A Liberdade do Princípio Regulador

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Apesar de ter crescido em uma igreja reformada, até o seminário eu era mais um da multidão de cristãos que nunca havia ouvido falar do princípio regulador do culto. Ele não faz parte da minha identidade. Mas com o passar dos anos, comecei a apreciar esse princípio mais e mais.

De forma resumida, o princípio regulador do culto (PRC) declara que “o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e, assim, limitado pela sua vontade revelada” (Confissão de Fé de Westminster, Capítulo XXI, Item I). Em outras palavras, o culto congregacional deve ser composto por elementos que podemos ver como apropriados a partir da Bíblia.

O PRC diz: vamos adorar a Deus conforme ele deseja ser adorado. No pior dos casos, esse princípio leva a constantes atritos e suspeitas entre os crentes. Cristãos lutam entre si ao tentar discernir exatamente onde o momento de ofertas se encaixa na liturgia ou qual o tipo preciso de instrumentos que as Escrituras permitem. Quando esperamos que o Novo Testamento nos dê um mapa levítico da liturgia que agrada a Deus, estamos fazendo à Bíblia uma pergunta que ela não se propõe a responder. É possível que o PRC se torne uma religião em si mesmo.

Mas o coração do princípio regulador não é a restrição. É a liberdade.

  1. Liberdade do cativeiro cultural. Quando o culto congregacional é deixado à mercê da nossa imaginação, rapidamente nos perdemos na busca pela última moda. As características mais importantes passam a ser a criatividade, a relevância e a novidade. Mas, claro, com o tempo (e não muito tempo, atualmente), o que era novo se torna ultrapassado. Precisamos remodelar para sermos atraentes para a próxima geração. Ou nos contentarmos em ser uma igreja que só atinge a geração dos anos 80 ou só a dos anos 90.
  1. Liberdade das constantes brigas por preferências. O PRC não elimina completamente o papel da opinião de da preferência. Mesmo em um ambiente reformado conservador, líderes de louvor talvez discordem sobre estilo musical, transições, volume, ritmo e tantos outros fatores. Conflitos por preferências ainda ocorrerão, mesmo com o princípio regulador. Mas eles se enfraquecerão. Eu me lembro de alguns anos atrás, quando estava em uma reunião de planejamento de um culto (em outra igreja, que eu não pastoreava), onde as pessoas eram muito boas em trazerem ideias para o culto. Boas demais, até. Um dos cultos começou com a música de abertura do seriado Cheers. Em outro culto, perto do Dia do Trabalhador, as pessoas tinham que vir com seus uniformes de trabalho e dizer com o que trabalhavam. Todo mundo nessa reunião parecia ter alguma ideia pessoalmente significativa. O PRC não resolveria todos os nossos problemas, mas seria um bom filtro para eliminar algumas ideias bem intencionadas, mas bobas.
  1. Liberdade de consciência. Saindo da igreja Católica, com todos os seus rituais extra-bíblicos, as igrejas protestantes tinham que decidir como prestar culto à sua maneira. Alguns se sentiam confortáveis ao manter muitos dos elementos das missas. Outros associavam esses elementos a uma falsa religião. Não queriam voltar à bagunça dos ritos que haviam deixado para trás, mesmo que alguns, em si mesmos, não fossem ruins.

Nesse sentido, a dinâmica do princípio regulador foi muito importante. Cristãos reformados diziam: não queremos pedir aos membros de nossas igrejas que façam qualquer coisa que viole suas consciências. Talvez se curvar aqui ou beijar ali possa ser tranquilo no coração de alguns, mas e aqueles que consideram isso idolatria? Devemos pedir que façam como ato de adoração algo que a Escritura nunca ordena e que suas consciências não permitem? Isso não significa que os cristãos vão gostar de todos os hinos ou apreciar todas as escolhas musicais. Mas, pelo menos, com o princípio regulador, podemos ir à igreja sabendo que nada será pedido a nós, exceto o que pode ser claramente demonstrado na Palavra de Deus.

  1. Liberdade para ser multicultural. É uma pena que a maioria das pessoas pense que o culto segundo o princípio regulador seja o mais difícil de adaptar para outras culturas. E isso pode até ser verdade se o PRC for confundido como regras que ditam estilo, não conteúdo. Mas quando bem aplicado, o PRC significa que teremos cultos mais simples, com música, oração, leitura e pregação da palavra e os sacramentos – o tipo de culto cujo modelo pode funcionar em qualquer lugar do planeta.
  1. Liberdade para focar no que é central. Normalmente, quando converso sobre o culto congregacional, nem toco no assunto do princípio regulador. Ele é desconhecido de muitos e assustador para tantos outros. Então eu tento chegar à mesma ideia por um ângulo diferente. Eu diria algo como isso: O que sabemos sobre como eram os cultos cristãos na época da Bíblia? Nós sabemos que eles cantavam a Bíblia. Sabemos que eles pregavam a Bíblia. Sabemos que eles oravam a Bíblia. Sabemos que eles liam a Bíblia. Sabemos que eles viam a Bíblia nos sacramentos. Não vemos peças teatrais ou números de dança litúrgica. Então porque não vamos querer nos focar em tudo que eles faziam nesses cultos? Por que tentar incrementar os elementos que sabemos que agradam a Deus e eram praticados pela igreja primitiva?. Em outras palavras, o princípio regulador nos dá a liberdade para, sem qualquer desculpa, voltarmos ao básico. E ficarmos lá.

 

 

Autor: Kevin DeYoung

Fonte: The Gospel Coalition

Tradução: Filipe Schulz

Via: Reforma 21

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