O dom de Línguas (2/4)

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  1. A APLICAÇÃO DO DOM DE LÍNGUAS E SUA RELAÇÃO COM OS NÃO CRENTES (14.12-25)

Tendo tratado acerca do dom de línguas relacionado aos crentes, Paulo, agora, discorre sobre o dom de línguas relacionado aos não crentes. O apóstolo enfatiza a importância da mente para o entendimento do que ocorre no culto público. Ele ensina que os atos “no Espírito” envolvem o uso do intelecto (vs.12-17), e instrui os coríntios no uso das línguas em face dos visitantes no culto (vs.20-25).

a) A aplicação das línguas (vs.12-25)

Paulo aplica o princípio do entendimento das línguas ao crente que as fala, aos demais crentes da congregação e, por fim, aos não crentes. Vejamos, pois:

i. O princípio do entendimento das línguas aplicado ao próprio crente que as fala (vs.12-14)

A parte a do versículo 12 é a conclusão do versículo anterior. Tendo utilizado a ilustração de dois estrangeiros que conversam entre si, porém ambos desconhecem o idioma um do outro, Paulo conclui o versículo, dizendo: Assim também vós. Era como se o apóstolo dissesse: “Isso também acontece entre vocês quando há línguas não traduzidas no culto”.

Todavia, Paulo reconhece que os coríntios desejavam ter os dons espirituais; e ele não os repreende por isso (12.31; 14.1,39). Antes, Paulo os corrige com relação ao modo pelo qual pensavam em obter os dons; os coríntios desejavam os dons como se fosse uma expressão de espiritualidade superior. Assim, Paulo emprega a edificação da igreja como o alvo da busca pelos dons espirituais. Era com esse pensamento que os crentes deveriam exceder nos dons espirituais que fossem mais adequados para isso.

No versículo 13, ele instrui os crentes em como as línguas deveriam ser exercidas no culto para que houvesse a edificação da igreja. Ele escreve que, se alguém possui o dom de línguas, o tal deve orar para que a possa interpretar. Como entender essa expressão? Aquele que falava em línguas no culto não entendia o que estava dizendo. Se ele entendia, por que orar pela interpretação? O objetivo de quem falava em línguas não era em si a auto edificação, mas buscar com que os outros fossem edificados. Para isso, o falante deveria orar para que pudesse traduzir as línguas.

A primeira vista, parece que Paulo está ensinando que a mesma pessoa que fala em línguas também pode interpretá-las. Porém, essa interpretação contradiz a regra estabelecida por Paulo com relação ao entendimento das línguas no culto, ou seja, que uma pessoa falasse em línguas e outra pessoa as traduzisse. Variedade de línguas e interpretação de línguas são dons distintos conferidos a pessoas distintas nas duas listas de dons que Paulo descreveu nesta carta (12.10,30).

Quando o apóstolo trata do uso das línguas no culto, ele demonstra que uma pessoa falava em línguas e outra as interpretava (vs.26-27). O sinal para que o falante em línguas deveria se calar era a ausência do tradutor (vs.28). Portanto, a melhor interpretação, seria entender que Paulo estava orientando aquele que falava em línguas a orar para que Deus concedesse o dom de interpretação de línguas a outro; assim, como resposta de oração, o que falava em línguas teria a sua mensagem traduzida.

Para confirmar a sua instrução, Paulo enumera alguns motivos utilizando como exemplo a oração e o ato de louvar a Deus em línguas (vs.14-15). Senão vejamos:

1) Paulo escreve hipoteticamente como se estivesse participando de um culto público. A sentença inicial do versículo 14 implica uma “condição” – Porque se eu orar. Paulo não diz que ora em um idioma estrangeiro no culto; pelo contrário, ele apenas afirma o que aconteceria se orasse em uma língua desconhecida dos irmãos da igreja em Corinto: o seu espírito estaria orando e recebendo a atuação direta do Espírito Santo, o que é algo bom, porém não seria a forma adequada de exercer o dom, uma vez que a mente estaria ausente para a compreensão intelectual do conteúdo da mensagem em línguas.

Assim, não somente o falante em línguas não entenderia a sua oração, mas também os demais irmãos na igreja. Por isso Paulo escreve [utilizando ele mesmo como exemplo] que a mente daquele que falava em línguas sem interpretação no culto ficaria infrutífera, e que ele, se estivesse participando de um culto, preferia instruir os irmãos na própria língua do que o fazer em outra língua que fosse desconhecida (vs.19).

Adiante, o apóstolo declara que deve haver um equilíbrio no exercício do dom de línguas no culto público. A maneira adequada, diz ele, seria orar com o espírito e utilizar a mente para a compreensão (vs.15). Note que Paulo deixa claro que orar em línguas sem o uso da mente é fazer mau uso do dom e, portanto, um erro que deve ser evitado (vs.16-17). “Espírito” [humano] e mentes estão conectados, e ambos devem ser usados no exercício do dom de línguas para que haja a edificação da igreja. Paulo quer dizer que ele [e o que possuí o dom de falar em línguas estrangeiras] deve orar numa língua conhecida por todos no culto para que haja o entendimento mental.

Simon Kistemaker esclarece:

Como o espírito e a mente funcionam? A mente humana, que tem a capacidade de pensar e entender, está intimamente ligada ao espírito humano. Quando o Espírito Santo controla tanto o espírito como a mente, uma pessoa geralmente viceja e prospera. Mas quando o espírito humano não é governado pelo Espírito Santo, a mente permanece espiritualmente ociosa e o resultado é a esterilidade. […] É possível o espírito e a mente funcionarem separadamente, mas Paulo dá a entender que o espírito e a mente de uma pessoa precisam estar envolvidos igualmente para serem produtivos. O espírito e a mente devem operar juntos no exercício da oração para pronunciar palavras inteligíveis. Precisam edificar os membros da igreja que ouvem essas palavras. Portanto, Paulo insiste que os coríntios orem num idioma que seja conhecido por todos os que estão presentes no culto. Ele diz aos coríntios que tanto o espírito como a mente devem orar com eficácia para o benefício da igreja.12

Calvino escreve:

Se alguém era dotado com o dom de línguas e falava de forma simples e inteligível, então seria estranho que Paulo falasse de “o espírito ora, porém o entendimento fica infrutífero”, pois o entendimento deve agir em sintonia com o espírito. […] Portanto, se formulo orações numa língua que não é conhecida, e o espírito [humano] me supre com palavras, é evidente que o próprio espírito que regula minha língua, nesse caso orará, minha mente, porém, ou estará vagando sem rumo ou, ao menos, não tomará parte alguma na oração.13 

Por outro lado, o mesmo acontece com o louvor entoado a Deus em línguas (vs.15). Paulo ressalta que ele [e outro que possua o dom de falar em línguas estrangeiras] pode cantar em “espírito”, porém utilizando a mente como o meio de entendimento do conteúdo do louvor. Ora, reconhecendo a prática equivocada do cantar em línguas sem tradução, a qual é vigente em algumas em ramificações pentecostais e neopentecostais, Carson observa corretamente que “não existe evidência de que isso justifique uma total participação da congregação. Para começar, isso violaria o princípio de Paulo de que nem todos têm o mesmo dom; e, além disso, uma vez que isso também é uma forma de falar em línguas, a interpretação deve ser exigida”.14

O segundo motivo que Paulo salienta para corroborar suas orientações acerca do uso adequado das línguas no culto, utilizando como exemplo a oração e o ato de louvar a Deus em línguas, encontra-se no próximo sub tópico:

ii. O princípio do entendimento das línguas aplicado aos demais crentes da congregação (vs.16-20)

2) No versículo 16, Paulo afirma que, se alguém realizar uma oração a Deus em outro idioma no culto público, o indouto não poderá dizer amém, pois não compreende o que foi dito. Como Paulo tinha mente um culto imaginário ao escrever o capítulo 14, temos aqui um diálogo hipotético ou imaginário. O apóstolo supõe um diálogo com um crente “espiritual” que tinha o hábito de orar em línguas durante o culto sem preocupar-se com o indouto ao seu lado. Sendo assim, quem seria esse indouto?15 Existem duas possibilidades acerca da identidade desta pessoa.

A primeira possibilidade é que o indouto seria um descrente que visita um culto público da igreja. Esse indouto é identificado como alguém que não é instruído na Palavra de Deus. Esta palavra forma um par com a palavra incrédulo no versículo 23, referindo-se a alguém que visita a igreja. Se o indouto for mesmo um “descrente” que participa de um culto público, seria estranho ele dizer amém após presenciar os demais crentes “adorando a Deus” através de orações de gratidão e louvores. A segunda possibilidade é que o indouto é alguém que não possui o dom de interpretação de línguas ou que desconhece o idioma que está sendo falado. Em outras palavras, era um leigo, uma pessoa simples (NTLH), mas um crente.

A palavra indouto ιοιωτον (idiotes), no grego, significa “desinformado”; “alguém que não é instruído”. Portanto, acredito que a segunda possibilidade é a melhor interpretação; ou seja, o indouto é um crente simples que não possuía o dom de interpretar línguas humanas ou que desconhecia o idioma que era falado no culto (vs.23-24). Era um “indagador” cuja posição estava entre o descrente e o crente mais informado.16 O cerne desse problema não é a incapacidade do indouto para entender as verdades da fé cristã, mas a incapacidade de entender o idioma falado no culto sem a tradução.

Prosseguindo o seu argumento, Paulo faz uma pergunta hipotética ou imaginária ao que fala em línguas no culto público: E, se tu bendisseres apenas em espírito, como dirá o indouto o amém depois da tua ação de graças? O indouto ou a pessoa como menos instrução não poderá dizer amém17 às ações de graças daquele que fala em línguas estrangeiras, visto que o tal não compreende o que está sendo dito. Acerca do significado da palavra amém, Augustus Nicodemus Lopes escreve:

O povo de Deus no período do Antigo Testamento, por vezes, expressava seu assentimento à Lei e seu desejo de submeter-se a ela dizendo “amém” após a sua leitura (Dt 27.15; Ne 5.13). Às vezes, diziam “amém” em aquiescência à oração de outros (1 Rs 1.36) ou em ação de graças (1 Cr 16.36; veja SI 106.48). As igrejas cristãs primitivas seguiram o exemplo de Israel em associar-se audivelmente com as orações e ações de graça em seu favor. O artigo definido antes de “amém” (o amém) em 1 Coríntios 14.16 mostra que essa era a prática comum.18

No entanto, se a oração era realizada em outro idioma, os menos informados não poderiam dizer amém. No versículo 17 temos uma repreensão. Paulo não tece uma crítica ao ato de gratidão que o falante em línguas presta a Deus em oração, pois é algo bom; antes, ele critica a forma que a oração é realizada – em línguas. O apóstolo censura aquele que ora em línguas pela desconsideração para com os desinformados, os quais não recebem nenhum benefício espiritual porque não entendem o idioma falado.

Concluindo as razões que confirmam suas orientações sobre o uso adequado do dom de línguas no culto público, Paulo escreve no versículo 18: Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que vós. Praticamente não sabemos de nenhuma situação em que Paulo falou em línguas estrangeiras. Não há nenhum registro no livro de Atos e nas cartas de Paulo que denote que ele falou em vários idiomas em diferentes lugares. É somente por meio dessa revelação pessoal, feita com o objetivo de reforçar seu argumento contra o uso das línguas não interpretadas na igreja, que sabemos que o apóstolo também falava em línguas. Falar em línguas fez parte da experiência dos demais apóstolos pelo menos uma vez, no Pentecostes (At 2.4), e, provavelmente, fazia parte do equipamento sobrenatural mencionado por Paulo em 2 Coríntios 12.12 que visava autenticar o ministério apostólico.19

Apesar de falar mais idiomas humanos que os coríntios pelo poder do Espírito Santo, percebemos, com esta afirmação, que Paulo se mostrava bastante reservado com relação ao uso deste dom. A repreensão contra a prática inadequada das línguas no culto não era porque Paulo não tinha a experiência pessoal de falar em línguas; pelo contrário, ele falava mais línguas estrangeiras que os demais crentes em Corinto. Aparentemente, este dom não consistia apenas na habilidade de falar uma mesma língua pelo poder sobrenatural Espírito Santo, mas várias línguas.20

Por vezes, os pentecostais e neopentecostais costumam argumentar que se os crentes tradicionais, opositores do hábito de falar em línguas “estranhas”, experimentassem este dom, indubitavelmente mudariam de opinião. Entretanto, vimos que Paulo falava vários idiomas humanos e mesmo assim era reservado quanto ao uso que os coríntios faziam desse dom nos cultos.

Em seguida, no versículo 19, Paulo acentua que, mesmo que fosse capaz de falar milhares de palavras em idiomas estrangeiros, ainda assim preferia falar na igreja poucas palavras na própria língua para que houvesse o entendimento da mensagem e a igreja fosse edificada. A preferência do apóstolo em instruir a igreja numa língua conhecida por todos não deveria ser observada pelos pentecostais e neopentecostais? Eles não deveriam refrear o uso inadequado que fazem das “supostas línguas” nos cultos? Ou eles não desobedecem as regras estabelecidas por Paulo nos versículos 27-28? Claro que sim! Não somente dois ou três falam em línguas no culto, mas vários, ao mesmo tempo e sem tradução.

Não obstante, para corroborar a prática da “oração em línguas” no âmbito privado, os pentecostais e neopentecostais utilizam os versículos 18-19. Segundo eles, Paulo tinha o hábito de orar em línguas em secreto. Carson afirma:

Não há defesa mais firme para o uso privado do falar em línguas do que essa [passagem demonstra], e tentativas de evitar essa conclusão se tornam marcantemente insignificantes sob exame. […] Não adianta supor que Paulo está aconselhando o uso privado e silencioso de línguas durante um culto, enquanto outro ministra. […] Já vimos que Paulo vê a oração com o espírito como uma forma válida de oração e adoração; o que ele não permitirá é a não inteligibilidade na igreja. A única conclusão possível é que Paulo exercia seu impressionante dom de línguas em particular.21 

Carson tenta extrair dos versículos 18-19 o que Paulo não disse, ou pelo menos não deixou claro em nenhuma de suas cartas. Ele não especificou quando ou onde falou em diferentes línguas humanas. Alegar que Paulo tinha e ensinou o hábito da “oração em línguas em particular” é uma especulação pífia. Conforme assegura John MacArthur:

Em 1 Coríntios 14, Paulo certamente não fez uma apologia ao uso privado e egoísta do dom de línguas. Ao contrário, ele confrontava o orgulho da congregação de Corinto. Eles achavam que eram superiores porque alguns deles falavam em dialetos que eles não conheciam; mas Paulo, que tinha milagrosamente falado em línguas estrangeiras mais do que qualquer um deles, queria que entendessem que o amor superava qualquer dom, não importava o quão espetacular ele fosse. Quando Paulo exercia seus dons dentro do corpo de Cristo, sua prioridade sempre era a edificação de outras pessoas na igreja. Qualquer noção do uso autocentrado de um dom teria prejudicado todo o argumento do apóstolo em 1 Coríntios 12-14.22

iii. O princípio do entendimento das línguas aplicado aos não crentes  (vs.21-25)

Quando Paulo estivesse na igreja para ensinar, preferia falar palavras inteligíveis a falar em um idioma desconhecido por todos. Portanto, onde o dom de línguas se encontra no plano de Deus? Anteriormente, Paulo havia exortado severamente os coríntios, dizendo que não podia trata-los como crentes maduros ou espirituais, pois ainda eram meninos na fé, imaturos e carnais, e praticavam os pecados dos descrentes (3.1-4). Os termos meninos ou crianças são usados de modo figurado nas Escrituras para expressar a deficiência que alguns crentes possuem quanto ao entendimento espiritual das coisas de Deus. Enfatiza um estado de ignorância ou de confusão intelectual das doutrinas da fé cristã em oposição ao entendimento e a sabedoria (Mt 11.16-17; Ef 4.14; Hb 5.11-14). Assim, os coríntios possuíam um entendimento deficiente e confuso acerca das línguas. A paixão que demonstravam por este dom confirmava isso. Eles deveriam ser crianças na maldade e adultos no entendimento (vs.20). John MacArthur escreve:

Com relação ao mal, os coríntios eram qualquer coisa menos meninos. Eles estavam altamente avançados em todo tipo de pecado. Eles tiveram praticamente todas as manifestações da carne e quase nenhuma do fruto do Espírito (Gl 5.19-23). Eles eram meninos agitados de um lado para o outro e levados ao redor por todo vento de doutrina (Ef 4.14). Pelo seu desejo egoísta de se auto edificarem, abusaram do dom de línguas e estavam, entre outras coisas, ignorando o resto da família de Deus.23

Senão vejamos a maneira em que as línguas são aplicadas aos descrentes:

b) A função e o propósito das línguas (vs.21-22)

Nesta perícope, que abarca os versículos 21-22, Paulo esboça a questão das línguas na história do relacionamento entre Deus e o seu povo. Ele cita no versículo 21 Isaías 28.11-12, dizendo que “as línguas faladas por povos estrangeiros funcionavam em determinados contextos como sinal do juízo de Deus sobre a nação de Israel (Is 14.21)”.24 Augustus Nicodemus Lopes observa:

Isaías estava simplesmente aplicando ao povo rebelde de seus dias as ameaças que Moisés havia feito, em caso de desobediência. Entre as maldições que Deus havia determinado contra seu povo, quando o rejeitasse, estava a invasão por povos estrangeiros (veja Dt 28.49,50). Os profetas que vieram depois de Moisés ocasionalmente mencionaram o idioma desconhecido das nações que Deus usou para punir Israel como sinal do juízo divino (Jr 5.15).

Isaías disse a mesma coisa: Deus haveria de falar em juízo e julgamento aos israelitas rebeldes por intermédio de um povo que levantaria para invadir e desterrar os judeus de Canaã, povo esse cuja língua Israel não conhecia (Is 28.11,12). Historicamente, essas ameaças proféticas se concretizaram quando os assírios e babilônicos invadiram e desterraram os judeus cerca de 600 anos antes de Cristo. Os gritos de guerra dos soldados invasores num idioma desconhecido para os judeus deveria tê-los feito lembrar da maldição.25

Roy Ciampa e Brian Rosner salientam:

A interpretação paulina desse texto mostra que Deus não conseguiu fazer com que seu povo lhe respondesse, nem mesmo tendo lhes falado de uma forma que chamava tanta atenção. Paulo entende que os judeus incrédulos de sua época ainda são culpados diante de Deus e precisam de redenção. Isso mostra que, na opinião dele, nem mesmo o exílio trouxe a nação de Israel de volta para Deus (cf. Rm 3.9-20; 9.2-8,27-33; 10.1-3; Gl 3.10-13; 4.4,5,25; 1Ts 2.14-16).26

Contudo, Paulo reporta-se ao Antigo Testamento para ensinar aos coríntios que as línguas estrangeiras tinham a função e o propósito de demonstrar o juízo de Deus sobre os judeus incrédulos dentre o seu povo (vs.21-22). Os israelitas incrédulos que estavam reunidos na festa do pentecostes ouviram os apóstolos falarem em diversas línguas estrangeiras. Eles deveriam ter entendido que, em breve, Deus enviaria o seu juízo sobre eles. A manifestação deste juízo aconteceu poucos anos depois, quando Jerusalém foi invadida e assolada pelo exército do general romano Tito, no ano 70. Este julgamento foi um dos aspectos de um julgamento mais abrangente, que incluía, além disso, a destruição do templo, da cidade e a dispersão dos judeus para outros lugares do mundo. Estes últimos aspectos do julgamento de Deus sobre o Israel incrédulo são similares aos castigos prometidos em Deuteronômio 28.49-50.

Decerto, entendemos que as línguas foram concedidas por Deus primariamente como um sinal de juízo para os incrédulos. O objetivo deste dom era que ele fosse um sinal para os judeus, conforme a profecia de Isaías. Se observarmos atentamente o livro de Atos, perceberemos que todas as vezes que ocorreu a manifestação das línguas, os judeus estavam presentes (veja At 2.4-6; 8.14-18; 10.45-46; 19.6). Portanto, os coríntios, os pentecostais e os neopentecostais não deveriam ignorar esse aspecto das línguas estrangeiras, mas terem outra atitude para com este dom; deveriam ser cautelosos e não agirem como “crianças desprovidas de juízo” que ficam excitadas com um brinquedo! A profecia, em contrapartida, foi concedida por Deus com um duplo propósito: a edificação coletiva dos crentes como igreja (vs.3,22b), e alcançar os incrédulos através da exortação e consolação, para levá-los ao arrependimento de seus pecados e adorar a Deus (vs.3,24-25).

Com efeito, a função e o propósito das línguas não era somente demonstrar o juízo de Deus; existia ainda outro fator que deve ser observado. No plano histórico da salvação executada por Cristo Jesus, e, por conseguinte, no contexto da igreja do primeiro século, as línguas tiveram um papel crucial. Primeiro, as línguas serviram para mostrar que uma transição estava ocorrendo, ou seja, a mudança da antiga para a nova aliança (vs.21-22; veja At 2.5-21), e que o evangelho seria divulgado em todo o mundo (At 1.8). Segundo, Paulo considera as línguas como um dom que é útil para a edificação da igreja, desde que sejam exercidas no culto público e acompanhadas pela tradução (vs.27-28). Porém, quando as línguas eram usadas fora do culto público, denotava um sinal que autenticava o evangelho, como foi no pentecostes. Embora Deus tenha usada a profecia para revelar o evangelho à sua igreja, o dom de línguas foi uma adição de um milagre linguístico impactante para corroborar a profecia e aqueles que anunciavam o evangelho como enviados de Deus.

Pessoalmente, acredito que as línguas foram concedidas e restritas ao período apostólico. Depois de cumprir o seu propósito na história da igreja, com a expansão do evangelho no mundo, e a conclusão do cânon das Escrituras, as línguas não foram mais necessárias e, portanto, cessaram. Mas as línguas não ressurgiram com o movimento pentecostal no final do século 19?  E o fenômeno das línguas modernas, é verdadeiro ou falso? Tratarei dessas questões mais adiante.

c) O efeito das línguas usado de forma equivocada (vs.23)

Paulo, agora, descreve o resultado que as línguas produzem quando não são usadas conforme o padrão estabelecido nos versículos 27-28. O apóstolo imagina toda a igreja reunida para um culto público. De repente, muitos ou todos [ênfase de Paulo] os crentes começam a falar em línguas em frenesi, e, assim, o culto é dominado pela histeria e por manifestações corporais espetaculares. Comportamentos similares podem ser vistos nos populares “terreiros de macumba”, no pentecostalismo e no neopentecostalismo. Exatamente no momento de “agitação espiritual”, Paulo supõe que pessoas não instruídas ou incrédulas entrassem no culto, talvez movidas pela curiosidade. Ao se deparar com a cena, a reação dos indoutos ou não instruídos [pessoas que não conhecessem outras línguas; ou talvez pessoas que não tivessem o dom de interpretação] e dos incrédulos [pessoas não crentes que nada sabem acerca do evangelho], seria imaginar que todos os que falavam em línguas desconhecidas de forma eufórica e irracional estariam loucos.

O verbo grego usado aqui para enlouquecer é empregado na Odisséia de Homero para descrever o estado de frenesi ou delírio dos adoradores de Dionísio ou Baco, o deus do vinho, durante os cultos orgiásticos celebrados em sua honra, quando esses adoradores começavam a dar gritos de louvor a Baco em palavras ou frases sem sentido ou nexo. Nos Escritos Herméticos, a palavra “loucos” é usada para descrever a impressão que os iniciados, cheios da gnose, deixavam nos estranhos.27

Para os demais moradores da cidade de Corinto, o comportamento exaltado e desprovido de domínio próprio (Gl 5.23) destes crentes poderia se assemelhar ao comportamento dos seguidores das religiões pagãs gregas de mistério. É bem provável que Paulo quisesse evitar essa associação entre a igreja de Cristo e os cultos pagãos ao escrever este trecho. Concordo com Augustus Nicodemus Lopes, que afirma que o espetáculo de uma igreja reunida com todos falando línguas ao mesmo tempo funcionaria como uma barreira à conversão dos visitantes. Por outro lado, se a Palavra de Deus estivesse sendo anunciada e explicada pelos profetas, ela penetraria como uma espada afiada nos seus corações e consciências, produzindo convicção de pecado e levando-os, humilhados, diante do trono da graça de Deus e dando-lhes consciência de que Deus estava realmente presente entre eles (vs.24-25). As línguas não poderiam produzir essa impressão. Mas a exposição da Palavra de Deus, sim.28

Os versículos 23-25 demonstram a preocupação evangelística de Paulo em não fazer com que o culto a Deus pareça loucura aos menos instruídos e aos descrentes. Talvez os coríntios considerassem as línguas como um sinal do poder de Deus se manifestando no culto. Infelizmente, muitos [não todos] pentecostais e neopentecostais têm este mesmo pensamento equivocado.

Entretanto, Paulo não ensina um tipo de espiritualidade que ignora a razão e o bom senso. A impressão que os coríntios passariam aos visitantes é de que eram loucos. Esta é exatamente a imagem que muitos [não todos] pentecostais e neopentecostais refletem para os visitantes de seus cultos.

Se os pentecostais e neopentecostais querem demonstrar que Deus está presente no culto deles e se agrada do que estão fazendo, que preguem a Palavra de Deus fielmente! É o evangelho que levará os descrentes a se renderem a Deus e admitirem que Deus está presente no culto (vs.25), e não “supostas línguas” não traduzidas.

 

O dom de línguas (1/4)

O dom de línguas (3/4)

O dom de línguas (4/4)

 

NOTAS:

  1. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 682.
  2. Calvino. 1 Coríntios, pág 423-424.
  3. D. A. Carson. A manifestação do Espírito. A contemporaniedade dos dons à luz de 1 Coríntios 12-14, pág 106-107.
  4. Além da Escritura, a palavra indouto era usada para referir-se ao que não era membro das religiões pagãs, mas que participava esporadicamente de seus cultos.
  5. Simon Kistemaker ressalta que assim como as sinagogas tinham os tementes a Deus, cujo status estava entre os não-crentes e os prosélitos, assim também em sua extensão evangelística a Igreja primitiva tinha discípulos ou “inquiridores” (1 Coríntios, pág 685).
  6. Na conclusão de uma oração numa sinagoga era costume o auditório pronunciar um amém responsivo – um termo hebraico que significa “Assim seja!” – como sinal de aprovação sincera àquilo que era dito. Esse costume continuou no culto da Igreja primitiva, como é evidente nos escritos de Paulo e nos dos Pais da Igreja. Os membros da igreja vocalizavam seu consentimento à oração que um deles pronunciava. Se não entendiam uma oração expressa numa língua que lhes era desconhecida, não poderiam dizer amém (Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 685).
  7. Augustus Nicodemus Lopes. O culto espiritual, pág 210.
  8. Ibid, pág 212.
  9. Não é possível sabermos com exatidão como Paulo sabia que falava mais idiomas que os crentes de Corinto, uma vez que aquele que falava em línguas não compreendia o que estava dizendo. Esta era a prática normal deste dom; por isso necessitava de um tradutor. Por outro lado, é bem provável que, quando evangelizava em lugares que Jesus não era conhecido, o Espírito Santo concedia sobrenaturalmente o dom de línguas a Paulo para que falasse no idioma ou dialeto do povo. O mesmo ocorria com os demais apóstolos que falaram em idiomas que desconheciam no pentecostes.
  10. D. A. Carson. A manifestação do Espírito. A contemporaniedade dos dons à luz de 1 Coríntios 12-14, pág 107-108.
  11. John MacArthur. Fogo Estranho, pág 172.
  12. John MacArthur. 1 Corínthians.
  13. Augustus Nicodemus Lopes. O culto espiritual, pág 215.
  14. Ibid, pág 215-216.
  15. Roy E. Ciampa e Brian S. Rosner, em o Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, pág 923.
  16. Walter Bauer, F. Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker. A Greek English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature.
  17. Augustus Nicodemus Lopes. O culto espiritual, pág 218.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

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