Devorador: o mitológico demônio que ataca as finanças

Share

A ideia de que existe uma classe de demônios devoradores que atacam as finanças daqueles são infiéis no dízimo teve sua origem nos ensinamentos do herético movimento de batalha espiritual. Um dos livros que divulgou a “teologia do devorador” no Brasil foi “Por trás das Bençãos e Maldições”, do bispo Robson Rodovalho, da “igreja” Sara a Nossa Terra.

Neste livro, Rodovalho traça um paralelo de uma “revelação” que teve de quatro tipos de gafanhotos, os quais representam quatro tipos de espíritos malignos que atacam as finanças daqueles que descerram uma lacuna na vida financeira. Em outras palavras, os devoradores se adentram na vida das pessoas que dão brecha pelo fato de não serem dizimistas.

Segundo os mestres da “teologia do devorador”, nem mesmo a oração tem poder para repreender os demônios que atacam as finanças; somente o dízimo pode evitar e neutralizar a ação deles contra os cristãos. Para atestar sua aplicação alegórica dos gafanhotos como demônios vorazes, Rodovalho escreve em seu livro o entendimento que teve dos gafanhotos em Joel. Vejamos, pois:

Joel 2.25-27 – Assim vos restituirei os anos consumidos pelo “gafanhoto” migrador, pelo assolador, pelo destruidor e pelo cortador, meu grande exército que enviei contra vós. Comereis à vontade e vos fartareis, e louvareis o nome do Senhor vosso Deus, que agiu em favor de vós de maneira maravilhosa; e o meu povo nunca será envergonhado. Vós sabereis que eu estou no meio de Israel e que eu sou o Senhor vosso Deus, e não há outro; e o meu povo nunca mais será envergonhado. (Almeida Século 21)

Segundo Rodovalho, o Cortador era aquele que tinha o poder para cortar. Quando o brotinho nascesse, logo seria cortado. Começa a fazer um negócio, vem alguém e desmancha. Inicia-se uma empresa lucrativa, aí vem os prejuízos e tem que fechar. Começa a ter esperança no trabalho, logo vem um chefe que se indispõe e demite. É o espírito de gafanhoto cortador que está liberado contra a pessoa.

Migrador é um demônio que migra, muda, não fica em lugar fixo. Ele opera em um período, depois volta. Ele migra até de família em família, região em região. Você já percebeu que de vez em quando começam os acidentes de carro? Sabe o que é isso? São os espíritos migradores. Fazem danos em uma casa trazendo acidentes e perdas financeiras. Logo depois aquele espírito de tormenta vai perseguir outra família, outra casa.

Devorador tem o poder para cortar mais fundo que o migrador. Ele devora, come velozmente, arranca as cascas e o cerne das plantações, deixando apenas a raiz, às vezes deixa só o tronco morto ou semimorto. O devorador toca não apenas nos bens da pessoa, mas no casamento, nas emoções. Debilita a própria saúde, o próprio equilíbrio que aquela pessoa possuía.

Destruidor tem o poder para tirar a vida da planta. Ataca a raiz. As pessoas que se suicidam, muitas delas o receberam. Começa com a perda financeira. Vai envolvendo-se em negócios inescrupulosos, tormentos, até que perde tudo o que possui. O espírito do gafanhoto destruidor arrasa completamente os bens, a felicidade, a saúde e a própria vida da pessoa, matando-a.1

Na verdade, essa analogia entre os tipos de gafanhotos existentes com demônios não está baseada numa exegese correta do livro de Joel. Antes, é pomo da elucubração equivocada de alguém que é desonesto intelectualmente, inescrupuloso e, sobretudo, herético.

Além do texto de Joel, os propagadores da “teologia do devorador” também recorrem, como paralelo, ao famoso texto de Malaquias 3.10-12 para ratificarem a existência deles.

Malaquias 3.10-12 – Trazei todos os dízimos ao tesouro do templo, para que haja mantimento “na minha casa” [“no templo”, ênfase minha], e provai-me nisto, diz o Senhor dos exércitos, e vede se não vos abrirei as janelas do céu e não derramarei sobre vós tantas bênçãos, que não conseguireis guardá-las. Por vossa causa também repreenderei “a praga devoradora” [ou o devorador ARA], e ela [ou o devorador ARA] não destruirá os frutos da vossa terra, nem as vossas videiras no campo perderão o seu fruto, diz o Senhor dos exércitos. E todas as nações vos chamarão bem aventuradas; pois a vossa terra será aprazível, diz o Senhor dos exércitos. (Almeida Século 21)

Vamos entender corretamente o que ambos os textos verdadeiramente demonstram.

O profeta Malaquias surgiu no cenário de Israel num tempo em que imperava a tepidez espiritual. Israel estava desmotivado e em profundo desânimo. E por quê? Acerca disso, Augustus Nicodemus Lopes escreve:

Fazia cerca de 100 anos que os judeus tinham regressado do cativeiro. Deus havia mandado o povo de Israel para o exílio, por volta de 600 ou 500 a.C, em razão reiterada idolatria e falta de arrependimento. (…) Parte do povo foi para o Egito, outra se dispersou e muitos outros morreram. Durante 70 anos, o povo permaneceu cativo na Babilônia.

Tempos depois Deus trouxe de volta [o povo] à terra prometida. Esse período está registrado nos livros de Esdras e Neemias, dois homens levantados por Deus para liderar o retorno da nação à terra prometida. Porém, nem todos regressaram; parte do povo ficou na Babilônia; outra permaneceu no Egito. Mas um grande contingente voltou para a terra de Israel…

Quando regressaram, os judeus pensavam ter chegado o tempo do cumprimento das grandes promessas que os profetas de Israel haviam feito. Isaías, Ezequiel e Jeremias profetizaram um tempo maravilhoso para o povo de Deus após a restauração, e o povo acreditava que aquele seria o tempo em que essas promessas se cumpririam.

Só que cem anos se passaram desde a volta do cativeiro, e as coisas não estavam acontecendo conforme a expectativa. Promessas tinham sido feitas, mas a realidade não estava de acordo com elas. (…) Por meio dos profetas o Senhor prometera uma grande restauração de seu povo na terra, mas somente parte dele retornou da Babilônia. Os profetas haviam mencionado um período de paz, mas eles ainda estavam cercados por inimigos.

Sendo assim, a dedicação e o amor para com Deus havia se esvaído do coração do povo (1.1-5). Os sacerdotes estavam corrompidos (1.6 – 2.9). O povo havia se casado com mulheres estrangeiras que cultuavam deuses pagãos (2.10-15; Ed 9 – 10; Ne 13.23-27). Estavam cometendo injustiças sociais (3.5; Ne 5.1-13). E, finalmente, vemos a infidelidade do povo para com Deus retendo os dízimos e as ofertas (3.6-12; Ne 13.10-14).

Augustus Nicodemus Lopes ainda diz que os cultos a Deus viraram mero formalismo, rituais mecânicos e sem vida. O coração do povo não estava mais neles. Cada um dava prioridade a seus assuntos pessoais, em vez de se dedicar a terminar a reconstrução do templo e prestar culto a Deus.2

Joel, por sua vez, é um dos profetas mais antigos do Antigo Testamento. Ele aparece em meio a um período de seca prolongada em Judá, durante o reinado do rei Joás, por volta do ano 835-796 a.C,. Todavia, uma grande invasão de gafanhotos destruiu quase toda a plantação que havia na Terra Prometida, resultando numa grave crise econômica (1.7-20) que afetou o Reino do Sul, deixando-o muito enfraquecido financeiramente. Esse desastre natural enviado por Deus e que foi executado pelos gafanhotos serviu para Joel de ilustração acerca do cerne de sua mensagem: O castigo de Deus em virtude dos pecados dos sacerdotes e do povo (2.1-17).  Assim como o povo de Israel na época de Malaquias, a causa do castigo de Deus ao povo de Judá foi também devido a tepidez espiritual. O profeta Joel convoca o povo que havia deixado de amar a Deus acima de tudo para um sincero arrependimento, descrito no capítulo 2.13.

devorador (ARA, ARC) ou a praga devoradora (Almeida Século 21), ou ainda as pragas (NVI), é simplesmente a descrição de um inseto chamado gafanhoto. Existem alguns tipos de gafanhotos nos quais o profeta Joel descreve que Rodovalho e os falsos mestres neopentecostais acreditam representar demônios. Vejamos, pois:

O Cortador (gazam) é um tipo de gafanhoto que se instala ou habita na plantação. Ele destrói uma parte dos frutos, apenas. Sendo assim, o agricultor na época da colheita sofre prejuízo financeiro perdendo uma parte dela, a qual fica imprópria para o consumo alimentar.

Diferente do cortador, que habita nas plantações, o Migrador (arbeh) é um tipo de gafanhoto que voa em bando por diferentes lugares, que aparece de repente na plantação destruindo mais a colheita, aumentando ainda mais o prejuízo do agricultor.

O Devorador ou Infestante (jelek), por sua vez, é o tipo mais devastador de gafanhoto. Assim como o migrador, voa também em bando, chegando a cobrir o céu, dando o aspecto de tempo fechado. Esta nuvem é composta de muitos gafanhotos que quando pousam sobre uma plantação, a destrói quase que por completo em quase uma hora, levando o agricultor a ter mais prejuízos com a colheita.

Finalmente, o Destruidor (chasel) é o tipo de gafanhoto mais poderoso para causar a destruição. Quando uma plantação sofre o ataque destes insetos, ela é completamente arruinada, levando o agricultor praticamente à falência.

Reiterando, o ataque de gafanhotos literais que Judá sofreu na época do profeta Joel foi castigo de Deus! Essa nação havia pecado gravemente contra o Senhor. O castigo que resultou numa assoladora crise econômica para toda a nação era o meio de Deus levar o povo ao arrependimento de seus pecados e se voltar para Ele. Isso também se aplica no caso de Malaquias, onde o povo de Israel, que sobrevivia da agricultura, também sofreu financeiramente com a praga de gafanhotos devoradores.

Com efeito, o medo, a culpa e a ganância são os pilares que sustentam a crença no devorador. Os pastores vigaristas da fé neopentecostal utilizam esses três argumentos para manipular as emoções dos incautos, para que forneçam a eles valores consideráveis em dinheiro para bancar suas vidas regaladas. Ora, o medo de não ser abençoado financeiramente e de ser alvo do ataque maldito dos espíritos vorazes leva crentes iludidos e gananciosos a serem mantenedores fiéis de igrejas lideradas por homens corruptos. Destarte, o sistema das famosas campanhas do neopentecostalismo, com pessoas tentando barganhar com Deus o milagre, a benção e a prosperidade mediante o dízimo e a oferta, é extensivamente utilizado para a exploração da fé e da sustentação de um mercado religioso pragmático, sincrético e depravado.

Hernandes Dias Lopes, em seu comentário expositivo de Malaquias, entende que o devorador não é um espírito maligno conforme alegam os pentecostais e neopentecostais, mas comete um erro de aplicação, salientando que o devorador pode ser tudo aquilo que subtrai os nossos bens, que conspira contra o nosso orçamento e que mina as nossas finanças.3

Não vemos nenhuma menção nos evangelhos e nas cartas do Novo Testamento de espíritos malignos que atacam as finanças. O devorador não é algo que prejudica as finanças de quem não dizima, como entende Hernandes Dias Lopes nem um demônio, mas simplesmente um inseto [gafanhoto] que Deus utilizou para executar o seu juízo disciplinador sobre o seu povo que estava vivendo em pecado. Certamente Deus utiliza meios para disciplinar o seu povo e levá-lo ao arrependimento quando ele não está vivendo da maneira requerida pelas Escrituras. O Senhor disciplina através do desemprego, da doença, da crise financeira, da morte de um familiar e de várias outras formas. A disciplina manifesta o cuidado e o amor de Deus para com os seus filhos (veja Hb 12.4-14).

Portanto, a ideia de que existe um demônio que ataca as finanças chamado devorador é uma falácia criada no laboratório das heresias neopentecostais!

Mateus 7.15 – Cuidado com os falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em pele de ovelha, mas interiormente são lobos DEVORADORES! (Almeida Século 21)

 

 

NOTAS:

1.  Robson Rodovalho, Por trás das Bençãos e Maldições, pág 32-35.

2. Augustus Nicodemus Lopes, O Culto Espiritual, pág 11-14

3. Hernandes Dias Lopes, Malaquias, pág 103.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

Reformados 21
Reformados 21

Site de Teologia e Apologética, cujo intuito é evangelizar, discipular, ensinar, combater as heresias e defender a fé cristã.