Crente ou Descrente: qual a sua condição?

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Texto base: Lucas 11.33-36

INTRODUÇÃO

Esta pequena parábola foi incluída nos evangelhos em conexões diversas e com diferentes aplicações.1 Outros ensinamentos de Jesus acerca da luz que deve ser vista pelo mundo, descritos em Lucas 8.16, Mateus 5.15-16 e em Marcos 4.21-22, não possuem o mesmo sentido no presente contexto de Lucas, ainda que as palavras sejam similares. Existem algumas diferenças em relação ao contexto que cada um dos evangelhos apresenta sobre o que Jesus realmente quer que as pessoas entendam com esta parábola.

William Hendriksen afirma que no caso do evangelho de Lucas e seu paralelo em Mateus, o estudo contextual mostra o fato de que as duas passagens não têm o mesmo propósito e significado. No contexto de Mateus, o sentido é: Sejam testemunhas. Aqui em Lucas, o sentido básico é: Permitam que a luz ilumine seu próprio coração, não a obstrua.2

Contudo, ainda que o propósito de deixar que a luz ilumine os demais esteja presente aqui, como esta sequência demonstra, não obstante esse não é o sentido principal da passagem. O contexto precedente, que começa nos versículos 14-32, é a base de todo o ensinamento de Jesus nesta perícope.

Nos versículos 33-36, Jesus estende o assunto da luz e conclui no restante do capítulo 11 e 12 declarando que, pelas trevas da incredulidade e da religião hipócrita e legalista, os seus inimigos – os fariseus e escribas –, não deixaram a luz do evangelho brilhar em suas vidas.

O significado desta parábola é que a luz do corpo depende do olho. Se o olho for são, o corpo recebe toda a luz que necessita; se o olho estiver doente, a luz então se obscurece. Do mesmo modo, a luz da vida depende do coração. Se este estiver bem, toda a vida se enche de luz; se funcionar mal, fica obscurecido. Jesus insiste para cuidarmos que nossa lâmpada interior sempre ilumine.3

O esboço analítico desta parábola pode ser divido em quatro pontos:

  1. A transformação produzida pela Palavra não deve ser escondida (11.33)
  2. O contraste entre a fé e a incredulidade (11.34)
  3. Como identificar se há fé ou incredulidade (11.35)
  4. O resultado da vida transformada pela Palavra (11.36)

 

EXPLANAÇÃO

  1. A transformação produzida pela Palavra não deve ser escondida (vs.33)

Jesus retrata aqui uma casa de um cômodo em que uma lâmpada, tendo sido acesa, não deve ser colocada em um lugar escondido nem sobre uma vasilha, pois seria inútil acender uma lâmpada com esse propósito. Entretanto, a lâmpada, quando acesa, deve ser colocada no velador ou candelabro, a fim de que os que entrarem na casa sejam iluminados, podendo distinguir toda a casa nitidamente. Sendo assim, o propósito da lâmpada é iluminar.

A candeia é uma lâmpada ou lamparina. “Era um objeto de barro na forma de um prato com uma asa em um das bordas; no lado oposto da asa havia uma extensão em forma de furo, com uma abertura para o pavio. Na superfície da lâmpada havia duas aberturas, uma para entrar o azeite a outra para a entrada de ar”.4

O lugar escondido era, especificamente, “um lugar escuro e oculto, um porão; já o alqueire era um vaso para medir cereais, com capacidade de 8,75 litros”.5 Em outras palavras, uma vasilha.

O velador ou candelabro era um objeto muito simples. Podia ser uma saliência a emergir da coluna que ficava no centro da habitação, ou uma simples pedra que sobressaía da parede interior, ou mesmo um pedaço de metal colocado de forma proeminente com o mesmo objetivo.6 O candelabro era um suporte para ser colocado a candeia ou lâmpada.

Na esfera natural, ninguém pensaria em acender uma lâmpada para, em seguida, escondê-la em algum lugar ou debaixo de uma vasilha;7 antes, o propósito da lâmpada é iluminar os que estão por perto. Portanto, a metáfora da lâmpada salienta a Palavra de Deus, o próprio Cristo, uma vez que Jesus, em sua primeira vinda, havia anunciado o evangelho para que todos pudessem ver a luz.

João 8.12 – Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. (ARC)

Certa vez, quando Jesus expulsou o demônio que havia deixado um homem mudo, muitos judeus e religiosos não creram nele. Disseram que Jesus expulsava demônios não pelo poder de Deus, mas por Belzebu, o príncipe dos demônios (Lc 11.14-15). Outrossim, eles também pediram um sinal do céu, isto é, uma prova cabal de sua divindade, de que Ele realmente era quem dizia ser – o Messias, o filho de Deus, o salvador e o próprio Deus encarnado (vs.16, 29-32).

Talvez os judeus estivessem pensando isto: É por tua culpa mesmo que não cremos em ti! Jesus não era o culpado deles não crerem, mas eles mesmos eram os próprios culpados, porque a luz estava brilhando:

João 1.4, 9, 11 – A vida estava nele e a vida era a luz dos homens… a saber, verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.

A incredulidade dos religiosos impediu que a luz brilhasse no candelabro, ou seja, em seus corações e os transformasse, para que todos enxergassem a luz, que é Cristo e sua Palavra. “O problema achava-se na vista deficiente deles”,8 na maneira errada como enxergavam e entendiam as palavras de Jesus. William Hendriksen diz que o Pai enviou ao mundo o seu filho para ser luz, mas essas pessoas estavam voltando às costas para esse grande dom.9

APLICAÇÃO PRÁTICA

A luz e a escuridão física são a chave para a compreensão do conceito de luz e escuridão no âmbito espiritual. A luz é uma metáfora para compreender a verdade revelada por Deus em Cristo. Por meio dEle, a luz da glória de Deus foi revelada aos homens (2Co 4.6). A Palavra de Deus é a luz que brilha na escuridão. Ela é o guia que mostra o caminho da vida aos que se encontram nas trevas da incredulidade e do pecado. Logo, quem não compreende e vive o evangelho está em trevas.

Salmo 119.105 – Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para os meus caminho.

Provérbios 6.23 – Porque o mandamento é lâmpada, a instrução é luz… (NVI)

Ora, não é suficiente a luz do evangelho brilhar só externamente em nós, através de uma mera compreensão intelectual acerca de Deus, de Cristo e sua obra redentora, das doutrinas centrais da fé e suas implicações. A luz deve penetrar interiormente em nossa vida através da fé e da prática do evangelho, a fim de que Deus produza as mudanças que a nossa vida necessita, quer seja nos convertendo, gerando o arrependimento e a fé através da regeneração [uma vez que “a conversão é obra de Deus e obra do homem, ou seja, é preciso que Deus nos converta e, ainda assim, nós precisamos nos converter a ele”10], quer seja nas mudanças de nossa conduta moral, que são necessárias diariamente, para que assim possamos progredir na santificação e crescermos na vida cristã, produzindo frutos que glorificam a Deus.

Romanos 6.22 – Mas agora, libertos e tendo sido feitos escravos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação e, por fim, a vida eterna. (Almeida Século 21)

2 Coríntios 7.1 – Amados, visto que temos essas promessas (promessas de vida eterna e comunhão com Deus), purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus. (NVI)

  1. O contraste entre a fé e a incredulidade (vs.34)

Conforme vimos, a lâmpada representa a palavra de Deus, o próprio Cristo. Todavia, aqui, “o olho é o orgão que recebe luz, e Jesus fala dele como sendo a lâmpada do corpo”.11“Os olhos são a lâmpada – isto é, a fonte da luz para o corpo”.12

Quando os olhos de uma pessoa estão em boa condição, todo o corpo recebe o beneficio da luz e saberá exatamente o que fazer. O pé saberá onde pisar. A mão discernirá o que deve pegar, etc.13 Em suma, o homem pode realizar praticamente qualquer atividade do corpo quando tem boa iluminação.14

Entretanto, se os olhos de uma pessoa não estiverem em perfeitas condições, “de modo que ela não possa fazer uso da luz, quase toda função será prejudicada. A deficiência dos olhos afeta de maneira adversa tudo quanto o homem faz”.15 Os órgãos do corpo sobre os quais normalmente ele exerceria um controle consciente, agora se negarão a funcionar adequadamente. É como se estivesse no escuro sem saber o que fazer. Em outras palavras, essa pessoa andará aos tropeços no escuro.16

APLICAÇÃO PRÁTICA

A figura do olho sadio está ligada à figura da lâmpada (vs.33). “Ambas as figuras falam sobre o efeito positivo da verdadeira luz”.17 Quando uma pessoa é verdadeiramente cristã, todo o seu corpo será iluminado. Quando fixamos o nosso olhar na luz de Cristo, nós recebemos todos os benefícios da salvação em nossa vida através de uma profunda comunhão com ele. Você tem olhado para a luz?

Quando olhamos para a luz, vivemos uma vida piedosa e dedicada a Deus. Temos o hábito de orar, de ler e meditar nas Escrituras; temos o desejo e o prazer de sempre estarmos nos cultos, para que a cada dia possamos crescer no conhecimento e na graça de Cristo Jesus. Porém, quando o seu  olho é mau, isto é, quando a sua atenção está focada nas coisas deste mundo, nas futilidades da vida e no pecado, ele é completamente corrompido pelas trevas. Se você está em trevas, ore e peça a Deus o que está escrito no Salmo 18.28 – O senhor meu Deus, derrama luz nas minhas trevas.

Em contrapartida, “as pessoas que buscavam somente sinais e milagres na época de Jesus, não precisavam de mais luz, pelo contrário, precisavam prestar mais atenção à luz que já estava iluminando”.18

John MacArthur observa que o problema era a percepção deles [“dos judeus incrédulos e dos religiosos”, minha ênfase], não a falta de luz. Eles não precisavam de um sinal, precisavam de um coração para crer na grande mostra de poder divino que já tinham visto.19

O que Deus estava fazendo por intermédio de Jesus já era mais do que suficiente.20 Os escribas e fariseus afirmavam ver a luz ao estudar a Lei, mas na verdade estavam vivendo nas trevas da incredulidade (Jo 10.34-39).21 A luz da glória de Deus que resplandece na face de Jesus Cristo (2Co 4.6) é completamente obscurecida para aqueles cujos olhos estão cegos pelo pecado.22

Este é o retrato de muitos “crentes” hoje. Assim como os judeus incrédulos, são ávidos por sinais e prodígios. Estes “crentes” não precisam de mais luz, precisam de olhos para que a luz entre nas trevas da religiosidade morta e a dissipem. Em muitos casos, crentes que possuem uma cosmovisão distorcida do evangelho não são regenerados. Precisam nascer de novo!

  1. Como identificar se há fé ou incredulidade (vs.35)

Enquanto o discurso de Jesus nos versículos 15-20 tinha como alvo a multidão, agora, o foco é cada pessoa individualmente. Jesus alerta para termos o cuidado de examinarmos a nós mesmos, para que a luz que está em nosso interior não sejam trevas.

Somos exortados a refletirmos se a luz do evangelho que há em nós têm produzido mudanças em nosso coração, de modo que os frutos do Espírito atestem o novo nascimento ou, se na verdade, estamos enganados, e que dentro de nós há somente escuridão e vazio. Os pecadores que pensam que a escuridão em que se encontram é luz, estão em uma situação de perigo mortal.23

APLICAÇÃO PRÁTICA

Devemos questionar a nós mesmos! Devemos ponderar sobre a nossa conduta! O evangelho tem produzido mudanças em nossa vida? Temos progredido na santificação? Ou temos regredido para o pecado? Temos orado? Temos buscado conhecer mais a Deus através das Escrituras? Ou não temos interesse algum na leitura e no estudo teológico? Temos tido prazer em cultuar a Deus com os irmãos no local em que a igreja se reúne? Ou estamos sendo inconstantes na frequência dos cultos porque não temos mais tanto prazer nas coisas de Deus? Muitos já até perderam as forças espirituais e não conseguem mais participar dos cultos. O pecado enfraqueceu estas pessoas!

Se a sua vida está dessa maneira, a luz de Cristo não tem brilhado em sua vida e você está em trevas! Se esta é a sua realidade, se você não tem certeza se é um verdadeiro cristão, mas apenas um religioso, arrependa-se dos seus pecados e volte-se para Deus.

Provérbios 28.13 – Quem esconde os seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia. (ARC)

Contudo, se você é luz, um verdadeiro cristão, mas está vivendo um momento de fraqueza e desânimo na vida cristã, e não tem andado na luz, mas nas trevas, como um ímpio, vivendo na prática de algum pecado, decida mudar de vida, pois o Senhor é bondoso para perdoar os seus pecados, te purificar e te restaurar. E lembre-se do que Paulo diz e anime-se novamente:

Efésios 5.8-9 – Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade).

 

CONCLUSÃO

  1. O resultado da vida transformada pela Palavra (vs.36)

Temos aqui o resultado de uma vida iluminada pela luz de Cristo. Não obstante, outro aspecto de vital importância é mencionado no texto. Embora Jesus descreva o que acontece na vida de uma pessoa iluminada, todavia existem as condições necessárias para isto se tornar realidade.

Para aqueles que estão dispostos a se arrepender e renunciar o pecado que os cega, o dom da visão abre os olhos para bênçãos ilimitadas. Tornar-se um crente significa ter os olhos espirituais abertos para as verdades reveladas na Palavra de Deus (Sl 119.18, 105, 130; 2Pe 1.19). Depois de terem sido chamados das trevas para a maravilhosa luz de Cristo (1Pe 2.9), os crentes passam a andar na luz (1Jo 1.5-7), serem filhos da luz (Ef 5.8; 1Ts 5.5) e a desfrutar de comunhão com a luz do mundo (Jo 8.12).24

Em outras palavras, era como se Jesus dissesse: A condição para você estar completamente iluminado por mim (a lâmpada) é crer e deixar a minha palavra transformá-lo (vs.33). É você não deixar de olhar para mim para focar em coisas frívolas e más, as quais tiram o seu foco das coisas de Deus (vs.34). E você ter a certeza de que nasceu de novo através dos seus atos, se não, arrependa-se, abandone o pecado e volte-se para mim (vs.35). Estas são as condições. O resultado é que você será plenamente iluminado pela minha Palavra (vs.36b).

Provérbios 4.18 – Mas a vereda (o caminho) dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.

Filipenses 1.6 – E estou certo disto: aquele que começou a boa obra em vós irá aperfeiçoá-la até o dia de Cristo Jesus. (Almeida Século 21)

 

 

NOTAS:

  1. William Barclay. Lucas, pág 133.
  2. Russel Normam Champlin. Lucas, pág 120.
  3. William Hendriksen. Lucas, volume 2, pág 138.
  4. Ibid, Lucas, volume 1, pág 573-574.
  5. Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Linguística do Novo Testamento Grego, pág 130.
  6. Ibid.
  7. William Hendriksen. Lucas, volume 2, pág 139.
  8. Bíblia de Estudo NVI. Notas de Rodapé, pág 1752.
  9. William Hendriksen. Lucas, volume 2, pág 139.
  10. Antony Hoekema. Salvos pela Graça, pág 119.
  11. Leon Morris. Introdução e Comentário de Lucas, pág 191.
  12. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pag 1345-1346.
  13. William Hendriksen. Lucas, volume 2, pág 139.
  14. Leon Morris. Introdução e Comentário de Lucas, pág 191.
  15. Ibid.
  16. William Hendriksen. Lucas, volume 2, pág 139.
  17. Bíblia de Estudo Plenitude. Notas de Rodapé, pág 1045.
  18. Bíblia de Estudo Genebra. Notas de Rodapé, pág 1342.
  19. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pag 1346.
  20. Bíblia de Estudo Genebra. Notas de Rodapé, pág 1342.
  21. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Novo Testamento, pág 282.
  22. The MacArthur New Testament Commentary. Luke 11-17.
  23. Ibid.
  24. Ibid.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

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