A natureza apostólica dos dons espirituais de 1 Coríntios 12 (2/4)

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(pistis)

E a outro, pelo mesmo Espírito, a .

A nesta lista não pode ser a fé salvadora, visto que esse dom só é dado a alguns (1Co 12.9). Este dom aparece significativamente distinto dos outros empregos da fé apenas em Mt 17.19, 20 e 1Co 13.2. Nesses textos a palavra está relacionada com feitos milagrosos. Mesmo que já tenha sido listado o dom de operação de milagres, a fé é listada como um dom distinto (a outro é dada fé). É possível que em 1Co 13.2, Paulo esteja se referindo às palavras de Jesus de Mt 17.19, 20. Distintamente do dom de operação de milagres, o dom da fé tem a ver com “uma convicção de algo que vai acontecer, a fim de ser dada uma ordem para que esse algo aconteça (Mt 17.19, 20). Juntamente com os outros dons milagrosos, o dom da fé é um dom revelacional.

A convicção do fato é obtida por meio de uma certeza revelada. Isto condiz com o entendimento do dom espiritual como sendo uma “operação de Deus” (energêmaton), (12.6). A fé milagrosa não é um dom exercido quando os homens querem, e sim quando Deus quer operar. Esta característica torna o dom da fé um dom dos feitos do Espírito, sendo, portanto, um dom inspirado (certo e eficaz). Foi usado na era apostólica para confirmar e dar credenciais aos atos e à doutrina apostólica como oráculo divino da Nova Aliança.

 

DONS DE CURAR

(Charismata iamatôn)

E a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar.

Primeiramente, devemos entender este dom como sendo o mesmo dom encontrado nos dias da igreja primitiva de Atos 4.30. O contexto deste dom é muito distinto dos dias atuais, pois o contexto das curas no NT sempre era de uma igreja que necessitava de “curas, sinais e prodígios” para autenticar a universalização do Pacto abraâmico (pacto da graça) no mundo gentílico. O mundo judeu e o mundo gentílico careciam de provas irrefutáveis de que a Nova Aliança era, de fato, a ampliação dessa aliança abraâmica, o que só poderia acontecer se houvesse uma confirmação miraculosa. Era necessário um elemento ratificador irrefutável, autêntico, infalível e autoritativo, que convencesse o mundo desses dois povos de que Deus estava expandindo sua graça sobre todos os povos da terra. Isto faria com que a mensagem apostólica fosse tida como verdade credenciada pela vontade divina, e fosse acreditada por judeus e gentios como a Nova Aliança.

Essa ideia confere com o que Paulo pensa em 2 Coríntios 12.12, onde o termo credenciais da ARA é a tradução do termo grego sêmeion – “sinal”. A cura era um dom miraculoso subentendido no termo grego dynamesin (ato poderoso), como sinal do apostolado. O que devemos entender por apostolado? A resposta é: o ofício dado sobrenaturalmente por Deus a homens com a missão de autenticar a Nova Aliança numa época em que ainda estava acontecendo a revelação da referida aliança. O apostolado produziu o fundamento teológico da igreja (Ef 2.20). A grande diferença entre o dom de cura do Novo Testamento e o pretenso dom de cura moderno é o seguinte:

 

  1. Era infalível – os apóstolos não falharam em nenhuma cura, o dom moderno falha todos os dias;
  2. Era revelacional – eles sabiam que a cura funcionaria porque tinha sido revelada tal cura;
  3. Era feita por uma ordem ou palavra – não era feito por meio de oração, “campanhas”, ou “correntes”;
  4. Era pública – sempre realizada nas ruas diante do público, não feita dentro de ambientes fechados;
  5. Cada cura estava dentro de um fato histórico que ficaria registrado para testemunho às nações – não um fato corriqueiro como é hoje;
  6. O dom de cura era direcionado à pouquíssimas pessoas – não às multidões;
  7. Os apóstolos curaram muito pouco – pois a missão e o ministério deles não era a cura de enfermos;
  8. Havia o dom de cura e não ministério de cura – os apóstolos nunca divulgaram um pretenso ministério de cura, porque só há um ministério: o da Palavra);
  9. Era credencial apostólica – pertencia apenas aos apóstolos, aos seus auxiliares e aos espirituais portadores do dom, esses que estavam participando da ratificação da Nova Aliança naquela época;
  10. Era esporádica – acontecia só quando precisava-se de testemunho da Nova Aliança entre os pagãos e judeus incrédulos, não existindo nenhum registro de campanhas de curas realizadas pelos apóstolos;
  11. Os enfermos não eram convidados – os apóstolos iam até eles;
  12. O nome de Jesus era glorificado – nos dias modernos o nome de Cristo é envergonhado todos os dias, pois os curadores falham muitíssimo em suas pretensas curas, jogando a culpa na falta de fé dos fiéis seguidores;
  13. O dom de cura apostólico tinha o caráter de inspiração divina, pois acreditamos nele sem provas empíricas – no dom moderno é preciso acreditar em pessoas mentirosas, errantes e não inspiradas, que afirmam curas que não se pode averiguar;
  14. O dom apostólico era direcionado para problemas crônicos de saúde – as curas modernas são sempre de problemas superficiais e temporários, (dores diversas, problemas circunstanciais de saúde, sendo, na maioria das vezes, problemas que se resolve no médico ou com remédios analgésicos);
  15. O dom de cura não foi dado para evangelizar – não existe ordem de Deus para a cura ser um dom evangelizador, pois os apóstolos sempre pregavam o evangelho depois da cura, além do que algumas pessoas curadas não foram salvas.

 

OPERAÇÕES DE MARAVILHAS (MILAGRES)

(energemata dynameon)

E a outro a operação de maravilhas.

O dom de milagres é um dom de credencial apostólica assim como o dom de cura (2Co 12.12). Diferentemente do dom de cura, que era mais específico (para enfermidades), o dom de milagres abrangia muitos feitos poderosos, nos quais o poder de Deus era confirmado. Se o apóstolo Paulo o usou como argumento para referendar seu ofício apostólico, logo, podemos entender que este dom era mais um dom voltado para ratificar a revelação da Nova Aliança por meio dos sinais e maravilhas apostólicos. Se o dom era uma credencial apostólica, a quem pertencia? Possivelmente só aos discípulos da escola apostólica.7 Exemplos de milagres podem ser vistos em Atos, mas sempre imediatamente relacionados com os apóstolos: a morte de Ananias (Pedro), a ressurreição de Dorcas (Paulo), a cegueira de Elimas (Paulo).

Quem mais participou desse dom? Os falsos profetas também realizaram milagres (dynamei, Mt 7.22), pelos quais receberam a condenação deles, pois tais milagres não eram da vontade de Deus (Mt 7.21), e não estavam relacionados com a história da redenção, como os modernos milagres. Os falsos profetas dos dias de Jesus eram religiosos que afirmavam o senhorio de Cristo (“Senhor, Senhor”), mas estavam reivindicando credenciais apostólicas que não tinham o objetivo de ratificar a Nova Aliança; seus milagres tinham um fim particular, voltado para seus próprios interesses, como fazem hoje os milagreiros modernos (Mt 7.22). Como, pois, poderíamos explicar a autenticidade desses milagres? Ora, os milagres de Mateus 7.22 eram fato, os milagres aconteciam, mas não tinham o devido fim para o qual Deus os destinou, que era testificar a veracidade da revelação da Palavra de Deus que estava acontecendo naqueles dias. Se o verdadeiro propósito não estava presente naquele exercício dos dons de milagres, então os milagreiros usavam para si mesmos, o que é altamente pecaminoso, pois todo milagreiro rouba a glória de Deus para si; o pecado pelo qual os pastores curandeiros serão condenados será o de roubar a glória de Deus, e fazer o povo acreditar que eles são poderosos como Deus.

Não é por acaso que todo milagreiro é famoso e suas igrejas possuem nomes que requerem para si grandiosidade, imponência e majestade, como Igreja Universal, Igreja Mundial, Igreja internacional da Graça de Deus, etc. Não vai demorar a aparecer a igreja cósmica, igreja galáctica e intergaláctica; seus pastores também só querem ser grandes e imponentes, pois chamam a si mesmos de bispos e apóstolos. Igualmente ao Papa de Roma, se estabelecem como figuras teocráticas, autoritárias e totalitárias sobre todas as igrejas e subalternos de suas seitas. Toda essa ganância e aquisição de poder são produtos do falso dom de operação de maravilhas encontrados hoje em vários canais de televisão e em cada salão milagreiro encontrados pela cidade. Como tais milagres não servem mais aos propósitos da Nova Aliança, eles servem para condenar seus portadores, enganar e arrastar os não predestinados para a condenação final (Mt 7:23).

 

 

 

 

NOTA:

  1. O termo dynamei não se aplica, em todo o NT, a pessoas que não sejam Jesus e o grupo dos apóstolos; fora esses dois, o dom era usado somente pelos falsos profetas.

 

 

Autor: Moisés Bezerril

Divulgação: Reformados 21

 

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