O arminianismo como uma criação do calvinismo

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A Assembleia de Deus e as demais igrejas pentecostais não podem ser chamadas de “igrejas arminianas”. Vejamos as razões para isso.

Introdução

O presente artigo tem a finalidade de mostrar que o movimento arminiano não sobrevive como força teológica no cristianismo não católico se não for a sua antítese, o movimento soteriológico calvinista, que difere do calvinismo confessional, que busca ver a si como igreja, à semelhança da Igreja Luterana.

  1. Não existe uma Igreja Arminiana no mundo

Ainda que se argumente que a atual Fraternidade Remonstrante é a herdeira dos remonstrantes originais e de Armínio, facilmente se cairá em contradição. É fato que a atual Igreja Remonstrante é uma igreja liberal, que nega as verdades essenciais do cristianismo, inclusive sendo favorável ao casamento homossexual. Além disso, não existe uma igreja plenamente reconhecida pelas diversas federações, comunhões e alianças protestantes que visível e solidamente sustente uma ecclesia remonstrante, isto é, uma igreja remonstrante ortodoxa, com ethospróprio, distinto de todas as outras igrejas e que seja sistemática, tenha seminários, missionários, editoras e pastores espalhados pelo mundo. O que existe solidamente hoje, portanto, é apenas lembrança de um passado no qual esse grupo se fez valer dentro de uma certa uniformidade que já não existe (pelo menos, tal como era)!

  1. Wesleyanismo não é o mesmo que arminianismo, se se quer afirmar a existência de um arminianismo clássico ou ortodoxo

É certo que muitas pessoas no anglicanismo, no meio batista e em outros grupos, se afirmaram “arminianas”. Tal aconteceu com John Wesley e com muitos metodistas, de modo que hoje muitos confundem metodismo com arminianismo. Acontece, porém, que a doutrina de Wesley não é exatamente igual à de Armínio. Isso é muito notório quando se estuda a doutrina wesleyana da perfeição cristã, por exemplo. Alguns chamam a revisão wesleyana do arminianismo de visão wesleyana-arminiana. O fato, todavia, é que o wesleyanismo não é o arminianismo ortodoxo ou clássico (nem o anglicanismo – com o seu episcopado, a sua doutrina peculiar do batismo, a sua abertura interpretativa da liturgia etc. –, do qual saiu).

  1. Batistas Gerais e Anabatistas também não representam o arminianismo clássico ou ortodoxo

A crença batista e anabatista no rebatismo ou no batismo adulto, somente, também chamada de credobatismo, já é suficiente para mostrar uma clara diferença entre ambos e o arminianismo. Mas isso seria muito pouco. Outras questões também estão em jogo. Por exemplo, os anabatistas, em suas diversas versões, possuíam doutrinas sobre santificação, perfeição cristã, revelação do Espírito Santo, escatologia que são estranhas ao arminianismo. Os batistas gerais ingleses também possuíam um sistema eclesiológico próprio, o congregacional (contrário ao presbiteriano e ao modelo reformado continental). Como não conformistas em um país dominado por um anglicanismo estabelecido, eles também possuíam uma concepção própria de unidade cristã, isto é, tinham posições próprias sobre as doutrinas fundamentais da fé, o separatismo e sobre a liberdade cristã. Além disso, pode-se argumentar que os batistas gerais acrescentaram a si doutrinas novas ao longo dos anos e, por falta de um sistema teológico sólido, mesmo que não fossem plenamente arminianos na sua época, não tinha eles mesmos uma ortodoxia bem definida.

  1. Tampouco são arminianos ortodoxos ou clássicos os evangelicais modernos, os pentecostais ou os neopentecostais

O liberalismo teológico evangélico, a neortodoxia e as demais teologias desenvolvidas em anos recentes, por motivos óbvios, isto é, por terem fundamentos novos, teses novas, não podem ser consideradas arminianas. Muitos, porém, chamam de arminianos os chamados “pentecostais clássicos”. Isso é espantoso, pois grande parte dos pentecostais, além de terem uma doutrina dos dons do Espírito peculiar, embora não exatamente nova, são dispensacionalistas, sionistas, milenaristas, congregacionais e episcopais em seus modelos eclesiásticos e credobatistas. Os neopentecostais tendem a acrescentar a tudo isso a teologia da prosperidade e a da autoridade apostólica dos líderes.

  1. Por que, então, muitos calvinistas falam sempre em arminianismo?

O luteranismo, que sempre se posicionou como uma igreja visível, mais ainda por causa do seu forte confessionalismo, foi, por um considerável tempo, o principal adversário de um calvinismo também confessional, com seus catecismos e um sistema teológico definido. Entretanto, com o crescimento de outro tipo de calvinismo, o calvinismo evangélico, pouco confessional e resumido aos chamados Cinco Pontos do Calvinismo (que foram formalmente articulados em oposição aos cinco pontos dos remonstrantes), isto é, um calvinismo reduzido a uma soteriologia, outro adversário tomou o lugar da Igreja Luterana (vista como muito católica, como uma tentativa de reforma que não se consolidou): o movimento soteriológico arminianismo. Ora, uma vez sendo reduzido a uma soteriologia, pouco importando as diversas diferenças eclesiológicas, escatológicas, em relação ao judaísmo, cristológicas, etc., esse calvinismo passou a chamar de arminiano a todo aquele que em sua igreja fosse evangélico sinergista pós-Armínio, mesmo que essa igreja possuísse uma eclesiologia, uma escatologia, uma antropologia, uma cristologia estranhas ao movimento remonstrante e a Armínio. É sabido que muitos crentes pentecostais chamados de arminianos por calvinistas nem sabem o que esse termo significa e nunca ouviram falar em Armínio.

  1. Existem pessoas arminianas, não igrejas arminianas

Sim, é notório que o chamado arminianismo tem ganhado adeptos no Brasil. Mas esses adeptos não são membros de igrejas arminianas, como demonstrado acima. São membros de igrejas batistas, assembleias de Deus, igrejas do Nazareno, igrejas metodistas, etc. Sim, essas pessoas têm todo o direito de admirarem Armínio e de se autodenominarem arminianas, mas, assim como o que aqui foi dito sobre o calvinismo evangélico, suas igrejas não podem ser consideradas arminianas ortodoxas ou clássicas, mas sim, igrejas evangélicas com soteriologia sinergista (um termo mais genérico para a soteriologia por elas defendidas) ou mesmo igrejas evangélicas abertas à construção de um sistema teológico, haja vista existirem pessoas com soteriologia abertamente monergista nessas igrejas.

Conclusão

Enquanto o debate do evangelicalismo calvinista-arminiano prossegue incansavelmente, a Igreja Luterana passa despercebida pelos evangélicos e, com ela, aquele calvinismo (confessional) que um dia foi muito mais que uma soteriologia.

 

 

NOTAS:

SCOTT, Clark. Recovering the Reformed Confession. (P&R, 2008)

Clark. Protestant Scholasticism: Essays in Reassessment (Carlisle, UK: Paternoster, 1999).

Clark. Baptism, Election, and the Covenant of Grace (Grand Rapids: Reformed Fellowship, 2007).

TRUEMAN, Carl. O Imperativo Confessional. Monergismo, Brasília, 2012.

 

 

Autor: Daniel Branco

Artigo extraído da Fan Page Congregação Luterana da Reforma

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