a perfeição, isto é, nunca se toma sete. Seis significa não atingir a marca, significa falha. Sete significa perfeição ou vitória. Regozije-se, ó Igreja de Deus! A vitória está do seu lado. O número da besta é 666, isto é, falha sobre falha sobre falha!24 É número de homem, pois a besta se gloria no homem; e tem de falhar!

 

 

NOTAS:

  1. Embora o artigo definido seja omitido a fim de enfatizar o caráter dessa besta, ainda assim nós, imediatamente, sentimos que esse monstro caracteriza a imitação diabólica do verdadeiro Cordeiro. Na verdade, essa segunda besta é inspirada pelo dragão, Satanás.
  2. Ver o Capítulo Oito, p. 96.
  3. Ver W. M. Ramsay, op. cit., p. 98.
  4. lbid., pp. lOOss.
  5. Ver pp. 89ss.. 133ss.
  6. A marca da besta tem sido interpretada como significando, por exemplo: o símbolo da maçonaria, as faces da moeda americana de 10 centavos, o monossinal; a observância do sábado bíblico no primeiro dia da semana, o domingo; as iniciais do anticristo marcadas na fronte dos iníquos, etc.
  7. Ver R. C. H. Lenski. op. cit., p. 409.
  8. Ver Capítulo 8, p. 91s.
  9. Ver C. F. Wishart, op. cit., p. 25. A tentativa de se chegar a uma interpretação pela adição de valores numéricos ao nome de Nero, Platão, etc, não leva a parte alguma justamente porque leva a tudo. O Apocalipse é um livro de símbolos, não um livro de charadas.

 

 

Autor: William Hendriksen

Trecho extraído do livro Mais que Vencedores, pág 176-179. Editora: Cultura Cristã

 

Leonardo Dâmaso
Leonardo Dâmaso

Mineiro, de Divinópolis. Criador e editor-chefe do Reformados 21. Servo de Cristo, músico, compositor, teólogo, escritor, apologista, tradutor e blogueiro. Faço parte da JET – Junta de Educação Teológica do IRSE – Instituto Reformado Santo Evangelho.