As consequências perigosas da posição continuacionista (2/2)

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  1. Ao insistir que Deus ainda está concedendo novas revelações para os cristãos atuais, o movimento continuacionista nega tacitamente a doutrina Sola Scriptura.

Aqui todo o movimento é mais concisamente definido. Ele é, em sua essência, um desvio da autoridade das Escrituras.

Obviamente, nenhum continuacionista conservador negaria absolutamente o cânon fechado. Nem negaria a autoridade ou a suficiência das Escrituras. Na verdade, meus amigos continuacionistas estão entre alguns dos mais francos defensores da infalibilidade bíblica, e sou grato pelo compromisso deles com a primazia das Escrituras e a afirmação de que só as Escrituras são o nosso guia oficial para a vida e a doutrina.

Ainda assim, na realidade, o continuacionista realmente vê os padrões sobre a suficiência única das Escrituras em níveis menos práticos, porque ensina os cristãos a buscarem revelações adicionais de Deus fora da Bíblia. Como resultado, as pessoas estão condicionadas a esperar as impressões e as palavras de Deus para além do que está registrado nas páginas das Escrituras. Usando termos como profecia, revelação, ou uma palavra da parte do Senhor, a posição continuacionista tem um potencial real para prejudicar as pessoas, ligando as sua consciências a uma mensagem incorreta ou manipuladas para tomarem decisões insensatas (porque elas acham que Deus as está direcionando a agir assim). Embora os continuacionistas insistam que a profecia congregacional não está autorizada (pelo menos, não no nível corporativo), não é difícil imaginar inúmeras maneiras em que possa ser utilizada indevidamente por líderes de igrejas sem escrúpulos.

Por um lado, continuacionistas insistem que a profecia moderna é  revelação de Deus. Por outro lado, reconhecem que muitas das vezes ela é cheia de erros e falhas, e é por isso que eles advertem as pessoas a nunca basearem decisões futuras, quaisquer que sejam, em uma palavra de profecia. Esse tipo de discurso duplo só amplifica a confusão teológica inerente à posição continuacionista.

Em essência, a visão continuacionista permite que as pessoas digam: Assim diz o Senhor (ou Eu tenho uma palavra do Senhor) e, em seguida, transmitam uma mensagem cheia de erros e que é, portanto, algo que o Senhor não disse. Como resultado, ela permite que as pessoas atribuam ao Espírito da verdade mensagens que não são verdadeiras. Isso faz fronteira com a presunção blasfema, e põe seus defensores em uma posição espiritualmente precária. Obviamente, esse tipo de erro não pode ser apoiado pelas Escrituras. Por isso, os defensores da profecia moderna, em última análise, são forçados a defender seu ponto de vista, apelando para anedotas. Eles tornam a própria experiência em autoridade, e não o claro ensinamento das Escrituras – e isso mais uma vez prejudica o princípio da Reforma Sola Scriptura.

  1. Ao permitir uma forma irracional de falar em línguas (geralmente como uma linguagem de oração privada), o movimento continuacionista abre portas para o êxtase sem sentido da adoração carismática.

Continuacionistas geralmente definem o dom de línguas como uma linguagem de oração devocional que está disponível para todos os cristãos. Ao contrário do dom apostólico (descrito em Atos 2), as línguas não correspondem essencialmente a idiomas estrangeiros autênticos. Pelo contrário, ela é caracterizada pela vocalização de sequências incoerentes de sílabas que foram posteriormente rotuladas como “a língua dos anjos” ou uma linguagem celestial. Enquanto continuacionistas são mais cuidadosos do que os carismáticos tradicionais sobre como controlar a prática da glossolalia nos cultos da igreja, o uso de línguas ainda é incentivado nas orações pessoais.

Qualquer afirmação de glossolalia moderna – mesmo que relegada apenas à oração privada – encoraja os cristãos a buscarem ma profunda intimidade espiritual com Deus através de experiências místicas, confusas e até mesmo irracionais. Essa e uma prática arriscada para os cristãos, que são chamados a renovar suas mentes, e não à ignorar as suas faculdades intelectuais ou submeter sua razão à emoção crua. Qualquer ênfase em línguas também pode promover o orgulho espiritual na igreja (o mesmo que aconteceu com os coríntios). Aqueles que experimentaram o “dom” podem facilmente se considerar, de alguma forma, superiores aos que não o possuem. Além disso, a visão continuacionista de línguas apoia um uso egoísta dos dons. O capítulo 12 da primeira carta de Paulo  aos coríntios deixa claro que todos os dons foram dados para a edificação mútua do Corpo de Cristo, e não para qualquer finalidade de autoengrandecimento, incluindo a manipulação das próprias paixões.

Endossar o “balbuciar” abre portas para o pentecostalismo mais amplo, uma vez que “falar em línguas” é a marca registrada do movimento pentecostal. A partir daí, abre-se um caminho para o ecumenismo, uma vez que esse fenômeno é experimentado dentro de muitos grupos doutrinariamente diversos (incluindo católicos romanos e até religiões não cristãs). Mais uma vez, o continuacionista se encontra em um dilema doutrinal: se as línguas modernas são um dom do Espírito Santo, então por que  os católicos  romanos  e grupos não cristãos, que são desprovidos do Espírito, fazem isso?

Jesus afirmou que a verdadeira oração não deve ser caracterizada por repetições vãs e o apóstolo Paulo enfatizou que o verdadeiro Deus não é um Deus de desordem. No entanto, a confusa desordem e a repetição mecânica de sons sem sentido está em contradição direta com essas injunções bíblicas. A visão continuacionista (de que as línguas podem ser algo diferente dos idiomas humanos autênticos) é estranha não só à descrição clara das Escrituras, mas também ao testemunho universal da história da igreja. Ninguém na história da igreja equiparou o “dom de línguas” a palavras sem sentido até o movimento carismático moderno. As únicas exceções possíveis vem de hereges, seitas e falsas religiões. – justamente todas as fontes das quais os evangélicos conservadores desejam se afastar.

  1. Ao afirmar que o dom de cura continua até hoje, a posição continuacionista ressalta a mesma premissa básica que sustenta os ministérios fraudulentos de curandeiros carismáticos.

Os continuacionistas  definem o dom de cura como a capacidade eventual de curar (como Deus assim direciona), principalmente por meio de oração. Tais curas nem sempre são eficazes, visíveis ou imediatas em seus pretendidos resultados, no entanto, as pessoas com o dom da cura ou com o dom da fé, podem ver suas orações pelos doentes respondidas com mais frequência ou mais rapidamente.

Os continuacionistas são rápidos em diferenciar esse dom moderno dos ministérios de cura de Cristo e dos apóstolos (como registrado no livro de Atos). Considerando que essas curas eram claramente milagrosas, imediatas, públicas e inegáveis, o entendimento continuacionista da cura reduz essencialmente o dom a uma oração feita pra alguém ficar bem que poderia ser respondida em um longo período de tempo. Eu sinceramente, acredito no poder da oração. Os cessacionistas também acreditam. Mas atos especiais da providência divina em resposta à oração não são equivalentes ao dom da cura milagrosa descrita no Novo Testamento. reduzir o dom dessa forma é menosprezar o que acontecia no primeiro século da história da igreja.

Apesar de tentar distanciar-se dos curandeiros do movimento carismático majoritário, os continuaconistas conferem aos vigaristas curandeiros da fé uma legitimidade  desnecessária  ao afirmar uma continuação do dom bíblico da cura. É uma absoluta crueldade ar qualquer credibilidade aos curandeiros fraudulentos que se aproveitam de pessoas desesperadas com a venda de falsas esperanças. Para ser justo, quando os continuacionistas evangélicos abordam o tema do evangelho da prosperidade, da riqueza e da saúde, eles geralmente se destacam em sua denúncia desses erros. Sou grato por sua condenação desse falso evangelho, eu apenas gostaria que pudessem  falar ainda mais sobre esse assunto. Mas afinal, por que eles defendem um dom de cura moderno? Isso fornece uma plataforma para charlatões e vigaristas. deixe o dom de cura ser o que realmente era: a milagrosa habilidade dada por Deus para curar imediatamente as pessoas da mesma forma que Cristo e seus apóstolos curavam. Ninguém hoje possui tal dom (há uma razão pela qual nenhum suposto curandeiro atual cure em hospitais ou entre feridos de guerra).

Da mesma maneira que fazem com o dom de profecia (onde a precisão da profecia depende diretamente da fé do profeta), os continuacionistas tendem a ver o sucesso das curas como sendo dependente da fé daquele que cura. Embora isso seja melhor do que colocar o ônus sobre a fé da pessoa que está sendo curada (como Benny Hinn e a maioria dos outros curandeiros carismáticos fazem), ainda  assim serve como desculpa conveniente quando o doente não é curdo. Mas qualquer tipo de cura que deixa a maioria das pessoas doentes e enfermas, em vez de curadas e saudáveis, dificilmente corresponde ao dom bíblico. Por que não reconhecer isso?

  1. A posição continuacionista, em última análise, desonra o Espírito Santo por desviar as pessoas de seu verdadeiro ministério enquanto as seduz com falsificações.

Todos os cristãos verdadeiros amam a Deus, o Pai, o Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo. Eles são profundamente gratos pelas obras de regeneração, habitação, segurança, iluminação, convicção, conforto, preenchimento e capacitação à santificação do Espírito. Eles nunca iriam querer fazer nada para prejudicar a honra devido ao seu nome, nem nunca desejariam desviar os outros de sua verdadeira obra. A posição continuacionista faz exatamente isso, ainda que voluntariamente.

A principal ferramenta que o Espírito Santo usa para santificar os cristãos é a sua Palavra inspirada. Ao insistir que Deus fala diretamente através da revelação intuitiva, das experiências místicas e dos dons falsificados, os continuacionistas, na verdade, diminuem os verdadeiros meios divinos de santificação. Como resultado, os cristãos são tentados a se desviar da Palavra e, assim, perder a espiritualidade genuína, preferindo a esterilidade de sentimentos subjetivos, de experiências emocionais e de encontros criativos. Mas ser verdadeiramente cheio do Espírito significa ser habitado pela Palavra de Deus (Efésios 5.18; Colossenses 3.16-17). Andar no Espírito pode ser percebido através dos frutos de uma vida transformada (Gálatas 5.22-23). Evidências da obra do Espírito são mensuradas em termos de crescimento em santidade e semelhança a Cristo, não em explosões emocionais ou experiências de êxtase.

Na realidade, a posição continuacionista estabelece pedras de tropeço no caminho da santificação e do crescimento espiritual, porque apoia um paradigma com práticas que não levam a uma maior santidade a Cristo. Dessa forma, prejudica e interfere na verdadeira obra do Espírito na vida dos cristãos.

 

As consequências perigosas da posição continuacionista (1/2)

 

Autor: Jonh MacArthur

Trecho extraído do livro Fogo Estranho, pág 267-272. Editora: Thomas Nelson Brasil 

Reformados 21
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