O dom de línguas (3/4)

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  1. A LIMITAÇÃO DO DOM DE LÍNGUAS (14.26-28)

Vimos anteriormente que o espetáculo das “línguas” faladas no culto sem interpretação produz um efeito nocivo na igreja por parte dos incrédulos. Geralmente eles ridicularizam os crentes dizendo que estão loucos (vs.23). A relutância em observar o padrão estabelecido por Paulo no uso organizado das línguas no culto gera o comportamento exagerado de muitos crentes pentecostais e neopentecostais. A consequência disso é que escandalizam muitos descrentes.

Em vez de atraí-los para Cristo através do bom testemunho, que envolve o domínio próprio, a moderação e o bom senso, os que “falam em línguas” sem tradução no culto em “êxtase frenético” repelem os incrédulos. Em contraste, quando a Palavra de Deus é exposta de maneira fiel, produz humilhação, quebrantamento, confissão de pecados, regeneração e fé nos incrédulos (vs.24-25).29 O foco de Paulo neste trecho é que haja a convicção de pecados por parte dos descrentes que estão presentes no culto.

Para solucionar o problema das línguas sem interpretação, Paulo aduz as regras para o exercício adequado deste dom no culto público. O apóstolo estabelece cinco diretrizes para nortear a igreja de Corinto sobre como as línguas deveriam funcionar sistematicamente na igreja. Estas regras, por sua vez, também se aplicam à igreja de todos os tempos. Senão vejamos:

a) As línguas deveriam ser usadas para a edificação coletiva (vs.26)

Ao escrever o capítulo 14, Paulo imagina um culto público. Assim, ele começa o versículo 26 com uma pergunta retórica: Que fazer, pois, irmãos? Em outras palavras, era como se o apóstolo dissesse: Diante de todas as minhas instruções [vs.1-25], como é o culto de vocês? O que acontece quando vocês se reúnem para o culto público?30 Será que o tom dessa pergunta é uma “orientação” acerca da variedade de “contribuições espirituais” 31 que havia nos cultos por parte dos crentes para a edificação coletiva? Ou será que o tom desta pergunta soa uma “repreensão” concernente a confusão que havia nos cultos pelo fato de cada crente manifestar diferentes “contribuições espirituais” ao mesmo tempo, de forma desorganizada e sem um propósito definido?

Em toda a história da igreja, nunca houve unanimidade por parte dos teólogos e ministros em relação à forma de organização litúrgica de um culto. Sempre houve divergências sobre o que deve e não deve haver no culto. Numa tentativa de fugir de polêmicas e evitar atritos, vários grupos religiosos rejeitaram qualquer forma de liturgia organizada no culto. Acredito que o movimento dos “irmãos” é um dos exemplos mais radicais nesse aspecto.

Nelson Darby, o fundador do grupo sectário dos “irmãos”, ensinou que os dons espirituais deveriam ser exercidos no culto seguindo a “vontade” do Espírito Santo, e não uma liturgia preparada. Essa era a sua interpretação do versículo 26. Todavia, em 1828, Darby publicou um folheto intitulado The Nature and Unity of the Church of Christ (A Natureza e a Unidade da Igreja de Cristo) que continha essa ideia. Logo, o movimento dos “irmãos” espalhou-se por várias partes da Europa.

Atualmente, existem “igrejas” sectárias que também rejeitam de forma radical qualquer organização litúrgica no culto. Já estive em cultos pentecostais que são completamente desorganizados. Mesmo que rejeitem a importância de um culto organizado, baseando-se no argumento de que a ordem refreia o “mover do Espírito”, estas “igrejas”, ainda que tacitamente, acabam observando um sistema. Obviamente, nem mesmo Darby diria que o Espírito Santo age de qualquer forma e sem propósito, embora muitos dos seus discípulos tenham deixado essa impressão. Não vejo contradição entre a liberdade que o Espírito Santo possui para agir [uma vez que Deus é Soberano] e a organização de um culto. Acredito firmemente que o Espírito Santo atua manifestando o seu contentamento onde há ordem. Não acredito que o Espírito Santo age e se agrade de um culto em que impera a desordem.

Augustus Nicodemus Lopes escreve:

Quando o Espírito Santo orientou Moisés quanto ao culto do Antigo Testamento, revelou claramente o desejo de que o mesmo tivesse um desenvolvimento ordenado. Basta lermos os elaborados rituais do antigo culto. É verdade que o mesmo foi abolido em Cristo. Isso não significa, porém, a abolição dos princípios que o norteavam, mas, sim, a abolição das formas litúrgicas e do cerimonial que prefiguravam Cristo. É suficiente lermos o que Paulo escreveu aqui em 1 Coríntios 14.26-40 para percebermos que, para o apóstolo, ordem no culto é essencial para que haja edificação da igreja.32

Diante de tudo, Paulo estava instruindo ou reprovando os coríntios em sua pergunta hipotética? Acredito que o apóstolo reprova os coríntios pela desordem existente nos cultos públicos. Essa interpretação se harmoniza com todo o contexto do capítulo 14. Havia vários crentes falando em línguas ao mesmo tempo sem tradução, vários profetas profetizando ao mesmo tempo; em suma, havia muita confusão. O culto é dinâmico, participativo. Entretanto, a “contribuição espiritual” que os crentes prestam nos cultos através do exercício de seus dons para a edificação da igreja deve ser realizada com ordem.

Por vezes, alguns pentecostais e neopentecostais afirmam equivocadamente que uma liturgia bíblica e organizada é um mero formalismo mecânico; mas Paulo não ensina isso no capítulo 14, antes, ele tece diretrizes práticas de organização. Assim como os outros dons, as línguas deveriam ser usadas para a edificação da igreja.

O problema central que havia nos cultos da igreja de Corinto era o entendimento equivocado de “liberdade do Espírito” e ordem. Os crentes pensavam que um culto organizado era limitado. Para eles, o modo adequado de exercitar os dons reprimia o mover do Espírito Santo. Os coríntios queriam que as “manifestações espirituais” fossem livres de qualquer restrição, especialmente as línguas. Hoje, muitos [não todos] pentecostais e neopentecostais pensam da mesma forma. Contudo, Paulo ensina que o exercício do dom de línguas é limitado (vs.27a), organizado (vs.27b), definido (vs.27c) e controlado (vs.28). Vejamos, pois:

b) Não mais que três pessoas deveriam falar em línguas (vs.27a)

Paulo não esperava que em todos os cultos públicos ocorressem manifestações de línguas. Não era um hábito regular. A frase inicial expressa uma condição: No caso de alguém falar em outra língua. Só poderiam participar do culto se houvesse uma ou mais pessoas que falassem em línguas estrangeiras. Porém, os falantes deveriam seguir algumas regras. Uma das regras estabelecida por Paulo é determinar o número total de participantes no exercício do dom de línguas. Em qualquer culto, não mais que três, e preferencialmente não mais que duas pessoas, têm a permissão de falar em línguas. Esse é o limite imposto.

Conhecendo a preferência dos coríntios pelo dom de línguas, Paulo concede um número máximo dos que poderiam falar, estendendo-o para três pessoas. Apesar de não serem proibidas (vs.39b), as línguas poderiam ser toleradas; o número três demonstra essa ênfase.

“Com esses números, Paulo dá a entender que nem todos receberam esse dom (12.30). E, ainda, ele sugere que a restrição se aplica a qualquer reunião”.33 Nos cultos pentecostais e neopentecostais, percebemos que essa regra não é observada. Não mais que três pessoas falam em “línguas”, mas várias pessoas.

c) As pessoas que falassem em línguas deveriam falar uma após a outra (vs.27b)

O termo sucessivamente άνα μέρος (ana meros), no grego, é, literalmente, “por partes”. Significa que as línguas deveriam ser proferidas numa sequência, isto é, um deveria falar após o outro. Nos cultos da igreja de Corinto, mais de três pessoas falavam, cantavam e oravam em línguas ao mesmo tempo sem que ninguém se atentasse para o que estava sendo dito. Sendo assim, Paulo corrige esta forma errônea do uso das línguas no culto público e instrui os crentes a falarem em línguas cada um por sua vez. Em contrapartida, nos cultos pentecostais e neopentecostais, essa regra também não é obedecida. Mais de três pessoas falam, oram e cantam em línguas ao mesmo tempo. Esta é uma realidade incontestável (vs.14-16)!

d) A língua falada deveria ser interpretada (vs.27c)

Se houvesse línguas no culto, deveria haver a tradução. É um imperativo! Quando uma pessoa falava em outra língua, um dos membros da igreja que possuía o dom de interpretação a traduzia. Somente assim as outras duas pessoas tinham permissão para também falarem em línguas. É provável que Paulo esteja instruindo que apenas um intérprete traduzisse o que fosse dito pelas duas ou três pessoas que falassem em outra língua. A tradução literal da frase no grego diz: se alguém fala em língua, que sejam dois, ou no máximo três, e por parte, e um interprete.

O número um é enfático, pois reflete o número dos que podem falar em línguas e os que devem interpretar. Lamentavelmente, as versões ARA, ARC, NVI não demonstram essa ênfase. Por outro lado, as versões inglesas KJV, NKJV, RSV, NAS, NAB e a Vulgata [“et unus interpretetur”] indicam o realce.

Conforme vimos, o dom de línguas e o de interpretação aparecem como sendo distintos na lista traçada por Paulo (12.10). Nem todos falavam em outra língua e nem todos interpretavam (12.30). No versículo 5 e 13, o apóstolo parece admitir que aquele que fala em línguas também pode traduzi-las, como se a mesma pessoa tivesse os dois dons.

Entretanto, quando chega o momento das orientações práticas concernente ao uso adequado das línguas no culto, Paulo sugere que outra pessoa traduza, e não a mesma pessoa que fala em línguas (vs.26-28). Todavia, sabemos que nos cultos pentecostais e neopentecostais dificilmente há tradução para as “línguas” que são faladas; se há, são falsas, pois o cerne da mensagem é completamente equivocado e, por vezes, herético.

Reitero minhas palavras escritas na parte 1, no primeiro tópico:

No fenômeno moderno das falsas línguas, podemos notar que as supostas interpretações são geralmente repreensões, revelações de segredos, predições vagas do que Deus está por fazer e exortações gerais muitas vezes indefinidas. Uma vez que os pentecostais e neopentecostais afirmam que o que fala em línguas dirige-se a Deus, e não aos homens, as interpretações deveriam ser uma mensagem do “homem para Deus”, e não de “Deus para o homem”?! Com isso, percebemos um concomitante anacronismo em relação ao verdadeiro dom de línguas!

e) Se não houvesse o intérprete, não deveria falar em línguas (vs.28)

A frase no grego – e se não houver intérprete, fique calado na igreja, e fale para si mesmo e para Deus –, deixa implícito que nem sempre haveria um tradutor presente nos cultos públicos. O termo intérprete διερμηνευτης (diermeneutes), só aparece aqui em todo o Novo Testamento. Pode ter sido criado por Paulo baseado no verbo “interpretar” (vs.27).

Nas sinagogas judaicas havia um intérprete. Sua tarefa era traduzir para o aramaico as passagens da Lei e dos Profetas que eram lidas em hebraico nos cultos. Provavelmente, este não era um ofício duradouro, mas exercido por pessoas diferentes e escolhidas no momento do culto pelo seu dirigente. Não é mencionado de que forma aquele que falava em línguas poderia saber se havia tradutores ou não presentes no culto. Talvez Paulo imaginasse que a igreja os conhecesse, e que, na ausência deles, os que falavam em línguas deveriam calar-se.

O imperativo fique calado na igreja aparece três vezes neste capítulo (vs.28, 30,34), e, no versículo a lume, denota que Paulo não abre exceções para se falar em línguas no culto sem interpretação. É uma ordem que o apóstolo esperava que fosse observada pela igreja, pois um dos problemas que permeava a igreja de Corinto era que “muitos espirituais” falavam em línguas sem interpretação ao mesmo tempo. Tais manifestações frenéticas de línguas gerava muita confusão nos cultos públicos. O mesmo ocorre nos cultos pentecostais e neopentecostais atualmente.

Por conseguinte, se não houvesse um intérprete no culto, Paulo orienta que aquele que fala em línguas fale consigo mesmo e com Deus. O que significa essa expressão? O que Paulo quis dizer com isso? Na ausência de um tradutor, aquele que fala em outras línguas não deveria falar de forma audível no culto, mas falar de forma quase inaudível, de modo que somente aquele que fala e Deus podem ouvir.

Os dons de línguas e interpretação formam um par; ambos estão relacionados. Para que aconteça a edificação da igreja, as línguas devem ser traduzidas. Línguas sem interpretação são um desvio crasso da regra estabelecida, e só poderiam ser admitidas no culto se fossem proferidas de forma quase inaudível, como uma exceção. Geralmente os pentecostais e neopentecostais também desobedecem essa regra em seus cultos.

Acerca daquele que fala em línguas, Calvino escreve que Paulo está dizendo: “Que desfrute de seu dom em seu próprio coração, e que dê graças a Deus”. Considero a expressão falar consigo mesmo e com Deus no sentido de refletir em seu íntimo sobre o dom que graciosamente lhe fora conferido, e dar graças por ele em silêncio, bem como desfrutar dele como se fosse sua própria possessão privativa, caso não haja oportunidade de fazer-se uso dele publicamente.34 

Um culto verdadeiramente espiritual não é marcado pela histeria irracional, a qual é caracterizada por comportamentos inadequados que beiram ao ridículo, como manifestações corporais espetaculares, que envolvem gritos, pulos, rodopios e danças “no espírito”. É inegável os abusos e a desobediência de muitos pentecostais e neopentecostais às ordens de Paulo sobre a importância de um culto racional e organizado. Portanto, é justo indagar se o Espírito Santo continua a conferir o dom de línguas a crentes que infringem as regras que foram estabelecidas na Palavra de Deus. Será que o Espírito Santo manifesta-se em contentamento em igrejas que desobedecem às instruções que Paulo descreveu sobre o uso adequado das línguas no culto? Creio que não!

  1. EQUÍVOCOS RELACIONADOS AO USO DO DOM DE LÍNGUAS PELOS CORÍNTIOS, PELOS PENTECOSTAIS E NEOPENTECOSTAIS

Paulo destaca alguns erros concernentes ao uso das línguas por parte dos coríntios. É incontestável que muitos [não todos] pentecostais e neopentecostais também cometem os mesmos erros que estes crentes do passado cometeram. Vejamos:

a) Supervalorizar as línguas em detrimento dos outros dons (vs.5)

Os coríntios acreditavam que as línguas era o maior dom de todos. Hoje, ensina-se em muitas [não todas] ramificações pentecostais e neopentecostais que o crente que não fala em línguas é menos espiritual que aquele que fala. Costumam identificá-lo como um crente de segunda categoria que ainda não foi batizado com o espírito Santo.

Existem “igrejas” pentecostais e neopentecostais que exigem o falar em línguas como um requisito fundamental para se nomear um crente ao diaconato e ao ministério da palavra. Logo, o crente que não fala em línguas não pode exercer tais funções na igreja. Todavia, esse entendimento é completamente equivocado e bizarro! Pensar assim é ignorar as Escrituras e negar o ensino de Paulo, que deseja que os crentes falem em línguas, mas prefere que eles profetizem ou divulguem o Evangelho.

b) Considerar as línguas como uma prova cabal de espiritualidade (13.1)

Nenhum dom é prova de espiritualidade. O dom não é o “termômetro da espiritualidade”, como pensam muitos pentecostais e neopentecostais. Não se mede a espiritualidade de um crente pelos dons que ele tem pela graça de Deus; pelo contrário, mede-se espiritualidade de um crente pelo fruto do Espírito (G1 5.22-23). A igreja de Corinto tinha todos os dons (1.7), mas era uma igreja carnal e imatura espiritualmente (3.3).

c) Presumir que as línguas é a evidência do batismo com o Espírito Santo (12.13)

Vários mestres pentecostais e neopentecostais concordam que o falar em línguas é a evidência do batismo “com” ou “no” Espírito Santo. Segundo esse entendimento, o batismo “com” ou “no” Espírito Santo é uma segunda benção após o batismo nas águas; porém não há unanimidade sobre isso nessas ramificações. Para confirmar esse argumento, os pentecostais e neopentecostais recorrem a Atos 1.5; 2.1-3; 10.44-46; 19.1-7.

Estes eventos históricos, com exceção de Atos 2.1-3, demonstram que, após ouvirem o Evangelho e crerem, algumas pessoas falaram em línguas, como foi o caso da família de Cornélio (At 10.44-46), e os doze homens de Éfeso que foram batizados por Paulo (19.1-7). Além do evento do pentecostes, só há esses dois registros no livro de Atos sobre pessoas que falaram em línguas após serem evangelizadas e batizadas.

Não creio que as línguas sejam o sinal do batismo “com” ou “no” Espírito Santo. Antes, o batismo “com” ou “no” Espírito significa a inserção no corpo de Cristo por ocasião do novo nascimento ou da conversão (1Co 12.13). John MacArthur salienta que 1 Coríntios 12.13 esclarece que o batismo do Espírito é, na realidade, parte da experiência de salvação de todo crente.

Essa passagem não se refere ao batismo nas águas. Paulo não falava sobre a ordenança do batismo nas águas, por mais importante que esta seja em outro contexto. Paulo se referia à presença do Espírito de Deus no crente. O batismo do Espírito leva o crente à união vital com Cristo. Ser batizado com o Espírito Santo significa que Cristo nos imerge no Espírito, concedendo-nos, por meio desse ato, um princípio vital comum. Esse batismo espiritual é aquilo que nos une a todos os outros crentes em Cristo e nos torna parte de seu corpo. O batismo com o Espírito unifica todos os crentes. Isto é um fato, e não um sentimento.35

Augustus Nicodemus Lopes afirma que, com a expressão todos nós, Paulo faz referência aos crentes em geral, e não somente a si mesmo e aos coríntios. Paulo está descrevendo, na passagem, uma experiência que une todos os cristãos, independente de raça, sexo ou status social. O objetivo do apóstolo, na segunda parte de 1 Coríntios, é enfatizar a unidade dos cristãos, em contraste com a diversidade dos seus dons. Nessa perspectiva, não resta dúvida de que 12.13 esteja se referindo a uma experiência da qual todos os cristãos participam.36

John Stott corrobora:

O “batismo” do Espírito é idêntico ao “dom” do Espírito, que é uma das bênçãos diferentes da nova aliança e, também, uma bênção universal para os membros da aliança e uma bênção inicial. Ela é uma parte e um quinhão da nova época. O Senhor Jesus, mediador da nova aliança e fiador das suas bênçãos, concede o perdão dos pecados e o dom do Espírito a todos os que fazem parte desta aliança. O batismo de água, por sua vez, é o símbolo e o selo do batismo com o Espírito assim como é do perdão dos pecados. O batismo de água é o ritual cristão de iniciação porque o batismo com o Espírito é a experiência cristã de iniciação. Assim, pois, sejam quais forem as experiências posteriores à conversão, “batismo com o Espírito” não pode ser a expressão correta para elas.37

Não rejeito que ocorram experiências espirituais profundas após a conversão; porém, utilizar a expressão Batismo “com” ou “no” Espírito Santo, que é indicativo da conversão para outras experiências espirituais [e a ideia de que as línguas são uma evidência disso], é peremptoriamente um equívoco.

O derramamento do Espírito Santo foi uma promessa descrita no Antigo Testamento que se cumpriu no dia de pentecostes (Jl 2.28-32; At 2.14-36). Esse evento marcou o início do ministério pleno do Espírito Santo na igreja e a expansão da mesma por todo o mundo 38(veja At 1.8-9; 11.1,18; 15.6-21). Assim, o batismo “com” ou “no” Espírito Santo” inseriu Cornélio e os doze homens de Éfeso no corpo de Cristo. As duas passagens deixam claro que ambos não eram regenerados ou nascidos de novo.39 

Finalmente, as línguas não podem ser o sinal do batismo “com” ou “no” Espírito Santo porque é um dom. O Espírito Santo é quem distribuí os dons de maneira soberana a quem quer como quer e quando quer. E nenhum crente possuí todos os dons (1Co 12.28-30). Do contrário, não seríamos um corpo [igreja] e não precisaríamos servir uns aos outros através dos diferentes dons. Existiram crentes que não tinham o dom de línguas, mas isso não significa que não eram convertidos. A lógica do batismo “com” ou “no” Espírito no pentecostalismo e no neopentecostalismo é a seguinte: Se o crente não fala em línguas, não é batizado ou não possui um “revestimento de poder espiritual”.

Não obstante, se um crente não é batizado “com” ou “no” Espírito Santo, que denota o novo nascimento, ele não é convertido. Portanto, as línguas não são evidência do batismo “com” ou “no” Espírito Santo.

d) Enfatizar que todos os crentes devem falar em línguas (vs.30)

Muitos pentecostais e neopentecostais incorrem no erro de ensinar que todo crente têm que falar em línguas. Eles costumam dizer que, para obter experiências mais profundas com o Espírito Santo e ser revestido de poder espiritual para fazer a obra de Deus, o crente precisa falar em línguas. Existem crentes imaturos que sentem culpa por não receberem este dom.

Hernandes Dias Lopes observa que existem igrejas que chegam a induzir as pessoas a falar em outras línguas, ensinando alguns cacoetes para a pessoa enrolar a língua e emitir sons estranhos. Ele afirma que isso é imaturidade e uma conspiração contra o ensino das Escrituras.40

e) Imaginar que se podia falar em línguas em êxtase frenético (vs.32)

Corinto era uma cidade dominada pelo paganismo e norteada pela cultura grega. Seus habitantes deleitavam-se nas discussões filosóficas. Todavia, Corinto era mais conhecida pela imoralidade sexual. “O nome da cidade foi transformado em verbo. “Corintizar” significava relacionar-se sexualmente com prostitutas. Corinto era conhecida, em todo o mundo, por suas perversões e exageros sexuais”.41 Pessoas retiradas desse contexto formavam a igreja nesta cidade.

Antes da conversão, muitos crentes de Corinto eram adeptos das religiões de mistérios; e uma das maiores ameaças contra eles eram os resquícios da influência destas religiões que não foram extirpados de seus corações. Por cerca de mil anos as religiões de mistérios dominaram aquela parte do mundo. John MacArthur esclarece:

As religiões de mistérios assumiram muitas formas diferentes, retrocedendo a milhares de anos. Diversos ensinos e superstições que essas religiões propagavam eram comuns a cada uma de suas ramificações. Evidentemente, todas elas estavam interligadas por doutrinas comuns. A evidência aponta para a mesma origem: Babilônia. Todo falso sistema de adoração originou-se nas religiões de mistério da Babilônia, pois todos esses falsos sistemas religiosos começara na torre de Babel. Babel é a primeira representação da religião falsa, sofisticada e organizada (Gn 11.1-9). Ninrode, neto de Cam e bisneto de Noé, foi o patriarca apóstata que organizou e dirigiu a construção da torre (10.9-10).

Parte do esquema consistia no estabelecimento de um sistema de religião falso, uma imitação da verdadeira adoração a Deus. Desde essa época, todo falso sistema de religião possui laços filosóficos e doutrinários relacionados à apostasia da torre de Babel. Por quê? Porque Deus, ao julgar as pessoas que construíram a torre de Babel, espalhou-as pelo mundo. Elas levaram consigo as sementes da falsa religião iniciada em Babel. E, onde quer que tais pessoas se estabeleciam, praticavam alguma forma da falsa religião de Babel. Eles a adaptavam, alteravam, faziam-lhes acréscimos; mas todas as falsas religiões subsequentes provêm da religião de Babel. A heresia babilônica permanece viva até hoje.

É claro que em um centro comercial sofisticado, como a cidade de Corinto, as pessoas conheciam e praticavam diversas religiões de mistério. Tal como as falsas religiões contemporâneas, esses grupos praticavam ritos e liturgias sofisticados que incluíam regeneração batismal, sacrifícios pelos pecados, banquetes e jejuns. Os adeptos das religiões de mistério também praticavam a automutilação e castigos corporais. Criam em peregrinações, confissões públicas, ofertas, abluções religiosas e penitência para a remissão de pecados.

No entanto, talvez nenhum outro aspecto era mais característico das religiões de mistério que a experiência chamada de “êxtase”. Seus adeptos procuravam manter a comunhão mágica e sensitiva com o divino. Eles fariam qualquer coisa para entrar em um estado semiconsciente, alucinatório, hipnótico e orgástico, no qual criam manter contatos sensitivos com uma divindade. Alguns usavam o vinho para auxiliá-los na experiência eufórica, como Paulo deu a entender em Efésios 5.18. Quando os participantes sucumbiam ao estado de euforia, quer pela intoxicação literal, quer pela excitação emocional, eles pareciam estar drogados. Presumiam estar em união com Deus.42

O êxtase experimentado pelos adeptos das religiões de mistérios produzia um efeito inebriante! A pessoa era envolta numa esfera mística tão indizível que a racionalidade era suprimida e, por mais que a pessoa tentasse voltar à racionalidade, não conseguia, pois a sua vontade estava relaxada e as suas emoções acentuadas. Nesse estado, a racionalidade era completamente eclipsada. Em outras palavras, a mente envolvida no êxtase era neutralizada e as emoções assumiam o controle da pessoa. Por conseguinte, suas atitudes seriam baseadas na irracionalidade. Mas o que gerava o estado de êxtase?

Samuel Angus declara que o êxtase podia ser induzido por vigílias ou jejuns, expectativa religiosa, danças de roda, estímulos físicos, contemplação de objetos sagrados, efeito de músicas emocionantes, inalação de vapores, contágio avivalista [como ocorreu na igreja de Corinto], alucinação, sugestão e todos os métodos pertencentes ao aparato dos mistérios. Segundo Angus, o êxtase poderia variar do delírio anormal à conscientização da unidade com o invisível e à dissolução da individualidade dolorosa, que caracteriza os místicos de todas as eras.43

John MacArthur corrobora, dizendo que o êxtase poderia emancipar a alma do confinamento no corpo e possibilitar a comunhão do indivíduo com o mundo espiritual. Criava uma extraordinária sensação de leveza. Nesse estado, a pessoa detinha supostamente a capacidade de ver e compreender coisas que apenas os olhos espirituais poderiam contemplar.44

A sensação de entorpecimento espiritual provocada pelo êxtase nas religiões de mistérios era a mesma sensação que os coríntios experimentavam na igreja quando falavam, cantavam e oravam em línguas de forma desorganizada no culto. Eles eram sucumbidos pela irracionalidade emocional. O descontrole era tal que alguns chegavam a vociferar Anátema, Jesus! (1Co 12.1-3). Atualmente, reações similares acontecem em muitas “igrejas” pentecostais e neopentecostais.

Muitos pentecostais e neopentecostais descrevem ter o mesmo tipo de experiência espiritual ocorrida nas religiões de mistérios. Contudo, eles atribuem às reações de euforia espiritual caracterizada por manifestações corporais espetaculares ao mover do Espírito Santo ou ao dom de línguas. O testemunho comum deles é o seguinte: É muito bom sentir isso! É renovador! Estou me sentindo tão bem! Essa experiência é mesmo de Deus! Porém, um sentimento de bem estar denota que a experiência espiritual é verdadeira e procede de Deus? Não, necessariamente. Embora as experiências espirituais sejam subjetivas, eu não as rejeito, pois a Escritura fala sobre elas.

Todo crente, ao longo de sua trajetória cristã, experimenta uma comunhão profunda com Deus. Isso não ocorre o tempo todo, mas algumas vezes e a vida inteira. Por quê? Como assim? Mesmo regenerados e habitados pelo Espírito Santo, ainda somos inclinados ao pecado. Ainda temos uma natureza humana não redimida dentro de nós. Enquanto a glorificação de nossos corpos não acontece, vamos pecar! Por vezes pecamos contra Deus e somos suscetíveis a permanecer durante um período de nossas vidas na prática deliberada de algum pecado; e Deus não se agrada disso. Não existe um crente sequer que em nenhum momento de sua vida não tenha perseverado teimosamente num hábito pecaminoso.

O verdadeiro crente pode permanecer um tempo no pecado, mas não a vida inteira no pecado (veja 1Jo 2.9). Ele foi liberto da escravidão do pecado (veja Rm 6 e 8). Se um dito crente permanece toda a sua vida pecando, ele não é um verdadeiro crente, mas um falso crente! A vida cristã passa por altos e baixos; mas o Espírito Santo que habita no crente o capacita a vencer suas inclinações pecaminosas e a viver uma vida obediente a Deus.

Toda experiência espiritual deve ser confirmada pelas Escrituras. Se uma experiência espiritual não é ratificada pela Palavra de Deus, é falsa! A verdadeira experiência espiritual desemboca em mudança de vida; transforma todo o ser do crente. A verdadeira experiência espiritual fortalece o crente trôpego, pois ele se afasta do pecado e se volta para Deus.

A verdadeira experiência espiritual atrai o crente para uma comunhão mais profunda com Deus em oração, leitura, meditação, estudo das Escrituras e serviço cristão. Se uma experiência espiritual não gera mudança interior no crente, é falsa. Não obstante, por mais que a verdadeira experiência espiritual com Deus seja benéfica, é a Palavra de Deus que deve nortear a vida do crente, e não as experiências espirituais.

Experiências espirituais que não envolvem a razão são perigosas! O subjetivismo irracional abre portas para influências demoníacas! Por outro lado, nem toda experiência espiritual é oriunda do Espírito Santo ou do diabo. Muitas das experiências espirituais que crentes pentecostais e neopentecostais alegam ter são frutos de emoções reprimidas que são extravasadas nos cultos em que vigora a “frenesi”. Sendo assim, tanto o profeta como aquele que falava em línguas tinha pleno controle de sua vontade. Ele falava quando queria e se calava quando queria. O verdadeiro dom de línguas era exercido com domínio próprio (Gl 5.23),45 e não em êxtase como o falso dom de línguas moderno.

f) Falar em línguas na exposição da Palavra não denota fervor espiritual (vs.18-19)

Entremear na pregação frases em “línguas” [sem interpretação] é um hábito pentecostal e neopentecostal forâneo às Escrituras. Não é sinal de espiritualidade, mas de imaturidade e desobediência. Paulo prefere que a igreja seja instruída na própria língua do que em “uma língua desconhecida”.

g) Confundir as línguas com a profecia

Os pentecostais e neopentecostais afirmam que aquele que fala em “outras línguas” não fala aos homens, mas a Deus, visto que não entende o que diz, exceto se houver interpretação. Desse modo, a “língua estranha” emite uma mensagem do homem para Deus, e não de Deus para o homem. Entretanto, há um equívoco bizarro por parte dos pentecostais e neopentecostais na execução das supostas línguas: eles alternam as línguas com a profecia. Vejamos através de um diálogo fictício como é a junção das línguas com a profecia de acordo com alguns segmentos evangélicos.

Marcos está em um culto de oração. De repente, “movido pelo Espírito Santo”, ele fala em “outra língua”. Em seguida, Marcos traduz a língua que falou com uma predição para o irmão José, dizendo: “Meu servo”, ou, ainda, “eis que te digo” […], e divulga a mensagem. Onde está o erro nessa prática?

1) Transformou a mensagem da suposta língua falada em profecia.

2) Em toda a Escritura, as profecias sempre foram transmitidas numa língua conhecida por todos.

3) Reiterando, os pentecostais e neopentecostais asseguram que as línguas são uma mensagem do homem para Deus, e não de Deus para o homem. A profecia, por sua vez, é uma mensagem de Deus para o homem. Portanto, a tradução das línguas deveria ser uma mensagem do homem para Deus, e não uma mensagem de Deus para o homem, como é a profecia.

4) Não existe na Escritura uma profecia sequer comunicada na primeira pessoa, como meu servo. Geralmente as profecias eram comunicadas na terceira pessoa: Assim diz o Senhor! (veja alguns exemplos em 1Cr 21.11; 2Cr 34.23; Is 7.7; Jr 33.2; Ez 7.1-2; 21.9; Ag 1.7; Zc 11.4).

 

Então, qual é o equívoco nas expressões meu servo ou eis que te digo? Implica em dizer que a pessoa que está divulgando a mensagem profética é uma incorporação do próprio Deus. O profeta está falando em nome de Deus ou é o próprio Deus? A pessoa que está ouvindo a profecia é serva de quem? Do profeta que está comunicando a mensagem ou de Deus?

Quando divulgava uma mensagem, o profeta do Antigo Testamento não assumia o lugar de Deus, mas falava como um representante DEle. O profeta era apenas o instrumento da mensagem e não a sua fonte. Portanto, é laborar em erro dirigir-se a outra pessoa, dizendo: Meu servo ou eis que te digo. Ademais, interpretar as “línguas” em forma de profecia também é um erro que deve ser rejeitado.

 

O dom de línguas (1/4)

O dom de línguas (2/4)

O dom de línguas (4/4)

 

NOTAS:

  1. Profetizar não é revelar fatos ou pensamentos secretos dos incrédulos no culto como um tipo de adivinhação; ou, ainda, não consiste apenas em predizer eventos futuros, como os profetas do Antigo Testamento e os apóstolos fizeram. Profetizar também significa transmitir uma mensagem vinda de Deus. Este é o significado primário. Essencialmente, esta mensagem é a interpretação da Palavra de Deus que os profetas locais das igrejas do Novo Testamento faziam.
  2. Charles Hodge entende a pergunta de Paulo desta forma.
  3. O canto de salmos fazia parte da liturgia das sinagogas judaicas e da igreja primitiva. Podia ser ou não acompanhado melodicamente por algum instrumento. Presumo que o ensino e a revelação são relacionados à exposição das Escrituras.
  4. Augustus Nicodemus Lopes. O culto espiritual, pág 224.
  5. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 703.
  6. Calvino. 1 Coríntios, pág 437.
  7. John MacArthur. Caos Carismático, pág 250-251.
  8. Augustus Nicodemus Lopes. Cheio do Espírito, pág 77.
  9. John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito, seção sobre A promessa do Espírito.
  10. Acerca da “extensão” do derramamento do Espírito Santo, veja Abraham Kuyper, em A Obra do Espírito Santo, pág 154.
  11. Para saber os detalhes da interpretação dos textos mencionados, veja John Stott, em A mensagem de Atos, pág 210-215; 341-343, e Simon Kistemaker, em Atos, volumes 1 e 2.
  12. Hernandes Dias Lopes. 1 Coríntios, pág 263.
  13. John MacArthur. Caos Carismático, pág 214.
  14. Ibid, pág 215-216.
  15. Samuel Angus. The mystery religions and Christianity, pág 101.
  16. John MacArthur. Caos Carismático, pág 218.
  17. Quando falaram em línguas estrangeiras no pentecostes, os apóstolos tinham consciência do que estavam fazendo (At 2.15).

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

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