Qual é o significado de “Sheol” e “Hades”?

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  1. Quatro pontos de vista errôneos a respeito do Sheol

Você pode se perguntar por que um capítulo inteiro é dedicado a este assunto. Por que se preocupar sobre o significado de um termo hebraico e um termo grego? Por que não tornar isto ”mais prático”? Esta é a razão: é mesmo muito prático e útil saber tudo quanto se possa a respeito do significado destas duas palavras raras, o sheol, do Antigo Testamento, e o Hades, do Novo Testamento. Certas seitas estão afirmando constantemente às pessoas que, devido a uma tradução errada dessas palavras (e do termo Gehenna), a doutrina do inferno, que o determina como um lugar de castigo eterno, tem sido sus­tentada pela igreja. E assim estas seitas enfatizam que só se as pessoas levassem tempo para examinar o que estas palavras realmente significam originalmente, a paz para a alma seria restabelecida.

Bem, deixe-nos então seguir o conselho deles e estudar essas duas palavras tão completamente quanto for possível em um capítulo (reservando o termo Gehenna para o capítulo 46).

Sheol aparece mais de sessenta vezes no Antigo Testamento. Na tradução grega do Antigo Testamento (referida como LXX), geralmente é usado o termo Hades, que significa o mesmo no Novo Testamento. Portanto, sheol e Hades devem ser estudados juntos. A Authorized Version (Versão Autorizada), em seu esforço para resolver o problema de achar uma tradução aceitável para sheol, usa o termo pit  (abismo); neste sentido, só em alguns textos nesta tradução americana (Nm  16.30,33; Jó 17.16). Em outras partes, sua tradução é igualmente dividida entre hell (“inferno”) e grave (“cova”). Você achará a tradução hell em várias passagens como: Deuteronô­mio 32.22; 2 Samuel 22.6; Jó 11.8; 26.6; 7.27; 9.18; 15.11,24; 23.14;  27.20; Isaías 5.14; 14.9,15; 28.15; Salmos 9.17; 16.10; 18.5; 55.15; 86.13; 116.3; 139.8; Provérbios 5.5; Ezequiel 31.16, 17; 32.27; Amós 9.2; Jonas 2.2 e Habacuque 2.5.

Agora, o primeiro ponto de vista errôneo seria a convicção de que a Autorized Version (ou King James) está sempre correta em sua tradução para sheol. Quando os russelitas apontam os “erros na tradução”, eles em parte têm razão. Qualquer um, por si mesmo, pode notar isto. Por exemplo, o autor do Salmo 116 realmente pretende dizer que as angústias do inferno tinham se apoderado dele? Isaías, no original e de acordo com o contexto, de fato pretende nos falar que a multidão de cativos, juntamente com a sua pompa e glória, desceu para o inferno (veja Is 5.14)? Quando Jonas estava na barriga do peixe, ele estava de fato no inferno (veja Jn 2.2)?

Há um segundo ponto de vista que, segundo eu vejo, também está errado. Ele está firmemente enraizado na mente de muitos estudiosos que buscam estes termos em dicionários, enciclopédias, etc. Este segundo ponto de vista errôneo é a convicção de que o Antigo Testamento ensina que todos os homens vão para o mesmo lugar quando eles morrem, um lugar não de bênção, nem de dor, mas uma região de sombras, a ser considerada literalmente.

Segundo eu vejo, o erro é devido à falha em perceber que em muitos casos o idioma bíblico é figurado, não literal. A teoria em questão é sobrecarregada então com todos os tipos de dificuldades. Se o sheol é um lugar para o qual todo homem irá quando morrer, como pode a descida àquele lugar ser considerada como uma advertência (Sl 9.17; Pv 5.5; 7.27; 15.24; 23.14)? Se o sheol nunca for um lugar de dor, como pode Moisés falar-nos que a ira de Deus arde lá (Dt 32.22)? E, se o Antigo Testamento ensina que na morte todos vão para o domicílio triste das sombras, como então é que os crentes enfrentaram  a  morte  com uma  alegre expectativa  (Nm  23.10;  Sl 16.9-11; 17.15; 73.24-26)?

Um terceiro ponto de vista errôneo, bastante popular entre alguns círculos evangélicos, é esse: O sheol é o mundo subterrâneo com suas duas divisões, uma para os justos e outra para os ímpios. Mas o Antigo Testamento não ensina, em parte alguma, a existência de um inferno dividido. Em Salmos 9.17 não se diz que os ímpios serão levados para uma divisão do sheol, mas para o sheol. Em Provérbios 15.24, não se ensina uma pessoa a evitar um compartimento do sheol, mas o próprio sheol. E nós nunca lemos que na morte os filhos de Deus foram para esta ou aquela divisão do sheol. A ideia de um sheol com duas divisões provém de uma visão pagã do mundo subterrâneo. Nem o sheol do Antigo Testamento, nem o Hades do Novo Testamento, têm esse sentido.

O quarto ponto de vista errôneo é o do Pastor Russell. Embora, como nós mostramos, ele tenha razão criticando a tradução feita na Authorized Version, ele está ensinando erro ao afirmar que naquela versão a tradução hell (“inferno”) está sempre errada. E ele especial­mente está errado em sua própria tradução. De acordo com o Pastor Russell, e as testemunhas de Jeová após ele, o significado de sheol é esquecimento ou não-existência.  Isso está completamente errado.

Você pode notar por si mesmo o que acontece quando você substitui a palavra sheol por não-existência em passagens como Deuteronômio 32.22. O fogo da ira de Deus está queimando de  fato até ao mais profundo da não-existência? Pode alguém encontrar algum sentido nisso? Não faria mais sentido dizer que este fogo arderá até ao mais profundo do inferno?

  1. O ponto de vista que eu acredito ser o correto

O sheol é um estado ou lugar ao qual uma pessoa desce, seja no sentido literal ou figurado. Tal palavra tem uma variedade de significados, e em cada exemplo distinto de seu uso o contexto tem de decidir qual é o significado.

a. Às vezes o sheol é um lugar de castigo para o ímpio. Em tal caso, inferno é uma boa tradução. Veja Deuteronômio 32.22; Salmos 9.17; 55.15; Provérbios 15.11,24; etc. Nestas passagens, sheol é o lugar onde a ira de Deus queima, e para o qual o ímpio desce, o ímpio, e não o justo.

b. Em outras passagens, Sheol se refere provavelmente à sepultura, à qual, realmente, todos os homens, os justos como também os ímpios, descem (com o corpo) ao morrer. Pense nos cabelos grisalhos de Jacó descendo ao sheol, quer dizer, à sepultura (Gn 44.29,31;  lRs 2.6,9).

c. Em várias outras passagens estado de morte, existência desencarnada, pode bem ser o que significa. Mas agora note bem: este estado de separação entre alma e corpo é representado então como se fosse um lugar (1Sm 2.6), equipado com portões (Is 38.10). Claro que todos os homens realmente descem àquele lugar, considerado no sentido figurado. Se você é um crente ou se você é um incrédulo, quando você morre, sua alma e corpo se separam; portanto, neste sentido, todos entram para o sheol após a morte. Mas o ponto a ser observado é este: em nenhuma passagem, tanto do Antigo como do Novo Testamento, é ensinado que as almas de todos os homens na verdade vão para o mesmo lugar, literalmente, após a morte. Pelo contrário, a Bíblia ensina constantemente que após a morte os ímpios estão para sempre condenados e os justos (claro que em Cristo) são para  sempre santificados.

  1. O significado de Hades no Novo Testamento

Na parábola do rico e Lázaro (Lc 16), hades não é o mundo subterrâneo com duas divisões, uma das quais seria o seio de Abraão, e a outra que seria qualquer outra coisa.  Ao contrário, hades aqui significa inferno. É o lugar de tormentos e da chama (Lc 16.23,24). Então, também inferno pode ser uma boa tradução correta para hades em Mateus 11.23 e em Lucas 10.15, pois aqui hades é contrastado nitidamente com céu; portanto, inferno, provavelmente, pode ser entendido  no sentido figurado de ruína. Em Mateus 16.18, o pensamento pode bem ser que nem mesmo todos os demônios fluindo para fora dos portões do inferno sejam capazes de destruir a verdadeira Igreja de Cristo. Em Atos 2.27,31, o termo hades  é  interpretado  por  muitos  como  indicando  que  a  alma  de Jesus não foi abandonada no estado de morte (existência desencarnada), não foi deixada naquele estado. Ou significa que a frase minha alma (de acordo com um famoso estudioso do idioma hebraico) simplesmente significa minha. Assim interpretada, a passagem inteira (At 2.22-31) iria apontar para o fato de que a carne de Cristo  (em contraste com a de Davi), não permaneceu para ver a corrupção no túmulo, mas no terceiro dia ela gloriosamente res­suscitou. Em três passagens onde aparece o termo hades no livro de Apocalipse (1.18; 6.8; 20.13,14), hades provavelmente se refere ao estado de morte. Porém, aqui novamente este estado é representa­do no sentido figurado, como se fosse um lugar (para o qual Jesus tem a chave) ou uma pessoa (que é sempre seguida pela Morte – 6.8 – até ser finalmente lançada no lago de fogo – 20.13,14).

 

 

Autor: William Hendriksen

Trecho extraído do livro A vida Futura Segundo a Bíblia, pág 101-105. Editora: Cultura Cristã

Reformados 21
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