A natureza apostólica dos dons espirituais de 1 Coríntios 12 (4/4)

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VARIEDADE DE LÍNGUAS

(gene glossôn)

E a outro a variedade de línguas.

Nos versos 10 e 28, o nome do dom é “variedade de línguas” (genê – espécies, variedade, gêneros). O termo variedade aponta para uma ideia de distinção. As línguas eram distintas porque eram idiomas falados que podiam ser diferenciados.

AS LÍNGUAS NEOTESTAMENTÁRIAS ERAM REVELACIONAIS E ESTAVAM RELACIONADAS COM O PROCESSO DE ESCRITURAÇÃO DA DOUTRINA DO NOVO TESTAMENTO

Primeira prova: Era um dom entre os dons revelacionais

A inclusão do dom de línguas no grupo dos dons que cessariam (1Co 13.8) constitui uma clara evidência de que as línguas faziam parte dos dons revelatórios, pois os únicos dons previstos para a cessação são os dons voltados para o aperfeiçoamento da doutrina da Nova Aliança.

Em 1Co 13.8, Paulo resume a cessação desses dons em três palavras distintas: profecia (que encerra o apostolado, o profetismo, curas, milagres e discernimento de espírito), línguas (encerrando-se o dom de línguas e interpretação de línguas) e ciência (que encerra o conhecimento e a sabedoria da era apostólica por meio extraordinário). Como esses dons tinham a função de revelar a verdade autoritativa e inspirada para a igreja de todos os tempos, bem como eram dons que na era apostólica traziam a verdade parcialmente (1Co 13.9), podemos concluir que depois de completada a revelação do NT, tais dons cessariam (1Co 13.8).

Segunda prova: Era um dom de conteúdo doutrinário

Em 1 Co 14.6, Paulo mostra que as línguas são um dom doutrinário, e que, por meio delas, a igreja deveria receber o mesmo conteúdo de profecia, revelação, conhecimento e ensino. Sendo assim, as línguas eram um dom que trazia acréscimo teológico à igreja quanto à doutrina da Nova Aliança. Infelizmente as versões da SBB mudaram a tradução desse texto, causando confusão na mente dos leitores. A melhor tradução desse texto é a tradução da Bíblia de Jerusalém e a NVI.8 Eis como a Bíblia de Jerusalém traduz 1 Co 14.6:

Supondo agora, irmãos, que eu vá ter convosco, falando em línguas, como vos serei útil, se a minha palavra não vos levar nem revelação, nem ciência, nem profecia, nem ensinamento?

Com essa tradução em mente, as línguas consistiam de um dom de conteúdo doutrinário. Uma outra prova disso é o emprego que Paulo faz do termo edificar (oikodomeô), o qual só é empregado quando alguma coisa é acrescentada à mente (compare 1Co 14.4,5 com 14.14,15). As línguas, portanto, deveriam edificar, ou seja, trazer conteúdo inteligível à mente (1Co 14.19).

Terceira prova: Era um dom semelhante à profecia

O dom de línguas não é inferior à profecia; esse dom, quando interpretado, tem o mesmo valor da profecia (1Co 14.5). Se as línguas correspondem à profecia, esse dom deveria ser de natureza inspirada. Isso pode ser percebido na primeira referência ao dom em Atos 2.4, onde o termo apofthegomai é empregado para a fala inspirada. Com esse termo, Pedro deu total ênfase na ideia de que línguas consistia na “fala do Espírito” (to pneuma edidou apofthegomai autoi). Essa expressão é correlata das afirmações proféticas do Antigo Testamento Assim diz o Senhor. Dessa forma, línguas consistem numa manifestação profética na qual Deus fala ao homem.

Quarta prova: Era um dom de revelar mistério

Seria o dom de línguas um dom para falar mistérios com Deus? O que Paulo quer dizer em 1 Co 14.2-4? O dom de línguas não foi dado para uso particular (esse é o argumento do apóstolo em todo o capítulo 14), pois os dons foram dados com vistas à edificação da igreja. Paulo fala da natureza das línguas, que naturalmente, Deus entende, mas o homem necessita de intérprete. Em 1 Co 14.2, a expressão porque em espírito fala mistério corresponde a uma má tradução das nossas Bíblias.9 O dom de línguas não é um exercício do espírito humano, mas uma atividade divina do Espírito Santo no homem (At 2.4: passaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito dava o que falar). A palavra mysterion (mistério) é a chave para entender o termo pneumati como o “Espírito de Deus”, pois falar mistérios é uma atividade divina (At 2.11). Alguns argumentam que o termo mistério é empregado para referir-se ao fato das línguas não serem compreendidas, tornando-se, assim, “um mistério” para quem ouve. Mas Paulo não afirma “falar em mistério”, e sim “falar mistério”, o que pode ser muito bem entendido à luz de Atos 2.11, como “falar as grandezas de Deus” que estavam ocultas. A expressão falar mistério corresponde a falar o que estava oculto, e não falar em oculto, pois dessa forma, o dom de línguas não serviria para a igreja. O termo mysterion sempre está relacionado com a história da redenção (Ef 3:4-7) e com os dons proféticos nos três capítulos sobre dons espirituais, e nunca relacionado ao modo ininteligível de se receber uma informação, (1Co 13:2).

É importante lembrar que o dom de línguas consiste num dos assuntos mais difíceis do Novo Testamento, e que, além disso, nossas traduções não ajudam, ao inserirem palavras que desvirtuam o verdadeiro sentido do texto.10

 

INTERPRETAÇÃO DAS LÍNGUAS

(hermeneia glossôn)

E a outro a interpretação das línguas.

Para uma boa definição desse dom, é necessário uma boa compreensão da natureza do dom de línguas. Primeiramente, é mister deixar claro que as línguas de Marcos (novas línguas), bem como as de Atos e as de 1 Coríntios são exatamente o mesmo dom. O uso indiscriminado de glossôn por dialektos em Atos 2 é clara evidência de que os apóstolos entendiam “línguas” como idiomas inteligíveis falados por nações gentílicas. Em nenhum momento as Escrituras do Novo Testamento fazem uso do termo glossa para designar línguas estranhas ao homem, como querem os pentecostais de nosso tempo.

O dom da interpretação (hermeneia) era um dom empregado para traduzir construções sintáticas de um outro idioma não conhecido pela assembleia. Tal dom era distinto do dom de línguas, pois também fazia parte das duas listas de 1 Coríntios. O dom de interpretação era um dom miraculoso, que acontecia sob a influência do Espírito.

Se um homem podia falar um idioma estrangeiro, por que ele mesmo não podia interpretar? Simplesmente porque não era seu dom. O que dizia em língua estrangeira o dizia debaixo da direção do Espírito (At 2.4); se houvesse tratado de interpretar sem o dom de interpretação, teria falado ele mesmo, e não como o Espírito dava o que falar.11

Como muito bem coloca Hodge, o dom de interpretação não era inerente ao dom de línguas, visto que era necessário que houvesse alguém com o dom de interpretar, ou o que falava línguas buscasse socorro divino para que houvesse interpretação (1Co 14.13). Se o falante não tem a tradução consciente simultânea, como qualquer pessoa que fale uma língua aprendida, é porque o falar das línguas não é um falar do homem, e sim do Espírito. Se for necessária uma assistência externa ou mesmo separada do dom de línguas para que haja interpretação, entende-se, pois, que a interpretação das línguas consiste numa manifestação divina e miraculosa do Espírito (1Co 12.11) em dar o entendimento do significado de palavras em um idioma nunca estudado. Se o que fala em línguas o faz sem haver aprendido, o que traduz também o faz sob a direção do Espírito, sem nunca ter conhecido a língua.

O termo grego diermeneuô (interpretação) nunca pode ser aplicado àquilo que não faz sentido. Uma prova de que as línguas interpretadas eram idiomas sintaticamente perfeitos é que no livro de Atos não houve interpretação das línguas faladas em Atos 2,10,19, e ainda assim, houve compreensão dos tais idiomas por muitos estrangeiros. Também é interessante notar que as línguas de Atos 2 não foram compreendidas por todos (At 2.13). O dom de interpretação consistia, no exercício do Juízo divino, já ensinado por Jesus em Mt 13.10-12, que tinha o mesmo objetivo de falar por parábolas. Todos aqueles que não entendem a verdade de Deus foram excluídos da graça. Em Atos, o dom de interpretação não está presente porque Deus tinha o propósito de excluir indivíduos no grande conglomerado de nações. Já em 1 Coríntios o dom de interpretação se faz presente porque se trata da comunidade dos santos (1Co 1.2), local onde se encontram os já selecionados pela graça. Sendo assim, as línguas não podiam ser exercidas sem interpretação, pois se isso acontecesse, significaria que a comunidade que não compreendesse o que foi dito estaria sendo excluída da graça. Essa é a razão pela qual Paulo diz que as línguas são um sinal para os incrédulos (1Co 14.22), pois só os incrédulos não compreendem as grandezas de Deus.

Há ainda uma dificuldade com 1Co 14:4 (o que fala em outra língua a si mesmo se edifica…). Se era necessário a presença de um intérprete, como poderia alguém usando o dom de línguas edificar a si mesmo sozinho? A resposta para essa pergunta é que, possivelmente, Deus dava o dom de interpretação também às pessoas que falavam línguas (1Co 14:13). O erro que estava ocorrendo na igreja de Corinto era que esses espirituais que tinham o dom de línguas e podiam interpretá-las estavam guardando a doutrina revelada só para si; essa postura foi veementemente reprovada pelo apóstolo Paulo.

 

 

A natureza apostólica dos dons espirituais de 1 Coríntios 12 (1/4)

A natureza apostólica dos dons espirituais de 1 Coríntios 12 (2/4)

A natureza apostólica dos dons espirituais de 1 Coríntios 12 (3/4)

 

 

NOTAS:

  1. É importante lembrar que a NVI consiste numa tradução com muitos problemas em outros lugares.
  2. Nos dois casos onde o termo pneumati aparece referindo-se ao espírito humano (1Co 14.14,32), vem acompanhado do pronome possessivo (pneuma mou) e do adjunto adnominal (pneumata), que distingue claramente o espírito humano do Espírito de Deus.
  3. Tomemos como exemplo a ARA, que insere o termo “OUTRAS línguas”, e algumas edições corrigidas (Versão da Imprensa Bíblica) que acrescentam a expressão “LÍNGUAS ESTRANHAS”, que não aparecem 11. no texto grego. É possível que esses acréscimos sejam feitos para descaracterizar as línguas como dialeto e torná-las como algo estranho ao homem.
  4. Hodge, p. 230.

 

 

Autor: Moisés Bezerril

Divulgação: Reformados 21

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