A natureza apostólica dos dons espirituais de 1 Coríntios 12 (3/4)

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PROFECIA

(profêtéia)

E a outro a profecia.

A profecia não é pregação, pois se fosse, seria um dom igual ao de mestre ou pastor. Paulo nos adverte em 1Co 12.4 que os dons são diversos; portanto, profecia não pode ser igual ao dom de pastor ou mestre. Ainda em 14.6 (… se vos não falar por meio de revelação, conhecimento, ou profecia, ou ensino), a profecia é distinta de conhecimento e ensino, os quais são elementos primordiais da pregação. Isso acontece porque a pregação é planejada (adquire-se conhecimento) e executada (ensina-se), enquanto a profecia é dada inesperadamente pela vontade de Deus, e não do homem (1Co 14.29-32).

A profecia é dada por meio de revelação (1Co 14.29,30), a pregação é por iluminação. As mulheres foram proibidas de falar na igreja (1Co 14.34,35), mas podiam profetizar (1Co 11.5). Parece contraditório, pois quem profetiza fala. Contudo, a proibição do apóstolo é com respeito ao ensino (1Tm 2.12). Logo, a profecia não pode ser igual ao ensino, pois seriam proibidas também de profetizar. Na verdade, ensinar é o exercício da autoridade humana, enquanto a profecia é o exercício da autoridade divina. Quando as mulheres profetizavam, quem estava falando era Deus; quando os homens ensinam, são eles que, autoritativamente, falam à igreja.

Uma outra característica da profecia é o conhecimento de mistério (1Co 13.2). Os termos excludentes mysterion e apokalyptô são usados por Paulo em Ef 3.4-5, onde os termos profecia e profetas estão relacionados com a revelação do mistério. Essa é a teologia paulina da profecia. A profecia é o conhecimento da revelação de um mistério que estava oculto e agora é falado. Paulo aguardava uma cessação da profecia ainda em seus dias, pois ele se incluiu no processo parcial da profecia de seu tempo: em parte conhecemos, e em parte profetizamos. O perfeito de 1 Co 13.10 não é a segunda vinda de Cristo, pois Paulo nunca usa esse termo para a vinda de Cristo, e sim a vinda do Senhor, ou o Senhor na sua vinda. Ainda vale salientar que o apóstolo não usa o termo teleion em seus escritos para escatologia, e sim para maturidade. Também, o apóstolo não teria dificuldade de chamar a vinda do Senhor em 1 Co 13.10, se esse texto fosse escatológico. Não há nenhuma evidência exegética para considerar o texto de 1 Co 13.8-13 como escatológico. O tema predominante ali é a maturidade ou perfeição da profecia. A profecia perfeita não dependeria mais de profetas que revelavam verdades parcialmente. Paulo tinha consciência de um cânon que haveria de se formar com a profecia perfeita. Como um bom judeu, Paulo convivia com o cânon do AT, e entendia que a Nova Aliança era para os gentios e judeus da sua época o que a Antiga Aliança foi para Israel. O processo revelatório culminaria numa extinção do profetismo parcial, dando lugar à profecia perfeita (ou teleion). Paulo imaginava que fazia parte do estágio final desse processo ao afirmar: em parte conhecemos, e em parte profetizamos, quando vier o perfeito, então o que é em parte será extinto.

Ora, se o que será extinto é em parte, então a profecia e o conhecimento parciais darão lugar à profecia e ao conhecimento completo. O que Paulo chama de em parte é a profecia e o conhecimento da era apostólica, os quais dependiam das revelações proféticas. Como haviam profetas e apóstolos espalhados por toda Ásia, profetizando e revelando conhecimentos do evangelho, cada um profetizava pedaços da revelação. Paulo revelou partes do conhecimento, Pedro detinha outra parte na mesma época, Judas, Tiago, João e o profeta de Hebreus participavam do mesmo processo. Lembremos que nessa época o Novo Testamento ainda era em parte. O fenômeno profético se encerraria depois que Deus revelasse toda a sua vontade e a escrevesse nas páginas do Novo Testamento. Esse é o teleion paulino.

Toda a doutrina do Novo Testamento era conhecido dos apóstolos e da igreja apostólica apenas em pedaços (em parte). Pedro, possivelmente, conheceu alguns escritos de Paulo, mas talvez não tenha conhecido os escritos de João ou de Judas. E assim sucessivamente. Como os apóstolos conheceram e entendiam o processo revelatório do AT, certamente tinham consciência e aguardavam a fase final do mesmo processo para a Nova Aliança, quando a Igreja conheceria toda a verdade revelada pelos apóstolos e profetas do NT (Ef 2:20; 3:5). Essa revelação final e escriturada é o perfeito de 1 Co 13.10.

Na literatura paulina, profeta era ofício tanto quanto apóstolo (1Co 12.28). Há quem diga que a expressão apóstolos e profetas de Efésios 2:20 aplica-se ao mesmo grupo, ou seja, apóstolos que são profetas. Mas essa interpretação está errada porque Paulo faz distinção das duas classes de dons (1Co 12:28, 29; Ef 4:11), como ofícios distintos. Um outro argumento seria que profeta não poderia ser ofício porque está junto com outros dons que não ao ofícios (curar, falar línguas); mas esse argumento não é válido porque o ofício de apóstolo está na mesma lista também. O que mais importa é que em 1 Coríntios 14:37, os que profetizam são considerados profetas, e os que exercem outros dons são chamados de espirituais (aqueles por meio de quem o Espírito agia sem ofício). Isso é confirmado em Ef 2.20 e 3.5, quando Paulo cita os ofícios de apóstolo e profeta como sendo responsáveis por lançar o fundamento da fé da Nova Aliança. Sendo Paulo judeu, a sua visão de profecia é a mesma judaica. Não há no NT diferença de níveis de profecia. Assim, Paulo destaca a profecia como ofício, diferenciando-a dos dons em 1 Co 14.37, quando fala de dois tipos de atividade do Espírito: se alguém se considera profeta (profetên, ofício), ou espiritual (pneumatikon, dons). Os últimos são aqueles que exercem dons sem ofício, e os primeiros exercem o ofício de profeta.

 

DISCERNIMENTO DE ESPÍRITO

(diakrisein pneumatôn)

E a outro o dom de discernir os espíritos.

A palavra diakrisei (julgar, discernir, distinguir) encontra-se em apenas 3 versos do NT (Rm 14.1; 1 Co 12.10: Hb 5.14). Nesses textos o sentido é sempre de “distinguir”, “fazer separação”. Contudo, a palavra mais importante para se entender o dom de “discernimento de espírito” é pneunatôn. Nos versos 8, 9, e 10 de 1 Co 12, a expressão diakriseipneunatôn está entre os dons de palavra de comunicação direta revelada. Em 1 Jo 4.1, o termo pneumata está relacionado com profecia, concordando com a mesma ideia de Paulo, que usa o termo pneunatôn no grupo dos dons proféticos. O termo pneunatôn, na verdade, é sinônimo de profecia.

O dom de discernimento de espírito tem a ver com inspiração. Como a profecia era revelada, autoritativa e inspirada, Deus deu um dom da mesma natureza do dom profético para julgar os pretensos pneumatikois de Corinto. Somente um dom profético pode julgar outro dom profético. Ao povo comum não foi dado julgar profecias, mas somente àqueles que tinham o dom profético de discernimento de espírito. Como o caráter da profecia é de trazer a revelação de um mistério (1Co 13.2), um crente comum nunca seria apto para identificar a inspiração do profeta e de sua profecia porque ninguém conhecia o mistério. Somente o dom profético de discernimento seria capaz de identificar os falsários da revelação.

A razão da existência desse dom era a novidade da revelação dos princípios e mistérios da Nova Aliança que ainda estavam sendo dados para formar o corpo da doutrina neotestamentária ou fundamento apostólico. A igreja ainda não conhecia esses mistérios, mas não tendo tal conhecimento, os crentes comuns não teriam como julgar a revelação que ainda estava sendo dada em caráter de novidade. Por tratar-se de um dom profético, possivelmente esse dom era dado exclusivamente aos profetas. Se aos profetas foi dado o mérito de decidir a ordem de quem profetizaria primeiro (1Co 14.31), é possível que só os profetas pudessem julgar os pretensos profetas inspirados naquela época. A menos que existisse um dom profético para revelar a falsidade de uma suposta profecia ou mistério, toda a igreja seria enganada. Essa foi a época da formação dos livros apócrifos e pseudoepígrafos que reivindicavam inspiração. O exercício do dom de discernimento era aplicável, exatamente, para não permitir que houvesse na igreja apostólica várias fontes de doutrina supostamente revelada, reivindicando igualdade no corpo dos escritos apostólicos do Novo Testamento.

 

 

 

 

Autor: Moisés Bezerril

Divulgação: Reformados 21

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