Soteriologia: A Doutrina da Salvação (2/4)

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A Natureza da Salvação

O fato de estudarmos a salvação presume que ela existe (Jo 3:19). Se ela existe há uma necessidade que faz ela existir. Por ter uma doutrina da salvação é presumida a existência de iniquidade, que é a quebra de uma lei (1 Jo 3:4; 5:17, “o pecado é iniquidade.”), e a existência de um que deu a lei, quem é Deus (Jo 15:22,24, “Se Eu não viera, nem lhes houvera falado, não teriam pecado…”). Tudo o que é pecado (que será estudado posteriormente) e tudo que o pecado causa é desfeito pela salvação.

A salvação é uma libertação. A salvação é libertação da culpa e impiedade do pecado juntamente das suas consequências eternas de rebelião contra o governo do Deus Todo-Poderoso (Cole, Definitions, V.II, p. 52). Sem a libertação que a salvação efetua, o pecador seria excluído eternamente da presença de Deus e para sempre exposto à Sua ira (João 3:36). O fato de a salvação ser livre, substitutiva, penal e sacrificatória será tratado quando estudamos o preço pago por Cristo na salvação. Por agora entendemos que a salvação é necessária e é uma libertação.

 Os Necessitados da Salvação

No relatório bíblico, somente antes do pecado, é dito que tudo que Deus fez foi considerado “muito bom” (Gn 1:31). Depois que o homem desobedeceu o mandar de Deus de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2:7) e comeu dela (Gn 3:6) não se acha nada na Bíblia referindo-se ao homem como ‘bom’. Isso mostra o quanto o pecado destrua, é universal e total.

Que o homem necessita a salvação é claramente evidente por uma olhada às noticias dos acontecimentos do homem ao redor do mundo pelos meios de comunicação. Assassinatos, corrupções, ameaças, injustiças, preconceitos, mentiras, roubos, fornicações, desrespeito do seu próximo e do próprio Deus e a poluição verbal e moral são constantes de todos os povos do mundo todos os dias. A Bíblia evidencia a dimensão do pecado no homem claramente (Ez 16:4,5; Is 1:6; Rm 3:10-18). Essa condição detestável e pecaminosa não é adquirida pelo ambiente ou causada pela falta de oportunidade social ou educacional, mas contrariamente, todo homem é pecador desde o ventre (Gn 8:21, “a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice” Sl 51:5, “em iniquidade fui formado, e em pecado concebeu minha mãe.”; 58:3, “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras; Isa 48:8, “chamado transgressor desde o ventre.”). OBS: Não é o ato de procriação que causa o pecado, nem é a relação conjugal, dentro dos seus limites bíblicos, pecaminosa, mas pela a procriação ser feita entre pecadores, o homem pecador é gerado (Rm 5:12).

O pecado destruiu totalmente a imagem de Deus no homem que existiu por criação especial, ao ponto do homem, universalmente (Rm 3:23; 5:12), não querer ter nenhum conhecimento de Deus (Jo 5:40; Rom. 1:28; 3:11,18). Por isso o homem pecador é “voluntariamente” ignorante da verdade (2 Pe 3:5). A vontade do homem não foi a única parte do homem influenciada pelo pecado, mas a sua capacidade de agradar Deus também foi destruída (Rm 8:8; Jr 13:23). A condição do homem pecador é tão deplorável que ele não pode vir, pelas suas próprias forças, a Cristo (Jo 6:44,45) e jamais, na carne, pode agradar a Deus (Rom. 8:6-8). Oentendimento do homem foi deturpado ao ponto de ser descrito como “entenebrecido” no entendimento (Ef 4:18; Rm 1:21). Por isso as verdades santas e boas de Deus não são compreendidas ao homem natural e são, para ele, escandalosas e loucuras (1 Co 1:23; 2:14). A responsabilidade da condição pecaminosa do homem é do próprio homem. Ele mesmo busca muitas “astúcias” (Ec 7:29). Que os homens não são capacitados com desejo nem com poder para o bem em nenhuma maneira é entendido pela denominação “mortos em ofensas e pecados” (Ef 2:1). Por isso “nenhum homem, pela sua natureza, crê que necessita Cristo. Ele está cegado pelos seus morais, suas intenções, sua sinceridade, sua bondade. Ele não vê a impiedade do seu pecado nem que o seu caso é sem esperança” (Don Chandler, citado em Leaves, Worms …, p. 129).

O coração do homem, a fonte da vida (Pv 4:23), é tão enganoso que é impossível que nem o homem conheça a sua própria perversidade (Jr 17:9). Por isso o homem é completamente “reprovado para toda a boa obra” (Tt 1:16) fazendo que o homem tenha inimizade contra o próprio Deus, o seu Criador (Rm 8:7). O pecado reina em todos os membros (físicos, mentais, emocionais, espirituais) do homem (Rm 7:23).

A prova que todos os homens são pecadores é dada pelo fato que não há ninguém que obedeça sem nenhum defeito ou omissão todos os mandamentos, e, não existe ninguém que pode manter-se puro de todo e qualquer pecado em pensamento, palavra, ação em coração e vida. Se o homem fosse tão onisciente quanto Deus, o homem declararia o que o próprio Deus declarou quando olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Deus, na aquela ocasião declarou: “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um.” (Sl 114:2,3).

A condição deplorável do pecador não quer dizer que ele não tem uma consciência, nem da possibilidade de exercitar a sua mente e a sua vontade ou determinar ações pelo seu raciocínio. Assim que o pecado apareceu no mundo, a consciência do homem foi ofendida (“conheceram que estavam nus”) e, sendo assim, operou segundo a sua própria deplorável determinação e lógica pecaminosa, e, em prova disso, escondeu-se de Deus. Apesar da presença do pecado e toda a sua natureza de destruição no homem, “os olhos” que enxergam a condição da alma (a consciência), não somente existiram, mas eram ativos (Gn 3:7,8). O Apóstolo Paulo, pela inspiração do Espírito Santo, ensina que os pagãos tenham uma consciência ativa e por ela acusa suas ações ou defenda-os (Rm 2:14,15). Veja também João 8:9 para um exemplo que o homem pecador tenha uma consciência e é capaz de agir conforme o seu raciocínio. Mesmo que existem tais qualidades (uma consciência viva), a condição deplorável do pecador influi a operação da sua consciência, da sua lógica e da sua vontade ao ponto de não buscar a Deus (Rom. 3:11), não amar a luz (Jo 3:19) e não compreender as coisas do Espírito de Deus (1 Co 2:14). A consciência existe, mas ela é influenciada pelo que o que o homem é, um pecador.

A condição abominável do pecador não quer ensinar que o homem não pode fazer uma escolha livre. O homem pecador pode determinar o que ele quer escolher. Somente pelo fato do homem uniformemente preferir a iniquidade em vez do bem não quer ausentar o fato que ele tem uma escolha. O homem tem uma escolha sim e ele faz a sua escolha continuamente. Mas devemos frisar que a mera possibilidade de fazer uma escolha não automaticamente ensina que o homem tem a capacidade necessária a fazer uma escolha santa ou aquilo que agrada a Deus. Todos de nós temos a livre escolha de trabalhar e ser milionários, mas essa liberdade não nos faz capazes. Mesmo possuindo a qualidade da livre escolha, o homem pecador é incapaz de escolher o bem para agradar a Deus pois a inclinação da sua carne é morte (Rom. 8:6-8). O arbítrio do homem, contudo, não é livre. Mesmo que a capacidade do homem escolher é livro, contudo, o seu arbítrio (Resolução que depende só da vontade, Dicionário Aurélio Eletrônico) é servo da sua vontade, e, portanto, não é livre. O arbítrio do homem faz o que a sua vontade dita. Mas, falando da sua escolha, essa é livre. O homem indo a uma sorveteria tem livre escolha entre os sabores. Essa situação mostra que ele tem livre escolha. Todavia, o homem somente pede o sabor predileto, pois o seu desejo, a sua vontade pessoal leva ele assim a escolher, e, o seu arbítrio, que é servo da sua vontade, pede aquele sabor. Nisso entendemos que a escolha é livre, mas não o arbítrio.

A condição depravada do pecador não quer significar que homem nenhum pratica boas obras. Os homens não regenerados são verdadeiramente capazes de fazer tanta religião quanto os fariseus que dizimaram até as mínimas coisas para com Deus (Mt 23:23; Lc 11:42). Todavia, todas as boas obras que o pecador faz é somente para dar “fruto para si mesmo” (Os 10:1) e não para a glória de Deus. O homem pode se ocupar esforçadamente no guardar dos mandamentos, ser sincero para com tudo que é religioso e ser generoso nas obras da caridade (Mr 10:17-20, “tudo isso guardei desde a minha mocidade”). Todavia, a sua condição depravada faz que nada disso se torna a ser agradável a Deus (Is 64:6; Rm 8:7,8).

A condição terrível de pecador não quer insinuar que todos os homens revelam todo o pecado que podem manifestar. Há os que rejeitem Cristo que jejuam duas vezes na semana (Lc 18:12). Há os pecadores que Deus nunca conheceu, mas dizem “Senhor, Senhor!” e profetizam no nome do Senhor Jesus (Mt 7:22). Existe os outros pecadores que escarnecem do Santo (Mr 15:29-31) ou são malfeitores (Lc 23:41). Comparando pecador com pecador alguns parecem mais refinados e outros mais bárbaros. Todavia todo o homem é pecador e qualquer pecado merece a separação eterna da presença de Deus (Ez 18:20; Rm 6:23; Tg 2:10). “A manifestação do pecado aumenta a medida que os pensamentos ímpios são guardados, os hábitos imorais são praticados e os ensinamentos da verdade são ignorados” (Rm 1: 28; Boyce, p. 245).

A condição detestável e completa do homem pecador também não minimiza a responsabilidade do pecador para com Deus. Todo homem é responsável para com Deus porque a sua incapacidade não veio por uma imposição ou causa divina mas porquê ele mesmo voluntariamente pecou e trouxe sobre si a condenação divina (Gn 2:17; 3:6,17). Todo o homem deve ocupar-se em não pecar e deve preocupar-se em agradar o seu Criador e juiz. Essas ocupações são exigidas por sua condição de ser a criatura e por Deus ser o Criador (Ec 12:13). Alguns podem duvidar se somos responsáveis pessoalmente por termos uma natureza pecaminosa vindo de Adão (Rm 5:12), mas, de fato, somos responsáveis pela expressão dela (Ez 18:20; 1 Jo 2:16; 3:4). A responsabilidade para com Deus é entendida em que não somos forçados a pecar mas pecamos pela ação da nossa própria vontade (Gn 3:6,17; Jo 5:40). Não é a incapacidade de obedecer tudo que nos separa de Deus mas os próprios pecados do homem que fazem a separação dele de Deus (Isa 59:1-3; Ef 1:18). A incapacidade natural (Rm 3:23) e moral (Tt 1:15) nunca descarta a responsabilidade particular de nenhum a não pecar. Qual cidadão racional escusa o homicídio culposo pela razão de ser praticado quando bêbedo; ou desculpa um crime por ser praticado por um desequilibrado pela raiva; ou justifica os crimes por serem simplesmente pela paixão, etc.? A bebida, a ira e a paixão podem levar o homem a agir irracionalmente, mas é ele que bebe descontrolado, se ira e deixa-se a ser levado pela paixão. Por isso o homem é responsável pelas suas ações quando nestas condições se encontra. O fato que o homem deve se arrepender (Mt 3:2; At 17:30) revela que Deus sabe que o homem é responsável a responder positivamente a Ele. O primeiro homicídio foi castigado (Gn 4:11) como todos os pecados serão (Ap 20:11-15), convencendo todos, com isso, que a expressão do pecado é da responsabilidade daquele que comete tal ação (Ez 18:20; Rm 3:23; 5:12). Não obstante a sua responsabilidade de amar a Deus de todo o coração e de se arrepender pelo pecado cometido, o homem natural, o primeiro Adão, é tão desfeito pelo pecado que não pode fazer, com seu próprio poder, o que ele sabe que deve fazer para agradar a Deus (Rom. 8:7; 2 Co 2:14). Mas, mesmo sendo incapaz, ele é completa e universalmente responsável pela obediência da Palavra de Deus em tudo (Ec 12:13, “o dever de todo o homem”).

A incapacidade do pecador não desqualifica os meios que devem ser empregados tanto pelo pecador para sua salvação quanto pelo salvo em pregar aos perdidos. Tanto o pecador quanto o salvo devem ocuparem-se de usar todos os recursos que biblicamente têm à mão. A impossibilidade de produzir um efeito não é razão suficiente para ser irresponsável no dever. O fazendeiro jamais pode produzir uma safra qualquer nem efetuar a chuva cair na terra ou fazer o sol brilhar. Essa incapacidade não desqualifica-o de semear e regar a semente. O mandamento de Deus é que o pecador deva se arrepender e crer (At 17:30). O mandamento de Deus é que o crente ore e pregue (Sl 126:6; Mt 28:18-20). Por serem mandados, os mandamentos devem ser obedecidos não obstante a condição natural do homem. Os meios têm um fim. Para ceifar é necessário primeiramente semear (Gl 6:7-10). É verdade que Deus dê o crescimento, mas é somente depois de semear e de regar (1 Co 3:6). O receber depende do pedir; o encontrar depende do buscar; o abrir vem somente depois de bater (Mt 7:7). Portanto, os meios devem ser empregados apesar da incapacidade total do pecador ou das fraquezas dos salvos. Os meios são a única maneira ao fim esperado. Apenas existe o receber enquanto haja o pedir (Mt 7:7). Paulo pergunta: “como crerão naquele de quem não ouviram?” (Rm 10:13-15). Por ter fruto somente depois de semear; por ter a salvação somente depois de crer, os meios bíblicos devem ser empregados se quer ter o fim esperado. Também devemos usar os meios disponíveis por ter a promessa de Deus. Deus promete fruto se a semente for semeada. A promessa de Deus anima o semeador de ter longa paciência na sua esperança de uma safra eventual (Tg 5:7). A promessa diz que eventualmente haverá uma safra (Sl 126:5,6) e um aumento (Ef 4:11-16). Apesar da incapacidade do homem pecador a crer e da impossibilidade do pregador convencer qualquer dos seus pecados existe a necessidade de empregar zelosamente todos os meios que Deus designou nas Escrituras Sagradas.

A incapacidade do homem pecador não deve incentivar a sua demora em vir a Cristo ou deve desculpar a sua desobediência aos mandamentos de Deus. Quanto incapaz o homem a crer mais ele deve procurar a graça de Deus em misericórdia para crer (Mr 9:24). O doente precisa do medico é fato. Quanto mais severa a doença mais urgente o socorro. Se o pecador entenda a sua situação deplorável, pode se prostrar diante de Deus clamado pela sua ajuda (Mar 9:4) pedindo de Deus: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Luc 18:13; 11:13). O mandamento não é de esperar por uma sensação, visão ou qualquer outro sinal. Cristo já foi dado e declarado (1 Co 3:11). O mandamento de Deus é: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hb 3:13,15). Se o salvo entenda a sua responsabilidade, o mandamento de Deus é: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mr 16:15), ame a Deus de todo o coração (Mar 12:30) e “crescei na graça e no conhecimento de Cristo” (2 Pe 3:18). Quanto mais que sentirmos fracos em obedecer, mais esforçadamente devamos procurar a Sua graça. É Deus que opera em nós tanto o querer como o efetuar segunda a sua vontade (Fp 2:13). Isto deve encaminhar-nos a Ele a buscar a Sua graça para obedecermos o Seu mandar.

Somente a salvação pela graça capacitará o pecador a entrar no reino de Deus (Jo 3:3,5; 2 Co 3:5). A própria condição deplorável do homem mostra a sua necessidade da salvação. O homem é sem a justiça necessária (Rm 3:10), sem Cristo, separado de Deus, sem nenhuma esperança (Ef 2:12) e sem esforço (Rm 5:6; 7:18). Ele está com a maldição da lei (Gl 3:10) e sobre ele permaneça a ira de Deus (Rm 3:36). A condição abominável do homem assegura que ele necessita de salvação, aquela que vem exclusiva e completamente de Deus. Por isso pregamos a salvação somente pela graça. Se o homem tivesse uma mínima condição para ajudar-se, a sua salvação não seria totalmente de graça. A depravação da sua condição totalmente e universalmente pecaminosa estabeleçe o fato que a salvação eterna é, em todas as suas partes, divina e inteiramente graciosa (Ef 2:8,9). Assim Cristo ensinou quando comparou a relação que existe entre Ele e o Seu povo usando a videira e as varas. E ele disse: “sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15:4,5). Que Deus abençoe os salvos a pregar tal graça e os pecadores a buscá-la antes que seja tarde demais.

Que a mensagem clara da condição abominável do pecador, da realidade da sua incapacidade de fazer o bem e a verdade que todos são responsáveis diante de Deus incentive todos os pecadores a clamarem pela misericórdia de Deus para o perdão dos seus pecados e pela fé necessária para crerem em Cristo Jesus para a salvação! E, que clamem até conhecerem Cristo pessoalmente. Tal salvação é a sua responsabilidade e necessidade e o encontro de tal salvação é o nosso desejo para com você.

A Escolha de Deus na Salvação

Não é necessário que todos os crentes creem tudo o que este estudo apresenta sobre eleição. O autor do estudo é ciente que existem explicações diferentes sobre o tema apresentado mesmo que ele não concorda com todas delas. Mesmo assim, é esperado que o leitor creia algo sobre o assunto. A Bíblia trata desse estudo sem confusão. Muitos alunos da Bíblia creem que mexer com este assunto de eleição é comprar uma briga, ou entrar em uma briga que é dos outros. Outros ainda ignoram o assunto por inteiro como se fosse uma parte das coisas encobertas de Deus e que Ele não quer que ninguém trata do assunto (Dt 29:29). A atitude do autor não é de brigar, nem interferir com as brigas dos outros. Também não é a sua intenção de desvendar algo misterioso que Deus quer deixar encoberto para todo o sempre. O autor simplesmente quer expor o que a Bíblia diz do assunto e, mesmo não entendendo tudo sobre Deus, crer pela fé aquilo revelado divinamente pela Palavra de Deus. Este deve ser o mínimo esperado de um estudo bíblico por qualquer aluno consistente. Devemos lembrar-nos: tudo que está revelado na Bíblia pertencem a nós e a nossos filhos (Dt. 29:29; 2 Tm 3:16,17, “Toda a Escritura é inspirada e proveitosa …”).

O simples fato que subsistem salvos entre os espiritual e moralmente incapacitados; que existem vivos entre os mortos em pecados e ofensas; que têm os que querem agradar Deus entre uma multidão de incapacitados que somente procuram concupiscência é prova definitiva que existe uma força maior do que os homens crentes operando para salvá-los. Essa força opera segundo um poder fora do homem. Esse poder opera segundo uma determinação que não pertence ao homem.

Temos estudado já que essa determinação é a própria vontade de Deus (Ef 1:11). A vontade soberana de Deus é revelada nas Escrituras Sagradas em certos termos. O termo que estipula a ação da eterna vontade de Deus em determinar quem entre todos virão ser salvos é eleição. Como entenderemos pelo estudo, a eleição de Deus é puramente uma terminologia bíblica sem ser uma invenção de nenhum teólogo humano.

O Significado das Palavras Bíblicas: “eleito” e “escolha”

Convém um entendimento da terminologia que Deus usa pela Bíblia no tratamento desta doutrina. Existe a palavra ‘eleito’ tanto no Velho Testamento (972, 4 vezes somente: Is 42:1; 45:4; 65:9,22) e no Novo Testamento (1588 com raiz em 1586, 27 vezes junto com as suas variações: eleição, elegido). Não obstante onde a palavra ‘eleito’ é usada, tanto no Velho Testamento quanto no Novo Testamento, a palavra ‘eleito’ significa a mesma coisa: escolhido, um preferido, elegido – por Deus (Strong’s, Online Bible). Às vezes, essa palavra hebraica traduzida na maioria dos casos por ‘eleito’ em português é também traduzida, em português, umas quatro vezes, por ‘escolhido’ (1 Cr 16:13; Sal 89:3; 105:6; 106:23). A palavra em grego traduzida por ‘eleito’ no Novo Testamento (1588, 27 vezes) é também traduzida ‘escolhido’, com a suas variações, não menos que trinta vezes (1586, Mt 20:16; Mr 13:20, “eleitos que escolheu”; João 13:18; 1 Co 1:27; Ef 1:4, etc.). Somente por um olhar ao significado desta palavra ‘eleito’, como ela é usada pelas Escrituras Sagradas, podemos entender que a eleição é uma escolha, uma escolha feita por Deus. A palavra ‘eleito’ em português significa como adjetivo: 1. Escolhido, preferido. Como substantivo significa: Indivíduo eleito (Dicionário Aurélio Eletrônico). A própria palavra ‘eleição’ significa em português: 1. Ato de eleger; escolha, opção (Dicionário Aurélio Eletrônico). Como é claro pelo estudo das palavras usadas biblicamente para explicar a determinação de Deus, tanto em Hebraica, em grego ou em português a palavra ‘eleito’ e ‘escolha’, junto com a suas variações, significam a mesma coisa, ou seja, uma escolha de preferência.

A Natureza da Eleição

Desde que a Bíblia trata dessa escolha abertamente, não temos que chegar a uma vaga conclusão deduzida por abstratos, emoções, preferencias ideológicas ou mera simbologia. Essa escolha é descrita pela Bíblia. Por ser descrita biblicamente não é necessário ter dúvidas sobre a natureza da eleição.

A eleição: Origina-se com Deus

É claramente estipulada biblicamente que a eleição origina-se com Deus. Os que creem em Cristo são feitos filhos de Deus e salvos mas não são feitos eleitos pela fé. Este nascimento não é, como origem, do sangue ou da carne (do homem), mas de Deus (Jo 1:12,13; Rm 9:16), quem é Espírito (Jo 4:24). Estes que querem vir a Deus e crer em Cristo, venham e creem por serem dados a Cristo pelo Pai em primeira instancia antes da existência do homem (Jo 6:37; Ef 1:4). Pelo fato de serem dados a Cristo pelo Pai temos uma prova clara que existia a determinação primeiramente e essa determinação de Deus é a origem de qualquer ação positiva feita pelo homem para com Deus. Essa determinação não foi de homem, mas de Deus (Jo 6:37). Pela eleição ser motivada primeiramente por Deus, Cristo pôde declarar: Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós (Jo 15:16; 1 Jo 4:19). Realmente, se marcássemos através da Bíblia cada um dos casos que Deus age soberanamente com o homem, cada uma das declarações que determinam que a eleição e os seus frutos são de Deus e cada ilustração, parábola, etc. que mostra que a eleição é a operação usual de Deus, entenderemos que quase todos os livros da Bíblia atestam que a eleição é de Deus pela Sua graça. Considerando os fatos já estudadas sobre Os Necessitados da Salvação, o homem não pôde ajudar a Deus nessa escolha pois, o homem, é incapaz de fazer qualquer coisa boa e realmente apenas maquinava pensamentos maus continuamente (Gn 6:5; Jr 17:9; 13:23; Rm 3:23). Pela razão da eleição vir primeiramente de Deus, os cristãos têm forte razão de adorar e louvar a Deus eternamente. É isto que o Apóstolo Paulo enfatiza na sua carta aos Efésios (Ef 1:3, 4).

A eleição é Incondicional

A natureza dessa escolha é descrita pela Bíblia também como sendo incondicional. Isso não quer dizer que a salvação não tem condições, pois as tem (e todas elas são preenchidas pelo sangue de Cristo, Ef 2:13; 1 Pe 1:19,20), mas, não estamos tratando agora o preço pago na salvação, mas da escolha que Deus fez para a salvação. Dizendo que a eleição é incondicional queremos entender que aquela escolha que Deus fez antes da fundação do mundo (Ef 1:4), não foi baseada em algo que existia anterior ou poderia existir posteriormente no homem. Isto é, não há nada que originou-se no homem que poderia ser interpretada como sendo uma condição que induziu Deus primeiramente o preferir. A condição da eleição não foi um conhecimento divino que o homem aceitaria a salvação se ela fosse apresentada a ele. Lembramo-nos do nosso estudo anterior sobre a condição dos necessitados da salvação, que, no homem, não existe nenhuma coisa boa (Rm 7:18, “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum”; Jr 7:19; 13:23), e, não habitando nada boa nele, há nada para atrair a atenção salvadora de Deus a ele nem alago que dava-lhe uma predisposição a escolher o que era bom (Jr 13:23). A condição da escolha primária não foi do homem, mas, Deus escolheu o homem “para a si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1:5,9,11). A condição da determinação primária de Deus foi pelo querer de Deus e não por nenhuma justiça real ou provável que o homem poderia ter, intentar ou desenvolver (Is 64:6, são “todas as nossas justiças como trapo da imundícia”). Se o homem tivesse qualquer condição favorável que o destacava diante do favor de Deus, aquela condição faria Deus a ser obrigado a conceder-lhe a salvação. Isso faria a salvação a ser pelas obras ou pelas condições humanas e não segundo a graça; o beneplácito da vontade divina. A eleição, tanto quanto a salvação, é puramente pela graça: um favor divino desmerecido e imerecido pelo homem (Rm 11:5,6; Ef 2:8,9). Foi uma escolha puramente divina e graciosa em salvar um homem que não tinha nenhuma condição boa para apresentar diante de Deus como um mínimo mérito qualquer. Deus preferiu um pecador particular para receber a Sua graça somente porque quis (Rm 9:15,16, “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”). Somente entendendo tudo sobre a vontade de Deus, algo que não podemos nunca atingir, entenderemos por completa por que Deus escolheria um homem tão depravado que não possuía nenhuma capacidade, e, portanto, nenhuma condição, para atrair-lhe a Deus. Mas, de fato, conforme a Bíblia, é isto que Deus fez. A escolha de Deus de Israel revela essa atitude (Dt 7:7) e a escolha de Deus para a salvação é da mesma natureza (Jo 1:12,13; Rm 3:18-23; 9:15,16). Devemos resumir esta parte da natureza de eleição como Jesus resumiu-a: Sim, ó Pai, porque assim te aprouve (Mt 11:26).

A eleição é Pessoal e individual

A escolha de Deus também é descrita biblicamente como sendo pessoal e individual (Rm 9:15). Quando dizemos que a natureza da escolha de Deus é pessoal queremos entender que a eleição de Deus foi por pessoas individualmente conhecidas por Ele antes da fundação do mundo (Ef 1:4). A eleição para salvação é para indivíduos e não pelas ações destes indivíduos. Esse fato podemos entender pelos próprios pronomes usados concernente à eleição. Pela Bíblia encontramos pessoas chamadas segundo o propósito de Deus (Rm 8:28). Essas mesmas pessoas, e não a suas ações, são dadas como sendo dantes conhecidas e predestinadas por Deus (Rm 8:29). Em Romanos 9:10-16 temos até o nome citado de um homem que Deus escolheu antes deste ter nascido ou de fazer bem ou mal, mas, “para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme”. Falando de Israel, como uma nação, Deus confortava o Seu povo firmando que Ele amava eles com um amor eterno. Foi pelo amor eterno, e não por uma ação futura deste povo, que motivou Ele “com benignidade” de os atrair (Jr 31:3). É pela ordenação de Deus que os salvos chegam a crer (At 13:48) e não vice-versa, ou seja, não foram ordenados à salvação por terem cridos. A ordenação divina foi primeira. A fé salvadora veio depois e por causa da ordenação. Por isso podemos enfatizar que os salvos são pessoalmente e individualmente conhecidos por Deus, em uma maneira especial de todos que foram criados por Ele, antes da fundação do mundo (Ef 1:4; Tito 1:2). Paulo, em carta aos Tessalonicenses, diz que a eleição pessoal e eterna é motivo dos salvos darem graças a Deus (2 Ts 2:13, “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação …”). Pela eleição pessoal e individual ser um motivo de gratidão por alguns podemos entender que a eleição é pela graça, e, assim sendo, não é, de maneira nenhuma, um direito dos pecadores nem uma obrigação na parte de Deus.

Mesmo que a eleição pessoal é estipulada pelas Escrituras Sagradas, ela pode parecer estranha a nossa concepção das coisas pela nossa mente finita. Mesmo assim, devemos crer nessa doutrina da mesma forma que Deus a explicou: “compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9:15). Se a aceitação dessa verdade necessita uma fé maior em Deus, nisso Deus é agradado (Hb 11:6) e adorado como convém (Jo 4:23, 24).

A eleição é particular e preferencial

A escolha de Deus, por ser pessoal e individual, pode ser determinada também como sendo particular e preferencial. Isso quer dizer que entre todos os condenados, Deus, em amor, particularmente escolheu alguns para receber as bênçãos da salvação. Podemos entender essa particularidade examinado alguns casos de escolha que Deus fez e quais são relatados pela Bíblia nos dando uma prova divina e segura que a eleição particular e preferencial é bíblica:

Antes do dilúvio, a maldade multiplicara ao ponto que toda a imaginação dos pensamentos dos homens era só má continuamente. Todavia, um destes homens achou graça nos olhos de Deus. Lembramo-nos que este homem não merecia este favor de Deus, ou melhor, que ele era igual aos homens corruptos. Se este agraciado merecia o favor que Deus mostrou, não séria mais graça na parte de Deus e sim uma obrigação (Rm 11:6). Mas, entre todos os corruptos, uma escolha diferenciada foi feita para transformar este homem, Noé, e a sua família, em vasos de benção (Gn 6:5-8).

Entre os três filhos de Noé, o Sem foi escolhido para ser na linhagem de Cristo (Gn 9:26; Lc 3:36) e não o filho Jafé que era o mais velho. Porque esta distinção foi feita?

Abraão foi escolhido em vez de Naor ou Harã para ser o pai das nações (Gn 11:26-12:9). Será que Abraão merecia essa preferencia? Não, Abraão, junto com os da sua família, servia outros deuses (Js 24:2) fazendo ele tão abominável quanto os demais. Todavia, uma distinção foi feita e foi Deus quem fez. Entre todos os povos, entre quais ninguém merecia tal atenção de Deus, um teve a preferencia de Deus (Dt 7:6).

Jacó, o enganador, foi escolhido a conhecer o arrependimento em vez do seu irmão Esaú que não era um enganador (Hb 12:16,17; Rm 9:10-16). Se fosse nós escolhendo, e especialmente se soubéssemos o futuro, não escolheríamos dar benção nenhuma a um homem enganador quanto Jacó. Todavia, o Jacó foi escolhido pela eleição, antes mesmo de ter nascido e feito bem ou mal (Sl 135:4).

Efraim foi colocado adiante de Manassés mesmo que não tinha direito (Gn 48:17-20). Porque essa diferenciação foi feita?

José, o 11º filho, recebeu uma porção dupla na benção (Gn 48:22). Porque não foi o filho mais velho que recebera tal benção? Que foi uma preferência é claro.

O patriarca Moisés (Êx 2:1-10), o salmista Davi (1 Sm 16:6-12), o desobediente Jonas (Jn 1:3) e outros também podiam ser citados como os com qual Deus fez uma escolha particular e preferencial entre outros de igual caráter e situação de vida.

A escolha preferencial poderia ser entendida até pela consideração dos que não foram escolhidas desde a fundação do mundo “cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo” (Ap 17:8).

Há uma razão, menos que a preferência ou discriminação de Deus, que causou o Evangelho de Cristo de ir eventualmente para Europa em vez de ir para Ásia (At 16:6-10)? Porventura os de Europa tinham naturalmente mais fé do que os da Ásia?

Alguns dos anjos, de todos os que foram criados, foram elegidos para não cair (1 Tm 5:21; Jd 6). Porque essa discriminação?

Existe salvação para o homem pecador, mas não para os anjos que caíram. O homem é um ser menor do que os anjos (Hb 2:6,7), e sendo assim, logicamente teria menos preferencia. Mas, é evidente que uma distinção foi feita soberanamente entre todos os seres criados que pecaram e ela foi feita para o bem do homem.

Como temos examinados pelos casos citados, essa distinção é puramente pela determinação divina e não pelo valor que qualquer um dos escolhidos tinham ou teriam. Nenhum dos homens, naturalmente, tinha entendimento ou buscaram a Deus primeiramente (Sl 14:2,3). A escolha particular de uns sobre outros, entre os quais nenhum merecia uma discriminação favorável, revela que a eleição é particular, preferencial e graciosa. Pode ser que seja difícil para a mente humana entender por completo esse fato, mas a dificuldade para o homem o entender não determina que o fato seja menos um característico de Deus ou uma verdade menos revelada pela Palavra de Deus. Não seriamos os primeiros que duvidaram da retidão dessa escolha de Deus (1 Sm 16:6,7). Somente devemos ter o cuidado de não julgar Deus de injustiça (Rm 9:14). Finalmente, é necessário que a lógica do homem submete-se à soberania de Deus e deixa-o fazer o que Ele quer com o que é dEle (Mt 20:15, 16).

Examinando os exemplos das escolhas preferenciais pela Bíblia podemos entender melhor as verdades sobre a causa da salvação anteriormente abordadas neste estudo. Pela natureza da eleição originando-se principalmente de Deus percebemos o que estudamos em primeiro lugar: Deus é a primeira causa da salvação. Pela natureza da eleição, uma doutrina bíblica, sendo pessoal e individual, podemos ter uma ideia clara da presciência de Deus, pois a eleição é baseada em quem Ele conhece e não nas ações do pecador. Pela natureza da eleição sendo particular e preferencial podemos compreender a causa da salvação sendo pela soberania de Deus, pois ninguém merecia ser preferido à salvação.

A eleição é Graciosa

A natureza da eleição que Deus faz é também descrita biblicamente como sendo graciosa. A definição da palavra graça em português é: 1. Favor dispensado ou recebido; mercê, benefício, dádiva. 2. Benevolência, estima, boa vontade (Dicionário Aurélio Eletrônico). Em grego, a palavra ‘graça’ significa: a influência divina no coração e a sua evidência na vida (5485, Strongs). Não é novidade que os ‘evangélicos’ creem que a salvação é pela graça. Muitas pessoas que frequentam igrejas ‘evangélicas’ podem citar Efésios 2:8,9 que diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio de fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.” Todavia, é novidade para muitos que a própria eleição para a salvação, aquela ação de Deus que precede a própria escolha do homem no processo de salvação, também é pela graça. Muitas pensem que Deus foi influenciado na sua escolha por algo que o homem fez, faz ou faria. A verdade é que a eleição para a salvação não é baseada em nenhuma obra boa prevista do homem (pois no homem não habita bem algum, Rm 7:18; Sl 14:1,2; Rm 3:23). A escolha de Deus do pecador para a salvação é somente pelo favor desmerecido e imerecido de Deus. Deus olhou pelos séculos sobre todos os condenados, e, em amor e graça, entre todos que não procuravam Ele, colocou a sua influência divina em alguns (Jo 15:16; 1 Jo 4:19, “Nós O amamos a Ele porque Ele nos amou primeiro.”) Deus não viu nada naturalmente mais atrativo ou bom nos que Ele escolheu do que nos que Ele não escolheu. Verificando o testemunho dos salvos pela Bíblia, ninguém louva a sua própria fé, sua decisão inicial para Cristo, sua oração eficaz, sua intenção espiritual ou outra obra humana ou espiritual. O testemunho bíblico diz como Paulo, “Mas pela graça sou o que sou” (1 Co 15:10). Se a eleição fosse baseada na mínima ação que o homem fez, faz ou faria, a eleição não podia ser determinada uma “eleição da graça” (Rm 11:5), mas uma eleição “segundo a dívida” (Rm 4:4).

A eleição é Justa

A natureza da eleição que Deus faz é descrita biblicamente como sendo justa. O apóstolo Paulo declarou, pela inspiração divina, que a eleição não é injusta (Rm 9:14). A eleição é entendida como sendo justa em que Deus não deve nenhuma ação positiva ao homem nenhum. Uns querem dar o entender que Deus, no mínimo, deve uma ‘chance’ para todos os homens. Todavia, quando considera a condição terrível do homem pecador, uma ‘chance’ não é que o homem pecador precisa. Ele precisa uma ação positiva, regeneradora e graciosa na parte de Deus para ser salvo. Uma ‘chance’, sem a plena capacidade em conjunto, em nada ajudaria os que são mortos em pecados. É pela eleição, sem nenhuma obrigação pesando sobre Deus para que Ele escolhesse quem Ele quer influenciar com a Sua operação regeneradora. Deus dá vida (não uma ‘chance’). A salvação vem pelos meios divinos para com estes que Ele escolheu para que tenham a salvação. E quem está reclamando disso (Rm 9:19)? Deve ser considerado também que Deus tem direito e não uma obrigação para com os homens. Deus é o Criador, o homem é a criatura (Gn 1:27; 2:7). Deus é tido como o oleiro e o homem como o barro (Rm 9:21-24). Se Deus usa o Seu direito de fazer o que Ele quer segundo o beneplácito da sua boa vontade, e escolha alguns para conhecer as riquezas da Sua gloria, entre todos que somente mereciam a Sua ira, quem podia achar injustiça nisso?

A Eleição e a Proibição de Fazer Acepção de Pessoas

Uma das dificuldades em entender a eleição são as numerosas (no mínimo 17) citações pela Bíblia que toca no assunto que Deus não faz acepção de pessoas e/ou as instruções que nós não devemos fazer acepção de pessoas (Lv 19:15; Dt 1:17; 10:17; 16:19; 2 Cr 19:7; Jó 34:19; Pv 24:23; 28:21; Mt 22:16; At 10:34; Rom. 2:11; Gl 2:6; Ef 6:9; Cl 3:25; Tg 2:1, 9; 1 Pe 1:17). Uma escolha diferenciada claramente mostra uma preferência, mas também é clara a verdade bíblica: “Ter respeito a pessoas no julgamento não é bom” (Pv 24:23). Mas é verdade tão bíblica que uma escolha pessoal, individual, particular ou preferencial, em misericórdia e graça, não fere na mínima maneira a verdade que Deus não faz acepção de pessoas. Não há nenhuma ofensa a este princípio de justiça, pois a acepção de pessoas refere-se não ao exercício de misericórdia e amor mas, ao exercício do julgamento e dando o que é justo. A eleição não é, de jeito nenhum, o exercício da justiça ou do julgamento de Deus. A eleição é o exercício do amor e da graça de Deus (Dt 7:7; Jr 31:3). A frase “porque não há no SENHOR nosso Deus iniquidade nem acepção de pessoas” (2 Cr 19:7) é referente ao desempenho de julgamento e não refere-se à aplicação preferencial do Seu amor e graça. A ordem de não fazer acepção de pessoas é muitas vezes o conselho dado como aviso importante aos juízes de Israel para que julguem com consciência e honestidade (Dt 1:17; 16:19; 2 Cr 19:7). As referências bíblicas que falam que não há aceitação de pessoas com Deus associam-se, na sua plena maioridade, com o assunto de julgamento (por exemplo: Lv 19:15; Rm 2:10-12; Ef 6:9; Cl 3:25 e  Pe 1:17). Existem poucas referências que mencionam “aceitação de pessoas” em ambiente outro do que de julgamento (At 10:34; Tg 2:1,9). Essas passagens ensinem que não devemos fazer distinção entre todos os que igualmente merecem um tratamento positivo. Não devemos praticar uma preferência entre quem devemos entregar a mensagem de Cristo (At 10:34), nem devemos preferir uma pessoa sobre um outra quando todas merecem igualmente do bem (Tg 2:1). É verdade bíblica, que no julgamento divino, não há nenhuma aceitação de pessoas, pois cada uma será julgada segundo as suas obras (Ec 12:14; Ap 20:13). Mas, na misericórdia, da qual boa ação ninguém tem direito ou merecimento, uma distinção de pessoas pode existir e existe. Ninguém merece uma distinção positiva, mas todos merecem um julgamento justa pelos pecados que tem feito. Entre os salvos esse julgamento justo dos seus pecados se faz pela pessoa e obra de Cristo. Os não-salvos conhecerão o julgamento divino e justo no lago de fogo. A eleição não é uma escolha divina entre os bons e maus, mas uma escolha entre todos que são maus, ninguém buscando a Deus (Rm 3:10-18). Quem recebe a misericórdia são os que Deus, soberanamente e segundo o beneplácito da Sua vontade, escolheu. Nos exemplos bíblicos, quem já reclamou disso?

Vale uma repetição, pois uma dúvida qual insiste em vir à tona, quando a eleição é ensinada, é que Deus é injusta em fazer uma distinção entre pessoas. É geralmente pensado que todas são merecedoras da atenção positiva de Deus. A dúvida é eliminada quando é entendida que, entre os pecadores, não há ninguém que merece qualquer atenção favorável de Deus (Is 59:1,2; Rm 3:10-23). É claro que todos os pecadores necessitam a misericórdia divina, mas também deve ser claro, há ninguém que merecê-la. Se, como alguns querem supor, entre todas as pessoas que mereciam uma atenção positiva, ou entre todas que clamavam em arrependimento e a fé pela salvação, fosse dada uma distinção preferencial, assim séria uma terrível injustiça na parte de Deus. Mas, quando todas são verdadeiramente inimigas e rebeldes (Rm 8:6-8) e condenadas (Jo 3:19), e ninguém está buscando a Deus (Sal 14:1,2), a misericórdia pode ser estendida a uma singular e particularmente sem a mínima injustiça. Resumindo: entre pessoas com merecimentos iguais, uma distinção preferencial séria injusta. Todavia, a eleição foi feita entre pessoas sem quaisquer merecimentos. Veja Tiago 2:13.

Deve ser mencionado o fato de Deus fazer uma escolha qualquer entre os pecadores não faz os pecadores não escolhidos mais ímpios. A eleição também não faz os pecadores não elegidos mais condenados. Ninguém é condenado pelo fato de não ser escolhido. A condenação é dado por causa do homem pecar (Gn 2:17; 3:6; Ez 18:20; Rm 6:23). Os pecadores não são culpáveis por não serem escolhidos mas por não obedecerem os mandamentos de Deus (1 Jo 3:4). É o pecado, e não a eleição, que condena. A escolha que Deus faz, somente opera que uns pecadores são salvos, ou seja, que alguns tenham o fim justo dos seus pecados colocado em Cristo. Todo o pecador tem a responsabilidade de se arrepender dos pecados e crer no Filho de Deus, o Jesus Cristo, para ter a remissão dos pecados. Deus fará a Sua obra da salvação nos que O buscam com todo o coração (Is 55:6,7). Então a mensagem é: Busque o misericordioso Deus pelo Salvador enquanto é dia!

O Tempo da Eleição

Quando é que Deus decidiu exatamente quem receberia a Sua influência graciosa que não era segundo a capacidade nem à ação do pecador? Não obstante no que as pessoas podem descordar com o que já foi estudado até neste ponto, nisso quase todos são unanimes: a eleição foi determinada na eternidade passada, sim, até “antes da fundação do mundo” (Ef 1:4)

Queremos entender que a ordenação a crer ou, o propósito divino para os elegidos a serem salvos, veio antes de nós termos a possibilidade de conhecer a Deus (Is 45:5), antes da chamada à salvação (Rm 8:29,30), antes da própria fé (At 13:48; Jo 10:16) e bem antes dos elegidos serem nascidos e antes que fizeram bem ou mal (Rm 9:11). As Escrituras Divinas são claras que a eleição é desde a eternidade.

A imutabilidade de Deus é tocada neste assunto, pois Deus faz tudo segundo o Seu propósito (Rm 9:11; 2 Tm 1:9) que é segundo a Sua vontade (Ef 1:11) quais são integramente parte dos atributos eternos de Deus. Deus nunca pode ter um novo plano ou propósito (At 15:18, “Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras”; Ef 3:11, “eterno propósito”). Se fosse possível Deus ter um plano novo, este séria para melhorar aquele que veio antes, ou séria inferior ao que veio primeiro. Mas Deus é perfeito (Nm 23:19; 2 Co 5:21, “não conheceu pecado”), eterno (Dt 33:27; Sl 90:2, “… de eternidade a eternidade, tu és Deus.”), soberano (Isa 46:10; Ef 1:11, “faz todas as coisas segundo a Sua vontade”) e é imutável (Mal 3:6, “Porque eu, o SENHOR, não mudo”; 1 Tm 1:17, “Rei dos séculos”; Tg 1:17, “não há mudança nem sombra de variação”). “Consequentemente, quando Deus salva um homem, Ele deve sempre intencionado e propositado a salvá-lo” (Simmons, p. 221, português).

Uma observação: A eleição é da eternidade, mas a salvação da alma está feita em tempo (2 Tm 1:9,10). A eleição não é salvação, mas para a salvação. Fomos elegidos “desde o principio para a salvação” (2 Ts 2:13). Pela operação do Espírito Santo no coração o elegido é trazido a ter fé na verdade que é declarada pela pregação em tempo oportuno (2 Ts 2:14; Tg 1:18). Antes que o elegido foi salvo, ele era entre os mortos em pecados, pois estava sem a salvação (Ef 2:1-3) mesmo sendo elegido. Aquele que foi escolhido na eternidade por Deus soberanamente será propositadamente operado pelo Espírito Santo para agir com fé segundo a responsabilidade do homem em tempo em resposta à Palavra de Deus (At 18:10; Rm 10:13-17; Jo 15:16; Ef 2:10).

A Base da Eleição – O Amor de Deus

Para os salvos, é uma benção tremenda saber que mesmo que amaram o Senhor Deus por Cristo em tempo, o eterno Deus os amou na eternidade. Esse amor eterno também é um estímulo para os que ainda não são salvos. Estes são animados ao procurarem esse grande amor e misericórdia que ultrapassa a impiedade dos seus pecados (Rm 5:20, “onde o pecado abundou, superabundou a graça”; Mt 11:28; Is 55:7).

À nação de Israel, Deus empregou o seu amor eterno para a estimular à obediência. Ele a mandou a observar ordens grandes e corajosas. O que devia motivar a sua obediência era o amor eterno e divino visto pela eleição (Dt 7:7,8, “O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu porque a vossa multidão era mais do que a todos os outros povos … mas, porque o SENHOR vos amava …”). Nisto entendemos que o amor estimulou a eleição. O profeta Jeremias nos lembra desse amor eterno qual é a base da operação de Deus quando diz: “Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí” (Jr 31:3). Foi dito que Jacó foi escolhido “para que o propósito de Deus segundo a eleição, ficasse firme” e nessa condição de elegido, é dito: “Amei (observe que o verbo está no tempo passado) a Jacó” (Rm 9:11,13; Ml 1:2).

O elegido reage ao amor de Deus e não Deus reagindo ao amor do elegido. O salvo tem um relacionamento amoroso com Deus justamente por causa do amor de Deus que agiu primeiro. Por isso o apóstolo João declara: “Nós O amamos a ele porque ele nos amou primeiro.” (1 Jo 4:19).

Muitas vezes o verbo “conhecer” é usado pelas Sagradas Escrituras para mostrar um relacionamento íntimo de amor. O marido ‘conhece’ a sua esposa (Gn 4:17), os sodomitas ‘conhecem’ um ao outro (Gn 19:5-8) e Deus ‘conhece’ o seu povo (Am 3:2) que é chamado também pelo nome: “minhas ovelhas” (Jo 10:14). Se o homem não for ‘conhecido’ por Deus nessa maneira íntima amorosa, esse não deve ter nenhuma esperança de gozar a presença eterna divina pela eternidade (Mt 7:23). Em verdade, se alguém tem uma posição salvadora com Deus é por que Deus o amou, ou, o conheceu primeiro (1 Co 8:3). O amor de Deus para o pecador vem antes da predestinação, ou a eleição, pois a ordem bíblica é: conhecer (em amor), a predestinação, a chamada à salvação, a justificação, e por último, a glorificação (Rm 8:29,30).

Pelo amor eterno de Deus podemos entender que o Seu amor é maior dos nossos pecados, fraquezas, tolices e desobediências. A Sua eleição é baseada no Seu amor somente. A eleição não é baseada, de maneira nenhuma, nas ações passadas, presentes ou futuras de qualquer homem. As pessoas são finitas e, em tempo, venham a conhecer o Senhor Deus, mas a misericórdia e o amor de Deus sobre estes que eventualmente O temem é “desde a eternidade e até a eternidade” (Sl 103:17). Antes do elegido existir como um ser humano, e, antes de ser temente a Deus, sim, quando ainda era morto em ofensas e pecados, o amor de Deus era “desde a eternidade” passada , para com o seu povo e ficará sobre estes “até a eternidade” (Ef 2:1-5).

Por tudo depender no amor de Deus, a nossa eleição não é a única benção assegurada. A salvação eterna também é garantida. A obra que o Seu amor começou, o Seu poder em amor completará (Fp 1:6; Rm 8:35-39). Veremos mais deste ponto no último ponto dessas lições, ou seja, O Efeito Prático da Salvação.

Existe um outro atributo de Deus, além do Seu amor, para estimular-nos a morrermos às nossas conveniências e lógicas para O amarmos mais perfeitamente em obediência (2 Co 5:13-17)? Existe um outro atributo de Deus, senão “as riquezas da Sua benignidade, e paciência e longanimidade” (Rm 2:4) que poderia levar o descrente ao arrependimento verdadeiro? Que o descrente venha a Cristo confiando pela fé nesse amor de Deus visto tão claramente em Cristo é o nosso ardente desejo. E que o Cristão santifique-se a Cristo mais e mais!

Os Reprovados (Os não elegidos)

É puramente natural pensar das pessoas que não foram elegidas quanto ao estudo da eleição. Por Deus fazer o ímpio para o dia do mal (Pv. 16:4) e odiar Esaú para que o propósito de Deus ficasse firme (Rm 9:11-13); por Deus poder, na Sua soberania, ativamente fazer um vaso para honra e outro para desonra (Rm 9:21) e por isso ser algo que Ele realmente fez (Rm 9:13); por Deus endurecer os que não foram elegidos (Rm 11:7) e destinar alguns para a ira (1 Ts 5:9) e para tropeçar na palavra (1 Pe 2:8); por Deus ocultar informações de alguns (Mt 11:25,26) e por fazer alguns para serem presos e mortos para perecerem na sua corrupção (2 Pe 2:12), e, por existir alguns que antes eram escritos para o juízo (Jd 4) cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo (Ap 13:8; 17:8) é claro que haja uma determinação eterna na parte de Deus para que alguns nunca conheçam a Sua graça salvadora.

A Definição

Essa determinação, para fazer que alguns não sejam eleitos, e chamada na teologia, a reprovação. A doutrina de reprovação é citada por um teólogo como sendo: o decreto eterno, soberano, incondicional, imutável, sábio, santo e misterioso pelo qual Deus, por eleger alguns à vida eterna, deixa de escolher outros e condena estes de maneira justa, pelos seus pecados, para Sua própria glória (Edwin Palmer, citado por Tom Ross, p. 85).

Exemplo

Faraó é um exemplo dessa determinação prévia de Deus para que uma pessoa seja um objeto da sua ira. Antes de Faraó ser nascido, já era determinada as suas ações para com Israel (Gn 15:13,14). Em tempo, foi declarado para Faraó que ele foi mantido para mostrar o poder de Deus nele e por ele o nome de Deus seria anunciado em toda a terra (Êx 9:15,16; Rm 9:15-18). Sabendo tudo disso, Faraó continuou no seu caminho ímpio. No julgamento pela sua impiedade, Faraó declarou-se pecador e Deus justo (Êx 9:27). Na conclusão da libertação do povo de Deus, com Moisés testemunhando toda a operação de Deus tanto no endurecer o coração de Faraó quanto o seu julgamento, afirmou a santidade de Deus e que Ele é admirável em louvores (Êx 15:11). Este cântico de Moisés será repetido no céu pelos que tenham sabedoria numa hora da ira de Deus ser consumada (Ap 15:1-4).

Conclusão

Pelo exemplo de Faraó podemos entender que a soberania de Deus atinge as obras contrárias da justiça divina. Entendemos, pelo homem ser responsável a honrar Deus em tudo, o homem é ímpio e julgado justamente por Deus. Podemos concluir, depois de estudar o exemplo de Faraó, que Deus não causou o pecado de Faraó. O pecado, rebelião e a inimizade contra Deus veio do coração do Faraó.

Não podemos entender tudo sobre a graça e a reprovação, mas, na realização de diferenças feitas entre os homens (1 Co 4:7), todas delas sendo segundo a vontade de Deus, podemos concluir como Jesus declarou: “Sim, o Pai, porque assim te aprouve.” (Mt 11:26).

Nunca entenderemos todos os pensamentos de Deus (Sl 147:5; Is 55:8,9), mas, podemos entender, nos assuntos da eleição e da reprovação, que quem é soberano, é Deus. Ele pode agir com o que é Dele como Ele quer (Dn 4:34,35; Ef 1:11; Rm 11:36) para Sua própria glória.

Apelo

É uma coisa horrenda cair nas mãos de um Deus vivo (Hb 10:31). Cristo foi dado para a salvação de todo aquele que é cansado e oprimido pelos seus pecados. A verdade repetida pela Palavra de Deus é: os em Cristo têm vida eterna com Deus. Pecador, venha arrependendo-se dos pecados crendo em Cristo de coração. Conheça a misericórdia de Deus por Jesus Cristo. Senão, conhecerá a sua justiça na ira eterna (Mat. 11:28-30; João 3:16-19, 36).

A Imutabilidade de Deus Considerada

Se tudo é conforme o propósito de Deus, tanto o agradável quanto o desagradável, a condenação de pecadores não arrependidos é segundo este propósito também (Ec 3:1; Ef 1:11; Isa 46:10). Se o propósito é eterno para a salvação, também o é para a condenação. Deus não muda os seus propósitos em reação às decisões do homem, pois Deus não muda (Ml 3:6; 1 Tm 1:17; Hb 13:5; 6:17; Tg 1:17) e os seus propósitos são eternos (Is 14:24; Ef 3:11; 2 Tm 1:9). Tanto no homem que finda no céu quanto no homem que finda no inferno, o propósito eterno de Deus é feito (Js 11:18-20; Is 46:10). Se é justo para Deus fazer algo em tempo, também é justo para Ele fazer o mesmo na eternidade.

Deus é o Autor do Pecado?

Por Deus fazer o ímpio para o dia do mal (Pv 16:4), não quer julgar Deus o autor da impiedade do homem, ou o responsável pela sua condenação pecaminosa e nem a causa do homem pecador ir ao inferno. O homem pecou por querer (Gên. 3:6; Ec 7:29), e a condenação vem pela desobediência (Ez 18:20; Rm 6:23; 9:20-33; Jo 3:19). O homem é o único responsável judicialmente pelo resultado da sua ação pecaminosa. Sem dúvida, o decreto eterno de Deus inclui a queda do homem no pecado, mas não foi o decreto eterno que causou a queda. Os homens ímpios que crucificaram Cristo fizeram tudo que Deus já anteriormente determinou que devia ser feito, mas estes homens foram culpados pelas suas ações (Atos 4:25-28). Não foi Deus culpado pela Sua determinação previa. Deus não julga o homem conforme a capacidade do homem, mas segundo a sua responsabilidade (Tg 4:17). Deus não condena o homem por uma determinação prévia, mas, pelas obras pecaminosas do homem que são feitas em tempo (Ec 12:14; Ap 20:13). É verdade que o homem não tem capacidade de não pecar, mas, sem a menor dúvida, ele tem a responsabilidade de não pecar (Gn 2:17; Êx 20, a Lei de Moisés; 12:29-31). Uma vez que o homem pecou, Deus é justo em condena-lo eternamente segundo a Sua justiça.

O Proveito em Estudar e Pregar a Eleição

O estudo da eleição dá a devida glória a Deus. No homem natural, sem a graça de Deus, não habita bem algum (Rm 7:18) e não pode fazer nenhuma coisa boa que agrada a Deus (Rom. 8:8) sendo que a inclinação da carne é apenas morte (Rm 8:7). O desejo do homem natural não busca Deus (Rm 3:11) e a sua mente não entenda as coisas de Deus (1 Co 2:14). Tudo que Deus requer para a salvação, o arrependimento e a fé, não vem do homem, mas de Deus (Jo 1:12,13; 6:29, 44; At 16:14; Ef 2:8,9). A eleição incondicional, pessoal, particular e preferencial atribua a Deus, e somente a Deus, toda e qualquer obra boa que o homem faz para agradar a Deus. Tanto a santificação do Espírito quanto a fé da verdade é atribuída a Deus (Ef 2:8,9) e, por isso, somos incentivados pela Palavra de Deus de dar graças a Deus por Deus eleger os seus para a salvação (2 Ts 2:13). Devemos observar nesse ponto que na salvação, o homem tem uma responsabilidade de escolher ao arrependimento e a fé, mas o nosso estudo não é nesta hora a responsabilidade do homem, mas a eleição divina. Na salvação, o homem tem uma responsabilidade que exercita em resposta à operação divina, mas na eleição, apenas Deus opera.

O estudo da eleição convém por ser revelada na Palavra de Deus. Toda a Escritura é inspirada e, portanto, é proveitosa (2 Tm 3:16). Os ministrastes de Deus, que querem ter uma boa consciência, têm responsabilidade de “anunciar todo o conselho de Deus” (At 20:27). Se a eleição existe na Bíblia é porque ela é proveitosa e, sendo parte do cânon, deve ser anunciada. Há assuntos que não são revelados a nós, e estes assuntos não são para nós anunciar ou estudar, mas, os que são revelados, como é o caso da eleição, são tanto para nós quanto para nossos filhos (Dt 29:29).

O estudo da eleição prioriza a fé sobre o raciocínio do homem. É uma verdade que a eleição não é entendida facilmente. Se não estudássemos os assuntos da eleição por serem difíceis de entender, mostraríamos uma falta de fé na inspiração das Escrituras e uma confiança maior no raciocínio do homem. Quando consideramos mais a lógica do homem do que as declarações divinamente inspiradas, duvidamos que elas são proveitosas para o ensino, a correção e o aperfeiçoamento dos servos de Deus. O deixar de crer no que a Bíblia claramente revela por não seguir a sua lógica, séria de dar primazia à lógica do homem e não à fé. A fé não se manifesta naquilo que se pode racionalizar, mas naquilo que se entenda apenas por ser revelado pela própria Palavra de Deus (Heb 11:1, 6). Deus não pede que entendemos tudo que é revelado pelas Sagradas Escrituras, mas espera que os que querem O agradar, creem naquilo que Ele revela pela fé.

O estudo e a proclamação das doutrinas da eleição faz parte da adoração verdadeira. A adoração que Deus aceita é aquela que é segundo o Seu Espírito e a Sua verdade declarada. Deus já se expressou qual a maneira que convém adorar Ele. É em espírito e em verdade (Jo 4:24). O próprio coração do homem natural não imana verdade, mas somente a perversidade e o engano (Jr 17:9; Mt 15:11, 18-20), mas a verdade é de Deus pois é Cristo (João 14:6) e é ministrada pelo Espírito Santo (Jo 16:13; 1 Co 2:14-16). Se a verdade importa na adoração verdadeira, e se a verdade vem de Deus, o estudo da eleição só pode agradar a Deus, pois é a declaração da verdade. O estudo da eleição é aceita por Ele como aquela adoração que Lhe convém. Se as verdades da eleição forem ignoradas e não estudadas, a adoração a Deus pela declaração da verdade será comprometida. Verdadeiramente, pela eleição, um grau imenso do amor de Deus, da Sua misericórdia, da Sua justiça e dos Seus atributos santos é entendido, e, esse entendimento agrada a Deus.

O estudo das doutrinas da eleição promove crescimento espiritual. A obra do ministrante que é chamada para anunciar todo o conselho de Deus pela Palavra de Deus, quando exercitado corretamente, promove conforto na alma, edificação em espírito e conformidade à imagem de Cristo (Ef 4:11-16; 1 Tm 4:14-16). O que destrua, desestabiliza ou engana alguém não é por ensinar a verdade, mas pela falta do ensina dela. Jamais aquela que instrua, reprova, corrija e doutrina seria para a destruição de qualquer membro na igreja. Os rudimentos básicos da doutrina bíblica é o leite racional que promove crescimento (1 Pe 2:2). A doutrina mais avançada, que inclui a doutrina da eleição, é mantimento sólido que faz os sentidos, nos que por ela é exercitada, a crescerem para o discernimento tanto o bem como o mal. (Hb 4:11-14).

O estudo da eleição produz evangelismo bíblico. Nem todos que dizem: “Senhor, Senhor” agradam o Senhor Deus, mas somente os que fazem a vontade do Pai (Mt 7:21). Nem tudo que pode encher uma igreja ou arrumar seguidores é de Deus (At 5:35-37; 2 Tm 4:3,4). A eleição direciona e impulsiona os ânimos evangelizadores ao uso dos meios bíblicos, quais são a pregação de Cristo (Rm 10:17; 2 Ts 2:13,14) e a oração zelosa (Tg 5:16; 2 Tm 2:1-10). Um entendimento da operação de Deus pela eleição faz que o evangelista não se contenta naquele que é meramente visível mas naquele crescimento que vem somente de Deus (1 Co 3:6,7). A pregação bíblica inclui a eleição (Mt 11:25,26; Jo 6:37, 44, 65; 10:26) e é uma boa mensagem pois destrua qualquer esperança que o pecador possa ter em si mesmo ou numa obra humana ou religiosa. Pela pregação da eleição o pecador é incentivado a clamar ao Deus  soberano para ter misericórdia na face de Jesus Cristo (Rm 2:4; Isa 55:6,7). Esta é evangelização bíblica (1 Co 2:1-5).

 

Soteriologia: A Doutrina da Salvação (1/4)

Soteriologia: A Doutrina da Salvação (3/4)

Soteriologia: A Doutrina da Salvação (4/4)

 

Autor: Calvin Gardner

Fonte: Monergismo

Marcos Frade
Marcos Frade
Mineiro, de Belo Horizonte. Profissional de TI por paixão, estudante de Teologia por chamado. Criador e editor da página Suprema Graça, no Facebook. Atuo como editor e na área de manutenção no Reformados 21. Faço parte da JET - Junta de Educação Teológica do IRSE - Instituto Reformado Santo Evangelho.