Casamento, Divórcio e Novo Casamento (1/2)

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Texto base: 1 Coríntios 7.1-16

 

INTRODUÇÃO

Nos capítulos 5 e 6, Paulo abordou a questão do incesto, dos litígios e da fornicação. Indignado, ele censura a omissão e a tibieza dos coríntios em sanar os problemas morais existentes na igreja e, ao mesmo tempo, encoraja-os a viverem de forma piedosa, a fim de glorificarem a Deus. Até então, Paulo ainda não havia descrito nenhuma orientação acerca do celibato, sexualidade, casamento, divórcio e novo casamento. Agora, no capítulo 7, ele responde algumas perguntas sobre essas questões através de uma carta que a igreja de Corinto havia lhe enviado. Os muitos problemas e as dúvidas que a igreja enfrentava haviam chegado ao conhecimento de Paulo por intermédio de relatos orais.

Provavelmente, os capítulos 1.11, 5.1 e 6.1, remontam a notícias pessoais que o apóstolo havia recebido de três homens enviados pelos coríntios – Estéfanas, Fortunato e Acaico, os quais supriram algumas necessidades materiais de Paulo, quando estava em Éfeso (1Co 16.17). Esses homens também levaram uma carta que os coríntios escreveram para o apóstolo, que incluía determinadas perguntas e relatava os problemas que estavam ocorrendo na igreja. Algumas destas perguntas eram sobre problemas matrimoniais (vs.1a).

No capítulo 7, especificamente na perícope que iremos analisar, Paulo responde as perguntas dos coríntios apresentando diretrizes básicas para o celibatário, para os casados, os que desejam se casar, os que no passado foram casados, para aqueles que querem permanecer solteiros e a privação sexual.

Todavia, Paulo abordou algumas questões que Jesus não ressaltou em seus ensinamentos nos evangelhos. Quando um assunto suscitado pelos coríntios já havia sido discorrido por Cristo, Paulo se dirigia às Suas palavras (vs.10-11). Entretanto, se uma pergunta dos coríntios promovia um tema que Jesus não havia abordado, Paulo respondia fazendo uso da sua autoridade apostólica. Quando escreve não recorrendo ao que o Senhor Jesus disse sobre determinado assunto, é porque ele mesmo irá tratar disso (vs.12-16, 25-40). Jesus tratou sobre casamento e divórcio em Mateus 5.31,32, 19.1-12; Marcos 10.1-12 e Lucas 16.18.

Os destinatários das orientações de Paulo sobre o casamento, divórcio e novo casamento são:

1) Cristãos casados com cristãos (7.1-11)

2) Cristãos casados com não cristãos (7.12-24)

 

EXPLANAÇÃO

1) Cristãos casados com cristãos (7.1-11)

No mundo antigo, muitos admiravam hábitos ascéticos, como o celibato. De certa forma, alguns crentes da igreja de Corinto dimidiavam dessa admiração. Tendo em vista que “o sexo era pecado” [segundo alguns radicais imaginavam], e os inúmeros problemas que há no casamento, seria melhor ficar solteiro ou aderir ao celibato, que era uma “condição mais espiritual” do que ser casado. Essa ideia equivocada e herética poderia levar alguns falsos religiosos e falsos mestres a defenderem o divórcio para que a pessoa voltasse a ser solteira, a fim de obter uma condição espiritual superior. Com efeito, este trecho eleva a condição de solteiro desde que a pessoa seja celibatária, e também demonstra que o casamento não é algo inferior e menos espiritual do que o celibato.

1.1 Os benefícios do casamento (7.1-9)

Paulo já havia escrito uma carta à igreja de Corinto, exortando-os a não se associarem com cristãos que praticassem imoralidades (5.9-11). É bem provável que esta carta tenha se perdido e não exista mais. O apóstolo, por sua vez, também recebeu uma carta vinda dos coríntios solicitando conselhos acerca de várias questões (vs.1a). Sendo assim, a maior parte da carta que Paulo enviou aos coríntios são respostas às perguntas que eles lhe fizeram (7 – 16.12). Ora, em um mundo que reina a lubricidade, isto é, a impureza sexual, a maior vantagem que o celibato e o casamento proporcionam é justamente a pureza sexual, a qual é formada por cinco pilares. Senão vejamos:

i. O celibatário compelido é reprovado pela Escritura (vs.1)

A primeira pergunta que os coríntios fizeram a Paulo deve ter sido se “o celibatário é mais espiritual do que o casado”. A expressão não é bom que o homem toque em mulher é um eufemismo, ou seja, é uma figura de linguagem que camufla uma ideia “desagradável” através de uma expressão mais “lene” (por exemplo, “ir para o céu” é um eufemismo para “morrer”). Essa expressão é um sinônimo de casar-se, e abarca todas as relações sexuais, quer dentro ou fora do casamento. Portanto, “o não tocar em mulher” aqui não se refere ao celibato, mas ao ato sexual (veja Gn 20.6; Pv 6.29). Talvez os coríntios inclinados ao ascetismo tenham recorrido à condição de Paulo para confirmarem suas posições sobre o celibato; contudo, este não era o seu entendimento acerca das relações sexuais (vs.2-5; 1Tm 2.15).

Paulo, então, escreve que o celibato é bom e permitido, mas não é obrigatório, visto que nem todos têm o dom do celibato (vs.7-9). Com essa afirmação, Paulo está dizendo que o celibato é preferível ao casamento, como alguns crentes de Corinto pensavam? Não! Paulo reconhece que há benefícios em se permanecer solteiro (vs.7-8, 26). Ele fornece algumas vantagens para que o cristão, dotado desta capacidade, possa escolher esta condição de vida.

Por outro lado, Calvino disse que Deus ordenou no princípio que o homem sem esposa era meio homem, por assim dizer, e sentia a falta de auxílio de que ele especificamente precisava; e a esposa era, por assim dizer, o complemento do homem. O pecado atingiu e poluiu a instituição divina [o casamento], pois em lugar de benção se transformou numa fonte de muitos problemas. Portanto, qualquer mal ou dificuldade que exista no casamento surge da corrupção da instituição de Deus.1

Com as diretrizes para o casamento (vs.2-5), que demonstra experiência e a possibilidade de ter sido casado, Paulo acentua a importância do mesmo. Em Efésios 5.22-33 e 1 Timóteo 3.2, o apóstolo descreve o casamento como algo positivo. O casamento, o sexo e a procriação fazem parte do plano de Deus (Gn 1.28-29; 2.18). Não obstante os falsos mestres do passado proibiam o casamento, tendo-o como algo depreciável (1Tm 4.3). A intenção de Paulo, aqui, é corrigir a ideia equivocada e herética daqueles que cominavam o celibato.

ii. O celibato e o casamento impedem a fornicação (vs.2)

A imoralidade sexual imperava em Corinto. A cidade era famosa por sua promiscuidade. Por conta disso, ao escrever o capítulo 7, Paulo deveria ter em mente a questão dos cristãos que se relacionavam sexualmente com as prostitutas da cidade, um assunto que ele tratou no capítulo 6.15-20. Com a expressão mas por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o seu próprio marido, Paulo descreve a incapacidade que algumas pessoas tinham em dominar-se sexualmente, o que as impeliam ao pecado. A fim de evitar que os crentes que não possuem o dom de celibato pratiquem o hábito pecaminoso da fornicação, Paulo recomenda que eles se casem.

Calvino observa apropriadamente a seguinte questão:

Mas alguém perguntará: “A cura para a incontinência é a única razão para se contrair o matrimônio? Minha resposta é que isso não é o que Paulo pretende dizer. Aos que desfrutam do dom da capacidade de suprimir o matrimônio, ele dá a liberdade de se casarem ou não. Ordena, porém, aos demais que queiram casar-se, que atentem bem para suas fraquezas. O que importa é o seguinte: o que está em jogo aqui não são as razões pelas quais o matrimônio foi instituído, e, sim, as pessoas para quem ele é indispensável. Porque, se atentarmos para o primeiro matrimônio [Adão e Eva], percebemos que ele não podia ser um remédio para uma doença a qual ainda não existia [o pecado]”.2

Simon Kistemaker esboça que Paulo, nessa declaração, exclui também qualquer tipo de poligamia. O apóstolo enfatiza que deve haver igualdade entre o homem e a mulher no estado de matrimônio. Cada parceiro deve ter seu próprio cônjuge, pois foi assim que Deus ordenou desde o princípio (veja Mt 19.8b).3

Por outro lado, é bem provável que alguns cônjuges estivessem recusando ter relações sexuais com seus parceiros, o que levava estes últimos, a maioria homens, a buscar satisfação sexual com prostitutas. Paulo deixa implícito que o relacionamento sexual está limitado ao âmbito matrimonial; ele aconselha os crentes a se relacionarem sexualmente apenas no casamento, que, pautado nas Escrituras, restringe a imoralidade (vs.9).

iii. O casamento é heterossexual e não homossexual (vs.2)

Quando Paulo diz que cada homem tenha a sua esposa, e cada mulher tenha o seu marido, fica evidente a ideia de um relacionamento heterossexual. Na época do apóstolo, a união homossexual era algo comum. Ele define esse comportamento em Romanos 1.18-32 como algo vil, uma disposição condenável, uma abominação para Deus (veja Lv 18.22).

Hernandes Dias Lopes observa que a relação homossexual pode chegar a ser aprovada pelas leis dos homens, por causa da corrupção dos costumes, mas jamais será chancelada pelas leis de Deus. Uma decisão não é ética apenas por ser legal. Ainda que a relação homossexual se torne legal pelas leis dos homens, jamais será aprovada por Deus, pois fere frontalmente a Sua Lei.4

iiii. A importância das relações sexuais no casamento (vs.3-4)

Para solucionar o problema da imoralidade sexual no casamento, evitar o adultério e outros meios pecaminosos de satisfação sexual, como a pornografia, o meio de satisfação sexual mais comum hoje, Paulo orienta que o casal, unido pelo matrimônio, mantenha uma vida sexual ativa. Essa é a forma bíblica de refrear a motivação para recorrer aos meios perniciosos de satisfação sexual. Com um profundo entendimento do relacionamento conjugal, Paulo ensina que tanto o marido quanto a esposa devem observar seus deveres matrimoniais recíprocos. Numa época em que o machismo imperava na sociedade, Paulo enfatiza a igualdade de ambos no relacionamento conjugal. Em outras palavras, ele destaca a mutualidade dos direitos conjugais. Vejamos, pois:

a) A obrigação do marido e da esposa (vs.3-4)

O termo conceda é um imperativo. Indica um “dever habitual”. Aqui, Paulo está se referindo ao relacionamento sexual. A Escritura condena como pecado o sexo antes do casamento, caracterizado pela fornicação, o sexo fora do casamento, caracterizado pelo adultério, e a ausência do sexo no casamento, que também é pecado. O marido deve cumprir a sua responsabilidade conjugal para com a sua esposa e, de modo semelhante, a esposa para com o marido. Por que a importância das relações sexuais no casamento?

Werner de Boor diz que em Corinto havia um perigo bem diferente: o “casamento de aparência”. As pessoas permaneciam casadas, mas rejeitavam qualquer vínculo físico mútuo, às vezes por decisão conjunta, às vezes por iniciativa de apenas uma das partes.5 Marido e mulher possuem direitos assegurados por Deus de desfrutarem da satisfação sexual no casamento.

Adiante, Paulo dirige-se contra qualquer tipo de arbitrariedade por parte de um dos cônjuges em reivindicar como seu direito pessoal dispor do próprio corpo (vs.4). O marido ou a esposa que se recusa a entregar o seu corpo para a satisfação sexual por chantagem, egoísmo, obstinação ou por qualquer outro motivo, defrauda o outro.

Warren Wiersbe afirma que marido e mulher não devem abusar do privilégio do amor sexual que constitui parte normal do casamento. O corpo da esposa pertence ao marido, e o corpo do marido pertence à esposa, sendo que ambos devem ter consideração um para com o outro. O amor sexual é um instrumento maravilhoso de edificação, não uma arma de destruição.6

b) A abstenção das relações sexuais só é permitida se houver consenso entre o casal (vs.5a)

O casamento sem sexo não é somente antinatural como também é expressamente proibido. Paulo não proclama nenhuma ordem sobre ascetismo dentro dos laços do casamento. Ele dissuade os cristãos coríntios bem-intencionados, porém mal-orientados, cuja opinião era que os casados deveriam se abster de relações sexuais.7 Paulo enuncia na parte a desse versículo que alguns casais da igreja de Corinto estavam privando um ao outro dos seus direitos conjugais. O verbo privar στερεί (stereí), traz a ideia de “subtração”. Denota “roubar algo que pertence à outra pessoa” (6.7-8). Aqui, indica “roubar os direitos de casado” (vs.3; Êx 21.10).

Paulo admoesta os casados a não usurparem o que lhes pertence por direito. Ele ensina aos coríntios que o “slogan” deles de “não tocarem em uma mulher para relação sexual” (vs.1b) não se aplica aos casados. O sexo no casamento é uma ordem apostólica. Faz parte de um casamento normal. A ausência do sexo no casamento é um pecado. O sexo é um direito sagrado do cônjuge. A abstinência sexual só é permitida se houver concordância entre o marido e a esposa e àqueles a quem isso beneficiar. A abstinência sexual não é uma prática ocasional para todos os casais.

c) A duração da abstenção (vs.5b)

A abstinência das relações sexuais, que é algo necessário para o casamento, não deve ser unilateral. Somente se o marido e a esposa concordarem que é por um tempo limitado. Hernandes Dias Lopes escreve:

Quando que um casal pode se abster do sexo? Quando ambos estão em total harmonia e sintonia a respeito da decisão. O homem não pode chegar para a esposa e dizer-lhe: “Esta semana ou este mês eu não estou disponível para a relação sexual”. Nem a mulher pode comunicar ao seu marido que ela está indisponível para ele. Se quiserem tomar essa decisão, os dois precisam estar em absoluto acordo. Às vezes, muitos casais cometem erros gravíssimos quando começam a dar desculpas infundadas para fugir da relação sexual, alegando cansaço, dor de cabeça e outras desculpas sem propósito. A Bíblia diz que essa atitude de boicote sexual no casamento é um pecado e uma desobediência a um mandamento bíblico. A abstinência sexual entre o casal não deve ser por um longo tempo. Paulo esclarece: Não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum tempo… (7.5a).8

Um longo período de abstinência sexual pode arruinar um casamento, podendo culminar em divórcio.

d) A abstenção só é permitida para dedicação à oração e se houver o compromisso do retorno às relações sexuais (vs.5c,d)

Finalmente, a abstinência sexual (algo semelhante ao jejum) só é permitida se o casal usar o tempo da privação para a se dedicar à oração e, por conseguinte, retornar a prática.

Simon Kistemaker elenca:

A oração diária é a marca de todo cristão sincero. Por vezes, na vida conjugal, marido e mulher enfrentam crises que pedem oração especial. Quando problemas financeiros, sociais, espirituais ou físicos aparecem para esmagá-los, eles fogem para Deus em oração. Nessas ocasiões, eles poderão voluntária e temporariamente abster-se de intimidades maritais.9

O cônjuge que priva o outro da relação sexual “rouba” aquilo que lhe pertence por direito. A abstenção sexual prolongada abre a “porta do casamento” para Satanás entrar e tentar o cônjuge defraudado a buscar satisfação sexual através de meios pecaminosos (vs.5d).

Hernandes Dias Lopes observa:

Quando um casal brinca com essa arma do sexo no casamento e chantageia o cônjuge, privando-o da satisfação a que tem direito, Satanás entra nessa história para colocar uma terceira pessoa na jogada e arrebentar com o casamento. Cabe aqui alertar sobre uma grande ameaça à vida sexual dos casais: a pornografia! A Palavra de Deus determina que o leito conjugal deve ser sem mácula (Hb 13.4). Há muitos homens, mesmo cristãos, que estão se tornando viciados em pornografia. São prisioneiros de um vício avassalador. Alimentam suas mentes com o lixo nauseabundo que sai dos esgotos pútridos dessa indústria pornográfica que destrói vidas e arrebenta famílias. Há muitos homens que, adoecidos por esse vício degradante, ainda aviltam sua mulher querendo importar para o leito conjugal essas práticas aviltantes.10

iiiii. Diretrizes para os solteiros, divorciados e viúvas (vs.6-9)

Todavia, o versículo 6 está ligado ao versículo 5c, e não ao contexto inteiro, que compreende os versículos 1-5. O termo concessão συγγνώμην (syngnó̱mi̱n), denota um “sentimento compartilhado”, “ter opinião com”, e refere-se à abstinência sexual que Paulo permite que o casal observe por um tempo.

Com o pronome demonstrativo isto, o apóstolo não se refere ao casamento em si, mas à abstinência sexual, que é uma exceção de regra dos direitos conjugais (vs.5b), do qual ele é concorde. No entanto, é importante frisar que o apóstolo não impõe essa “licença” para a abstinência sexual como um mandamento. Apesar de ter o dom de celibato e a capacidade para a abstinência sexual, o apóstolo não institui este dom para aqueles que não o possuem. “Paulo estabeleceu os deveres de todos os casados, mas não estabelece como dever que todos devem se casar”.11 No versículo 7-8, o apóstolo orienta três classes de pessoas: 1) os que nunca se casaram; 2) os divorciados; 3) as viúvas.

A vontade de Paulo é que os homens que nunca se casaram, os divorciados e a viúvas não se casem, mas permaneçam solteiros como ele. Essa afirmação expressa sua vontade, mas não um desejo improvável. Mas por qual motivo o apóstolo preferia que os solteiros não buscassem o casamento (vs.26,28)? O que Paulo tinha em mente com a expressão por causa da angustiosa situação no presente (vs.26a)? Duas coisas, pelo menos.

1) Paulo poderia ter em mente as muitas circunstâncias presentes que afligem um casamento, como doenças, problemas financeiros, familiares, com os filhos e com o próprio cônjuge.

2) Tendo em vista o contexto histórico da carta de 1 Coríntios, a tribulação daquela época que Paulo se refere “era a destruição de Jerusalém, que ocorreu cerca de quinze anos após Paulo ter escrito 1 Coríntios. Uma das mais severas pressões que tal crise provocaria seria o impacto destruidor na vida familiar”.12

Hernandes Dias Lopes expande:

Paulo está se referindo ao tempo tenebroso de implacável perseguição que a igreja estava prestes a enfrentar. Paulo estava em Éfeso quando escreveu essa carta (2Co 1.8). Esse era o clima que estava surgindo no horizonte. Jerusalém estava prestes a ser cercada. Suas muralhas seriam quebradas. Jesus já havia falado em seu sermão profético: Ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias (Mt 24.19). Por que Jesus disse isso no sermão profético? 

No ano 70 d.C., quando Tito Vespasiano entrou em Jerusalém e quebrou os seus muros, seus soldados rasgaram as entranhas das grávidas com a espada. As mulheres grávidas não podiam correr para se livrarem. Paulo está dizendo que quem é casado numa hora de tribulação, de guerra, de perseguição, de fuga, sofre terrivelmente. Já imaginou um pai fugindo e deixando um filho para trás? Já imaginou uma mãe fugindo da guerra e deixando uma filha indefesa para trás? Já imaginou um marido fugindo e deixando sua mulher para trás? Paulo está mostrando que o clima prenunciava um tempo de uma guerra que estava chegando. Nero já despontava com sua insanidade. O cenário para a perseguição implacável aos cristãos estava montado. Roma seria incendiada em 64 d.C., e os cristãos seriam caçados, perseguidos e mortos por todos os cantos do império.13

O casamento é uma instituição de Deus, sendo algo bom e recomendável; entretanto, nem todas as pessoas devem almejar o casamento. Existem homens e mulheres que não possuem a vontade de se casar porque receberam de Deus a capacidade para conter-se pelo celibato. Por outro lado, existem homens e mulheres que não foram dotados com a continência; esses, portanto, devem se casar para não viverem pecando na área sexual. Paulo recebeu o dom para o celibato e se alegrou com esta condição, mas entendia que nem todas as pessoas recebem os mesmos dons. Destarte ele ensina que o SENHOR outorga a cada pessoa o seu dom. Calvino escreve:

O estado de solteiro desfruta de muitas vantagens, e que estas não sejam subestimadas, contanto que cada um viva feliz com sua condição pessoal. Portanto, ainda que a virgindade [ou pureza sexual] seja exaltada até o terceiro céu, não obstante ainda permanece sendo verdadeiro que ela não é praticável a todos, senão apenas aos que a recebem como dom especial de Deus.14 

Tendo aconselhado aos não casados, Paulo, agora, dirige-se aos desprovidos da continência, dizendo no versículo 9: Mas, se vocês não podem dominar o desejo sexual, então casem, pois é melhor casar do que ficar queimando de desejo. (NTLH) Ou, conforme traduziu a NVI – pois é melhor casar do que ficar ardendo de desejo.

No grego, o verbo πυρονσθαι (pyrousthai), significa “arder, queimar”. No entanto, para que o sentido fique claro no contexto, devemos acrescentar a expressão desejo sexual. Os tradutores entendem que o verbo por si é incompleto, e por isso necessita de uma explicação. Portanto, conforme a NTLH e a NVI traduziram, o verbo arder, neste contexto, é relacionado à incontinência.

Paulo sabe que existem pessoas não casadas que não conseguem exercer o autocontrole na área sexual. A incontinência (desejo sexual) não é pecado, mas ceder a ela é pecado. Aquele que busca o prazer sexual através de meios pecaminosos, tais como a masturbação, pornografia e a fornicação, comete pecado. A fim de solucionar o problema da incontinência, Paulo sugere aos incontinentes que se casem. Com isso, o apóstolo não está repreendendo nem desaprovando os que não possuem continência. Pelo contrário, para evitar a possibilidade de ruir em pecado pela incontinência, Paulo ordena o casamento para os que não são casados. MacArthur acrescenta que uma pessoa não pode viver feliz e servir ao Senhor efetivamente se dominado por desejo sexual não satisfeito.15 O casamento é o meio para que os incontinentes vivam de maneira santa e felizes em servir a Deus.

1.2 A estabilidade do casamento (7.10-11)

Muitos cristãos que vivenciam crises no casamento, com receio do que os outros vão pensar, ficam reclusos e se fazem perguntas num tipo de introspecção. Através de três imperativos, Paulo responde a essas perguntas. Vejamos, pois:

O que fazer quando um dos cônjuges se arrepende de ter-se casado? O que fazer quando um casamento se torna insustentável? Existem muitos casais dentro das igrejas que se arrependeram de ter-se casado, reconhecendo que cometeram um erro. Dentre os motivos do arrependimento, muitos alegam incompatibilidade, precipitação, que no casamento o cônjuge demonstrou ser uma pessoa ociosa, malandra, agressiva e pervertida sexualmente. No casamento, o cônjuge esboçou uma faceta completamente diferente da que era no namoro. Sendo assim, o que fazer nesta situação? Cada caso deve ser analisado da melhor forma possível e sobre a égide das Escrituras. Senão vejamos o que Paulo orienta:

i. O casal não deve se separar (vs.10)

Paulo, aqui, dirige-se àqueles que se casaram e estão casados. Mesmo tendo autoridade (veja 5.5, 12; 6.18; 7.5, 8), ele recorre à autoridade do Senhor Jesus. Paulo utiliza de um método retórico chamado “correctio” para transmitir mais autoridade no imperativo. Com isso, não temos apenas uma mera lembrança do apóstolo de que não foi ele quem disse tais palavras, mas Jesus. Não é muito comum encontrarmos Paulo evocar as palavras de Jesus (veja 1Co 9.14; 11.23; 1Ts 4.15; 1Tm 5.18), o que demonstra ainda mais autoridade à instrução subsequente.

O interessante é que essa prescrição não é uma citação literal das palavras de Jesus, mas uma paráfrase, isto é, uma interpretação, um comentário dos seus ensinos acerca do divórcio (Mt 5.31-32; 19.3-12; Mc 10.2-12; Lc 16.18). Paulo não estabelece uma distinção de autoridade entre o que ele diz e o que o Senhor disse. O cerne é esclarecer que o próprio Jesus deixou instrução sobre a questão do divórcio, enquanto sobre outros assuntos Paulo, como apóstolo de Cristo, é quem aplica e distende os seus ensinamentos (veja o vs.12, 25,40).

Simon Kistemaker ressalta:

Paulo afirma que ele tem uma ordem para pessoas casadas que vem não dele, mas do Senhor. Ele usa as palavras de uma tradição oral do Evangelho. Supomos que Paulo tenha ouvido essa declaração dos outros apóstolos, provavelmente de Simão Pedro (Gl 1.18, 19), e assim recebeu-a indiretamente de Jesus. Paulo cita a palavra de Jesus preservada na tradição evangélica, que para ele e os coríntios têm autoridade divina. Na verdade, os apóstolos e a Igreja primitiva conferiam a mesma importância às Escrituras do Antigo Testamento e ao Evangelho oral ou escrito. Para eles, ambos tinham igual autoridade. E Paulo sabia que, com respeito ao casamento e divórcio, os cristãos coríntios ouviriam e obedeceriam à voz de Jesus. Escrevendo sobre esse assunto, Paulo não exerce mais a sua autoridade, e sim a do Senhor. Paulo se põe de lado e permite que Jesus fale diretamente aos coríntios.16

Nesta carta, Paulo revela que por muitas vezes recebeu palavras ou ordens do Senhor, que podem lhe ter vindo diretamente por visão ou indiretamente por meio dos apóstolos (veja 9.14; 11.23; 14.37; 15.3; compare com 1Ts 4.15).17

Todavia, o evangelho de Marcos relata o embate teológico entre Jesus e os fariseus (Mc 10.2-12). Eles o indagaram acerca do divórcio. Jesus, por sua vez, recorreu à Escritura, citando o relato da criação (Gn 1.27; 2.24). Por conseguinte, Jesus acresce seu comentário, dizendo: De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem (Mc 10.8b-9).

Desejando saber mais sobre a questão do divórcio, os discípulos decidem inquirir Jesus em busca de mais respostas. Sendo assim, ele acentua: O homem que se divorciar de sua esposa e casar com outra comete adultério contra aquela. E se a esposa se divorciar de seu marido e casar com outro, comete adultério (Mc 10.11-12). (minha tradução)

Os judeus e os gentios da época de Paulo tinham uma concepção semelhante a respeito do divórcio. Entretanto, antes da releitura da Torá proposta por Hilel, a tradição judaica admitia o divórcio apenas por três motivos: falha em fornecer alimento, falha em fornecer roupas e descumprimento dos deveres conjugais, baseando-se em Êxodo 21.10-11 e Deuteronômio 24.1-4. Essa foi a interpretação da lei durante anos. O rabino Hilel, no entanto, no primeiro século antes de Cristo, mudou a interpretação de Deuteronômio 24.1-4, afirmando que o homem poderia se separar de sua esposa por qualquer motivo ou por ter achado algo indecente nela, e tornou a lei no judaísmo semelhante à lei grega corrente. Tanto o homem quanto a mulher poderiam pedir divórcio e havia nos contratos de casamento provisão para esse caso. Era comum os contratos fazerem referência ao tríplice dever (comida, roupas e amor) e indicarem a possibilidade de divórcio caso não fosse cumprido, embora os contratos aramaicos fizessem maior referência ao término do casamento em caso de morte do que em caso de divórcio. Era nesse contexto de grande facilidade quanto ao divórcio que os cristãos coríntios viviam.18

O Evangelho de Marcos, entretanto, escrito num contexto romano e dirigido aos gentios, reflete o mundo greco-romano. Nesse mundo, a mulher tinha o direito de tomar a iniciativa e separar-se de seu marido, o que é eufemismo para divórcio. A possibilidade realmente existe de que mulheres influentes da igreja de Corinto tivessem consultado Paulo a respeito das relações maritais e do divórcio. O apóstolo responde a elas com uma palavra de Jesus. O relato da criação ensina a unidade de esposo e esposa, a qual, segundo Jesus, não deve ser quebrada. O profeta Malaquias também se refere à narrativa do Gênesis e denuncia o divórcio como uma quebra da aliança que o marido fez com sua mulher. Ele cita a palavra do Senhor Deus, que exclama: Eu odeio o divórcio (Ml 2.14-16). A intenção de Deus é que os votos de casamento não sejam dissolvidos. Jesus permite uma exceção somente quando um dos cônjuges se torna infiel ao outro (Mt 5.32; o paralelo em Lucas 16.18 omite a exceção). A regra que data do começo da história humana é que uma esposa não pode se divorciar de seu marido e que, da mesma forma, um marido não pode mandar embora sua esposa (v. 11).19

Diante disso, a ordem de Paulo, baseada no ensinamento de Jesus, é para o casal não se divorciar, exceto por causa de adultério.

ii. Se houver a separação por parte da mulher, que ela não se case novamente ou se reconcilie com o marido, que, da mesma forma, não se separe da mulher (vs.11)

A segunda pergunta que os coríntios fizeram a Paulo deve ter sido esta: O que fazer quando um casamento se torna insustentável? Paulo oferece duas soluções: 1) Se houver a separação, fique sozinha. 2) Após um tempo separados, talvez para refletir sobre o casamento da melhor forma possível, que a mulher tente a reconciliação com o marido. No decorrer da argumentação essas perguntas serão respondidas.

Não obstante, podemos observar que a esposa é quem toma a iniciativa de separar-se do marido (vs.10-11). Por outro lado, no Evangelho de Mateus, vemos que o marido é quem toma a iniciativa de separar-se de sua esposa (Mt 19.9). É importante destacar que o público de Mateus é composto por judeus, no qual o marido podia separar-se de sua esposa somente em caso de relações sexuais ilícitas, porém a mulher não tinha o direito de separar-se do marido. Com a proposição condicional no grego se ἐὰν (eán), Paulo demonstra que a ocorrência do divórcio é possível. Com efeito, é bem provável que havia na igreja de Corinto algumas esposas iniciando os procedimentos necessários para se divorciarem de seus maridos por outros motivos que não fossem a infidelidade na área sexual; um desses motivos seria o ascetismo, talvez.

Werner de Boor acrescenta que é possível que uma mulher já tenha se separado do marido. Paulo deve ter recebido notícias nesse sentido. Ao que parece, ainda não aconteceu que esposas foram deixadas pelos maridos; mas certamente uma ou outra mulher já havia se separado. Essas circunstâncias também se refletem no fato de que no versículo anterior, Paulo se dirige extraordinariamente primeiro à mulher, impedindo-a de separar-se do marido.20

Uma vez que a mulher não deve se divorciar do seu marido, da mesma forma o marido não deve se divorciar de sua esposa (vs.11b). Embora o marido tivesse na sociedade judaica e greco-romana a prerrogativa de se divorciar e tivesse maior liberdade do que a mulher, Paulo ensina o que as Escrituras dizem sobre este assunto. Ele se recusa a seguir a cultura de seu tempo, mas se prende à Palavra de Deus. Ele proíbe o marido de mandar sua esposa embora. Fica implícito que o marido precisa lutar por reconciliação no caso de um divórcio, porque o casamento é para toda a vida.21

Note que Paulo está apontando para um mandamento de Jesus, no entanto, apresenta uma situação que não foi mencionada por Ele em seus ensinamentos nos Evangelhos: a mulher tomar a iniciativa de se divorciar. Outra questão que deve ser observada é que a possibilidade do divórcio sugerida por Paulo é vetada pelos mandamentos de Jesus (veja Mt 5.31-32, 19.3-9; Mc 10.2-12; Lc 16.18). Sendo assim, uma pergunta surge: O cristão pode se divorciar por outro motivo que não seja por adultério, visto que Paulo pode ter demonstrado essa possibilidade?

Deus é terminantemente contra o divórcio. Ele odeia o divórcio (Ml 2.16). Deus tolera e até permite o divórcio no caso de adultério, porém não se agrada disso. A sua vontade (prescritiva) é que haja a reconciliação do casal e não o divórcio. Paulo também não apoia o divórcio em hipótese alguma (vs.12-14). Ele ratifica o ensino de Jesus de que o divórcio só é legítimo e permitido em caso de infidelidade conjugal. Contudo, o mesmo Paulo deixa implícito que existem algumas exceções que tornam o divórcio lícito e até necessário, bem como o novo casamento (vs.15-16), que veremos mais adiante.

 

Casamento, Divórcio e Novo Casamento (2/2)

 

NOTAS:

  1. Calvino. 1 Coríntios, pág 199.
  2. Ibid, pág 200.
  3. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 299.
  4. Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 129.
  5. Werner de Boor. 1 Coríntios, pág 60.
  6. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Novo Testamento, volume 5, pág 772.
  7. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 300-301.
  8. Ibid, pág 302.
  9. Hernandes Dias Lopes. 1 Coríntios, pág 131.
  10. Ibid, pág 132.
  11. Leon Morris. 1 Coríntios – introdução e comentário, pág 86.
  12. David Prior. A mensagem de 1 Coríntios, pág 140.
  13. Hernandes Dias Lopes. 1 Coríntios, pág 141-142.
  14. Calvino. 1 Coríntios, pág 209.
  15. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1536.
  16. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 311.
  17. Ibid.
  18. Instone Brewer, David. 1 Corinthians 7, Divorce, pág. 225-243.
  19. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 312.
  20. Werner de Boor. 1 Coríntios, pág 61.
  21. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 314.

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

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