Igreja em Células: uma ameaça à eclesiologia reformada e ao pastorado apostólico (3/3)

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9) O conceito neotestamentário do pastorado é completamente pervertido e mudado para empreendedorismo pelo movimento.

Como o movimento das células inaugura uma nova categoria eclesiológica, necessariamente o pastorado também será afetado.

Paul Young Cho é chamado de pastor da maior igreja do mundo da mesma forma como o papa é chamado de pastor de todos os católicos do planeta. São pastores que não pastoreiam, de fato, uma igreja desse porte. Secularmente, o termo pastor vai tomando o significado de dono, administrador, gestor, facilitador, idealizador, gerente, supervisor, analista, etc. Mas nada tem a ver com o sentido bíblico da palavra.

A AVERSÃO AO OFÍCIO PASTORAL APOSTÓLICO

O movimento de igreja em células demonstra em seus escritos uma total aversão ao ofício pastoral apostólico. Para o movimento, o ofício pastoral é causa do impedimento do crescimento da igreja. Vejamos o que ComisKei afirma:

Quando pessoas leigas fazem visitas de quinze minutos nas casas dos que vieram pela primeira vez num prazo de 36 horas, 85% desses retornarão na semana seguinte. Se o fizer num prazo de 72 horas, retornarão 60%. Se o fizer sete dias depois, 15% irão voltar. Se o pastor fizer esse contato, em vez de pessoas leigas, cada resultado cairá pela metade. (Crescimento Explosivo, p. 72)

Incrivelmente, Comiskey afirma [implicitamente; nota do editor] que o ofício pastoral é a “desgraça” da igreja. Com estas afirmações, Comiskey deixa claro que o ofício pastoral não serve para o discipulado. Os leigos fazem um trabalho muito mais efetivo do que o pastor. Para o movimento de igrejas em células, conquistar almas que simpatizam com o evangelho não é algo promissor para o ofício pastoral. Vejamos o que acontece ao ofício pastoral no movimento de igreja em células:

Nas igrejas em células, o ministério é tirado das mãos de “alguns escolhidos” e colocado no colo de muitos. (Crescimento Explosivo, p. 56)

Comiskei considera que o ministério pastoral dos leigos é apenas uma extensão do ministério do ofício pastoral; o ministério pastoral dos leigos foi retirado das mãos do ofício pastoral. É assustador a equiparação de leigos e clero no movimento das células, sendo o ofício pastoral considerado algo não muito relevante para a igreja. Intrigante também é a visão de um clero preparado consistir em algo danoso para a igreja. O ministério de “ensino e pregação” típico das manhãs de domingo não envolve muitas pessoas leigas. Só é permitida a participação de pessoas  muito “dotadas” ou “altamente formadas”. Hadaway escreve:

O cristianismo dominado pelo clero no mundo ocidental tem alargado o vão entre o clero e o laicato no corpo de Cristo. Essa divisão de trabalho, autoridade e prestígio é comum quando existe um clero profissional. (Crescimento Explosivo, p. 56)

Essas palavras de Comiskey são sarcásticas. Para ele o pastorado preparado ou formado não é bom para a igreja. É mais importante que a igreja seja “pastoreado” por gente muito simples e leiga. Nessa visão, o estudo ou formação teológica consiste num fator de impedimento de crescimento da igreja. Isso nada mais é do que a velha premissa pentecostal que já tem um século: a letra mata. Essa foi a premissa que lançou os pentecostais na mais profunda ignorância quanto à Palavra de Deus e fez surgir grandes heresias. Essa é a razão pela qual não aprendemos com pentecostais, pois eles não produziram teologia nem ideias. A proposta pastoral do movimento é de uma igreja pastoreada por gente que não tem conhecimento profundo da Palavra. No fundo, a igreja é pastoreada pelo próprio povo que nada sabe nem para si.

PASTORES QUE NÃO PASTOREIAM

Quem são os pastores e o que fazem no movimento de igreja em células?

Visitar os recém-chegados logo em seguida faz uma diferença enorme. Observe quanto mais impacto essa visita tem quando ela vem de uma pessoa leiga em vez do clero. (Crescimento Explosivo, p. 72)

Na verdade, o movimento ilude o povo com a ideia de que todo mundo pode ser “pastor”, utilizando-se do termo pastor-líder, mas no fundo ninguém recebe remuneração ou mérito senão o clero deles. Essa visão pastoral não passa de demagogia crassa. Os pastores das células entregam todo o trabalho eclesiástico ao povo, mas são eles que recebem a glória do “crescimento” tão esperado. Todos os leigos são chamados de pastores de células, mas nenhum deles ascendem ao clero dos pastores gerais ou pastor da maior igreja.

Certa vez, um pastor me mostrou uma estrutura de células que ele pretendia implantar em sua igreja. No final da apresentação perguntei-lhe onde estava o seu papel naquela estrutura gigantesca de trabalho. Ele apontou para o topo da estrutura, local onde ele não teria que fazer absolutamente nada, a não ser uma reunião semanal com alguns líderes de distritos. Fiquei tão surpreso com sua resposta que perguntei-lhe: “E esse pessoal que trabalha pra você recebe salário pastoral? Por que não? Você não me disse que todos são chamados para o pastorado? Por que só você ganha quando é o que menos trabalha?”

Na estrutura da igreja em células o clero não faz o trabalho pastoral, pois essa tarefa é realizada pelo leigo. O trabalho do clero do movimento das células não passa de supervisão estratégica de liderança. O clero não lida com o povo, pois isso, dizem eles, compete aos leigos. Esses pastores que não pastoreiam nem mesmo conhecem a igreja da qual se dizem pastores. Há uma tão grande rotatividade de pessoas e grupos dentro dessas igrejas que o pastor nem consegue acompanhar. Os pastores da igreja em células não conhecem o rebanho, não sabem dos nomes de suas ovelhas, não conhecem seus problemas, não sabem dos nomes dos filhos dos crentes; no sistema das células isso não é relevante.

Afinal de contas, o que faz o clero do movimento da igreja em células? Eles se afadigam somente em elaboração de estratégias, métodos e supervisão de líderes. A mesma tarefa de executivos que dirigem empresas. Essa foi a visão humanista que tomou conta do termo pastor na igreja em células. O que esses homens querem, na verdade, é jogar o trabalho pastoral pesado nas costas dos leigos, enquanto eles posam de executivos, cuidando apenas do gerenciamento da estrutura do negócio. São gestores e supervisores de estratégias executadas pelo povo leigo da igreja. Este é o método copiado do mundo empresarial moderno e implantado nas igrejas em células. Os livros de treinamentos dos líderes não passam de manuais de métodos de gerenciamento de empresas.

O que os pastores da igreja em células deixam de fazer? Eles deixam de cuidar do povo. Eles deixam de ensinar o povo. Eles deixam de ouvir o povo. Eles deixam de conhecer o povo. Eles deixam de curar o povo. Tudo isso é feito pelo próprio povo, e eles ainda se orgulham de seus pastorados que nada realizam. Os pastores das igrejas em células são remunerados apenas para gerenciamento de estruturas. Nada tem a ver com o ofício pastoral apostólico. As igrejas em células se colocam debaixo da liderança de seus pastores gerais, mas não precisam deles; dependem deles apenas como gestor e supervisor da estrutura.

PASTOR NÃO É GESTOR NEM GERENTE NO NOVO TESTAMENTO

A palavra pastor não foi usada indiscriminadamente para qualquer membro de igreja como o faz Ralph Neighbour, na sua teologia do pastorado leigo. Nenhum dom ou vocação espiritual é dado a todos os membros da igreja. O apóstolo Paulo deixou claro que a tarefa pastoral pertence a uns, e não a todos. Da mesma forma que o apostolado e a profecia foram dados a alguns, o pastorado também se encontra entre esses dons e ofícios.

E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres. (Ef 4:11)

O termo pastor nunca foi usado para gerenciamento nem gestão de estruturas ou sistemas nas Escrituras. Paulo deixa claro que Deus estabeleceu o dom de governos (1Co 12:28) e o dom de pastor (Ef 4:11) como coisas distintas. O movimento de igreja em células faz confusão de significados, interpretando o pastorado como governo. O dom de governo é o presbiterato ou liderança, que cuida dos negócios materiais da igreja, enquanto que pastor é o dom do cuidado, do alimento e da cura espiritual. A menos que o pastor realize essa obra pessoalmente, ele nunca poderá ser chamado de pastor de ovelhas. Qual a necessidade de pastores para uma igreja que se auto-pastoreia? Como Deus chamaria pastores para o povo se auto-pastorear? Por que então seriam chamados de pastores se é o povo que faz sua tarefa? Como posso falar que Paul Young Cho é pastor de gente que ele nunca viu? Dificilmente o termo pastor se aplicaria a pastorado virtual. Vejamos de que tipo de pastor fala a profecia de Ezequiel 34:1-16:

Ai dos pastores que apascentam a si mesmos!

Os pastores da igreja em células não apascentam o povo. Essa tarefa foi delegada aos leigos. Eles apascentam muito mais a si mesmos do que ao povo. Não existe nessa profecia nenhuma indicação de pastorado por meio de terceiros ou indiretamente. Também não há nessa profecia nada que se assemelhe ao “pastor executivo” das igrejas em células. O pastor verdadeiro lida com ovelhas. Seu trabalho é carregar ovelhas nos ombros, não delegar essa função à própria ovelha. Não apascentarão os pastores as ovelhas? Os pastores das células incutiram na mente do povo que a igreja é chamada a pastorear; mas a Palavra de Deus diz que a igreja é chamada para ser pastoreada por alguns que foram vocacionados para isso, e não por ela mesma (Ef 4:11).

Comeis a gordura, vesti-vos da lã, e degolais o cevado, mas não apascentais as ovelhas.

Os membros da igreja em células se auto-pastoreiam, fazem a tarefa do pastor e não recebem nenhuma remuneração; enquanto isso, os pastores que não pastoreiam ganham a remuneração. A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes. Os pastores de igreja em células não visitam as ovelhas. Ensinam que o povo dá mais valor às visitas feitas por leigos. Assim, todo o trabalho de fortalecer, curar, buscar a ovelha perdida é feito pelas próprias ovelhas.

Mas dominais sobre elas com rigor e clareza.

Os pastores das igrejas em células nada fazem no pastorado, mas buscam serem chamados de pastores da maior igreja do mundo. Adoram serem vistos como os chefes do povo; e se seus comandados não fizerem o trabalho pastoral certo dentro das células, eles dissolvem as células, retiram seus líderes, tomam seus postos e dão a outros.

Assim se espalharam, por não haver pastor.

O funcionamento orgânico da igreja em células é comprometido por uma fragmentação e secularização de alta rotatividade. O fim mais certo das igrejas em células é um inchaço massivo no número de membros, uma secularização e uma fragmentação de sua vida orgânica. A igreja em célula não funciona organicamente como igreja. Normalmente, e por pouco tempo, as pessoas só conhecem e se relacionam com os membros de sua célula, o que não ultrapassa a 15 pessoas. Ainda assim, cada célula se reparte em outra, formando outro grupo. A cada seis meses, as pessoas vão tendo um relacionamento rápido, rotativo e superficial com um novo grupo. Essa relação rotativa faz com que a igreja não tenha vida orgânica no corpo. A orelha não poderá estar ligada à cabeça. Cada parte do corpo foi separada para viver isoladamente, com pouquíssima relação com o restante da igreja. Por causa da alta rotatividade das relações, as partes do corpo flutuam.

Quando todas as células se reúnem, os membros só conhecem apenas seu pequeno grupo por determinado tempo. Como substituíram o culto no templo por uma mera celebração que pode ocorrer esporadicamente, a cada dia que passa, mais gente conhece menos gente, e a igreja vai se tornando secularizada até se tornar um conglomerado de pessoas que não têm nenhuma relação umas com as outras, chegando a um tipo de Catolicismo Romano. Dessa forma, o movimento de igreja em células consegue reunir uma mega igreja debaixo de um teto, na qual ninguém conhece ninguém, fragmentando e espalhando o corpo de Cristo e esfacelando a vida orgânica da igreja como um todo.

E se tornaram pasto para todas as feras do campo.

A vida doutrinária da igreja em células é devastada, e dado lugar a uma selvagem busca por números. Como a liderança da igreja em células é formada por gente sem conhecimento, a ênfase no dom de mestre é banida, as reuniões de doutrina são vetadas, e os treinadores dos líderes são o próprio povo, a igreja em células se torna um excelente berço para todas as anomalias doutrinárias e pentecostais de nossa época. Uma igreja liderada por si mesma é fraca e imatura. Qualquer lobo devorador a atacará com facilidade. O erro sempre estará à porta de uma igreja onde todo mundo ensina a todo mundo e ninguém sabe de nada. Como o grupo vai se tornando cada vez mais superficial na Palavra, e pouco esclarecido sobre a verdade, torna-se presa fácil para os dominadores vorazes que só trazem destruição para a igreja.

10) O movimento consiste de mais um movimento religioso de bases psico-sociais, e não genuinamente evangélico.

A PROPOSTA DE IGREJA EM CÉLULAS É UM MÉTODO FUNDAMENTADO EM PRESSUPOSTOS ARMINIANOS

O movimento de igreja em células não confia inteiramente na obra do Espírito, nem pode ser chamado de “uma aventura do Espírito”, como quer Comiskey. O movimento depende muito mais de estratégias e métodos psico-sociais do que do poder do evangelho. É muito claro em seus cursos, livros, manuais e treinamentos a ênfase demasiada em táticas, métodos, dados, modelos, técnicas, dicas, passos, estruturas, esquemas, sistemas, números, gráficos, posturas, testes, pesquisas, amostragens, princípios, regras e muito know-how em como aumentar a igreja em mega igreja. Tudo isso consiste em visão humana empresarial moderna para o crescimento da igreja. Nada dessas coisas foram praticadas pelos apóstolos. Eles confiavam inteiramente no poder salvador do evangelho (Rm 1:16), e suas palavras não eram apelações de métodos e estratégias, mas era demonstração de poder (1Co 2:4,5). O evangelho apostólico  salvava  vidas  no  meio  das  multidões e dos conglomerados apenas pela pregação da Palavra sem nenhuma linguagem de bajulação, (1Ts 2:5). Mas a proposta da igreja em células é completamente diferente do evangelho apostólico. Vejamos:

1) Os relacionamentos sociais são a base do interesse dos frequentadores de uma célula, e não a consciência de uma mente culpada e que necessita de salvação.

O primeiro estágio da vida da célula é gasto para que os membros possam se conhecer melhor. Talvez os líderes das células devessem desenvolver bem a arte dos quebra-gelos (conhecendo-se uns aos outros) durante os primeiros dias. Esse estágio dura um mês. (Crescimento Explosivo, p. 20)

A primeira investida arminiana para com os incrédulos é fazer com que eles dependam emocionalmente uns dos outros, criando vínculos fortes e difíceis de serem rompidos. Uma estratégia é montada e um ambiente é criado para que todos busquem a companhia e a amizade dos outros mutuamente; começa-se assim um relacionamento cativante na célula, o qual, depois de pouco tempo, passa a ser chamado de “conversão”. Pessoas que estiveram nas reuniões por motivos sociais passaram a ser vistas como “convertidas”. Dessa forma a igreja em células vai inchando até tornar-se a maior igreja do mundo, dando falsa fé e falsa esperança a pecadores que nunca conheceram o verdadeiro evangelho de Cristo.

2) A participação humana com eventos sociais é muito importante para abrir o coração dos pecadores.

Um meio eficaz de abrir corações e atrair o seu oikos são os encontro sociais. Piqueniques, eventos esportivos, retiro em um chalé nas montanhas ou refeições em conjunto não são ameaçadores e são ambientes não vinculados à igreja, onde os não cristãos se sentem à vontade. (Crescimento Explosivo, p. 76)

O meio eficaz para a abrir o coração dos novos convertidos na Era Apostólica era o poder de Deus somente pela pregação da Palavra. Deus abria seus corações enquanto ouviam a Palavra (At 16:14).

Comiskey afirma nessa citação que o ambiente de igreja é ameaçador para não crentes. Segundo ele, o método de fazer a igreja crescer é tornar o evangelho não ofensivo para transgressores. Eles devem se sentir muito à vontade, mesmo tendo um status de culpados, ofensores de Deus e inimigos de Cristo. Ninguém deverá dizer essas coisas feias a eles para que eles não se ofendam. É muito importante que não ouçam nada disso, para que não se sintam constrangidos. Toda a atmosfera das células é para fazer os visitantes relaxados e satisfeitos consigo mesmos. Também é importante que a abordagem ou primeiros contatos com pessoas incrédulas sejam por um bom tempo sem falar de igreja, para que não se sintam ameaçadas e venham a recusar o convite a uma reunião de célula.

Que absurdo! O que dizer de um evangelho que não está preocupado em constranger pecadores nas mãos de um Deus irado? Esse é o evangelho da bajulação que todos querem ouvir e depois de ouvir eles estarão rindo, relaxados, divertidos e muito satisfeitos consigo mesmos. Esse evangelho não foi o mesmo pregado por Jesus, pois os pecadores foram constrangidos e ofendidos pelas palavras do nosso Salvador (Jo 6:60,66). Também não foi o evangelho pregado por Paulo e os apóstolos, porque foi chamado de loucura para gentios, e escândalo para judeus (1Co 1:23). Se Paulo pertencesse ao movimento das igrejas em células, ele teria dado um jeito para não escandalizar ninguém nem fundir suas cucas. Mas o verdadeiro evangelho é ofensivo para pecadores. Quando não há ofensa na pregação do evangelho, certamente os pecadores não foram tocados pela Palavra de Deus em sua verdadeira essência. Essa é a razão da igreja em células crescer: grande agrupamentos de gente que entrou pela janela da satisfação social, e não pela porta do arrependimento e fé.

3) A base das “conversões” nas células é a necessidade alheia  suprida, e não o poder regenerador do Espírito de Deus.

Temos mais de 50.000 células e cada célula irá amar duas pessoas para Cristo durante o próximo ano. Eles escolhem alguém que não é cristão por quem eles podem orar, a quem podem amar e servir. Eles levam refeições, ajudam a varrer a loja de alguém – qualquer coisa que possa mostrar que realmente se importam com as pessoas… Depois de três ou quatro meses desse tipo de amor, a alma mais endurecida amolece e se rende a Cristo. (Crescimento Explosivo, p. 92)

Como já falamos anteriormente, a igreja em células não crê que o evangelho é poder em si só. Para eles é necessário que alguma coisa seja feita para ajudar a mensagem a fazer efeito. É por essa razão que todo trabalho evangelístico deles é obrigatoriamente acompanhado de movimentos sociais; são obras que ajudarão a Deus conseguir converter pecadores. Se a igreja em célula retirar o elemento social de seu projeto eclesiológico, ele certamente não produzirá frutos, pois a proposta da igreja em células é uma proposta humana, e só pode funcionar em bases sociais.

4) A barreira social é o que impede a Deus de realizar a conversão de pecadores.

Donald McGravan faz a alegação revolucionária de que as maiores barreiras para a conversão são sociais, e não teológicas, e isso muitas vezes é verdade no evangelismo na célula. Sempre é melhor formar novos grupos de acordo com relacionamentos oikos naturais. (Crescimento Explosivo, p. 100)

Essa é uma das mais graves afirmações vinda dessa pastorada oriunda do Fuller Seminary. Esta afirmação de Comiskey revela o porquê dessa gente dar tanta importância a métodos e eventos sociais para acomodar o evangelho ao homem moderno. Com essa afirmação, o mentor das células justifica o seu método celular com base naquilo que ele acredita que o homem pode fazer para interromper o desígnio de Deus. Para eles, Deus só converte pecadores depois que a igreja em células derruba as barreiras sociais. Eis a razão porque tanta ênfase em quebra gelos e tantos outros eventos sociais e ênfases no humano. Tudo isso faz parte do cardápio principal do movimento. Toda a estratégia da igreja em célula é uma visão arminiana de que é necessário remover as barreiras sociais dos homens para possibilitar Deus salvar pecadores. Tudo isso é o mais puro e verdadeiro arminianismo, uma terrível ofensa ao Deus soberano Todo-poderoso.

TODO MUNDO PASTOREIA TODO MUNDO, E NINGUÉM SABE DE NADA.

A ideia do pastorado leigo é uma ideia romântica e falsa quanto à maturidade da igreja. Nenhum grupo leigo pode produzir conhecimento suficiente para amadurecer a igreja de Cristo sem estudos teológicos de terceiro grau. A proposta de uma liderança leiga levará o grupo aos mais baixos níveis culturais na Palavra de Deus, e descortinará excelentes oportunidades para heresias e contracultura cristã. A história da Igreja Cristã tem mostrado que todos os modelos de grupos religiosos de liderança leiga terminaram nos piores exemplos de erros, misticismos, heresias, ignorância e aversão ao estudo da Palavra de Deus. Isso também relembra muito a ênfase pentecostal de pouco apego às Escrituras Sagradas. A perspectiva pentecostal contra o estudo teológico e mente teológica é produto da conhecida tese a letra mata. No movimento da igreja em célula, é proposto um treinamento de liderança que está muito longe do preparo pastoral bíblico e necessário para a igreja de Cristo.

A irresponsabilidade é tamanha. Pessoas comuns, sem muita familiaridade com as Sagradas Letras, recebem um treinamento duvidoso e parcial dentro das próprias células, pelos líderes mais antigos (que só têm seis meses de experiência), treinamento esse voltado apenas para estrategismo e pragmatismo, e recebem um título de “pastor”, aos quais, depois de fragmentado, o rebanho é entregue a eles para ser cuidado e alimentado. As reuniões de doutrina, antes feitas pelo pastor, são agora substituídas pelas reuniões leigas nas quais todo mundo ensina a todo mundo e ninguém sabe de nada. Ainda não conheço igrejas em células de crentes maduros na palavra. Aliás, os pastores que estão à frente das igrejas em células não recebem destaque teológico, e sim pragmático. Eles não são conhecidos por terem amadurecido a igreja, e sim por terem-na aumentado. A ênfase do movimento não está preocupada com o ministério da Palavra, mas no aumento selvagem de frequentadores de células. O nome de um dos livros de Joel Comiskey é: CRESCIMENTO EXPLOSIVO DA IGREJA EM CÉLULAS.

É evidente que todo crescimento explosivo é anômalo, e não pode ser uma proposta sadia de crescimento para a igreja de Cristo. É cômico, depois de uma proposta de povo auto-pastoreado, encontrar nos livros do movimento afirmações de que eles estão preocupados com a qualidade da igreja que estão formando. A ideia de edificação ensinada na igreja em células é estranha às Escrituras Sagradas. Por “edificação” os mentores do movimento entendem “necessidade de qualquer tipo” suprida. A sugestão de Neighbour é que cada irmão edifica o outro como pode, e assim a Igreja vai sendo edificada. O movimento de igreja em células é totalmente contra os termos mestre e doutrina. Dessa forma, o conceito de edificação também tem de ser mudado. No vocabulário da igreja em células, doutrina foi substituída por experiência, mestre por facilitador, edificação por necessidades supridas. (Manual do líder de célula, Neighbour, p.163)

11) O movimento é uma excelente proposta para criar líderes carismáticos tirânicos.

AUTORITARISMO, TIRANIA E PROMOÇÃO HUMANA: FRUTOS DE UMA MEGA IGREJA

O  que está por trás do pastorado leigo das igrejas em células? A estratégia tão apreciada do movimento das células em entregar o pastorado da igreja aos leigos, chamá-los de pastores, e dizer que a igreja em células é uma igreja que se auto-pastoreia, parece ser uma proposta muita boa para pessoas sem vocação que nunca frequentaram uma escola teológica, mas desejam liderar a igreja. Vejamos o que propõe o movimento das células para o pastorado.

Diferente do movimento de Igrejas nas casas, as células são parte de um todo. As células não são independentes, mas interdependentes umas das outras. Muitas células se encontram formando uma congregação para terem uma celebração semanal em conjunto. Uma congregação é uma extensão das células e não funciona sem as células. Desse modo, o pastoreio dos membros é feito pelo líder de célula, que é responsável por um grupo de apenas 3 a 15 pessoas, e não pelo pastor da igreja, que pode ser o responsável por centenas ou até milhares de pessoas.

No movimento de igreja em células a tarefa pastoral é transferida para os leigos, mas quem leva a fama de pastor de milhares são os pastores oficiais da igreja. Isso significa que os leigos são “pastores” para trabalhar pesado, e os pastores oficiais são pastores para dar ordens, comandar, chefiar, demitir e admitir. Na verdade, não são pastores, são executivos. Qualquer pessoa de bom senso entende que isso é o sistema de gerenciamento de empresa, e não de uma igreja.

Há, nessa proposta do pastorado de células, uma maléfica filosofia, baseada na perspectiva pentecostal do líder carismático. No pentecostalismo, o pastor perde suas funções terapêuticas ordinárias do ofício, e passa a encarnar a figura divina e tirânica do líder carismático. Ele passa a se destacar do povão, se torna difícil de ser encontrado, nunca vai na casa do crente comum, e ainda assim é considerado um semi-deus, por ser uma figura raríssima no meio dos irmãos. Todos querem tocar suas vestes, e suas palavras funcionam quase como oráculos. Geralmente tem interesse de agrupar o maior número possível debaixo de seu  domínio, com alguns auxiliares não muito influentes sobre o povo. Para eles, quanto maior a igreja, mais carisma e mais poder para o seu pastorado.

O método de igrejas em células é uma proposta para se acabar com a vocação do ofício pastoral no meio do povo e tornar os pastores gerais (nome dado aos pastores do movimento) em líderes carismáticos de poder absoluto. O povão desse movimento não percebe que a proposta da igreja em células é de se manter uma igreja gigante debaixo do menor número possível de liderança oficial. Quanto mais raro for a figura do ofício pastoral, mais carismático ele se torna. Daí, essa estratégia resulta em mais poder dominando um maior número de leigos. Isto redunda em três malefícios: o de formar pastores que são verdadeiras figuras carismáticas, dando-lhes poder sobre o maior número possível de pessoas; o de enganar a igreja, dizendo que ela pode se auto-pastorear, desviando a atenção da necessidade de líderes oficiais bem preparados; e o de retirar do povo a oportunidade do ofício pastoral.

No método das células é exatamente essa proposta de manter o maior número de células debaixo de um pastorado geral e auxiliado por pastores opacos e não muito significantes, que colaborarão para o engrandecimento da figura carismática do pastor geral. Por essa razão é que se diz que:

David Young Cho – Coréia – é pastor de 153.00 pessoas César Castellanos – Colômbia – é pastor de 35.000

Jorge Galindo – El Salvador – é pastor de 35.000

Há muitos outros pastores que auxiliam esses homens, mas somente um recebe a glória. A igreja em célula é, politicamente, um sistema autoritário de promoção de lideranças carismáticas imbativelmente destacadas.

O desejo de configurar como pastores das maiores igrejas do mundo faz com que esses líderes carismáticos construam sistemas políticos autoritários para se destacarem como criaturas de grande poder e eficácia entre os homens, e não permitir que nenhum outro nome dentro de seu grupo receba o título. Em outras palavras, a mega igreja em células é uma excelente opção para formatar a fama e o poder para seus líderes carismáticos, bem como para a captação de grandes somas de recursos financeiros centralizados.

AFIRMAÇÕES FALSAS, RESPOSTAS DURAS!

A IGREJA EM CÉLULAS AFIRMA:

“A organização de uma Igreja em células é um retorno à comunidade cristã de base descrita no novo testamento. Cada casa uma igreja, cada membro um ministro, vivendo em Cristo de casa em casa e na grande congregação.”

OBJEÇÃO: Tudo não passa de conjecturas e invencionices da cabeça dos mentores do movimento. Não há como provar que a Igreja neotestamentária era em célula. Não há no NT nenhuma estrutura parecida com o que eles inventaram hoje.

A IGREJA EM CÉLULA AFIRMA:

“Em outras palavras, no modelo de grupos pequenos, nós podemos experimentar a proximidade com Deus de um modo que não podemos experimentar de outra forma. Jesus expressou isso quando disse que estaria no meio de duas ou três pessoas que se reunissem em seu nome. Há algo de incomparavelmente íntimo a respeito da presença de Deus nos pequenos grupos. O alvo da célula é que os membros encontrem a presença de Jesus, que está intimamente interessado em suas vidas, para submetê-las ao seu domínio.”

OBJEÇÃO: Jesus ensinou exatamente o contrário: não há mais um lugar definido para se adorar melhor a Deus (Jo 4:21-23). A verdadeira adoração não está no templo ou em casas, pois Deus não está condicionado a lugares.

A IGREJA EM CÉLULA AFIRMA:

“Nós cremos tanto na asa do grupo grande como na do grupo pequeno. Nós cremos que o modelo de ministério em células é um modelo bíblico de ministração, que melhor expressa o caráter e a vida de Deus entre nós, que permite que todos os membros sejam ministros (e não apenas o pastor), que é um modelo que trabalha com evangelismo e é transferível para todas as culturas (fazendo dele um modelo para plantar igrejas).”

OBJEÇÃO: Falso! O que melhor expressa o caráter e a vida de Deus entre nós é a figura do tabernáculo que ainda continua sendo o modelo da presença de Deus na vida futura, e não células (Ap 21:3).

A IGREJA EM CÉLULA AFIRMA:

“A célula é uma expressão do caráter e da vida de Deus entre nós. O Pr Bill Beckham usa a ideia de Deus sendo o “Deus mais alto” e o “Deus mais próximo” para mostrar porque as células expressam o caráter e a vida de Deus entre nós.”

OBJEÇÃO: Se isso é verdade, então Israel nunca experimentou Deus, pois toda a sua história é ao lado de um Deus cultuado continuamente no Tabernáculo e mais tarde, no Templo.

A IGREJA EM CÉLULA AFIRMA:

“Quando a célula cresce em número, a liderança é reproduzida e as células se multiplicam.

Depois da multiplicação de uma célula, ela começa a focalizar-se novamente no crescimento e multiplicação.”

OBJEÇÃO: Tudo o que cresce tem que amadurecer. Se a única filosofia da igreja em célula é crescer incessantemente, ela se tornará uma monstruosidade anômala e sem vida.

A IGREJA EM CÉLULA AFIRMA:

“O seu principal trabalho como líder de um processo é investir no trabalho de treinamento de líderes e levantamento de futuros líderes, mesmo que esses futuros líderes sejam ainda novos convertidos. Não conseguimos ter líderes da noite para o dia. Eles precisam estar inseridos em um processo de treinamento (discipulado) desde sua conversão. O trilho de treinamento faz parte do processo de amadurecimento dos líderes. Um excelente livro para esse assunto é Multiplicando a liderança, de Joel Comiskey.”

OBJEÇÃO: A função pastoral não é fabricar líderes, e sim cuidar do povo de Deus. Liderança pastoral é vocação dada pelo Espírito de Deus, e não pelos homens. A Bíblia não diz em lugar nenhum que todo crente é um líder, mas que a UNS Deus estabeleceu na igreja com uma função; não todos.

A IGREJA EM CÉLULA AFIRMA:

“Sem dúvida, o processo de encontrar líderes multiplicadores é uma das tarefas mais delicadas no processo de uma igreja em células. Baseado em Ex 18 (Jetro), dizemos que um líder precisa ser fiel, capaz (ou ensinável) e disponível. Na parte de ser capaz, não exigimos nada além que ele seja capaz de facilitar um encontro de célula e ter alguma noção de aconselhamento para poder ajudar os membros. Isso diminui o grau de expectativa a respeito dos líderes. Não há necessidade de encontrar “super-homens ou mulheres”, mas pessoas normais, que podem fazer o trabalho sem grandes exigências. Outro detalhe muito importante é que o candidato a líder tenha certeza que não vai ser deixado na mão, mas que terá acompanhamento de um supervisor. Esse líder precisa ter experimentado a vida de célula como um auxiliar.”

OBJEÇÃO: Essa proposta de liderança veio para arruinar a igreja. Nem mesmo as piores empresas querem liderança fraca. Uma igreja em célula representa, nesta visão, uma igreja de liderança muito fraca, que declinará em algum ponto de sua história.

 

Igreja em células: uma ameaça à eclesiologia reformada e ao pastorado apostólico (1/3)

Igreja em células: uma ameaça à eclesiologia reformada e ao pastorado apostólico (2/3)

 

Autor: Moisés Bezerril

Divulgação: Reformados 21

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