O mau-olhado existe? E, se existe, pega?

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O mau-olhado ou o “olho gordo” é uma crença vigente em muitas culturas no mundo. O Brasil não é uma exceção. É um termo usado para descrever o processo de ser afligido por vibrações de outra pessoa através do olhar malévolo, intencionalmente ou não. Segundo esta crença, os olhos são a manifestação do que há na alma da pessoa. É considerado um órgão sagrado capaz de emitir uma forte energia que pode intensificar o sentimento pelo o olhar. O mau-olhado pode também ser transmitido através de energia negativa, pensamentos e palavras negativas articuladas contra a outra pessoa.

Todavia, a crença no mau-olhado também é muito popular no cenário evangélico, exclusivamente entre os pentecostais e neopentecostais. Por conta disso, existe na liturgia destas “igrejas” cultos de libertação com orações fortes e campanhas para a repreensão deste mal, que, segundo os pastores e evangélicos pentecostais e neopentecostais, pode “pegar” e prejudicar a pessoa vitimada por ele de inúmeras formas. Enfermidades variadas, sendo a dor de cabeça a mais comum, problemas sentimentais, conjugais, relacionais, brigas, desemprego, falência e perda de bens materiais, são alguns dos males causados pelo mau-olhado.

A origem do mau olhado

Confúcio, um filósofo chinês, que viveu há cerca de 600 anos antes de Cristo, abordou em sua filosofia a ideia do mau-olhado. Lao-Tse, também chinês, considerado por muitos como uma lenda, viveu há cerca de 350 anos antes de Cristo. Foi um filósofo, alquimista e criador do Taoísmo, o qual também acreditava no poder do mau-olhado ou “olho gordo”. Embora não tivesse em mente pregar uma religião, mas uma filosofia moral, anos depois de sua morte, além de uma tradição filosófica, o Taoísmo se tornou praticamente uma religião.

O mau-olhado era temido e combatido pelos egípcios no mundo antigo. Por isso eles criaram amuletos ou talismãs para se protegerem e espantarem as vibrações negativas ocasionadas pelo mau-olhado. O principal amuleto egípcio é o Olho de Hórus. Na umbanda e no candomblé também existem amuletos, patuás e regras, isto é, “passes” ou “trabalhos” para combaterem o mau-olhado e seus efeitos prejudicais.

Assim, para que as pessoas pudessem se proteger dos ataques e das consequências do mau-olhado, em todas as culturas e em todos os tempos da história foram criados amuletos e talismãs, sendo o mais famoso deles o “nazar”. Em contrapartida, na tradição cristã, o mau-olhado está associado à cobiça e/ou inveja.

O mau-olhado de acordo com as Escrituras

Não encontramos um texto sequer, em toda a Escritura, que afirme, ainda que implicitamente, que o mau-olhado existe e tem poder para atingir as pessoas.  Para quem é cristão, os pentecostais e neopentecostais ensinam que o mau-olhado pode “pegar” se o mesmo “der brecha”, um clichê evangélico bastante popular.

Entretanto, se nos atentarmos para as Escrituras, constataremos que Jesus e nenhum dos apóstolos oraram repreendendo o mau-olhado nem tampouco atribuíram a consequência do mesmo a Satanás, como se existisse algum demônio por trás da pessoa que expressasse o mau-olhado contra os outros. Também não vemos um ensinamento sequer de Jesus e dos apóstolos sobre o mau-olhado.

Visto que não encontramos nenhuma referência nas Escrituras sobre o mau-olhado, porquanto é uma superstição frívola que beira à irracionalidade e que foi adotada pelas “igrejas” pentecostais e neopentecostais, não obstante encontramos nas Escrituras o termo inveja, que tem o mesmo sentido equivalente ao mau-olhado. Inveja é o desejo de possuir algo que pertence ao outro. Geralmente, a inveja vem entremeada de ódio pela pessoa que tem aquilo que o invejoso deseja. Em outras palavras, inveja é o mesmo que cobiça (veja Êx 20.17).

Vejamos, pois, alguns textos na Escritura que falam acerca da inveja:

Mateus 27.18 – Porque sabia (Jesus) que o haviam entregado (para ser preso, humilhado, espancado e morto) por INVEJA. (NVI)

Marcos 15.10 – Porque ele (Jesus) bem sabia que por INVEJA os principais dos sacerdotes o tinham entregado. (ACF)

Atos 7.9 – Os patriarcas (os seus irmãos), tendo INVEJA de José, venderam-no como escravo para o Egito. Mas Deus estava com ele. (NVI)

Atos 13.45 – Quando os judeus viram a multidão, ficaram cheios de INVEJA e, blasfemando, contradiziam o que Paulo estava dizendo. (NVI)

Atos 17.5 – Mas os judeus ficaram com INVEJA. Reuniram alguns homens perversos dentre os desocupados e, com a multidão, iniciaram um tumulto na cidade. Invadiram a casa de Jasom, em busca de Paulo e Silas, a fim de trazê-los para o meio da multidão. (NVI)

Filipenses 1.15 – É verdade que alguns pregam a Cristo por INVEJA e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade. (NVI)

Influenciados pelo gnosticismo e o animismo, muitos pentecostais e neopentecostais asseguram equivocadamente que a origem da inveja está em Satanás, isto é, que a própria inveja é um demônio, e que o mesmo deve ser exorcizado. Contudo, outros textos na Escritura afirmam categoricamente que a inveja é um pecado moral, e reside no coração do homem, no seu mais profundo íntimo. Senão vejamos:

Marcos 7.21-22 – Jesus diz: Pois é de dentro DO CORAÇÃO (ou da sua natureza pecaminosa) dos homens que procedem maus pensamentos, imoralidade sexual, furtos, homicídios, adultérios, cobiça, maldade, engano, libertinagem INVEJA, blasfêmia, arrogância e insensatez. (Almeida Século 21)

Gálatas 5.19-21- Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, INVEJAS… (ARC)

Tito 3.3 – Houve tempo em que nós também éramos insensatos e desobedientes, vivíamos enganados e escravizados por toda espécie de paixões e prazeres. Vivíamos na maldade e na INVEJA, sendo detestáveis e odiando-nos uns aos outros. (ACF)

Tiago 3.14-17 – Mas, se tendes amarga INVEJA, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. Porque onde há INVEJA e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa. Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. (ARC)

1 Coríntios 3.1-3 – Irmãos, não lhes pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo. Dei-lhes leite, e não alimento sólido, pois vocês não estavam em condições de recebê-lo. De fato, vocês ainda não estão em condições, porque ainda são carnais. Porque, visto que há INVEJA e divisão entre vocês, não estão sendo CARNAIS e agindo como MUNDANOS? (NVI)

1 Pedro 2.1 – Livrem-se, pois, de toda maldade e de todo engano, hipocrisia, INVEJA e toda espécie de maledicência. (NVI)

 

Conclusão

O mau-olhado não tem nenhum poder sobrenatural maligno que possa atingir as pessoas. É simplesmente uma crença popular, um mito! Por outro lado, a Escritura menciona a inveja, que, conforme vimos, é um pecado, uma obra da carne. A inveja só tem poder se a pessoa que está nutrindo este pecado agir contra a pessoa invejada, prejudicando-a de alguma maneira através de meios humanos, como agredi-la verbalmente ou fisicamente, disseminar intrigas, sabotá-la de alguma forma, dentre outras coisas. Se o cristão alimentar este sentimento pecaminoso dentro de si, o diabo, encontrando lugar, pode influenciá-lo e escravizá-lo neste pecado.

Portanto, que não venhamos a sentir inveja de ninguém, dando lugar ao diabo (Ef 4.27). Que estejamos satisfeitos com o que Deus têm nos dado pela sua graça, bondade e misericórdia, seguindo o seu conselho descrito nas Escrituras:

Provérbios 23.17 – Não INVEJE os pecadores em seu coração; melhor será que tema sempre ao Senhor. (NVI)

Provérbios 3.31 – Não tenha INVEJA de quem é violento nem adote nenhum dos seus procedimentos… (NVI)

Provérbios 14.30 – O coração em paz dá vida ao corpo, mas a INVEJA apodrece os ossos. (NVI)

Provérbios 24.1 – Não tenha inveja dos ímpios, nem deseje a companhia deles… (NVI)

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

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