Os ensinamentos dos Adventistas do Sétimo Dia e das Testemunhas de Jeová sobre a vida após a morte (2/2)

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A ANIQUILAÇÃO DOS ÍMPIOS

Tanto Adventistas do Sétimo Dia como Testemunhas de Jeová ensinam a aniquilação final dos ímpios e negam que exista um lugar de tormento eterno chamado inferno. Fica estabelecido que nós, por ora, não estaremos mais discutindo o assim chamado estado intermediário entre a morte e a ressurreição, mas que estaremos a tratar agora de um aspecto da doutrina do estado final – o estado em que os homens entrarão após a ressurreição do corpo.

Adventistas do Sétimo Dia ensinam que depois do ataque final de Satanás sobre o “arraial dos santos” descerá fogo dos céus e aniquilará Satanás, seus anjos malignos e todos os ímpios. Antes de isso acontecer, entretanto, aqueles a serem aniquilados serão submetidos a graus de sofrimentos, de acordo com a culpa das pessoas ou demônios envolvidos; o próprio Satanás sofrerá o mais longo deles e vai, enfim, ser o último a perecer em chamas. No final desse período de flagelação, contudo, todos aqueles que foram rebeldes para com Deus serão apagados da existência.1

O ensino dos Testemunhas de Jeová sobre este ponto é um pouco mais complicado. Ao passo que os Adventistas do Sétimo Dia afirmam que todos os que morreram serão mais uma vez redivivos, não importando o quão ímpios eles possam ter sido, os Testemunhas de Jeová asseveram que alguns indivíduos não serão ressuscitados, antes permanecerão na inexistência dentro da qual foram imergidos por ocasião do seu óbito: os mortos no Armagedom, Adão e Eva, aqueles que pereceram no Dilúvio, e assim por diante.2 Indivíduos ressuscitados da morte durante o Milênio, os quais ali não se sujeitaram ao governo de Deus, vão ser aniquilados antes do fim do Milênio.3 Satanás e seus demônios, soltos no fim do Milênio, obterão sucesso em conduzir alguns dos habitantes da Terra a se extraviarem; ele vai liderar esta horda num ataque final sobre o “arraial dos santos”. No entanto, fogo descerá do céu e aniquilará todo este exército rebelde.4 A possibilidade sempre permanece de que alguns dos que forem deixados na nova terra após a destruição de Satanás ainda possam ter de ser aniquilados.5Diferentemente dos Adventistas do Sétimo Dia, todavia, os Testemunhas de Jeová não ensinam uma gradação de sofrimentos anterior à aniquilação dos ímpios.

O termo apollumi. A doutrina da aniquilação dos ímpios, no entanto, não se encontra em concordância com as Escrituras. A fim de refutar este ensino nós devemos, antes de tudo, olhar para algumas das palavras mais comuns usadas no Novo Testamento para descrever a penalização final dos ímpios. A palavra mais comumente usada para este propósito é o verbo apollumi, usualmente traduzida como destruir ou perecer (na voz média ou passiva). Em Questions on Doctrine, nas páginas 536 e 537, os Adventistas do Sétimo Dia dão a impressão de que a palavra apollumi, quando usada no Novo Testamento quanto ao destino dos ímpios, significa aniquilar. Os Testemunhas de Jeová dão a mesma impressão. Na página 97 de Let God Be True, eles citam Mateus 10.28 em que a palavra apollumi é usada para descrever o que Deus faz tanto à alma quanto ao corpo no inferno (Gehenna), e concluem: “Uma vez que Deus destrói a alma e o corpo no Gehenna, isso é uma prova conclusiva de que o Gehenna, ou vale do filho de Hinom, é uma ilustração ou símbolo da aniquilação completa, e não de tormento eterno.” A implicação é clara: apollumi tem que significar aniquilação.

Como pode ser demonstrado que no Novo Testamento apollumi nunca significa aniquilação? Primeiro, nós notamos que essa palavra jamais significa aniquilar quando aplicada a outras coisas que não o destino eterno dos homens. Observemos a abrangência de significação do termo no Novo Testamento:

(1) Algumas vezes apollumi significa simplesmente estar perdido. É bastante utilizado nas três parábolas de elementos perdidos em Lucas 15, para designar a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido. No caso do filho, seu estado de perdido significava que ele estava perdido quanto à comunhão para com o pai, uma vez que ele foi contra os planos de seu pai.

(2) A palavra apollumi pode ser aplicada, de uma relativa forma, à significação de tornar-se inútil. Assim, em Mateus 9.17, ela é usada para mostrar o que acontece com odres velhos quando você coloca vinho novo dentro deles: o couro se perde ou torna-se inútil. E em Mateus 26.8 uma palavra a esta relacionada é usada para aquilo que os discípulos pensaram ter sido um desperdício de dinheiro – o derramar do unguento sobre a cabeça de Jesus: “Qual o propósito deste desperdício?” (a palavra vertida para desperdício é apooleia, substantivo derivado de apollumi). Em nenhuma destas situações é viável que tal termo, ou palavra dele derivada, possa significar aniquilação.

(3) Às vezes apollumi é usado significando assassinar. Note, por exemplo, Mateus 2.13: “porque Herodes há de procurar o menino para o matar (apolesai).” Além do fato de que é o próprio Jesus envolvido aqui, será que matar quer dizer aniquilação? Como aprendemos em Mateus 10.28, alguém não é aniquilado quando é morto. Ademais, estritamente falando, alguém nem mesmo aniquila o corpo alheio quando mata um homem. As partículas de um corpo em decomposição se transformam em outros tipos de matéria.

(4) Existe uma classe importante de passagem que não permite a possibilidade de apollumi querer dizer aniquilação – Lucas 9.24: “Pois quem quiser salvar a sua vida (psuchee), a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, esse a salvará.”

Perder a sua vida na segunda metade do verso é uma tradução de apolesee teen psucheen. Pode-se traduzir psuchee por “alma”, se houver quem prefira. Qualquer que seja o caso, a aniquilação está fora de questão. Se na segunda parte desse versículo apollumi significasse aniquilação, a pessoa que entraria num estado de aniquilação seria a pessoa salva! Alguém perder a vida ou a alma deve significar algo bem diferente de aniquilação: é estar disposto a submeter os seus próprios interesses aos do Reino de Deus.

(5) Chegamos agora àquelas passagens em que a palavra apollumi é usada para descrever o destino futuro dos ímpios. À luz dos usos que já observamos, nós certamente não esperaríamos que a palavra viesse a significar aniquilação nestes casos. Se fosse para ter esse significado quando aplicada ao estado futuro do homem, aliás, seria o caso de apollumi ter sido submetida de repente a uma mudança de significação. Agora, considere em tese tal mudança de sentido sendo possível. Se assim fosse, porém, deveria haver uma clara indicação nas passagens relevantes de que o significado da palavra tinha sido então alterado. Se fosse assim, além disso, as descrições a respeito do destino final dos ímpios nos quais a palavra apollumi não é usada deveriam inequivocamente apoiar a ideia de aniquilação.

O significado da Gehenna. Vamos agora examinar algumas das tais descrições. Olhemos, primeiramente, para uma palavra que ocorre doze vezes no Novo Testamento e que costuma ser traduzida como inferno, a palavra grega geenna. Os Adventistas do Sétimo Dia entendem que essa palavra se refere às chamas de destruição que irão finalmente aniquilar os ímpios; os Testemunhas de Jeová interpretam a palavra como um símbolo de aniquilação.6 Em Mateus 18.9, no entanto, a frase “o Gehenna (ou inferno) de fogo” está em paralelo com a expressão “o fogo eterno” (to pur to aioonion) no versículo 8. Então, o fogo do inferno não é algo temporário, antes, é eterno e sem fim.7 Se o fogo do inferno é eterno, nós devemos concluir que o castigo, do qual o fogo é símbolo, também será eterno. Para que serviria o detalhe de manter-se o fogo do Gehenna queimando mesmo após já ter sido o último indivíduo por ele aniquilado?

Note ainda que em Marcos 9.43, a palavra geenna ocorre em construção paralela com a expressão “o fogo que nunca se apaga” (to pur to asbeston). Se o fogo do Gehenna é inextinguível, como não será um fogo eterno? Observe também que em Marcos 9.48 a descrição do Gehenna é a citação das palavras de Isaías 66.24 “onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga”. Estas expressões indicam claramente que não há fim à punição do Gehenna. As Testemunhas de Jeová respondem que aqui é dito que o que não morre “são os vermes e não o homem”.8 Entretanto, o que Jesus diz aqui é “o seu verme não morre.” Uma vez que verme se encontra ali referido em relação à punição sofrida pelos homens ímpios, somos compelidos a concluir que o símbolo do verme imortal é simplesmente uma figura da punição infindável.9

É feita muita coisa da natureza figurativa das descrições do castigo dos ímpios encontradas no Novo Testamento, tanto por Adventistas do Sétimo Dia como por Testemunhas de Jeová. Para ficar claro, descrições assim são alegóricas e simbólicas, todavia, figuras são destinadas a transmitir significado. Embora não possamos aplicar cada detalhe destas figuras literalmente, nós devemos aceitar o ensinamento que eles pretendem transmitir, ou seja, que a penalidade dos ímpios será eterna. As descrições bíblicas do Gehenna, portanto, descartam o aniquilacionismo, porque criaturas que foram aniquiladas não podem ser infinitamente castigadas.

A Fumaça do seu Tormento. Voltemo-nos agora para outra passagem que descreve o estado final dos ímpios – Apocalipse 14.11: “E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite os que adoram a besta e sua imagem, e quem receber o sinal do seu nome”.

Estas palavras obviamente referem-se ao castigo dos perdidos.10 A fumaça do tormento desses perdidos, conforme consta, sobe por toda a eternidade. Embora não devamos pensar literalmente em fumaça aqui, a expressão fica sem sentido se é que não pretende descrever, de forma expressiva, o castigo que nunca vai ter fim. Nós lemos assim, no grego, as palavras “para todo o sempre”: eis aioonas aioonoon (literalmente, pelos séculos dos séculos). Em Apocalipse 4.9 Deus é descrito como aquele que vive “para todo o sempre” (eis tous aioonas toon aioonoon). Fora o uso adicional dos artigos definidos, esta é a mesma expressão que é utilizada em Ap 14.11 para a ascendente fumaça do tormento dos perdidos. A partir da comparação entre essas duas passagens, aprendemos que o tormento dos perdidos é tão infinito quanto o próprio Deus! Além disso, a palavra para tormento, basanismos, de maneira alguma refere-se a um estado eterno de inconsciência ou não-existência. Se estes perdidos foram reduzidos a não-existência, como poderia a fumaça do seu tormento subir infindavelmente?11

Observe, ademais, que nos é dito em Apocalipse 14.11 que os indivíduos aqui descritos não têm descanso nem de dia nem de noite. Isso não pode ser a descrição de uma aniquilação, pois aniquilação significaria alguma espécie de descanso. O destino desses perdidos é contrastado com o destino dos salvos no versículo 13: “Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos…” Os salvos, portanto, vão ter descanso depois de morrerem, ao passo que os perdidos não terão descanso quer de dia quer de noite. Como é possível esta última condição descrever um estado de inconsciência ou inexistência?

Voltemos agora à questão do significado da palavra apollumi, quando aplicada no Novo Testamento para o destino futuro dos ímpios. À luz do uso desta palavra quando não tem a ver com o destino final dos homens, em passagens como Apocalipse 14.11, quando o estado futuro dos ímpios é descrito como de tormento sem fim, e à luz das descrições bíblicas do Gehenna, nós somos compelidos a concluir que apollumi, quando usada em relação ao destino final dos ímpios, não tem como significar aniquilação. Devemos, portanto, não nos deixarmos ser conduzidos a desencaminharmo-nos pela forma que nos soam termos como destruir ou perecer, quando eles são usados nas traduções, como se provassem que os ímpios serão aniquilados.12 Apollumi, quando usado para indicar o destino final dos ímpios, significa perdição eterna, uma perdição que consiste em perder para sempre a comunhão com Deus, o que é ao mesmo tempo um estado de infinito tormento ou dor.

Este entendimento de apollumi, o qual está plenamente de acordo com o ensino de passagens como Marcos 9.48 e Apocalipse 14.11, de maneira nenhuma contraria os anteriores usos tratados sobre essa palavra, antes os complementa. Por exemplo, alguém pode dizer que “perecer”, no sentido da perdição eterna, significa tornar-se inútil (significado 2), experimentar a morte eterna em distinção à vida eterna (significado 3; compare com a expressão “a segunda morte”, de Ap 20.6), e manter-se permanentemente perdido como o Filho Pródigo esteve perdido por um tempo, isto é, permanentemente fora da comunhão com Deus (significado 1).

O termo olethros. Outra palavra ocasionalmente usada no Novo Testamento para descrever a pena dos ímpios é a palavra olethros. Apesar de os Adventistas do Sétimo Dia não citarem o termo grego, eles referenciam 2Tessalonicenses 1.9 onde olethron aioonion é traduzido como “destruição eterna” para provar a doutrina da aniquilação dos ímpios.13 Os Testemunhas de Jeová em 1Tessalonicenses 5.3, onde a expressão aiphnidios olethros é transvertida como “repentina destruição” na Tradução do Novo Mundo, acham que ali há uma descrição da aniquilação súbita, que alcançará todos os não-Testemunhas de Jeová por ocasião da Batalha do Armagedom.14

Pode ser prontamente mostrado, entretanto, que olethros nunca pode significar aniquilação quando a referência for ao destino final dos ímpios. Quatro vezes esta palavra é usada no Novo Testamento Grego. Uma intrigante aparição dela é encontrada em 1Coríntios 5.5, em que Paulo diz à igreja de Corinto: “seja entregue [o fornicador que estava entre eles] a Satanás para a destruição (olethros) da carne, a fim de que o espírito venha a ser salvo no dia do Senhor Jesus.” Embora autores de comentários bíblicos estejam divididos quanto ao significado da palavra olethros conforme usada nesta passagem,15 o que está claro é que uma descrição do destino final dos ímpios não encontra lugar aqui, uma vez que é expressada a esperança de que aquele homem ainda possa ser salvo. Em 1Tessalonicenses 5.3 a palavra olethros é usada para descrever o que acontece com os ímpios no “dia do Senhor”: “Quando disserem: paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição (olethros), como as dores de parto àquela que está grávida…” Se a repentina olethros aqui significasse aniquilação total, seria impossível para estes indivíduos comparecerem perante o tribunal de Cristo. Mas a Escritura ensina patentemente que todos os homens, bons e maus, vão comparecer perante aquele tribunal (2Co 5.10).16 O termo olethros, como usado aqui, deve, portanto, significar súbita ruína, súbita “perda de tudo o que confere significância a esta existência.”17

Há duas passagens em que olethros é usada para descrever o estado final dos ímpios. Uma delas é 1Timóteo 6.9, onde nós lemos: “Mas os que desejam ficar ricos caem em tentação e em laço e em muitas concupiscências insensatas e nocivas que submergem os homens na ruína (olethros) e perdição.” (apooleian, o substantivo derivado de apollumi). Desde que, como vimos acima, apooleiae apollumi não podem significar aniquilação, é óbvio que olethros, que aqui é usado em composição atributiva com apooleia, também não pode significar aniquilação. E nem sequer pode olethros significar aniquilação em 2Tessalonicenses 1.9: “os quais [aqueles que não reconheceram a Deus e nem obedeceram ao evangelho de Jesus] sofrerão, como castigo (dikeen), a perdição eterna (olethron aioonion), banidos da face do Senhor e da glória do seu poder.” O termo aqui traduzido como castigo, dikeen, não pode significar aniquilação. Ele é usado em Judas 7, a rigor, para descrever o castigo eterno dos habitantes de Sodoma e Gomorra: “sofrendo a pena (dikeen) do fogo eterno.” Portanto, não há como olethrossignificar aniquilação, uma vez que ele se encontra em composição atributiva com relação a dikeen. Além do mais, como poderia existir uma infindável aniquilação? Aniquilação, por definição, deve ter lugar em um instante; que sentido faz falar em uma “aniquilação que nunca acaba”?18 A condenação dos ímpios, como descrita aqui, significa uma ruína eterna, um castigo que não terá fim.

O termo kolasis. A terceira palavra usada no Novo Testamento para descrever o estado final dos ímpios é kolasis. Esta palavra é usada em Mateus 25.46: “E estes [os da esquerda] irão para o castigo eterno (aioonion Kolasin), mas os justos para a vida eterna (zooeen aioonion).”

Esta passagem ocorre no final da seção em que Jesus descreve o julgamento das ovelhas e dos bodes. Os Testemunhas de Jeová traduzem a primeira parte deste versículo da seguinte forma: “E estes partirão para o decepamento eterno” (TNM). Por meio desta tradução, eles dão a impressão de que kolasis significa aniquilação. Apesar de que, conforme indica a nota de rodapé na página 112 da sua edição de 1951 da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Cristãs Gregas, seja verdade que o radical kolazoo originalmente significasse podadura, não há justificação para a tradução acima. A palavra kolasis é traduzida como “castigo” por Thayer, Arndt-Gingrich e Moulton-Milligan. Josefo, que viveu de 37 a 100 d.C., indica que os fariseus de sua época acreditavam na punição eterna dos ímpios;19 se Jesus tivesse sentido a necessidade de corrigi-los (como Ele corrigiu os saduceus sobre a questão da ressurreição do corpo), ele deveria certamente ter feito isso.

As pessoas dos dias Jesus, contudo, entendiam o termo kolasis não no sentido de aniquilação, mas de punição. Em 1Clemente, escrito em 96 ou 97 d.C., na seção 11, ocorre a seguinte expressão: “…Ele não abandona aqueles que colocam a sua esperança nele, porém destina ao castigo (kolasis) e tormento (aikismon) os que à parte se desviam.”20 Tivesse o escritor entendido a palavra kolasiscomo significando aniquilação, como poderia tê-la colocado antes de aikismon, aqui? Com certeza não se pode torturar alguém que acabou de ter sido aniquilado! Moulton e Milligan citam um fragmento de um evangelho não-canônico escrito durante os primeiros séculos da era cristã no qual a palavra kolasis é usada em composição atributiva com basanos, significando “tormento”. O recorte dessa passagem diz: “para aqueles que, entre os homens, são malfeitores… punição (kolasin) os aguarda, e muito tormento (polleen basanon)”. Se a ideia era que kolasissignificasse aniquilação, seria de se esperar que o escritor usasse primeiro basanos e depois kolasis, pela razão já acima mencionada.21 Está claro, portanto, além de qualquer dúvida, que no momento que o Novo Testamento foi escrito kolasis significava punição e não aniquilação.22

Podemos observar ainda que a única outra passagem do Novo Testamento onde kolasis ocorre, em 1João 4.18, a Tradução do Novo Mundo verte a palavra da seguinte forma: “o medo exerce uma restrição” (kolasin echei). Para ser coerente, os Testemunhas de Jeová deveriam ter traduzido: “o medo tem decepamento” (que, claro, não faz sentido). Certamente restrição não é aniquilação. Podemos checar ainda mais a fundo o significado de kolasis observando os dois outros casos em que é usado no Novo Testamento o verbo kolazoo, a partir do qual kolasis se deriva: Atos 4.21 e 2Pedro 2.9. Na primeira passagem, até mesmo a Tradução do Novo Mundo traz: “não acharam nenhuma base para os punir (kolasoontai).” Na última passagem, apresentada acima, uma melhor versação poderia ser: “O Senhor sabe como… guardar os injustos sendo já castigados (ou sob punição, ASV – American Standard Version; o grego traz kolazomenous)… até o dia do juízo.”

Uma vez que o verbo kolazoo é usado em ambos os casos no sentido de punir, e visto que em 1João 4.18, na TNM (Tradução do Novo Mundo), kolasis significa restrição, punição (na ASV – American Standard Version), ou tormento (na KJV – King James Version), é claro que kolasis em Mateus 25.46 não pode, independente da elasticidade imaginativa, significar aniquilação, antes é imperativo que signifique punição. Punição esta descrita ali como perpétua ou eterna.

O termo aioonios. Isso nos conduz a considerar o significado da palavra aioonios, comumente vertida como perenal ou eternal nas nossas traduções. Nós já vimos que esta palavra é referida ao próprio Deus, em Apocalipse 4.9, onde é dito que Deus vive eis tous aioonas toon aioonoon (literalmente, pelos séculos dos séculos). Em Romanos 16.26, Paulo fala sobre o mandamento tou aiooniou Theou, do Deus eterno. Sem dúvida, nenhum aniquilacionista desejaria negar que Deus é sem fim!

Quando a palavra aioonios é usada para descrever o tempo futuro, aliás, ela denota tempo sem fim.23 A palavra é, portanto, muitas vezes usada no Novo Testamento para descrever o interminável futuro bendito do povo de Deus. Nós a encontramos, assim, no texto de Mateus 25.46, citado acima. Nós também a achamos também em João 10.28: “E eu lhes dou a vida eterna (zooeen aioonion), e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão.” Por outro lado, encontramos aioonios usado para descrever a glória eterna que aguarda os crentes em 2Timóteo 2.10, o peso eterno de glória em 2Coríntios 4.17, uma herança eterna em Hebreus 9.15, e um edifício celeste eterno em 2Coríntios 5.1. Em 2Coríntios 4.18, de fato, a palavra aioonios é usada para modificar “as coisas que se não veem”, em contraste com “as coisas que são visíveis”, chamadas de temporais (proskaira, que duram apenas algum tempo). Nenhum aniquilacionista, com toda certeza, cuidaria de negar que o futuro bem-aventurado do povo de Deus não terá fim. Nem Adventistas do Sétimo Dia nem Testemunhas de Jeová negam, de fato, que a futura glória dos santos, descrita nas Escrituras como aioonios, é infindável.

Se, no entanto, a palavra aiooniossignifica “sem fim” quando aplicada ao bem-aventurado futuro dos crentes, o que deve seguir (a menos que seja dada clara evidência para o contrário) é que a mesma palavra também signifique “sem fim”, quando usada para descrever a punição futura dos perdidos. Aiooniosé tanto usada em Mateus 25.46 quanto em 2Tessalonicenses 1.9. Uma vez que a palavra kolasis, utilizada na primeira passagem, e a palavra olethros, usada na seguinte não significam aniquilação, senão punição, como tem sido demonstrado, segue-se que o castigo que os ímpios sofrerão após esta vida será tão infinito quanto o futuro gozo do povo de Deus.

Adventistas do Sétimo Dia reconhecem que a palavra kolasis em Mateus 25.46 significa “punição”. Uma vez que eles também admitem que aioonios, usado no mesmo verso, significa “sem fim”, parece seguir-se que eles deveriam aceitar a doutrina da punição eterna dos perdidos. Porém, eles encontraram uma maneira de sair-se dessa. Referindo-se a expressões como “redenção eterna” (Hb 9.12) e “juízo eterno” (Hb 6.2), eles afirmam: “Na expressão ‘castigo eterno’, assim como em ‘redenção eterna’ e ‘juízo eterno’, a Bíblia se refere a toda eternidade – não como de processo, mas como de resultado. Não é um processo interminável de punição, mas uma punição cabal, a qual será definitiva e para sempre (aioonios).”24

A título de refutação, deve-se dizer que, na expressão paralela vida eterna (zooeen aioonion), a palavra aiooniosé usada como representação de uma vida que não é apenas eterna no seu resultado, mas eterna em sua duração ou continuação. Os Adventistas do Sétimo Dia admitem que a vida eternal é eterna em sua duração, pois eles sustentam que a imortalidade é concedida sobre os justos na Segunda Vinda de Cristo,25 e que Abraão e sua descendência possuirão a nova terra ao longo dos tempos infindáveis da eternidade.26 Se aiooniosna parte final de Mateus 25.46 significa infinito quanto à duração, que direito os Adventistas têm de restringir a interpretação de aioonios na primeira parte do mesmo versículo para significar apenas infinito quanto a resultado?27

Gradação de Pena. Outra consideração contra o aniquilacionismo é o fato de que o Novo Testamento fala de gradação de castigos para o ímpio: “E o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a vontade dele, será castigado com muitos açoites; mas aquele que não soube, e fez coisas dignas de açoites, será castigado com poucos açoites” (Lucas 12.47-48).

Aqui é claramente ensinado que nem todos os perdidos serão punidos da mesma maneira. Se, no entanto, os ímpios são aniquilados, como pode haver graus de punição? É possível haver graus de aniquilação?

Seria bom desafiarmos os Testemunhas de Jeová a mostrar como a sua visão do destino dos ímpios deixa algum espaço para a gradação na punição conforme ensinada por Jesus na passagem acima. Os Adventistas do Sétimo Dia tentam responder a essa objeção argumentando que haverá graus de punição anteriores à aniquilação, alguns flagelos maiores que outros.28 A Sra. White ensinou que este sofrimento escalonado deve ocorrer após ter descido fogo do céu para devorar o diabo, os anjos malignos e todos os ímpios.29 É-nos dito que Satanás sofrerá a mais longa flagelação e será, então, o último a perecer nas chamas.30 Em resposta, deve ser observado que é especificamente declarado no contexto da passagem que descreve a descida do fogo do céu (Ap 20.9) que o diabo será atormentado (basanistheesontai) não apenas por um longo período de tempo, mas “dia e noite para todo o sempre” (eis tousaioonas toon aioonoon).31

Para concluir, seria bom tomarmos nota do comentário de I. M. Haldeman quanto às palavras de Jesus sobre Judas, registradas em Mateus 26.24: “ai daquele por meio de quem o Filho do Homem é traído! Bom seria para esse homem se não tivesse nascido.”

Enquanto Russell ainda estava vivo, o Sr. Haldeman, então pastor da Primeira Igreja Batista de Nova York, escreveu um livreto contra os “russellitas” entitulado Millennial Dawnism. As seguintes palavras, retiradas desse livreto, são uma refutação devastadora não só dos ensinamentos dos atuais Testemunhas de Jeová sobre a vida futura, mas também da escatologia do Adventismo do Sétimo Dia:

Se morte significa extinção do ser, por que a vida deveria ser pior para ele [Judas] do que para qualquer outro ímpio traidor? Não importando quão grande fosse a sua culpa, a morte iria encerrar tudo…

Nunca ter sido parido significa nunca ter vindo à existência.

Se a morte é sair de existência,32 então, nunca ter vindo a nascer está em equivalência de condições com vir a morrer; significam a mesma coisa – a não-existência.

Por que, então, o Senhor disse que bom seria não ter vindo à existência? Por que (vendo o homem nascido e não tendo necessidade de desperdiçar lamentações sobre seu nascimento) ele não disse: “Bom vai ser para esse homem quando ele morrer, pois quando morrer, então vai ser apenas como se nunca tivesse nascido – um não existente”?

Se a morte significa não existência, é isso que convinha ter ele dito.

Dizer qualquer outra coisa – se morte significa não existência – era absolutamente sem sentido.

Mas, se a morte não significa o fim da existência, se a morte significa uma condição de eternidade, se neste estado de eternidade da existência Judas está prestes a sofrer por seu ato de traição, então é compreensível o motivo pelo qual o Filho de Deus deveria dizer que teria sido bom para aquele homem se nunca houvesse nascido, nunca tivesse vindo à existência.

Em nenhuma outra base o “ai daquele homem” detém alguma força de compreensão.33

 

 

Os ensinamentos dos Adventistas do Sétimo Dia e das Testemunhas de Jeová sobre a vida após a morte (1/2)

 

 

NOTAS:

  1. Veja acima, p. 142. [N.T.: aqui e nas outras citações que mencionam apenas números de páginas, o autor está se referindo à paginação do seu próprio livro, The Four Major Cults, de onde este “Appendix E” foi retirado]
  2. Veja acima, p. 317.
  3. Veja acima, pp. 320-321.
  4. Veja acima, p. 321-22.
  5. Veja acima, p. 324.
  6. Questions on Doutrine, p. 558; veja acima, p. 323.
  7. Que aioonionsignifique infinito quando usado neste sentido será demonstrado mais à frente neste apêndice.
  8. Let God Be True, p. 95.
  9. Quando foi perguntado ao Sr. Ulysses Glass, da equipe do Watchtower (a quem o autor entrevistou em 6 de junho de 1962), por que as Escrituras dizem que este fogo não se apagará, ele respondeu: “O fogo não se apaga, porque ali será sempre um lugar de castigo”. A implicação de sua declaração era que, depois que os ímpios tiverem sido aniquilados, o fogo do inferno será mantido aceso a fim de punir possíveis rebeldes que ainda venham a surgir em cena. Cf. Watchtower, 15 de novembro de 1955, p. 703; e observe o que é dito na p. 303 de This Means Everlasting Life: “A segunda morte poderia, a qualquer tempo através da eternidade, ser infligida a quem quer que venha a escolher o pecado. Isso sempre permanecerá na esfera do poder de Deus.” Que esta interpretação do “fogo inextinguível” é uma tentativa deliberada de fugir ao claro ensino bíblico é evidente a partir das palavras de Jesus: “o verme deles não morre.” Quando esta cláusula é seguida pelas palavras “o fogo que nunca se apaga”, fica óbvio que isto é assim porque o fogo continua a punir a eles.
  10. Como já vimos, os Adventistas do Sétimo Dia aplicam essa passagem para aqueles que, depois de terem recebido o esclarecimento que veio sobre a obrigação do verdadeiro Sabbath, ainda se recusam a guardar o sétimo dia (veja acima, pp. 127-28). Os Adventistas concordariam, no entanto, que a punição aqui descrita é a dos eternamente perdidos.
  11. Adventistas do Sétimo Dia tentam fugir do aperto desta passagem (e de Ap 19.3 e 20.10, em que expressões semelhantes são usadas), apontando para Is 34.10, onde num capítulo que descreve o juízo que cairá sobre Edom a expressão “a fumaça dele subirá para sempre (le’oolam)” é usada. Uma vez que o fogo inextinguível e a fumaça perpétua aqui ilustrados terminaram em destruição para Edom, e uma vez que, obviamente, o fogo que devastou Edom não está mais queimando, então, arrazoam eles, está claro que Ap 14.11 e passagens similares são apenas maneiras vívidas de descrever a completa aniquilação dos ímpios (Questions on Doctrine, pp. 542-43). Em resposta, pode ser dito que Edom, no capítulo 34 de Isaías, está sendo usado como representante de todas as forças que são hostis à igreja de Deus, e que, portanto, o juízo dEle sobre Edom é retratado em certos termos que podem somente ser aplicados ao julgamento final de Deus sobre todos os ímpios: “O fogo inextinguível … e a fumaça que sobe eternamente (cf. Ap 19.3), provam que ali está se referindo ao fim de todas as coisas” (F. Delitzsch, Comentário sobre Isaías. [Edinburgh: T. & T. Clark, 1881 ], II, 72; cf. p 70). Como é que os Adventistas do Sétimo Dia explicariam o versículo 4 deste capítulo: “E todo o exército dos céus se dissolverá, e o céu se enrolará como um pergaminho…”? Terão sido cumpridas também estas palavras no momento da destruição de Edom?
  12. Apesar de os editores da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs, ed. 1951, asseverarem que atribuíram apenas um único significado para cada uma das principais palavras (p. 9), é significativo perceber que a palavra apollumi é vertida de várias formas em tal edição; por perder (Lc 15.4), por estragar (Mt 9.17), por perecer (Lc 21.18) e por ser destruído (Jo 3.16). Os tradutores da Watchower [Torre de Vigia] teriam que admitir, com base no próprio Novo Testamento deles, que o termo apollumié com frequência usado em formas nas quais não tem como ele significar aniquilar.
  13. Questions on Doctrine, pp. 537 e 539. Note que no parágrafo central da p. 537 quatro referências bíblicas são citadas para provar que os ímpios serão “destruídos”. Nenhuma indicação é dada, no entanto, sobre o fato de que a palavra traduzida como destruído nessas passagens representa quatro palavras diferentes nos originais: uma palavra hebraica (shamadh) e três palavras gregas (apollumi, olethros, katargeoo). É esta doutrina responsável?
  14. New Heavens and a New Earth, pp. 292-93.
  15. Alguns sustentam que se refere à vinda de aflição sobre este homem, fisicamente, enquanto outros insistem que signifique a eventual subjugação da natureza maligna dele. Em nenhum dos casos poderia o termo significar aniquilação.
  16. Os Adventistas do Sétimo Dia sustentam que o ímpio, embora aniquilado no momento da vinda de Cristo, deverá novamente ser “levantado” no final do milênio. Deve ser notado, contudo, que a “aniquilação” assim atribuída à palavra olethros é de natureza temporária. Se olethros significa apenas esse tipo de aniquilação quando aplicada ao estado final dos ímpios, como sabermos que Deus não vai, em algum momento novamente, trazê-los de volta à vida?
  17. Moulton and Milligan, op. cit., p. 445, citando o comentário de Milligan sobre 1Tessalonicenses. Veja também Leon Morris, The First and Second Epistles to the Thessalonians (Eerdmans, 1959), pp. 153-54.
  18. “Justamente o fato de que esta ‘destruição’ é ‘eterna’ mostra que ela não equivale à ‘aniquilação’ ou a ‘ausentar-se da existência.’ ” Citado de William Hendriksen, Exposition of I and II Thessalonians. (Grand Rapids: Baker, 1955), p. 160. Veja também Morris, op. cit., pp. 205-206.
  19. Antiquities, XVIII, 1, 3; cf. Jewish Wars, II, 8, 14: “Eles [os fariseus] dizem… que as almas dos maus estão sujeitas ao castigo eterno.”
  20. A tradução é a de Joseph Barber Lightfoot.
  21. Op. cit., p. 352. A citação é de Oxyrynchus Papyri (de Grenfell e Hunt), V, 840, 6. Os editores do último volume indicaram que, apesar de que próprio papiro foi escrito provavelmente no século IV, o evangelho original do qual ele era parcialmente uma cópia data da segunda metade do século II d.C. (pp. 1 e 4).
  22. Normalmente considera-se que Mateus foi escrito algo em torno de 50 e 70 d.C. Para outras referências a kolasis escritos da mesma época do Novo Testamento, veja Joh. Schneider, “Kolasis”, em Theologisches Woerterbuch zum Neuen Testament(de Kittel), III, 717.
  23. Arndt e Gingrich, op. cit., p. 28. Cf. Thayer, op. cit., p. 20; e H. Sasse, “Aioonios”, em Kittel, op. cit., I, 209.
  24. Questions on Doctrine, p. 540. Cf. p. 506, nota.
  25. Fundamental Beliefs, Art. 9.
  26. Ibid., Art. 22.
  27. Sobre este ponto, veja também Bird, op. cit., pp. 58-59.
  28. Veja acima, pp. 141, 142.
  29. Early Writings (1882), p. 294; citado por Douty, op. cit., p. 140.
  30. Veja acima, p. 142.
  31. Ap 20.10. É bom lembrar que exatamente a mesma expressão é usada em Ap 4.9 para descrever a eternidade de Deus. A tentativa dos Adventistas do Sétimo Dia (nas pp. 542-43 de Questions on Doctrine) de atenuar o significado dessa expressão por um apelo a Is 34.8-10 já foi respondida anteriormente neste apêndice. Sobre esta questão, veja também Douty, op. cit., pp. 157-58.
  32. Recapitulemos que, de acordo com os ensinos atuais dos Testemunhas de Jeová, Judas não será levantado na ressurreição (veja acima, p. 317); por conseguinte, ele saiu da existência quando morreu. Já para os Adventistas do Sétimo Dia, Judas será levantado após o milênio e terá de suportar um período de punição por seus pecados; depois disso, no entanto, ele vai ser aniquilado. Portanto, independente das diferenças de ensino entre estes dois grupos, o comentário de Haldeman é aplicável a ambas as posições.
  33. Millennial Dawnism (New York: Charles C. Cook, s.d.), pp. 29-30. Para um uso similar dessa passagem, veja Douty, op. cit., pp. 158-59. [N.T.: o movimento batizado de Millennial Dawn (Aurora do Milênio), junto com a cognominação “Estudantes da Bíblia”, foi uma das primeiras formas como os seguidores de Charles Taze Russell ficaram conhecidos, antes de eles adotarem a alcunha “Testemunhas de Jeová”, em 1931].

 

 

Autor: Anthony Hoekema

Fonte: Rediscovering the Bible

Tradução: Lucas Lucena

Revisão: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

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