A Ceia do Senhor (2/2)

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5) Sacramento

É um mistério, uma verdade revelada. Para a igreja é um rito instituído por Cristo, que serve como um sinal externo e visível, através dos símbolos e de uma graça interna e espiritual pela Palavra.

A visão Reformada da Ceia do Senhor é que Cristo está realmente presente; espiritualmente e não fisicamente. Ele está, em outras palavras, presente “pela fé” do povo de Deus e tem comunhão com eles, alimentando-os consigo mesmo através da fé. Ele usa o pão e o vinho para dirigir a fé deles em direção a Ele.

Essa visão Reformada é claramente ensinada em 1 Coríntios 11.29, que fala de “discernir o corpo do Senhor” na Ceia do Senhor, e está implicada também nas próprias palavras de Jesus na instituição da Ceia do Senhor: “Este é o meu corpo”. Somente porque Cristo está presente na Ceia, uma pessoa pode comer ou beber julgamento para si quando comendo ou bebendo sem o devido auto exame. Somente porque Cristo está presente pode haver alguma bênção na Ceia. A visão Reformada, que é também bíblica, dá um significado muito maior e à Ceia do Senhor. Então, no sacramento encontramos e desfrutamos de Cristo em sua plenitude, como nosso Salvador e Redentor. Que assim o façamos!

A Ceia do Senhor e a Confissão de Fé de Westminster

Como a Confissão de Fé (Reformada) de Westminster (1643-46) define a ceia?

Os sacramentos são santos sinais e selos do pacto da graça, imediatamente instituídos por Deus para representar Cristo e os seus benefícios, e confirmar o nosso interesse nEle, bem como para fazer uma diferença visível entre os que pertencem à Igreja e o resto do mundo, e solenemente obrigá-los ao serviço de Deus em Cristo, segundo a sua palavra.

Romanos 6.11; Gênesis 17.7–10; Mateus 28.19; 1 Coríntios 11.23; 10.16 e 11.25–26; Êxodo 12.48; 1 Coríntios 10.21; Romanos 6.3–4; 1 Coríntios 10.2–16.

Em todo o sacramento há uma relação espiritual ou união sacramental entre o sinal e a coisa significada; por isso os nomes e efeitos de um são atribuídos ao outro (Gn 17.10; Mt 26.27–28; Tt 3.5).

A graça denotada nos sacramentos ou por meio deles, quando devidamente usados, não são conferidos por qualquer poder neles existentes; nem a eficácia deles depende da piedade ou intenção de quem os administra, mas da obra do Espírito e da Palavra da instituição, a qual, juntamente com o preceito que autoriza o uso deles, contêm uma promessa de benefício aos que dignamente o recebem (Rm 2.28–29; 1 Pe 3.21; Mt 3.11; 1 Co 12.13; Lc 22.19–20; 1 Co 11.26).

Há só dois sacramentos ordenados por Cristo nos Evangelhos: o batismo e a ceia. Nenhum destes sacramentos deve ser administrado senão pelos ministros da palavra legalmente ordenados (Mt 28.19; 1 Co 11.20,23–34; Hb 5.4).

Os sacramentos do Velho Testamento, quanto às coisas espirituais por eles significados e representados, eram em substância os mesmos que do Novo Testamento (1 Co 10.1–4).

A Ceia do Senhor na Igreja primitiva

O livro de Atos e as cartas escritas às igrejas nos ajudam a aprender um pouco mais sobre a Ceia do Senhor. Os discípulos se reuniam no primeiro dia da semana para participarem da Ceia (At 20.7). Esta Ceia era entendida como um ato de comunhão com o Senhor (1 Co 10.14–22). Era tomada quando toda a congregação se reunia, como um ato de fraternidade entre os irmãos (1 Co 11.17–20), um ato simbólico (Ceia) e o derramamento de amor entre os santos; nesse momento, acontecia que toda a igreja lembrava das Palavras de Seu Senhor e nascia a gloriosa esperança da GRANDE CEIA VINDOURA, as bodas do Cordeiro por toda a eternidade.

Cada cristão era obrigado a examinar-se (v.28), para ter certeza de que estava participando da Ceia do Senhor de um modo digno, e o modo digno é a fé, esperança e o amor sendo o alicerce da vida cristã (1 Co 13.13). O cuidado dos pobres necessitados, alimentando-os (2 Co 8.12–15), o amor fraterno e não fingido (Rm 12.10), a proclamação (e estudo diligente) do santo Evangelho (2 Tm 4.13; Jo 5.39; 1 Ts 5.20) e a vida de oração (1 Ts 5.17; Rm 12.12; At 2.42; Ef 6.18; Cl 4.2; 1 Pe 4.7; Lc 18.1).

Em suma, o modo digno é: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e com toda a tua capacidade intelectual’ e Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

(1) . Palavra grega πίστιν (pistin/pistis). Denota uma convicção ou crença que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo nascido da fé; e unido a ela, relativo a Deus, a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo. Ela expressa fidelidade, lealdade e o caráter de alguém em quem se pode confiar.

(2) Esperança. Palavra grega “ἐλπίδος (elpidos/elpis). Denota expectativa do bem, esperança no sentido cristão, regozijo e expectativa confiante da eterna salvação. Sob a esperança, em esperança, tendo esperança, acreditando no autor da esperança, que é o fundamento, Cristo Jesus, o nosso Senhor.

O pão sem fermento 

Ainda que o ensinamento da Bíblia sobre a Ceia do Senhor não seja complicado, muitas diferenças de entendimento apareceram depois do tempo do Novo Testamento. O único modo de sabermos se estamos seguindo o Senhor Jesus é estudarmos as instruções e imitarmos os exemplos que encontramos no Novo Testamento. Nunca estamos livres para irmos além do que o Senhor revelou na Escritura (Cl 3.17; 1 Co 4.6 e 2 Jo 9).

Consideremos o que a Bíblia diz em resposta a algumas questões sobre a Ceia do Senhor. Porque pão sem fermento? Jesus instituiu a Ceia do Senhor durante os dias judaicos dos pães asmos, uma festa anual na qual somente pão sem fermento era permitido entre os judeus (Lc 22.15; Êx 12.18–21). Podemos apreciar mais claramente o significado do pão sem fermento quando consideramos o significado simbólico do fermento na Bíblia.

Não era permitido fermento nos sacrifícios oferecidos a Deus no Antigo Testamento (Lv 2.11). A ideia de impureza ou pecado é claramente associada com fermento em vários textos. Por exemplo, Jesus usou fermento para falar simbolicamente de falsas doutrinas (Mt 16.11-12). Paulo usou fermento para representar falsa doutrina e a corrupção moral (Gl 5.7–9,13,16; 1 Co 5.6–9). É plenamente adequado, então, que o sacrifico perfeito e sem pecado do próprio Filho de Deus seja representado por pão sem fermento: Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento (2 Co 5.17). Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado, e por essa razão celebramos a Ceia do Senhor não mais com o “velho fermento”, o “fermento da maldade e da malícia”, mas sim, com os “asmos da sinceridade e da verdade” (1 Co 5.7-8). Devemos entender o sentido da espiritualidade, e não um mero ritual sem significado, algo totalmente fisiológico.

Participantes da Ceia do Senhor 

A Ceia do Senhor é um ato espiritual partilhado pelo Senhor com aqueles que estão em comunhão com Ele. Jesus não ofereceu o pão e o cálice a todos, mas aos Seus discípulos (Mt 26.26). Aqueles que estão servindo ao Diabo não têm o direito de partilhar desta refeição com o Senhor (1 Co 10.16–22). Somos aptos a participar com Deus em comunhão espiritual somente se andarmos na luz (em Sua Palavra). Esta é a mensagem que dEle ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nEle não há treva alguma. Se afirmarmos que temos comunhão com Ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andamos na luz, como Ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, Seu Filho, nos purifica de todo pecado (1 Jo 1.5–7).

O que significa participar indignamente? 

Cada um que participa da Ceia do Senhor deverá examinar-se para estar convicto de que está participando de maneira correta, discernindo o verdadeiro significado do memorial em nome do Senhor. Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim, coma do pão e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si (1 Co 11.27–29).

A palavra grega “ἀναξίως (anaxiōs), para descrever “indignamente”, significa “de um modo indigno”. Ela não descreve a dignidade de uma pessoa (ninguém é verdadeiramente digno de comunhão com Cristo). Esta palavra descreve o modo de participar. A pessoa que não leva a sério esta comemoração está brincando com o sacrifício de Cristo, e está se condenando por não discernir o corpo de Cristo. Por essa razão, devemos ser muito cuidadosos cada vez que participarmos da Ceia do Senhor. É imperativo que esqueçamos as preocupações mundanas e prestemos atenção exclusivamente à morte de Cristo. Se tratarmos a Ceia do Senhor como um mero ritual, ou se a tomarmos levianamente e deixarmos de meditar em seu significado, nos condenamos diante de Deus. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor (1 Co 11.29).

A Ceia em alguns aspectos 

Quando celebramos a Ceia, o nosso primeiro foco é o passado. A igreja à volta da mesa celebra em memória do Senhor (1 Co 11.23–25). Celebramos a Ceia em memória do Senhor. Somos um povo com história, mas acima de tudo, um povo com lembrança. Não esquecemos o nosso passado e muito menos o agir de Deus. Este olhar retrospectivo fala-nos do quê? Ele declara o agir de Deus na história e o cumprimento de Sua Palavra.

Celebrar a Ceia do Senhor é afirmar que Deus não nos abandonou. É afirmar que Ele e a sua aliança permanecem inalteráveis em relação ao ser humano; é declarar que Deus continua a comunicar-se conosco através de Sua Palavra.

Quando celebramos a Ceia, olhamos para o Calvário. Vemos a morte do Senhor Jesus. “O partir do pão e o beber do vinho são uma representação do corpo partido de nosso Senhor, Seu sangue derramado”. Celebrar a Ceia é olhar para trás e ver a vergonha da cruz. Ao celebrarmos a Ceia, olhamos para o passado e vemos que a morte foi vencida. É ver a ressurreição. O texto citado fala que anunciamos a morte até que Ele venha. Ou seja, o texto diz que o Senhor ressuscitou. Olhando para trás, vemos este acontecimento histórico, mas também contemplamos a vida.

Celebrar a Ceia é olhar para o passado e ver toda a graça de Deus. É poder contemplar o amor imensurável de um Deus que age na história e cumpre as Suas promessas. Celebrar a Ceia não é apenas visualizar e recordar o passado; é também fazer uma viagem interior. É olhar para si mesmo. O apóstolo Paulo declara: Examine, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão, e beba deste cálice (1 Co 11.28). Paulo ordena que façamos uma viagem interior. Devemos lembrar que a fé é individual. A salvação foi para todos, mas não somos salvos aos grupos e sim individualmente. Portanto, cada um deve fazer essa viagem interior. Mas qual o sentido da mesma? Para ver se existe real compreensão deste memorial. Devemos nos fazer a seguinte pergunta: Será que entendo todo o sentido deste memorial? É preciso uma auto avaliação para saber se há entendimento da intervenção histórica de Deus, e que este momento representa a maneira pela qual Deus, através de Jesus Cristo, nos redimiu.

Este exame serve para que se traga à memoria a misericórdia de Deus e para a percepção (consciência) também de que este momento é muito mais que um rito; é a expressão visual de tudo quanto Deus fez por nós e para nós em Cristo Jesus. E se Cristo me amou, devo amar ao meu irmão (Jo 13.34-35; 1 Jo 4.12,20-21). Por fim, devemos nos perguntar: Será que tenho discernido o corpo? O que significa discernir o corpo de Cristo? Wayne Grudem (Grudem, 1999) declara:

Assim, a frase “sem discernir o corpo” significa sem entender a unidade e a interdependência das pessoas na igreja, que é o corpo de Cristo. Significa não dar atenção aos nossos irmãos e irmãs quando vamos participar da Ceia do Senhor, na qual devemos refletir o caráter de Cristo.

Celebrar a Ceia é viver a esperança. É olhar para cima na expectativa da chegada do Senhor. O apóstolo Paulo declara: Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha (1 Co 11.26). Aqui há a certeza de que o Senhor vai regressar. Ele voltará para os Seus.

Estamos a dizer ao mundo que o Senhor vai retornar. Declaramos que somos o povo da esperança e que aguardamos a chegada do nosso Mestre. Aguardamos porque foi o próprio Senhor que garantiu a sua volta. Ele disse: E quando Eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde Eu estiver estejais vós também (Jo 14.3).

Esta é a promessa que Ele nos fez. Celebrar a Ceia do Senhor é saber que o Senhor que subiu aos céus regressará. Lucas enfatiza: E, estando com os olhos fitos no céu, enquanto Ele subia, eis que junto dEle se puseram dois homens vestidos de branco. Os quais lhes disseram: Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir (At 1.10-11). O Senhor vai voltar!

A celebração da Ceia é o momento em que voltamos os nossos olhos para o alto, conscientes que o regresso do Senhor será glorioso e será também um dia de justiça. Aqueles que o receberam como Senhor e Salvador desfrutarão da Sua graça. Entretanto, todos aqueles que o rejeitaram, sofrerão a ira do Senhor, o “ódio” Santo de Deus.

 

CONCLUSÃO

A Ceia não é um simples rito. É mais que um momento litúrgico. A celebração da Ceia do Senhor manifesta toda a graça de Deus. Desta forma, quando celebramos a Ceia, precisamos olhar para o passado e perceber seu contexto histórico. Deus entrou em nossa história. Ele cumpriu a Sua Palavra. Deus é fiel. Quando celebramos a Ceia estamos a dizer que o Senhor age na história e que recordamos a Sua manifestação.

Quando celebramos a Ceia devemos fazer uma viagem interior. Precisamos olhar para nós mesmos para ver se percebemos a intervenção histórica de Deus, mas também para ver se as nossas vidas estão retas diante do Senhor e para sabermos se mantemos comunhão com nossos irmãos.

Celebrar a Ceia é manter viva a proclamação do Evangelho. É anunciar a morte do Senhor até que Ele venha. É garantir que jamais a mensagem da graça será adulterada.

Celebrar a Ceia do Senhor é olhar para o alto. É ter o coração expectante pela gloriosa manifestação do Senhor ao Seu povo. Ele vai voltar. Quando formos celebrar a Ceia do Senhor, devemos fazer o seguinte: 1) Olhar para trás, ver a manifestação histórica do Senhor; 2) olhar para dentro de nós mesmos para saber se estamos aptos; 3) olhar para fora. Declarar ao mundo a graça de Deus; e 4) olhar para o alto. Tendo o desejo ardente do regresso do Senhor.

Eu sou o Pão Vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que deverei dar pela vida do mundo é a minha carne (João 6.51).

 

A Ceia do Senhor (1/2)

 

NOTA:

Algumas citações de Doctrine according to Godliness (pg. 255-280). Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto.

 

Autor: Plínio Sousa

Divulgação: Reformados 21

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